Guerras, virtines e absurdos

Em um debate recente sobre guerras e economia, eu disse a seguinte frase: “Guerras não geram riqueza.” Para a minha surpresa, escândalo geral: “Como assim?” disseram. Pior: são pessoas inteligentes e “esclarecidas”. Por que, então, o escândalo?

Infelizmente, a ideia de que guerras geram riqueza está arraigada na sociedade. É uma ideia falsa, apesar do que é geralmente dito, com argumentos do tipo “Mas os Estados Unidos na Segunda Guerra cresceram muito por causa da destruição da Europa”. O próprio prêmio Nobel Paul Krugman, que escreve no New York Times, afirmou que para a economia se recuperar, bastaria uma invasão alienígenas.

  A ideia já foi devidamente refutada por um francês do século XIX chamado Frederic Bastiat. A argumentação é simples e genial, e pode ser descrita da seguinte forma*: Imagine que um grupo de amigos acabam de sair de uma padaria. Um muleque de rua joga uma pedra na vitrine da padaria. A vitrine quebra: sacos de vidro caem sobre as tortas, no chão etc. O muleque corre antes que qualquer um possa fazer alguma coisa. O grupo para e um deles diz: “É uma pena. O padeiro perdeu a vitrine e terá que pagar para ter uma nova”. Outro diz: “É realmente uma pena, mas pense: como o vidraceiro ganharia dinheiro? Vitrines tem de ser quebradas para a economia funcionar e o vidraceiro ganhar dinheiro.”

  Se nós não refletirmos, diremos “É verdade, há males que vem para o bem.” Porém, a verdade é um pouco mais complicada: suponha que o padeiro gaste duzentos reais para consertar a vitrine. O que o grupo que saiu da padaria esquece é que o padeiro poderia usar os duzentos reais para comprar mais farinha e fazer mais pão(o que reduziria o preço do pão), ou comprar um livro, ou uma roupa nova. O padeiro também poderia – pasmem – poupar e comprar uma geladeira, um computador, uma TV ou expandir a padaria, e colocar mais vitrines! Agora, o padeiro só tem uma vitrine consertada.

No exemplo acima, não se gerou riqueza: o que aconteceu foi a destruição de uma vitrine e a perda de duzentos reais. Isso significa que o padeiro terá de trabalhar mais para ter exatamente a mesma quantidade de bens que ele tinha antes.

  Basta expandir o exemplo e descobrimos uma variedade de vitrines quebradas no mundo. Guerras não geram riqueza: elas quebram milhares de vitrines, destroem milhares de padarias, matam padeiros etc. No fim, temos de trabalhar mais para ter exatamente a mesma quantidade de produtos. No caso da Segunda Guerra, se o povo americano enriqueceu, a Europa teve de ficar mais pobre.

  Outro exemplo que raramente nos damos conta do absurdo: projetos de reurbanização. De fato, elas deixam o bairro e as cidades mais bonitos. Mas além disso, o que acontece? Nada. A população pobre continuará pobre e terá de se mudar. A população rica irá se mudar para o novo bairro “chique”. Consequentemente, outra região virará uma região pobre. No fim, só se gastou dinheiro para transferir os ricos de um lugar e os pobres para outro.

Ainda temos o clássico exemplo de que eletrodomésticos e outros bens são feitos com baixa durabilidade de propósito, afim de estimular a economia e gerar empregos e riqueza. Novamente, aplicando o exemplo da Janela Quebrada, descobrimos a mentira evidente dessa história: não se gera riqueza destruindo produtos. Imagine que uma geladeira dura dois anos, ao invés de seis. Cada pessoa que comprar esta geladeira terá de trabalhar três vezes o tempo necessário para se obter uma única geladeira. Teremos de trabalhar mais para ter a mesma quantidade de riqueza.

  Uma série de outras falácias podem ser refutadas por esta simples história. Infelizmente ela é pouco conhecida. Caso contrário, ninguém acreditaria em boa parte do que é dito por grande economistas, políticos e outros.

* – O original pode ser encontrado aqui

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