Kony-Laden: o que o video Kony 2012 esqueceu de dizer

Anda circulando pela internet um vídeo chamado “Kony 2012″, de uma fundação chamada Invisible Child(IC). A fundação denuncia as atrocidades cometidas por Kony, um guerrilheiro de Uganda que sequestra meninos para serem soldados em seu exército e meninas para serem escravas sexuais. A fundação é contra esses crimes e quer fazer alguma coisa.

Isso é extremamente bem-vindo. Atrocidades como essa não deveriam ter lugar no mundo. O problema é o que vem em seguida. A IC defende a intervenção americana em Uganda. O que é uma terrível estupidez.

Todos nós sabemos o que aconteceu no Iraque, n0 Afeganistão e no Vietnam: os Estados Unidos tinham um inimigo nestes países. Decidiram combater o inimigo. Os resultados foram catastróficos.

Vamos dar mais atenção ao Afeganistão, que é uma situação muito mais parecida com a de Uganda do que o Vietnam. Um homem terrível em um país subdesenvolvido, com um governo “incapaz” de fazer alguma coisa. Os americanos decidiram intervir no  país, afim de livrar o mundo deste mal. O que aconteceu? Milhares de soldados de ambos os lados são mortos. O movimento de resistência contra a “ajuda”(não solicitada) vinda dos americanos cresceu. Mais tropas foram para o front. Terríveis atrocidade foram cometidas pelos dois lados. Civis foram mortos tanto pelos ditos “malvados” quanto pelos “Justiceiros”. E Bin Laden só foi morto após várias oportunidades que, por diversos motivos, foram desperdiçadas. No fim, os americanos terminaram com uma imagem pior do que já tinham, mais dívidas, mais problemas.

Infelizmente, se a opinião pública apoia uma guerra, a realidade se mantém inalterada. É uma guerra: as atrocidades acontecerão. Nada mudará se a guerra for contra Kony: os americanos gastarão muito dinheiro, perderão soldados e causarão destruição e cometerão atrocidades.

É importante ressaltar mais alguns pontos. O vídeo se esquece de dizer que Uganda tem petróleo, e portanto pode haver muito interesse do governo e de seus “amiguinhos” do petróleo em  garantir recursos na área. Além disso, o vídeo também não fala que o governo de Uganda aprovou uma lei contra homossexuais. Isso é, de alguma forma, melhor do que Kony? Pode ser menos pior. E apenas isso. Também precisamos nos perguntar: Todo o povo de Uganda quer tropas estrangeiras em seu país? Que autoridade tem um grupo de pessoas a quilômetros de distância para interferir em assuntos que não as afetam diretamente? Ainda: essa invasão pode justificar quantas outras, apesar da opinião pública não concordar? De boas intenções, o inferno está cheio.

Mais sobre Kony e o vídeo:

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/mar/08/kony-2012-campaign-oprah-and-bracelets

Por Daniel Coutinho

 

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