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O marxismo e os socialismos: Uma breve reconstrução de um debate esquecido

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Algo que é preciso ser dito antecipadamente é que, sendo “socialismo” um termo a que podem se associadas inúmeras coisas, algo cujo significado deva ser tomado sempre dentro de um contexto específico, é necessário esclarecer em que sentido o mesmo será utilizado no texto. De antemão é possível afirmar que não se poderiam esgotar todas as definições possíveis de um termo vivo dentro do debate político e social e cuja evolução do que simboliza é vastamente complicada através da história das idéias, não há, enfim, como embarcar todos os significados possíveis do termo socialismo nesta exposição. Portanto, é necessário que o leitor tenha em mente que aqui socialismo indicará as idéias dominantes dentro do movimento, ficará claro no texto que a palavra será usada para designar os grupos distintos de pessoas que assim se intitularam e eram reconhecidas.

 

É um fato que aqui se julga livre de discussão que as idéias de Karl Marx tenham dominado de tal forma o núcleo interno do movimento socialista a ponto de a própria imagem e história deste movimento ser construída a partir deste marco: o estabelecimento do marxismo como a doutrina socialista, o socialismo científico. Ainda que, como todo importante movimento social e político, o socialismo tenha se desenvolvido de maneira rica, com dissidências e variadas perspectivas práticas e teóricas, com diferentes análises da situação e propostas de mudança social divergentes, enfim, ainda que a história do movimento apresente inúmeros pontos de separação de correntes, é inegável a hegemonia do pensamento marxista como um apoio central sólido do movimento. Mesmo as perspectivas dissidentes pós-Marx se construíram a partir da sua posição em relação a este núcleo sólido, e quase todas (a generalização é inevitável neste ponto, embora não deva ser considerada de maneira tão rígida) mantiveram algum ponto marxista em sua base, seja preservando algo da análise de Marx e divergindo em propostas, seja rejeitando algum ponto da análise e concordando com as propostas. Mesmo aquelas que se distanciaram verdadeiramente do marxismo em seu caminho mantiveram o preconceito, segundo o julgamento apresentado aqui, de que o marxismo foi um real ponto de mudança no ideal socialista, de que Marx foi o primeiro a estabelecer o socialismo como uma doutrina científica, enquanto seus predecessores teriam apenas esboçado aquilo que viria a ser o verdadeiro socialismo.

 

O que este texto tentará argumentar é que o marxismo não só não representava nada em alguma extensão mais original e científico que os socialistas anteriores (embora não se vá entrar na discussão a respeito do significado de “científico”, nem será tomado um significado muito rígido do termo, a expressão é usada no texto no sentido frouxo usual), e, mais importante, que ele era pior em alguns pontos aos supostos “socialistas utópicos” (aliás, esta é uma expressão marxista para denominar os socialistas anteriores à Marx) e notadamente pior que as versões anarquistas e descentralistas do socialismo que competiram com as idéias marxistas em seu tempo, e que o marxismo apagou importantes contribuições entre essas (principalmente, as contribuições dos mutualistas proudhonianos e americanos).

Friedrich Engels, o co-fundador junto com Marx do socialismo científico expressou no último capítulo de Anti-Dühring (não por coincidência também editado separadamente sob o título de “Do socialismo utópico ao socialismo científico”) a contribuição de três nomes para o desenvolvimento que ele e Marx dariam ao socialismo. São esses nomes: Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen (aliás, o termo “socialismo” surgiu pela primeira vez no periódico Cooperative Magazine editado por Robert Owen). As principais contribuições de cada autor seriam: a idéia de luta entre as classes produtoras e ociosas trazida por Saint-Simon (e, como mostra o historiador liberal Leonard Liggio, este conceito de luta de classes não era original em Saint-Simon, já era uma idéia a qual ele havia tomado emprestado dos liberais franceses Charles Dunoyer e Charles Comte, com a distinção de que nestes o conceito colocava em oposição trabalhadores e livres empreendedores – a classe produtiva – contra a classe ociosa: a nobreza, funcionários do governo e militares); a crítica satírica à ideologia burguesa e o método dialético utilizado por Fourier e a iniciativa de tentativas de mudanças sociais empreitadas por Owen.

 

Mas o socialismo marxista era mais do que um apanhado solto destas idéias sobre reforma social, ele era uma síntese de várias idéias da época: a economia política ricardiana (em alusão ao economista David Ricardo), o método de análise social e histórica baseado na dialética de Hegel, a teoria de classes Saint-Simoniana (que, como já foi dito, tem origens na análise social dos liberais franceses), uma teoria da exploração capitalista e o ataque à propriedade privada. Marx não apenas sintetizou idéias da época, em seu trabalho se encontra coisas originais, como será argumentado ao longo do texto, e mesmo sua síntese de todas estas idéias pré-existentes é em si original, no entanto, essa forma analítica de criticar a doutrina marxista que aqui se fará, dividindo-a nas contribuições que compuseram a síntese de Marx, é considerada aqui como boa não só por motivos de simplificação, mas porque, uma vez mostrado o erro em cada uma dessas idéias, ficará claro que o todo construído a partir destas partes é algo muito pior do que aquelas tomadas individualmente (essa é a conclusão a que este texto espera levar).

 

Como a economia política ricardiana, especificamente a teoria do valor-trabalho, e a teoria da exploração socialista estão intimamente relacionadas, eles serão analisadas juntas. Como afirma o anarco-individualista Benjamin Tucker (um defensor do tipo de socialismo que o texto tenta defender como superior ao de Marx e o qual foi abandonado como proposta com a hegemonia marxista) na revista anarquista do século XIX editada por ele mesmo, a “Liberty”, o socialismo como uma doutrina bem fundamentada foi uma idéia que por muito tempo poderia ser remontada a três homens: Josiah Warren nos Estados Unidos, Proudhon e Marx na Europa. Ainda segundo ele, estes três homens desenvolveram suas visões a partir de um mesmo princípio básico: a lei do valor trabalho apresentada mais de meio século antes por Adam Smith e cuja versão dominante na época era a dada por David Ricardo (a qual era defendia por economistas liberais e socialistas ricardianos como Thomas Hodgskin, alguém que conseguia representar genuinamente os dois grupos). Todas as correntes socialistas defendem uma teoria da exploração, e muito embora tal teoria seja diversa nas diferentes correntes, o ponto básico é o mesmo: segundo o modelo de organização social capitalista, caracterizado pelo monopólio dos meios de produção por uma classe específica, a força de trabalho é explorada, ela recebe um valor menor pelo seu trabalho. Este resultado se baseia na teoria do valor trabalho, segundo a qual o trabalho é a verdadeira medida do preço. De uma forma simples (talvez simplificada demais, mas que no momento serve ao propósito), sendo o excedente de valor de uma mercadoria acabada em relação à inacabada um fruto do trabalho aplicado a ela, o capitalista estaria roubando uma parte deste valor ao retirar seus lucros, já que o trabalho é executado pela classe operária. Ainda que seja possível criticar a teoria do valor-trabalho, e toda a moderna economia é construída a partir dos resultados da revolução marginalista (iniciada independentemente pelos economistas Léon Walras, William S. Jevons e Carl Menger), segundo a qual o valor é a utilidade marginal, há uma diferença essencial entre as versões das teorias de exploração de Proudhon, Warren e a marxista. E será argumentado adiante que estas diferenças fazem teorias de exploração como a Proudhoniana melhores, ainda que a teoria trabalhista do valor seja uma base questionável. O que se quer dizer é que, mesmo que todas as teorias de exploração socialistas desenvolvidas por socialistas como Proudhon e Marx estejam erradas na medida em que se baseiam numa premissa econômica equivocada (uma questão que não vai se discutir neste texto), a versão marxista é ainda mais errada.

 

Em que se fundamenta a teoria do valor trabalho? Nas leis de oferta e procura. O resultado é atingido a partir de uma primeira simplificação, imagina-se um cenário de perfeita competição e de bens com oferta elástica (a produção de tais bens pode ser aumentada indefinidamente). Imagine que um produtor tente vender um bem por um preço maior do que a dificuldade em produzir aquele bem, um preço superior ao valor do trabalho gasto na produção do mesmo. Nesta situação, tal produtor estaria tendo um rendimento que influenciaria a entrada de competidores no cenário, ofertando o mesmo bem. A competição dessa forma faria os preços baixarem até um nível determinado pelo trabalho. O oposto aconteceria no caso do preço abaixo do valor do trabalho envolvido na oferta deste bem. Dessa forma, por um mecanismo do mercado os preços tenderiam aos custos de produção naturalmente, a tendência de todo o produto que se aproxime daquela primeira simplificação feita seria a de ter o preço determinado pelo trabalho. Antes de continuar, é preciso comentar que alguns anarco-individualistas americanos, descendentes em espírito do “socialista utópico” Josiah Warren – como exemplo, Stephen Pearl Andrews, tinham uma visão diferente da teoria do valor trabalho; para eles os custos de produção eram o limite do preço, e isto seria uma consideração ética e não um resultado econômico. No entanto, isto não vale para todos os mutualistas americanos, como se pode constatar deste trecho de William B. Greene: “It is affirmed by some, that labor is the only true measure of value, that every thing is worth precisely what it costs in labor to produce it, and that the price of every thing ought always to be determined by the relative amount of labor expended in its production. We would remark, in answer to these affirmations, that there is such a thing as misdirected labor; and that a man may produce an article for which there is no demand, and which has, consequently, no exchangeable value. Again, Peter, working upon a poor soil, may, with an incredible expenditure of labor, produce a bushel of corn, while John, working on rich land, may raise a like quantity, in the same time, and with comparatively little labor: now we venture to affirm that the market value of these two bushels of corn, will (and ought to) depend, not on the relative quantities of labor expended in their production, but on the relative excellence of the [...] Price, or value […] determined by the law of supply and demand”.Fica claro a partir desta citação que alguns anarco-individualistas americanos tinham uma noção da lei do valor trabalho semelhante à clássica, onde tal lei seria um resultado da lei de oferta e demanda.

 

Como este resultado determina uma teoria da exploração? Usando como exemplo da análise do já mencionado Thomas Hodgskin (e o tratamento dado por Marx à teoria do valor-trabalho era uma expansão das idéias de ricardianos como Hodgskin, Charles HallJohn Gray e John Francis Bray), na realidade se observa que em muitos casos há um afastamento daquele cenário simplificado de competição e oferta elástica mantido pelo uso da força, os meios políticos (violência ou ameaça de violência institucional, como a praticada por estados) são usados para restringir a oferta de bens, para criar uma elasticidade artificialque beneficia a classe capitalista (aquela que é dona dos meios de produção). Em sua análise ele citava muito o exemplo da propriedade sobre terra, mas ela pode ser aplicada a diferentes exemplos. Toda ação governamental que restrinja a competição em dado setor, sendo coerente com a teoria do valor trabalho, elevaria os preços dos bens produzidos neste ramo acima do nível natural, acima do valor do trabalho gasto na produção destes bens. E é este tipo de ganho garantido por um privilégio artificial (um privilégio criado pela imposição) que permite o modelo de organização social considerado explorador, é ele que permite lucros. Esta também era a análise de socialistas anarquistas como Proudhon e Tucker (não é coincidência que os anarquistas eram muito mais expressivos dentro do socialismo antes de Marx). Proudhon foi o primeiro a propor a abolição completa do estado, por este ser o criador e mantenedor destes privilégios garantidos a uma classe que estavam na base da exploração capitalista, Tucker chegou a identificar quais seriam estes quatros grandes privilégios (o monopólio da terra, do dinheiro, das patentes e das tarifas). Por isto que estes socialistas não eram contra o mercado em si, eles defendiam o livre comércio, as trocas voluntárias entre cooperativas de trabalhadores (Proudhon era mais enfático neste ponto, enquanto Tucker não parece ter alguma preferência específica pelo modelo de cooperativas, o qual, aliás, teve início com o já mencionado Robert Owen) como a própria expressão do socialismo. O que devia ser atacado, segundo eles, era a raiz de todo mal: os privilégios garantidos pelo estado. Mas antes de explicitar o erro marxista, é melhor detalhar um pouco esta teoria da exploração anti-estatista (que remonta aos socialistas Proudhon e Warren que eram centros de disseminação da idéia junto com Marx até a já referida consolidação da hegemonia marxista).

 

Estas seriam então as condições que permitem que a classe capitalista exproprie a mais valia (o valor adicionado pelo trabalho da classe operária): privilégios garantidos pelo estado, mais detalhadamente, o monopólio dos meios de produção por uma classe social e o controle da oferta da força de trabalho. De que forma isso se opera? Uma análise histórica da primeira fase do capitalismo revela isso. Para começar, não se pode ignorar o papel do monopólio feudal da terra e das expropriações em massa. Não só o capital inicial empregado na revolução industrial adivinha da concentração de riqueza permitida por anos de monopólio feudal de terra por uma classe, como as expropriações em massa colocadas em prática desde a dinastia Tudor até os Stuart na Inglaterra (o exemplo clássico de capitalismo estudado por Marx e outros), permitiram a existência de uma classe sem posses (o que baixava o preço da força de trabalho, já que o próprio trabalho é um bem com preço determinado pelo oferta e demanda e uma grande oferta de trabalhadores sem posses, ou seja, dispostos a trabalhar por baixos salários, determina o preço do trabalho) e um monopólio dos meios de produção. A existência de uma classe de expropriados permitia que os arranjos contratuais entre o capitalistas e operários fossem feitos de forma que os salários fossem mantidos no nível de subsistência. Esta era a lei de ferro dos salários de Lasalle, resultado que Marx também se apropriou na sua síntese. Mas o preço da força de trabalho não apenas era mantido abaixo do nível natural devido às expropriações, ao monopólio do capital (inicialmente o monopólio da terra que eventualmente se tornou um monopólio da indústria), mas também pelo controle político da oferta de trabalho. Isso se dava através de leis de controle da livre circulação de trabalhadores (operários eram presos pela lei à sua Paróquia natal, o que mantinha a oferta de trabalho numa dada região controlável), leis de restrição à organização de trabalhadores, além de incentivos à grande indústria que prejudicavam a iniciativa de pequenos empreendedores autônomos (Kirkpatrick Sale exemplifica isto ao mostrar como não só existiam subsídios à maquinaria de larga-escala na produção de algodão, mas havia restrições legais de fato à maquinaria de pequena-escala, que poderia ser operada por um artesão).

 

Até aí, a análise das correntes socialistas marxista e mutualista concordam (Marx acrescente de original à idéia do valor trabalho a idéia de que o valor de um bem é determinado pelo trabalho socialmente necessário, pelo trabalho médio requerido para a produção dada certas circunstâncias sociais). Mas as diferenças fundamentais iniciam realmente nas propostas dadas para a solução destes problemas. Proudhon e outros anarquistas faziam o seguinte caminho mental: uma vez que a exploração é um resultado de privilégios específicos, o caminho para destruir os mecanismos sociais que permitem a exploração é logicamente se livrar de tais privilégios. Uma análise básica demonstra que tais privilégios são garantidos pelo estado, de forma que o desmantelamento do estado e a organização de trabalhadores em cooperativas (ou comunas, no caso do anarquismo comunista de Bakunin e Kropotkin – este ponto será discutido mais detalhadamente adiante) é a resposta para o fim da exploração. Enquanto a análise histórica de Marx mostra claramente como a exploração é um fenômeno de privilégios estatais concedidos a uma classe, sua proposta é equivocada: ele advoga a socialização e monopólio dos bens de produção através de uma agência nacional central de produção. A saída marxista é diametralmente oposta aos ideais dos primeiros socialistas, pois ainda que o marxismo afirme defender o fim do estado, sua agência nacional com monopólio da produção não se distingue em nada de um estado, e um estado totalitário: não há como haver monopólio central da produção sem um planejamento central total, acerca de todos os aspectos das vidas de indivíduos. Um sistema nacional de produção socializada é, por definição, um estado totalitário, ainda que se tente desviar verbalmente este resultado usando uma nomenclatura diversa. E a maior parte dos pioneiros do socialismo não defendia isto (Os socialistas ricardianos defendiam cooperativas de trabalhadores, Owen defendiam cooperativas de indústrias e comunidades intencionais, Greene – um discípulo de Warren – defendia um sistema bancário mutualista que financiasse trabalhadores, Proudhon defendia cooperativas de trabalhadores financiadas pelo Banco do Povo etc).

 

Marx acerta em sua análise histórica dos privilégios capitalistas criados e mantidos pelos estados, no entanto, ele comete um erro básico que outros socialistas criticados por ele (como Proudhon, que era uma grande influência no movimento até as duras críticas de Marx) não cometem: ele não percebe, apesar dele parecer relatar isto, que a exploração é uma conclusão de aspectos e condições específicas do mundo real, a saber, dos meios políticos de controle do mercado. A exploração não é um resultado formal do mercado (onde mercado aqui é usado como a rede de trocas e acordos voluntários entre indivíduos, comunidades e associações voluntárias), mas sim da ação política (do uso da força) criando as referidas condições especiais que permitem a exploração. Este é o primeiro grave erro de Marx, um erro que leva a resultados desastrosos como o totalitarismo (e o texto não se propõe discutir porque motivos um estado totalitário, ainda que definido de uma forma diversa, sob o título de uma organização nacional de produção com monopólio exclusivo, é ruim). Para Marx, numa sociedade pós-capitalista onde os meios de produção fossem coletivizados por uma grande agência nacional a teoria do valor trabalho e a exploração derivada dela não seria mais aplicável porque não existiria mais porque o trabalho não seria mais individual, o trabalho existiria diretamente como um componente do trabalho social.

 

O segundo ponto em que se considera a influência marxista como nociva é sua análise dialética hegeliana. Como já foi dito, segundo Engels a influência do método dialético no socialismo científico se devia a Fourier, mas a dialética marxista era uma versão do pensamento do filósofo Hegel. O que seria a dialética dentro do socialismo científico? Como nos mostra Lênin (um dos líderes da revolução socialista russa): “Que é o método dialético? [...] Diz-se que a vida consiste num incessante crescimento e desenvolvimento, e isso é verdadeiro: a vida social não é algo de imutável e cristalizado, não se detém nunca no mesmo nível, está em eterno movimento, num eterno processo de destruição e de criação. Não era por acaso que Marx dizia que o eterno movimento e a eterna destruição-criação são a substância da vida. [...] O método dialético diz que é preciso considerar a vida como ela é na realidade. A vida encontra-se em incessante movimento, por conseguinte devemos também considerar a vida no seu movimento, na sua destruição e criação. para onde vai a vida, que é que morre, que é que nasce na vida, que é que se destrói, que é que se cria, eis que espécie de questões devem antes de mais nada interessar-nos. Tal é a primeira conclusão do método dialético.” O método dialético hegeliano teria como objetivo, dessa forma, desvendar este desenvolvimento das coisas por meio deste eterno processo de destruição e criação, segundo Hegel a história era impulsionada pelas contradições reais encontradas nos contextos históricos. A análise dialética deveria identificar as contradições reais que determinariam qual seria o próximo cenário histórico, era uma premissa do método, portanto, o fato de que haviam leis históricas determinadas por estas contradições. Num dado contexto, segundo o método, haveria um choque entre a tese e sua antítese, este choque seria a contradição. A partir deste choque a história se desenvolvia, sendo criado através deste processo uma nova condição, a síntese. Marx tomou a análise conservadora e idealista da dialética hegeliana e a modificou em sua teoria revolucionária e materialista (pois, ao contrário de Hegel, para Marx seriam as condições materiais da sociedade, seus modelos de produção, onde se deveria procurar as contradições reais). Pela visão marxista, o socialismo (o comunismo na sua versão final) seria o próximo estágio no desenvolvimento histórico da humanidade, um resultado natural das contradições inerentes ao modelo de produção capitalista. Como afirma Lênin no texto já citado: “O que na vida nasce e cresce dia a dia é invencível; deter seu movimento para a frente é impossível [...] se [...] o proletariado nasce e cresce dia a dia, então, por mais débil e pouco numeroso que seja hoje, acabará vencendo afinal. Ao contrario, o que na vida morre e vai em direção ao túmulo, deve ser inevitavelmente derrotado, isto é, se, por exemplo, a burguesia sente faltar-lhe o chão debaixo dos pés e recua dia a dia, então por mais forte e numerosa que ela seja hoje, acabará sendo afinal derrotada e baixará ao túmulo, é racional”. Esta é, segundo Marx, a contradição inerente ao capitalismo: ele fomenta o surgimento desta classes de trabalhadores mantidos com salário a nível de fome cada vez maior, e é nesta exploração onde reside a semente do colapso do sistema. A famosa contradição do sistema capitalista é o conflito entre capital e trabalho, entre as classes capitalista e operária (mais adiante o texto tratará especificamente da análise de classe marxista).

 

O primeiro ponto a ser criticado é o fato da nomenclatura usada por hegelianos e marxista confundir a natureza do problema. Segundo o princípio da não-contradição, uma lei do pensamento (uma condição formal que deve ser atendida para que seja válido um pensamento), nenhuma enunciado pode ser verdadeiro e falso. Ou seja, nenhum enunciado válido pode ser da forma X e Não-X. O princípio formal da contradição foi criticado por marxistas a partir do argumento de que há situações no mundo real em que tendências opostas estão em ação dentro de um todo coerente formado por estas partes conflitantes. Esta crítica é errada, porque os exemplos dados por hegelianos e marxistas (que são simplesmente hegelianos materialistas) não são exemplos de contradições. Forças conflitantes são um fato comum de fenômenos e de sistemas usados para descrever estes fenômenos, são uma coisa comum também na dinâmica social, no entanto, eles não são obviamente contradições. As forças conflitantes apontadas por marxistas não são formalmente a negação da outra, o que seria um requisito lógico para que se chamasse de contradição a este choque. Como diz Irving M. Copi em seu livro-texto introdutório sobre lógica: “O proprietário privado de uma grande fábrica, que requer milhares de operários que trabalham em conjunto para o seu funcionamento, pode opor-se ao sindicato e ser, por seu turno, combatido por este [...] mas nem o proprietário nem o sindicato são a negação ou o contraditório do outro”. O principal problema na análise dialética não é apenas verbal, não é apenas que se chame de contradição algo que realmente não se trate de uma, mas é que esta denominação gera uma confusão e o próprio pensamento lógico fundamentado no princípio da não-contradição, entre outros, acaba sendo abandonado (e muito se tentou para que se estabelecesse uma lógica dialética). Mas este não é o principal problema.

 

Ainda que se substitua o nome contradição por qualquer outro, a premissa de que existam leis históricas é sustentável? Antes mesmo de entrar na discussão sobre se é possível derivar leis históricas a partir de conflitos internos entre partes de um contexto histórico específico, a própria idéia de leis históricas é sustentável? Esta não é uma idéia nova, mas na época de Marx era famosa pela versão dada pelos filósofos alemães, a exemplo de Hegel, onde a noção de leis históricas estava relacionada a uma visão teleológica da história, da mesma forma que nas ciências físicas era possível determinar leis de movimento que permitiam predizer o próximo estado de um sistema a partir das condições em dado tempo e das informações sobre as variáveis envolvidas, o destino da história, o seu desenvolvimento em próximos estados, seria possível de ser descoberto dado um cenário histórico definido. Não há como dissociar esta idéia do século XIX, do positivismo e determinismo que influenciava as ciências sociais de então. Mas, será esta uma idéia válida? Existem leis históricas no mesmo sentido que leis da física? Para dar uma resposta a esta pergunta, primeiro será discutido o que determina o desenvolvimento histórico e algo da natureza dos problemas das ciências sociais e os motivos por quais, devido a esta natureza, não é possível emoldurar o processo histórico dentro de um sistema determinístico.

 

Mas então, o que faz a história? O que determina qual será o próximo passo na história? A resposta a esta pergunta, de uma forma simplificada, parece ser a seguinte: em primeiro lugar, as condições concretas especiais de um dado contexto, os fatos naturais de um cenário (exemplo: condições físicas, biológicas, geográficas…); em segundo lugar, os fatos determinados pela agência humana, os valores e preferências de indivíduos, suas escolhas e crenças, enfim, a vontade e ação humana que opera no mundo transformando-o a fim de que se alcance um estado de coisas mais desejado, em concordância com o conhecimento e crenças individuais (exemplo: condições culturais, valores éticos e religiosos…). E, ainda que as condições naturais que restringem e direcionam o destino histórico possam ser sistematizadas e descritas em modelos dos quais se possa retirar leis preditivas (e nas ciências naturais o caráter preditivo das teorias e o explicativo é o mesmo, as teorias explicam o tanto quanto predizem), o mesmo não pode ser dito dos fatos que orientam o processo histórico que dependem da agência humana, esses fatos só podem ser analisados qualitativamente, não é possível encontrar rígidas leis neste campo, apenas palpites baseados em juízos. Mas isto não é o principal problema, o ponto fundamental da impossibilidade das leis históricas é que a escolha individual determina o processo histórico (com as restrições obviamente, como já foi dito, de condições naturais), e a escolha humana é uma condição do livre julgamento do homem, ela não é previsível através de leis inexoráveis. Sem entrar em questões muito filosóficas, ainda que se argumente que o livre arbítrio humano é uma aparência e que as escolhas humanas são determinadas por condições materiais específicas, como processos fisiológicos, não é possível obter um modelo que sustente todas as relações de causa e efeito envolvidas no processo da escolha humana a fim de predizer ela. O livre arbítrio deve, no mínimo, ser tomado como verdadeiro para problemas da ciência social, pois ainda que se julgue que o arbítrio humano é determinado por fatos físicos, não é possível ter conhecimento destes fatos a ponto de predizer o arbítrio humano. E este é um problema específico das ciências sociais, algo da sua natureza que as diferencia das ciências físicas: a teleologia humana, o livre arbítrio do homem que age a fim de obter um estado de coisas que valoriza mais. O campo de estudo das ciências físicas é o mundo material, o mundo do movimento da matéria sem vontade, do movimento observável e de regularidade mensurável. Tudo isto escapa aos problemas em que está envolvida a ação humana, não é possível derivar leis sobre a ação humana a partir da observação exterior, pois tal coisa é impossível, a agência humana não é apreensível através da observação (ainda que as condições formais da ação humana possam ser estabelecidas a priori).

 

Dessa forma, não é necessário nem questionar se leis históricas podem ser ou não derivadas de supostas contradições reais, pois a própria noção de uma lei inexorável do processo histórico é incorreta, ela não leva em conta que seres humanos podem mudar o curso da história a partir de suas escolhas e que tal arbítrio não é previsível da mesma forma que o movimento é predito em ciências físicas. No entanto, Marx poderia cometer este erro porque acreditava (ou talvez o caminho seja o contrário, ele deveria acreditar nisto para que seu método fizesse sentido) que valores individuais são determinados por uma infra-estrutura material, pelas condições materiais da sociedade, pelos seus modelos de produção, mais especificamente. Para Marx os juízos humanos, e não só juízos, mas mesmo a história das idéias humanas, são determinados pela base de produção da sociedade, o pensamento humano é um reflexo do papel social dentro do esquema de classes criado pelo modelo de produção em que o sujeito está inserido. E, uma primeira pergunta que se pode levantar é sobre como é possível então o próprio método histórico dialético, como é possível que o sujeito inserido no processo histórico e cujas idéias, portanto, são determinadas pelo próprio processo, libertar-se da influência deste arcabouço social para enxergar o processo em si? Como pode o mesmo homem cujo pensamento é determinado pelo estágio do processo em que se encontra, um homem que é dessa forma uma parte de um todo integrado, separar-se deste todo e enxergá-lo por inteiro, descobrindo mesmo as leis que irão conduzir o todo ao seu próximo estágio? Marx dá um passo errado ao chegar neste resultado, é uma questão evidente o fato de que as condições materiais de uma sociedade influenciam os valores majoritariamente disseminados nos indivíduos, de forma que até se pode dizer que os juízos de valor individuais são influenciados pelo modelo de produção sobre o qual uma sociedade é fundamentada, no entanto, o caminho inverso também é verdadeiro, na medida em que as relações entre indivíduos que criam o modelo de produção são determinadas pela escolha dos mesmos, orientada pelos juízos individuais, a superestrutura da sociedade (seus valores políticos, religiosos, éticos…) também determina a infra-estrutura. Mas o erro de Marx vai ainda mais longe, pois as condições formais do pensamento humano não são obviamente determinadas pelas condições materiais sociais. A forma do pensamento humano, a lógica, não é determinada pelo objeto ou conteúdo a que se refere, a validade formal de um pensamento independe da validade material do mesmo, são duas coisas de natureza completamente diversa. Se é errado dizer que juízos individuais são completamente determinados pela estrutura econômica da sociedade, é ainda mais errado dizer que o pensamento humano o é.