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Bitcoin: o novo ouro?

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Célebres economistas como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek nos alertaram para o perigo do controle governamental da moeda há praticamente um século. Ciclos econômicos, hiperinflação, o leitor já deve estar inteirado em tais ameaças.

Muitos dos mesmos economistas que descreveram tais perigos enalteciam o padrão ouro como o melhor sistema monetário possível. Em tempos passados, esse metal nobre foi escolhido espontaneamente pela humanidade para ser o meio de troca universal. As prováveis razões para tal escolha são suas características únicas, como a enorme maleabilidade, que permite dividi-lo em quantidades mínimas, a relativa facilidade para se comprovar autenticidade, e, principalmente, o alto valor por unidade de massa, o que facilita muito o transporte e estocagem.

Mas a principal razão que faz o retorno do padrão ouro algo requisitado por tantos economistas importantes não é nenhuma dessas características, que, diga-se de passagem, são compartilhadas por qualquer moeda fiduciária. A principal razão é a inexistência de uma autoridade central capaz de controlar a oferta de ouro. Sim, mineradores de ouro poderiam provocar inflação monetária, mas mesmo os mais eficientes mineradores do planeta não conseguem chegar aos pés das impressoras estatais nesse quesito. E é talvez esse controle estatal da moeda o maior problema econômico da civilização contemporânea.

Eis que um libertário especialista em criptografia chamado Satoshi Nakamoto, consciente desse problema, tem a brilhante ideia de criar o “Bitcoin”, uma moeda 100% eletrônica, sem nenhum emissor central. Sua ideia tem potencial para se tornar o ouro da era digital.

Como funciona?

Todo o sistema se baseia fortemente em técnicas de criptografia e assinaturas digitais, e funciona numa rede P2P.

As bitcoins são arquivos únicos, que uma vez transferidos de um usuário a outro não mais podem ser utilizados em outras transações.

A fiabilidade do sistema é reforçada sempre que usuários dedicam tempo de seus processadores para criar o que é chamado de “bloco”. Quanto mais blocos adicionados à sequência de blocos, e quanto mais poder de processamento na rede honesta, mais difícil fica para um atacante conseguir fraudar o sistema.

Para recompensar as pessoas que dedicam seus processadores à causa, o sistema automaticamente premia a produção de um bloco. Atualmente esse prêmio são 50 novas BTC (bitcoins). Quando existirem mais de 210.000 blocos na sequencia, tal prêmio cairá para 25 BTC. Quando forem mais de 420.000 blocos, 12,5 BTC e assim em diante. Ou seja, a inflação monetária se desacelera.

Você mesmo já pode instalar o programa em seu computador e começar a criar tais blocos, acumulando bitcoins. Basta apertar um botão e esperar. Criar um bloco pode levar muito tempo: o teu computador tentará exaustivamente soluções a um problema computacional complexo. O felizardo cuja máquina conseguir encontrar tal solução cria o próximo bloco da sequencia. É impossível saber de antemão qual é a solução, e a dificuldade é sempre proporcional ao poder total de processamento da rede, de forma que toda a rede possa criar um bloco a cada 10 minutos, aproximadamente. Não se espante se ficar dias a fio com o seu processador a 100% da capacidade e não conseguir criar bloco nenhum.

Para enviar e receber bitcoins você deve usar um endereço. Toda transação em bitcoins é pública, para que possa ser verificada. Isto é, se você usa o endereço X para enviar moedas ao endereço Y, todo mundo sabe que X enviou tantas moedas a Y. Por questões de privacidade e mesmo organização, convém sempre usar um endereço diferente para cada transação.

E finalmente, um detalhe importante: há um limite arbitrário de 21 milhões de bitcoins.. Uma vez atingida tal quantia, a base monetária congelará, ninguém mais poderá produzir novas bitcoins. A partir desse momento, o único prêmio por gerar blocos seriam taxas cobradas sobre as transações.

Uma nova commodity

Antes de mais nada, ressalto que bitcoins já são utilizadas. Seu uso é bastante modesto, mas no momento em que escrevo você já pode trocar 1 BTC por aproximadamente 0,06 USD. Ou seja, tais arquivos já são uma commodity. Muito pouco conhecida, claro, mas uma commodity ainda assim.

E são uma commodity com características particularmente interessantes. Lembremo-nos das principais características que tornam o ouro uma excelente moeda:

  • Maleabilidade, divisibilidade. Bitcoins são divisíveis até a oitava casa decimal, ou seja, até 0,00000001 BTC.

  • Autenticidade facilmente verificável. Bitcoins contém assinaturas digitais e todas as transações são registradas na sequencia pública de blocos. É muito difícil fraudar uma bitcoin, e ficará mais difícil quanto mais crescer a utilização da moeda. É provavelmente mais fácil fraudar moedas ou notas físicas. Para detalhes técnicos sobre a fiabilidade do sistema, ver o paper científico.

  • Facilidade de transporte e estocagem. Você pode carregar todas as bitcoins existentes no seu bolso, assim como transferi-las pela internet para qualquer canto do mundo, coisas um tanto quanto difíceis de se fazer com todas as 165 mil toneladas de ouro existentes. A estocagem é igualmente simples e barata, e pode ser feita pelo proprietário mesmo, com segurança garantida através de backups e chaves criptográficas fortes. Isso mesmo, você não mais precisaria pagar para alguém guardar seu dinheiro! A única função importante dos bancos seria intermediar empréstimos, o que poderia botar um fim no sistema de reservas fracionárias.

  • Lenta inflação monetária. O ritmo de criação de bitcoins desacelera com o passar do tempo, e existe um limite máximo para a quantidade de bitcoins. Tudo isso é matematicamente garantido pelo próprio algoritmo.

  • Ausência de controle central. Essa é a melhor parte. As bitcoins são informações numa rede dispersa. Não há nenhum órgão emissor no controle.

Além disso tudo, há também o fato das bitcoins não terem outro propósito. O ouro tem outros usos industriais e comerciais, que certamente se tornariam muito mais difíceis caso esse metal volte a ser usado mundialmente como meio de troca.

Claro que tudo tem seus riscos e inconvenientes. Se existir uma falha séria no algoritmo utilizado, ela pode botar a baixo todo o sistema. A chance disso ocorrer é pequena, uma vez que apenas técnicas já bem conhecidas e confiáveis são utilizadas. Outro risco é a eventual perda ou roubo de bitcoins devido ao descuido com sua “carteira”, arquivo que armazena as chaves criptográficas que dão acesso às suas moedas. Esse risco, porém, também existe para moedas físicas ou meios de pagamentos como cheques ou cartões de crédito. Eu diria até que esses meios convencionais de pagamentos são mais vulneráveis a roubo do que bitcoins.

Tendo em vista todas essas vantagens, não me parece exagero dizer que essa moeda 100% digital e descentralizada é uma alternativa melhor a qualquer commodity física. E há ainda um outro ponto fundamental: é um tanto quanto difícil para governos derrubarem tal sistema, visto que ele existe numa rede P2P. Eles certamente tentarão com muito afinco se um dia essa moeda digital conseguir de fato atrapalhar a tão famigerada “política monetária”. Mas tomando o exemplo da pirataria, e vendo o quanto estados mundo a fora se esforçam para detê-la mas não conseguem, creio que há razão para algum otimismo.

Legal! O que eu posso fazer pra ajudar?

O projeto todo ainda está em seu começo, então há várias coisas que você pode fazer.

A mais simples é sem dúvida instalar o cliente e começar a produzir seus blocos. Você pode baixá-lo aqui. Eu traduzi também essa pequena página de introdução que pode ajudar o leitor não fluente em inglês no uso do programa – como você verá, ele é bastante simples.

Mas além de esperar seu computador tentar criar suas próprias moedas, algo cuja dificuldade tem crescido em ritmo exponencial, você faria melhor as colocando de fato em uso. Já existem alguns sites que trabalham com bitcoins. Uma ajuda ainda maior seria divulgar o sistema para todo libertário ou apaixonado por tecnologia (eufemismo para geek) que conhecer. Seria especialmente interessante convencer mais sites a experimentarem a nova moeda.

Muitos libertários defendem que a internet é nossa maior arma na luta pela liberdade. Talvez as Bitcoins sejam uma oportunidade de botar isso a prova.