Objetivismo

Minha filosofia, na sua essência, é o conceito de Homem como um ser heróico, tendo a felicidade como o propósito moral da sua vida, a conquista produtiva como sua mais nobre atividade, e a razão como seu único referencial. 

Ayn Rand,  A Revolta de Atlas

Objetivismo é a filosofia do individualismo racional fundado por Ayn Rand (1905-1982). Em romances como A Nascente e A Revolta de Atlas, Rand dramatiza seu homem ideal, o produtor que vive por seu próprio esforço e não dá nem recebe o imerecido, que honra as conquistas e rejeita a inveja. Rand estabelece os detalhes de sua visão de mundo em livros de não ficção como A Virtude do Egoísmo e Capitalismo: O Ideal Desconhecido.

Objetivismo sustenta que não há nenhum objetivo moral maior do que atingir a felicidade. Mas ninguém pode alcançar a felicidade por desejo ou capricho. Fundamentalmente, isso requer respeito racional pelos fatos da realidade, incluindo os fatos a cerca da nossa natureza humana e necessidades. Felicidade requer que se viva por princípios objetivos, incluindo integridade moral e respeito pelos direitos de outros. Politicamente, objetivistas defendem o capitalismo laissez-faire. Sob o capitalismo, um governo estritamente limitado a proteger o direito de cada um a vida, liberdade e propriedade proíbe que qualquer um inicie força contra outros. Os heróis do objetivismo são empreendedores que criam negócios, inventam tecnologias, criam arte e ideias, dependendo dos seus próprios talentos e das trocas com outras pessoas independentes para alcançar seus objetivos.

Objetivismo é otimista, sustenta que o universo é aberto para as conquistas humanas e felicidade e que cada pessoas tem consigo a habilidade de viver uma vida rica, realizada e independente. Sua mensagem idealista permeia os romances randianos, os quais continuam a vender centenas de milhares cada ano para pessoas atraídas a suas histórias inspiradoras e suas ideias características.

O que é filosofia?

Filosofia estuda a natureza fundamental da existência, do homem, e da relação do homem com a existência… No reino da cognição, as ciências especiais são as árvores, mas a filosofia é o solo que torna a floresta possível.
- Ayn Rand, Filosofia, Quem Precisa Disso(p. 2)

Uma filosofia é um sistema compreensivo de ideias sobre a natureza humana e a natureza da realidade que nós vivemos. Ela é um guia para o viver, porque as questões estudadas são básicas e persuasivas, determinando o curso que nós tomamos na vida e como nós tratamos outras pessoas.

Os tópicos que a filosofia levanta desdobram-se em campos distintos.  Os fundamentais são:

  • Metafísica (a teoria da realidade);
  • Epistemologia (a teoria do conhecimento);
  • Ética (a teoria dos valores morais);
  • Política (a teoria dos direitos legais e governo);
  • Estética (a teoria da natureza da arte).

Os sistemas de ideias mais disseminados que oferecem orientação filosófica são religiões como o Budismo, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. As religiões diferem das filosofias não nos temas que discutem, mas no método que elas usam para abordá-los. Religiões tem suas bases em histórias míticas que datam de antes do descobrimento de métodos de racionalidade explícita de investigação. Muitas religiões hoje em dia apelam para a fé mística e a revelação – tipos de crenças que reivindicam validade independente da lógica e do método científico, ao menos para as grandes questões. Mas a maior parte das religiões tem suas origens no pré-racional do que no anti-racional, uma perspectiva filosófica de um contador de histórias, e não de um cientista.

Em grego, filosofia significa “amor à sabedoria”. A filosofia é baseada em argumentação racional e apela a fatos. A história das ciências modernas começa com questionamentos filosóficos, e o método científico de experimentação e prova permanece uma parte da abordagem geral que um filósofo tenta proporcionar com uma questão: uma que é lógica e rigorosa. Entretanto, enquanto hoje em dia as ciências focam em questionamentos específicos em campos restritos, as questões tratadas pela filosofia permanecem as mais gerais e mais básicas, ou seja, as questões que fundamentam as ciências e que estão na base de uma visão de mundo.

A filosofia levanta algumas das questões mais profundas e amplas que existem. Abordar as questões em cada ramo da filosofia requer integrar tudo que alguém conhece sobre a realidade (metafísica) ou humanidade (epistemologia, ética, política e estética). Propor posições sensatas em filosofia é, no entanto, uma tarefa difícil. Filósofos honestos tem geralmente discordado sobre questões chave, e os desonestos tem sido capazes de colocar suas posições nessa mistura. Por essa razão, não há uma filosofia mundial, como há uma física. Ao invés disso, existem muitas filosofias.

No curso da história, filósofos tem oferecido sistemas completos que aproximaram as posições de cada ramo da filosofia. Aristóteles, o pai da lógica, criou um sistema na antiguidade, ensinando que nós podemos conhecer a realidade e atingir a felicidade. Recentemente, filósofos como John Locke e Immanuel Kant escreveram relatos sistemáticos de seus pensamentos. A maior dos filósofos modernos, entretanto, tem se especializado em uma área ou outra dentro da filosofia, embora algumas escolas de filosofia tenham emergido que são pautadas por posições gerais de seus membros em uma variedade de questões e a admiração compartilhada de seus membros por uma série de figuras históricas. Essas escolas incluem o “pragmatismo”, o “positivismo lógico” e o “existencialismo”, embora conhecidas fora das aulas de filosofia moderna.

As questões filosóficas atuais geralmente entram na vida pública através de movimentos políticos e sociais, alguns religiosos em inspiração, como o “conservadorismo cristão”, e outros seculares, como o ambientalismo coletivista e o socialismo. As ideias desses movimentos são geralmente chamadas de ideologias. Esse termo, “ideologia”, é outro nome para o “sistema de ideias” que nós estamos falando. Embora o foco de um movimento ideológico seja político, suas crenças políticas tendem a ser arraigados em concepções compartilhadas da realidade, natureza humana e valores.

Porque todo mundo precisa de filosofia?

Você não tem escolha sobre a necessidade de integrar suas observações, suas experiências, seu conhecimento em ideias abstratas, isto é, em princípios. Sua única escolha é se esses princípios são verdadeiros ou falsos, se eles representam sua convicção consciente, racional – ou uma mistura de noções colhidas ao acaso, cujas fontes, validade, contexto e consequências você não conhece, noções que, com mais frequência do que não, você largaria como uma batata quente se soubesse.

(Ayn Rand, Philosophy: Who needs it. P5).

Todo mundo possui uma filosofia, mesmo que não possa expressar em palavras.

Nós agimos como se nossa salvação eterna dependesse do seguimento dos mandamentos de Deus, ou não. Sentimos a necessidade de acreditar em algo e buscamos conhecimento, ou adotamos a visão cínica de que a busca é inútil. Todas as pessoas tem uma noção do que é certo e do que é errado. Nós podemos ver a nós mesmos como seres nobres, merecedores de felicidade ou como agentes transgressores, contra o meio ambiente, a justiça ou Deus. Nós todos iremos decidir, muitas vezes, o que constitui o nosso dever. Achamos que sabemos o que é a arte quando a vemos. E adotamos principios políticos e defendemos políticos e partidos.

Todas estas são questões filosóficas.

Nós precisamos saber se o que acreditamos é realmente verdade?

Convicções filosóficas são, frequentemente, subconscientes ou desarticuladas. Nós experimentamos emocionalmente o que Ayn Rand chamou de “sentido da vida”. O seu “sentido de vida” reflete os aspectos fundamentais do seu relacionamento com o mundo e as outras pessoas, é o seu sentimento intuitivo de como as coisas são e como elas deveriam ser. Cada um de nós precisa compreender suas próprias convicções de forma consciente, para ser capaz de colocar o seu “sentido de vida” em palavras. Caso contrário, nós realmente não temos uma ideia clara do que acreditamos ou o que está nos motivando a fazer nossas maiores escolhas – ou se elas são verdadeiras. Precisamos saber o que pensamos sobre as questões filosóficas, porque nossas respostas podem afetar o curso de nossas vidas. E o sentido da vida que domina nações ou culturas pode determinar seus destinos.

Necessitamos de uma metafísica (a teoria da realidade) porque precisamos saber se o mundo material da vida diária é o único que existe, o que marca a diferença entre viver para esta vida ou seguir alguma ideia religiosa de vida posterior (celestial). Precisamos saber se o universo é organizado, ou caótico – que marca a diferença entre tentar melhorar as coisas ou ver a vida como um absurdo e sem sentido.

Você leva o seu carro até um mecânico por que ele falha ao ligar o motor em clima úmido. Não seria estranho se ele desse de ombros e dissesse: “Bem, os carros fazem isso às vezes. Mas o que há de errado com isso?” Por que você não toma essa atitude com relação aos seus problemas familiares ou profissionais? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Uma Epistemologia é uma teoria do conhecimento. Pode parecer que, se você sabe alguma coisa, você apenas sabe, qual o problema. Para se ter uma ideia clara da sua vida e do seu contexto, é preciso que você saiba organizar a massa de informações, reclamações e ideias que recebemos dos outros; essa habilidade é baseada na epistemologia. Afinal, no fundo, precisamos saber se o que acreditamos é verdade. Como você sabe que uma pessoa lhe convenceu sobre uma questão? Isso pode ser muito importante quando a validade de uma teoria cientifica, o diagnóstico de um médico, ou o resultado de um julgamento que está em jogo. Algumas pessoas dizem que as palavras são arbitrarias e significam o que preferirmos. Isso quer dizer que não importa se alguém usa palavras que alguém não pode definir em termos reais? Devemos nos preocupar se sentimos que não temos intuições místicas, ou devemos nos preocupar se há possuímos?

Um vizinho bate na sua porta com uma petição: Pesticidas das fazendas próximas estão aparecendo em quantidades consideráveis na água potável da cidade. O vizinho quer removê-los a todo custo. ”Ninguém provou que esses produtos químicos nunca irão prejudicar ninguém”, diz ele. Contudo, os agricultores distribuíram panfletos explicando que os produtos químicos foram cientificamente testados e provados seguros. Ambos estão falando sobre a prova, mas eles parecem não querer dizer a mesma coisa. Como você poderia dizer quem está certo? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Ética é a ciência que usamos para julgar o bem e o mal. Nos não queremos ser maus, e nos gostaríamos de fazer o bem se pudéssemos. Mas, para isso, precisamos saber o que significa fazer o bem, e que tipo de ações tende a alcançá-lo. As pessoas fazem cobranças: o que nós devemos aos outros e o que nós merecemos? Para organizar os nossos pontos de vista morais e tomar um rumo certo na vida, precisamos evitar ser dilacerados por objetivos  e princípios contraditórios.

Você está trabalhando em uma empresa e crescendo em direção a posições de maior responsabilidade. Você tenta trabalhar de forma eficiente e espera ganhar muito dinheiro, por meio de bônus para você e lucros para sua empresa. Mas você se sente um pouco desconfortável, e você reflete: você esta fazendo o bem ali, ou você está apenas jogando com a vida e seguindo seu fluxo? Afinal, a sua religião ensina que as melhores pessoas simplesmente vivem para servir os outros. Você se sente culpado por tentar ganhar dinheiro, ou se sente moralmente orgulhoso do seu sucesso? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Nos todos sabemos o básico sobre a política, dado que temos de escolher em quem votar, e em quais causas investir o nosso tempo e dinheiro. Mas ainda que discutamos sobre isso, poucas pessoas tem tempo para organizar suas convicções fundamentais sobre as questões politicas. Existe um conflito entre o bem da sociedade e o que é bom para o individuo? A sociedade é responsável por servir aos pobres? Inculcar caráter e valores? Regular a economia? Em parte, as nossas ideias dependem de nossas crenças éticas, mas nós também precisamos de uma ideia clara do que é o governo e com que tipo de atividades ele deve se envolver, e se deve.

Em época de eleições, um candidato promete assegurar que cada pessoa terá um emprego decente criando uma lei que estabelece o salário mínimo justo e outra que restringe demissões. Outro candidato promete assegurar que seremos livres, dizendo que, ao final, mesmo que haja demissões e os salários sejam estabelecidos no mercado de trabalho, estaremos em uma situação melhor. Qual é o melhor? Afinal, o que os slogans como “justiça” e “liberdade” realmente significam? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

Todos nós gastamos tempo e dinheiro com arte: pela leitura de livros, por meio de filmes e shows, pela música e etc. Mas, se não refletirmos sobre estética, não poderemos entender claramente por que temos essa necessidade e justamente como a arte a supre. Qual a diferença entre arte boa e ruim? A arte nos fornece o combustível espiritual do qual todos nos dependemos, e tentar consumi-lo sem saber nada sobre sua finalidade básica ou sobre os seus padrões de julgamento, seria como tentar ligar um carro com qualquer tipo de liquido.

Um novo objeto apareceu em frente a um edifício de destaque na sua cidade. É constituído por chapas de metal dispostas para ser algo grande e angular. O jornal diz que é uma grande peça de arte contemporânea, mas você quer saber, se isso é arte, o que não é? Com o que uma peça de escultura deve se parecer? Você precisa de uma filosofia para saber a resposta.

As pessoas muitas vezes pensam na filosofia como um campo altamente abstrato e técnico, cheio de enigmas de interesse apenas para os acadêmicos. Mas, na verdade, todos nós dependemos de conclusões filosóficas,  e identificar a filosofia de uma pessoa é uma atividade altamente prática. Não precisamos ser todos filósofos, mais que devemos ser matemáticos. No entanto, todos nós aprendemos a somar na escola, e precisamos ser capazes de responder algumas questões filosóficas básicas também. É assim que nós sabemos onde estamos no mundo e aquilo que devemos fazer na vida.

Porque o objetivismo é um sistema de ideias?

Eu não sou, essencialmente, uma defensora do capitalismo, mas do egoísmo; e eu não sou, essencialmente, uma defensora do egoísmo, mas da razão. Se alguém reconhece a supremacia da razão e a aplica de forma consistente, todo o resto segue.

(Ayn Rand, Introducing Objectivism,” The Objectivist Newsletter Vol. 1 No. 8, August 1962, p. 35) 

Filosofias são sistemas de ideias, porque suas teorias são conectadas em uma hierarquia. Começando com as questões mais fundamentais, as conclusões que um indivíduo alcança em um campo da filosofia tem implicações profundas sobre o que ele pode consistentemente concluir em outra.

A Metafísica é o campo mais básico. Diz-lhe o que a realidade é, o que obviamente estabelece os parâmetros para outros campos. Se o mundo que vemos é uma ilusão, como os budistas ensinam, então a epistemologia deve explicar como adquirimos conhecimento por alguns meios além da percepção sensorial. E se há vida após a morte, e uma recompensa eterna que nos espera no céu ou no inferno, como os cristãos ensinam, então eticamente devemos fazer o que pudermos para atingir a felicidade eterna.

A Epistemologia também é básica de uma forma distinta. Todas as nossas ideais e teorias dependem dos padrões que temos para o conhecimento. Nós não podemos ter conhecimento ético, político ou estético exceto pelos termos definidos pela epistemologia. As religiões dependem de serem capazes de apelar para a fé como a base de conhecimento de uma realidade definitiva.

A Ética estabelece a diferença entre o certo e o errado. Suas posições dependem de uma visão da realidade, em fatos sobre a natureza humana, e em padrões de conhecimento. Ela estabelece um código de valores e explica a diferença entre a virtude e o vício. Isto fornece orientação básica e fundamental para as escolhas humanas, incluindo os caminhos que tomamos em nossas próprias vidas, o que esperamos dos outros, e a rumo de instituições e mesmo culturas inteiras. Todas as áreas da atividade humana dependem das premissas éticas sobre o que é valioso e que propósitos são dignos.

A Estética depende da ética porque a ética estabelece quais necessidades humanas são válidas e o que é bom para os humanos em oposição ao que é ruim. Estas são premissas que qualquer explanação de valores e padrões de arte deve empregar. A política depende da ética porque a ética define as metas do governo e os objetivos, de modo geral, da organização social.

Uma filosofia que não trata de suas questões principais é incompleta. Uma filosofia que é inconsistente em suas posições é indefensável. Podemos ver a importância da coerência vendo como a falta dela afeta ideologias políticas.

A maioria dos norte-americanos conservadores, por exemplo, são cristãos que tentam ser os defensores da indústria e do mercado livre, enquanto defendem sua religião ao mesmo tempo. Mas como a maioria dos norte-americanos percebe, os dois não são consistentes. Jesus, acima de tudo, ensinou que os ricos devem desfazer-se de todos os seus bens. E as virtudes cristãs centrais de fé, esperança e caridade adéquam-se muito melhor a um São Francisco que a um Bill Gates. Assim, os conservadores estão divididos entre as duas tendências do cristianismo e do capitalismo. Alguns, escolhendo o capitalismo, enfatizam as tradições americanas de liberdade, governo local e tolerância. Outros, escolhendo o Cristianismo, atacam nossa cultura “materialista”, defendem programas governamentais paternalistas como a previdência social, e pressionam o governo por maior apoio à religião.

Liberais norte-americanos, por sua vez, estão divididos entre valorizar a liberdade e a felicidade pessoal (que eles defendem por meio da liberdade de expressão e direito ao aborto) e a valorização da igualdade (que eles procuram promover através de códigos que restringem a escolha e reprimem o discurso, tais como as leis que proíbem a discriminação racial ou insinuação sexual em contextos de negócios privados).

Muitas filosofias formais sofrem de contradições similares. Immanuel Kant, por exemplo, foi um defensor da liberdade política e da paz, mas seus seguidores frequentemente apoiaram ditaduras e guerras, porque eles tentavam viver por sua moralidade de adesão pura ao dever.

Objetivismo é um sistema completo de pensamento que demarca posições em todos os principais campos da filosofia. É um sistema consistente de pensamento em que cada posição é apoiada por posições mais básicas que estão abaixo hierarquicamente e suporta posições derivadas que seguem dela. Objetivistas constatam que o que eles sabem sobre um campo da filosofia suporta o que eles sabem sobre os outros, então eles não tem que escolher entre tendências contraditórias como os modernos conservadores e os liberais. E suas conclusões, sendo baseadas em fatos, seguem logicamente das ideias mais básicas para as mais derivadas.

Qual é a visão objetivista da realidade (metafísica)?

A realidade existe como um absoluto objetivo – fatos são fatos, independente dos sentimentos, desejos, esperanças ou medos do homem.

(Ayn Rand, “Introducing Objectivism,”The Objectivist Newsletter Vol. 1 No. 8, August 1962, p. 35

Objetivismo sustenta que existe uma realidade, aquela em que vivemos. É óbvio que a realidade existe e é o que é; nosso trabalho é descobri-la. O objetivismo é contra todas as formas de relativismo metafísico ou idealismo. Ele sustenta como inegável que os humanos têm livre arbítrio, e se opõe ao determinismo metafísico ou ao fatalismo. De modo geral, ele sustenta que não existe contradição fundamental entre o livre e abstrato caráter da vida mental e o corpo físico em que reside. E assim nega a existência de qualquer “sobrenatural” ou inefável dimensão para espíritos ou almas.

Vamos considerar cada um desses pontos por sua vez.

Relativismo e Realidade Objetiva:

Hoje, especialmente em departamentos universitários de literatura, existem alguns “pós-modernistas” da moda, que afirmam que nós criamos a realidade com palavras, em nossas próprias mentes. Este ponto de vista é um exemplo de uma posição que tem frequentemente reaparecido na filosofia: relativismo metafísico ou idealismo. É a visão que, em ultima análise, nada é real exceto em relação a nossa percepção ou pensamento disso.

Mas a realidade não é uma função das nossas ideias. Ela existe, e é o que é, independente do que nós querermos que seja ou não. Negar isto é intelectualmente equivalente a fechar os olhos enquanto dirige em uma rodovia. Acidentes de carro não acontecem só porque acreditamos que eles aconteçam; muitas vezes eles acontecem mesmo quando desejamos que não. Fatos são fatos, independente de nós. É por isso que acontecem coisas que nos surpreendem. É por isso que a ciência tem sido o processo de estabelecimento da verdade sobre a natureza sem considerar nossos preconceitos. É por isso que bebês tem que aprender; eles estão descobrindo o “mundo lá fora.” Coisas na realidade tem propriedades reais e exercem poderes causais sem levar em conta a nós e ao nosso conhecimento delas. Ayn Rand resumiu esta atitude da realidade como o principio da primazia da existência.

Como Ayn Rand escreveu em “The Metaphysical Versus the Man-Made” (Philosophy: Who Needs It):  a primazia da existência (da realidade) é o axioma que constata que a existência existe, ou seja, que o universo existe independente da consciência (de qualquer consciência), que as coisas são o que são, que elas possuem uma natureza especifica, uma identidade.

O corolário epistemológico é o axioma de que a consciência é a faculdade de perceber o que existe – e que o homem ganha conhecimento olhando para seu exterior. Consciência (ou seja, a mente) é na sua essência uma faculdade de consciência (conhecimento, sensibilidade). Nós estamos conscientes do mundo ao nosso redor através de percepções sensoriais, é claro, mas mesmo em nosso conhecimento abstrato e teórico nós funcionamos principalmente através da identificação de como as coisas são. Para dar um exemplo simples, nós  decidimos se dizemos “aquela é uma casa amarela”, mas nós sabemos que o que torna aquela afirmação conhecimento, ao invés do ar quente, se ela identifica ou não que a casa é realmente amarela.

Livre arbítrio VS. Determinismo:

Através de nossos sentidos, nós vemos e sentimos um mundo material. Ele tem características físicas, tais como forma e massa. Mas nossos pensamentos parecem livres: Nós escolhemos por nossas próprias faculdades mentais o que devemos fazer, até mesmo como devemos mover nossos corpos, e podemos vaguear com nossas mentes em mundos de fantasias e imaginação que nunca existiram. Nossas pernas podem ser feitas para recuar pelo toque de um martelo em nossos joelhos. Mas nós podemos convencer nossas mentes, sem hesitação, a fazer o que devemos, mesmo que isso custe nossas vidas.

Muitos filósofos e cientistas acreditam no determinismo metafísico. Esta é a ideia de que tudo na existência advém inevitavelmente de causa e efeito, como um programa de computador, a órbita dos planetas, ou o movimento de bolas de bilhar em uma mesa de bilhar. De acordo com o determinismo, o universo foi posto em movimento de alguma forma, talvez em um Big Bang, talvez por Deus, e tudo que aconteceu desde então tinha que acontecer; nada mais era possível, o resultado era determinado.

Neste ponto de vista, podemos sentir como nós fazemos escolhas, mas por trás de nossas escolhas reside um processo que funciona como um relógio: nosso desenvolvimento genético, fatores sociais e ambientais, ou talvez algo mais ou todos os acima. Qual seja a historia causal dada, nessa visão, nossas ações e até mesmo nossos pensamentos acontecem na única e absoluta forma que poderiam ocorrer.

Objetivismo sustenta, em contraste, que o homem tem livre arbítrio. Nós temos capacidade de escolha, não sobre todos os aspectos da existência, é claro, mas na gama de ações dentro do nosso poder. Todos os dias fazemos coisas que nós podíamos ter feito diferente. Nossa liberdade de escolher nossas ações é a essência do que significa ser humano: ela é a base de nossa necessidade por orientação moral e é a principal causa de nossa  falibilidade, mas é também a raiz de nossa capacidade de progredir imaginando e criando melhorias nas formas brutas da natureza.

O fato do livre arbítrio é óbvio; cada um de nós sabe que temos a capacidade de controlar nossas próprias mentes, para concentrar nossos pensamentos em uma questão ou outra, e para dirigir nossas próprias ações. Alguns temem que por admitir que se tenha livre arbítrio estaremos negando a casualidade, rejeitando assim a visão cientifica do mundo. Afinal, a ciência tem demonstrado tacitamente que a maioria das coisas na realidade funciona deterministicamente. Teorias mecânicas da física e da química, por exemplo, trabalham de forma brilhante porque são verdadeiras; planetas não escolhem suas orbitas, e moléculas de DNA não se recombinam por prazer em gerar a vida.

Mas a ideia de livre arbítrio não nega a casualidade ou a ciência, ela apenas aponta que, pelo menos, algumas das coisas que você faz, você é a causa (agente). Nós ainda não podemos entender cientificamente como a química do cérebro e do sistema nervoso dão origem a esta capacidade, mas a ciência não pode mais desconsiderar o livre arbítrio tanto quanto a teoria do germe em relação à difteria. A ciência não elimina as causas reais da existência, aquilo que nós experimentamos a todo momento; ela as explica.

Mente e Corpo:

Livre arbítrio é apenas uma maneira em que a mente parece bastante diferente da matéria física. O reino espiritual do pensamento, imaginação, valores, e aspirações parece muito distante do reino dos objetos materiais, as forças físicas e necessidades biológicas. Muitos filósofos tem se intrigado com perguntas como se um pensamento tem peso ou qual é o tamanho da mente. Uma forma simples de responder a essas perguntas é supor que a mente é distinta do corpo: que existe uma dicotomia entre os dois.

Em diferentes formas, a dicotomia mente-corpo é subjacente a muitas ideias tradicionais sobre a natureza humana. Pensadores religiosos, por exemplo, veem a mente como uma alma imortal que transcende a casca do corpo. Eles postulam uma vida espiritual que é maior, mais livre e melhor do que a existência material. Essa dicotomia levou a tradição do ascetismo, ou seja, abuso do corpo para a pureza espiritual, e ao ideal de castidade, a experiência do amor não relacionado ao sexo e a outras luxurias do corpo. Também existe em formas seculares, como a divisão entre a razão e a emoção, simbolizados pelos Vulcanos sem emoção de Star Trek; o eu racional é a mente, neste ponto de vista, que deve lutar para ser livre de paixões irracionais que surgem da nossa natureza física. Em suma, ela projeta uma visão do homem em guerra consigo mesmo, um anjo preso no corpo de uma fera, de uma só vez tanto o Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

Como muitas filosofias clássicas gregas, incluindo o Aristotelismo, o objetivismo rejeita toda esta concepção de homem. Há uma diferença entre mente e corpo, esteja certo, mas não dicotomia ou conflito. Eles são ambos os aspectos da natureza humana. Somos organismos vivos, e todas as nossas faculdades, mental bem como a física, trabalham juntas para nos manter vivos.

O que nós chamamos de mente é o conjunto de capacidades para estar ciente, de perceber o mundo, de sentir, de valorar, de fazer escolhas. Como essas capacidades surgem? Em muitos aspectos, a resposta para esta questão deve vir da ciência e não da filosofia. Mas tudo o que sabemos indica que elas são o produto da evolução biológica e que elas dependem de nossos órgãos de sentidos físicos e cerebrais, bem como as muitas outras estruturas de apoio que o corpo fornece.

O que nós chamamos de nossas necessidades espirituais, ademais, não está em conflito com nossas necessidades físicas e biológicas. Elas estão enraizadas na mesma necessidade básica de manter nossas vidas através da ação intencional. Os seres humanos não têm impulsos instintivos suficientes para viver sem penar, aprender e fazer escolhas. A razão é a nossa ferramenta mais importante para sobreviver. Mas ela é uma ferramenta complexa e altamente exigente. De acordo com o Objetivismo, nossas necessidades espirituais por valores, princípios, ideais, experiências estéticas e amor são requisitos para um funcionamento saudável de um modo racional e volitivo da cognição.

In the course of life, we all encounter specific conflicts between our spiritual and our physical values (as well as conflicts within each category), but there is no inherent, global conflict between these aspects of our nature. Indeed, our most important activities serve the needs of body and soul, together. We live best when our reason and emotion are in harmony, for example. We know true love when we combine mental esteem with physical passion. Productive work is both a means of earning our daily bread and an expression of our creative powers.

No decorrer da vida, nós todos encontramos conflitos específicos entre nossos valores espirituais e físicos (assim como os conflitos dentro de cada categoria), mas não há um inerente conflito global entre esses aspectos da nossa natureza. Na verdade, nossas atividades mais importantes servem as necessidades do corpo e da alma, conjuntamente. Nós vivemos melhor quando razão e emoção estão em harmonia, por exemplo. Nós conhecemos o verdadeiro amor quando nós combinamos estima mental com paixão física. Trabalho produtivo é tanto um meio para ganhar nosso pão quanto uma expressão de nosso poder criativo.

Natural VS. Sobrenatural:

A ideia de exaltar o espírito sobre a existência material do corpo tem sido fortemente ligada no pensamento religioso à ideia de que existem algumas realidades além do mundo material que conhecemos através dos nossos sentidos, um mundo que nossos espíritos desejam como uma fuga das necessidades do corpo e as limitações da realidade física. Em muitas tradições, este é o paraíso, um lugar acima de qualquer lei física, onde o espírito possa viajar e em que muitas ou todas as coisas são possíveis. Muitas religiões atribuem esse tipo sobrenatural de existência, essa existência além da natureza, ao seu Deus ou deuses.

O Objetivismo sustenta que é simplesmente absurdo falar de qualquer coisa “sobrenatural” – literalmente além ou acima da natureza. O termo “natureza”, em seu sentido mais amplo, se refere ao mundo que percebemos, o mundo dos objetos que interagem de acordo com a lei causal. Se descobríssemos alguma dimensão ou universo que tivesse propriedades diferentes do ambiente em que nós vivemos, ele ainda faria parte da natureza. Se nós pudéssemos descobrir isso e isso pudesse nos afetar, isso teria algumas propriedades reais e especificas e deveria interagir com o nosso mundo de alguma forma. Por mais estranho que isso possa ser, suas características poderiam ser comparadas de maneira significativa com coisas que já conhecemos, e poderia ser avaliado de alguma maneira. Na verdade, a ciência já explorou alguns reinos muito estranhos e alienígenas, se comparado com o nível de realidade que vemos e ouvimos. Para escolher apenas um exemplo, a luz funciona de maneira tão estranha que não temos certeza de como descrevê-la: onda ou partícula? Mas mesmo assim, sabemos muitas coisas sobre ela, e a usamos para banir a noite e se comunicar com o mundo em um piscar de olhos.

Presume-se que o sobrenatural está além da compreensão humana, existindo de nenhum modo particular, afetando nossa realidade miraculosamente, acima de todas e quaisquer leis físicas. E de fato, supernaturalistas dão grande destaque às áreas em que a ciência está em silêncio ou porque a questão não é realmente cientifica ou porque o júri cientifico ainda não se pronunciou. É como se eles se ofendessem com a ciência por ela ainda não ter explicado cada questão para a sua satisfação, e ainda insistem que suas crenças mais preciosas são imunes ao escrutínio racional.

Na realidade, supernaturalistas querem ter seu bolo e comê-lo também. Eles afirmam que os deuses, anjos e demônios existem, mas não são nada em particular. Eles esperam ir para o paraíso por algum meio, mas não citando qualquer meio especifico. E o paraíso deve ser um lugar real (alguns até dizem que é um exuberante jardim abastecido com virgens ou uma terra alegre nas nuvens), mas não é qualquer lugar verdadeiro. Os budistas mesmo vão mais longe até negar reino além “nirvana” é um lugar. Na verdade, o sobrenaturalismo equivale a uma defesa descarada de contradições. Mas, como Ayn Rand apontou repetidamente, contradições podem existir só na mente humana, não na realidade como tal. Nenhum fato é essencialmente contraditório.

Então não há mundo além da natureza, nem qualquer vida além desta. Mas em contraste com a visão sobrenaturalista da natureza como um vale de lágrimas, uma prisão opressiva para a alma, o Objetivismo sustenta que vivemos em um “universo benevolente.” Somos seres bem adaptados para o mundo real em que vivemos, com o livre arbítrio para trilhar nosso próprio caminho e a capacidade de alcançar a felicidade e até mesmo a exaltação. A realidade não nos protege, e não há nenhuma razão para pensar que qualquer divindade o faça. De fato, temos que observar a realidade, como Ayn Rand reconheceu quando ela resumiu sua metafísica com o dito de Francis Bacon: “A natureza, para ser comandada, deve ser obedecida.” Mas nós podemos comandar a natureza, e isso é que faz o universo essencialmente benevolente: Ele é propício para seres como nós.

Qual é a teoria objetivista do conhecimento (epistemologia)?

Razão é a faculdade que…identifica e integra o material fornecido pelos sentidos do homem. A Razão integra as percepções do homem formado por meio de abstrações ou conceitos, aumentando assim o conhecimento humano do nível de percepção, o qual ele compartilha com os animais, para o nível conceitual, que só ele pode alcançar. O método que a razão emprega neste processo é a lógica – e a lógica é a arte da identificação não-contraditória.

Ayn Rand ”Faith and Force: The Destroyers of the Modern World,” inPhilosophy, Who Needs It? p. 62.

O Objetivismo sustenta que todo o conhecimento humano é alcançado por meio da razão, a faculdade mental humana de compreender o mundo abstrata e logicamente. Aristóteles denominou o homem de “animal racional” porque é a faculdade da razão que mais distingue os humanos de outras criaturas. Mas nós não raciocinamos automaticamente. Somos seres de livre arbítrio e somos falíveis. É por isso que precisamos da ciência do conhecimento “epistemologia” para nos ensinar o que é o conhecimento e como alcançá-lo.

A base do nosso conhecimento é a consciência que nós temos através dos nossos sentidos físicos. Nós vemos a realidade, ouvimos, provamos, cheiramos, sentimos através do toque. Como bebês, descobrimos o mundo através dos sentidos. Com o desenvolvimento das nossas habilidades mentais, tornamo-nos capazes de recordar memórias e nós podemos formar imagens em nossas mentes.

Outros animais também são capazes de percepção e memória. O que mais obviamente separa os humanos é o uso abundante da linguagem. A diferença é mais fundamental, entretanto: na raiz, a linguagem é um meio de formular e expressar pensamentos abstratos. Abstrações são ideias que correspondem a um numero ilimitado de coisas ao mesmo tempo. Quando você diz ou pensa “cavalo”, por exemplo, a sua mente foca em uma idéia “um conceito” que se refere a todos os cavalos que já existiram e os que virão. Conceitos nos permitem considerar o passado e o futuro, coisas que são, coisas que podem ser, e mesmo coisas que não podem ser. Pela conjunção dos conceitos, podemos formular princípios gerais, como as leis da natureza, que se aplicam a muitas situações.

A capacidade de apreender a realidade em forma de conceitos abstratos e princípios é a essência da razão como uma capacidade humana. Mas pensar abstratamente é muitas vezes um processo difícil e cada pessoa deve realizá-lo por si própria na solidão de sua própria mente. Pelo pensamento abstrato não ser automático, as pessoas podem facilmente cometer erros e acabar acreditando em falsas ideias. A única maneira de garantir a objetividade do seu pensamento é utilizar o método lógico consciente.

“Lógica é a arte da identificação não-contraditória”, escreveu Ayn Rand. Porque não há contradições na realidade, duas ideias que contradizem uma a outra não podem ser ambas verdadeiras; e qualquer ideia que contradiz os fatos que nós podemos observar por meio dos nossos sentidos é necessariamente falsa. A Lógica nos dá padrões que podemos utilizar para julgar se um argumento faz sentido. O método cientifico é uma forma avançada de raciocínio lógico. Através dele, a razão tem desvendado os segredos da natureza e feito nossa civilização industrial, com toda sua riqueza e conforto possível.

O Objetivismo defende a eficácia da razão contra todos os críticos. Céticos dizem que porque somos falíveis, devemos duvidar de todas as nossas crenças. Mas esta afirmação é uma auto-contradição: o cético esta alegando certeza, pelo menos, no que diz respeito a nossa falibilidade. Místicos religiosos afirmam que, frequentemente, Deus ou o sobrenatural é tão diferente de tudo o que sabemos que está além da capacidade de compreensão da razão. Mas desde que qualquer coisa que existe tem identidade, ou seja,  propriedades definidas e limitadas, é sempre possível contrastá-lo com outras coisas, conceituá-lo, estabelecendo padrões de medida, começando a raciocinar sobre isso. Numa altura em que os matemáticos exploram as propriedades que mesmo espaços infinitos e processos devem ter, subestima-se a mente humana ao se pensar que é incapaz de explorar fenômenos profundos ou complexos.

Qualquer um que produz insights que não derivam da evidencia sensorial e raciocínio lógico está, de fato, pedindo-lhe para abusar de sua mente. Alguém que diz, ceticamente, que nenhum conhecimento real é possível está pedindo para você abandonar sua mente completamente. O Objetivismo sustenta que é possível estar certo de uma conclusão, e que existe tal coisa como a verdade. Mas estar certo depende escrupulosamente de seguir um processo lógico e objetivo de raciocínio, porque é só esse tipo de pensamento que nos permite formular ideias verdadeiras. Para ser objetivo, pessoas devem definir os termos que usam, (para que elas saibam o que significam), basear suas conclusões em fatos observáveis (assim suas crenças estão ancoradas na realidade) e empregar os sentidos da lógica (de modo que elas possam atingir de forma confiável conclusões sólidas).

Qual é a posição objetivista em moralidade (ética)?

Minha moral, a moralidade da razão, está contida em um único axioma: a existência existe?e em uma única escolha: viver. O resto é consequência destes. Para viver, o homem deve manter três coisas como os valores dominantes da sua vida: Razão, Propósito e Auto-Estima. Razão, como sua única ferramenta para o conhecimento. Propósito, como sua escolha pela felicidade que essa ferramenta deve proceder para alcançar. Auto-Estima, como sua certeza inviolável que sua mente é competente para pensar e sua pessoa é digna de felicidade, o que significa: digna de viver. Estes três valores implicam e exigem todas as virtudes do homem…

Ayn Rand, A Revolta de Atlas.

Por milhares de anos, a pessoas tem sido ensinadas que o bem consiste em servir aos outros. “Ame seu irmão como a si mesmo” – ensina as escrituras cristãs. De cada um de acordo com sua capacidade, a cada um de acordo com sua necessidade – pregam os marxistas. Até mesmo os filósofos liberais utilitários, muitos dos quais defendem o capitalismo de livre mercado, ensinaram que se deve agir sempre para atingir “o maior bem para o maior numero”. O resultado deste código tem sido uma trilha de sangue de guerras e revoluções para fazer valer o auto-sacrifício, e uma luta sem fim na sociedade para alcançar a igualdade entre as pessoas.

Enquanto isso, como os animais revolucionários da obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell, os defensores da uniformidade e auto-sacrifício esforçam-se para se provarem “mais iguais do que outros”, para que eles possam determinar quanto amor é o suficiente, ou o que sua habilidade é e quais suas necessidades deveriam ser. Parece que amar o nosso semelhante é uma boa maneira de odiá-lo.

A ética objetivista reconstrói a moralidade a partir do zero. Você não pode dizer “eu amo você” se você não pode dizer “Eu”, escreveu Ayn Rand. De acordo com o Objetivismo, a vida de uma pessoa e felicidade é o bem supremo. Alcançar a felicidade requer uma moralidade do egoísmo racional, uma que não dá recompensas imerecidas para os outros e não os pede para si mesmo.

Códigos morais tradicionais ensinam que a vida social é uma guerra de todos contra todos e que pessoas devem restringir-se por meio do auto-sacrifício e da auto-abnegação. “Viva de maneira simples, para que outros possam simplesmente viver”, é o slogan deles. Esta é uma doutrina adequada a um mundo de aldeias camponesas e conquistadores gananciosos.

O Objetivismo, por outro lado, foi feito para a era do capitalismo industrial. Ele ensina o que ficou claro com o enriquecimento do ocidente: que uma harmonia de interesses existe entre indivíduos racionais, de que o beneficio de um indivíduo não necessita advir por meio do sofrimento de outrem. Porque a felicidade de uma pessoa não vem em detrimento de outra, uma vida de respeito mútuo e de independência benevolente é possível para todos. Esta é a doutrina do “viva e deixe viver”, por completo e de todas as formas.

Agora como pode tal harmonia de interesses existir? Não estão nossos interesses realmente em conflito? Não está cada um na garganta do outro? A resposta é que os seres humanos não são vampiros, alimentando-se uns dos outros, nem precisamos viver como em uma sociedade de caçadores e coletores, simplesmente se alimentando de recursos naturais limitados. Onde os animais pastam, os humanos podem cultivar. O modo de vida humana é de produção: a criação de valor oriundo das matérias-primas ao nosso redor. Seres humanos veem uma rocha, e inventam ferramentas, técnicas de fundição, construções de pedra, vigas de aço, ruas pavimentadas, e assim por diante. Vemos uma árvore, e fazemos móveis, combustível, papel, livros, materiais de construção, medicamentos, e assim por diante. Aplicação da razão para os nossos problemas nos permite criar soluções. Assim não somos cães disputando um pedaço de carne ou crianças partilhando um bolo; somos criadores, fazendo novos bens através do nosso trabalho produtivo, material e moralmente.

Bem-estar material é possível para todos, e ninguém precisa empobrecer outrem para ficar rico. Considere o fato que as pessoas ricas dos Estados Unidos são empresários que criaram produtos que milhões de pessoas estavam contentes por usar. E já que o conhecimento, as ideias, e outros bens imateriais podem ser compartilhados tão amplamente quanto necessário, não estamos em uma competição fundamental com outros para nossas necessidades espirituais, tampouco. Então, porque a razão é o nosso meio de sobrevivência, podemos nos beneficiar de todas as descobertas que os outros fazem, cada imagem ou historia que partilham e cada dólar que ganham por meio da produção e do comércio.

O Objetivismo sustenta que o propósito da moralidade é definir um código de valores de apoio a nossa própria vida, uma vida humana. Os valores do Objetivismo são os meios para a conquista de uma vida feliz. Eles incluem coisas como riqueza, amor, satisfação no trabalho, educação, inspiração artística e muito mais. Nós escolhemos muitos de nossos valores, tais como o trabalho que apreciamos e quem são nossos amigos e amores. Mas não podemos escolher a necessidade de bens materiais ou de amizade, se uma vida feliz é o que buscamos. A escolha final aberta para nós é se queremos viver ou não. A vida é uma escolha que devemos fazer de forma consciente e responsável, argumenta Rand, ou então podemos descobrir que, por definição, nós escolhemos a alternativa: sofrimento e morte.

Os valores cardinais do Objetivismo são a razão, o propósito, e O Eu. A Razão, porque é o nosso meio de ganhar conhecimento, e, através da produção, nossos meios de sobrevivência. O propósito, porque cada um de nós tem livre arbítrio e deve direcionar-se para objetivos selecionados, através de um curso escolhido de vida. Eu, porque sem auto-estima, um ser que necessita de auto-motivação não pode encontrar os meios para prosseguir. Assim como as necessidades particulares de um indivíduo estão no centro do código de ética objetivista, de modo que o respeito por eles está no centro dos valores de cada um.

A ética objetivista é um código que honra a realização e aconselha a celebração, não a inveja, pela grandeza. Ela honra a criatividade não só de artistas ou estudiosos, mas de produtores em cujos ombros a civilização descansa: Industrialistas e engenheiros, investidores e inventores. Ela sustenta que qualquer trabalho é espiritual quando pensado e feito, não importa qual a escala de realização, do trabalhador da linha de produção ao chefe executivo da empresa, e do secretário mais desconhecido para a estrela de cinema mais famosa.

As virtudes do Objetivismo, então, definem princípios de ação que levam à realização de valores objetivos, considerado em todo o contexto da vida humana. O princípio-chave da ética objetivista é a racionalidade, em antítese ao misticismo e a fantasia. A ética e o código da benevolência e da justiça para com as outras pessoas: fazendo com que os malfeitores prestem contas por seus crimes, mas tratando as pessoas racionais e produtivas com boa vontade e generosidade. Isto implica integridade, não permitindo qualquer ruptura entre nossos princípios e nossas ações. Um ser racional pratica honestidade, amando a verdade mais que a mentira; e ele vive, em primeiro lugar, com base em seu próprio julgamento e esforço, então a independência é uma virtude. A ética objetivista coloca indústrias e produtividade em seu trabalho no centro dos interesses da vida. É o código de uma pessoa que mantem a cabeça erguida com orgulho, em uma apreciação objetiva de seus méritos e desejando programar melhorias no futuro.

A ética tradicional contrasta a imagem do homem como um animal com ideal de homem como um monge de outro mundo. O homem é por natureza um animal voraz, nesse ponto de vista, e ele deve ser educado na auto-abnegação e auto-sacrificio para ser angelical e manso. O Objetivismo sustenta que o homem vive melhor como um comerciante, agindo racionalmente para a sua própria causa e lidando com outros através da troca de valor por valor. A  ética tradicional exalta a coragem em face da morte como uma virtude; O objetivismo aconselha integridade na busca de longo prazo da felicidade. A ética tradicional exalta a caridade como a marca da nobreza: o objetivismo exalta a realização produtiva, porque ninguém existe apenas por causa dos outros. É uma ética para aqueles que querem tudo o que a vida tem para oferecer, de forma consistente, ao longo de todo o seu curso da vida.

Qual é a visão objetivista do governo e da lei (política)?

Capitalismo é um sistema social baseado no reconhecimento dos direitos individuais, incluindo o direito à propriedade, em que toda propriedade é privada. O reconhecimento dos direitos individuais ocasiona o banimento da força física nos relacionamentos humanos: basicamente, os direitos só podem ser violados por meio do uso da força. Em uma sociedade capitalista, nenhum homem ou grupo pode iniciar o uso da força física contra outros. A única função do governo, em tal sociedade, é a tarefa de proteger os direitos do homem, isto é, a tarefa de proteger ele da força física; o governo atua  como um agente do direito do homem de auto-defesa, e pode usar a força só em retaliação e só contra quem iniciam o seu uso; assim o governo é o meio de colocação do uso de retaliação da força sob controle objetivo.

(Ayn Rand,”O que é capitalismo” – Capitalismo: o ideal desconhecido, página 19)

A teoria política Objetivista possui três elementos principais, todos os quais advêm da tradição política liberal clássica. Primeiro, a base do sistema político deve ser o direito fundamental de viver livre da força física. Segundo, o governo tem a função estritamente limitada de proteção aos direitos. Terceiro, o poder do governo deveria ser exercido em conformidade com leis objetivas. Capitalismo é o sistema político-econômico intrínseco a esses princípios.

Direitos Individuais

A ética Objetivista afirma que cada pessoa pode viver e prosperar por meio do exercício independente de sua mente racional. Economicamente, os seres humanos prosperam através da produção e do comércio, como é evidente pelo fato de que os países mais livres ou são os países mais ricos ou são os países que estão ficando ricos mais rapidamente. Do ponto de vista social, o comércio é o modelo de como as pessoas podem melhor lidar com as outras.

O comércio é troca voluntária com benefício mútuo. Nós trocamos a moeda por bens e serviços de que precisamos. Mas nós formamos amizades e nos unimos a associações e clubes como uma forma de comércio, também, investindo nosso tempo, dinheiro e energia em um relacionamento, para compartilhar bons momentos ou colaborar para o avanço de uma causa em comum. Pessoas independentes são comerciantes porque eles dão valor para o que eles recebem dos outros. Eles não roubam dos seus amigos e parentes, e não saqueiam os recursos de estranhos.

É possível viver de forma independente se é permitido fazê-lo. As escolhas de um indivíduo devem ser voluntárias para que possam ser feitas livremente. Fundamentalmente, só a ameaça do uso de força mortal pode minar a habilidade de raciocinar e escolher.  Agressões, assassinato, roubo, fraude: Todos esses são exemplos do uso da força para privar alguém de liberdade, de bens, ou mesmo da vida.

Normalmente, usa-se a mente para manter o bem-estar. A ameaça da força nos faz aceitar ordens de outra pessoa, em vez das ditadas pelo seu julgamento pessoal. Esta foi a forma como os regimes totalitários tais como o da Rússia Soviética, da Alemanha Nazista, ou da China Maoísta trataram seus cidadãos, e é por isso que o efeito desses sistemas foi de estilo uniforme de vida, produção decadente, e crises periódicas de encarceramento em massa e carnificina. Por ser a força uma ameaça fundamental à vida independente de produção e do comércio, há um princípio fundamental que uma sociedade justa deve garantir: o princípio de que ninguém pode  iniciar o uso da força física sobre  qualquer outro.

O principio da não iniciação da força não proíbe seu uso no caso da autodefesa. O Objetivismo não é uma filosofia pacifista. Um comerciante não pretende lucrar com o uso da força, mas ele é capaz e disposto a defender a si próprio, seus amigos, e seus bens se eles forem ameaçados ou atacados. O pacifista está correto ao reconhecer que a violência não é o melhor caminho para os seres racionais lidarem um com o outro. Mas quando o racional e bom falham em defender-se daqueles que tentam viver irracionalmente através da força, eles estão renunciando tudo que é decente por o que não o é. Aqueles que escolhem a vida de um animal, a vida de unhas e dentes, merecem uma resposta da mesma espécie, se é isso que eliminará a ameaça.

Os direitos individuais à vida, liberdade, propriedade, e a busca da felicidade­ – mencionados em muitos documentos políticos americanos? identificam diferentes dimensões de liberdade e proíbem os tipos correspondentes de força. “Um “direito” é um principio moral definindo e sancionando a liberdade de ação de um homem dentro do contexto social, escreveu Ayn Rand. Há apenas um direito fundamental (todos os outros são suas consequências ou corolários): o direito do homem a sua própria vida. Para viver, é preciso ser capaz de agir, por escolha própria, em apoio a sua vida; que é o direito à liberdade?. Somos seres materiais, e por isso precisamos de liberdade para manter os frutos de nosso trabalho e usar ou dispor deles como nós bem entendermos; que é o direito à propriedade. E nós vivemos como somos, para nós mesmos, por isso temos o direito de buscar nossa própria felicidade.

Governo limitado

O poder do governo é o poder das armas. Ele tem o poder de impor um conjunto de regras no território que controla, um poder que está sempre contra a liberdade. O Objetivismo defende, portanto, uma forma estreitamente limitada de governo: um sistema republicano que tem apenas poderes de agir para proteger nossos direitos de liberdade da força. Deve haver uma força militar para a defesa contra inimigos externos. Deve haver um sistema de legislação e tribunais para estabelecer a lei e julgar os litígios em que a força pode ser usada. E deve haver um sistema de fiscalização do cumprimento da lei como a policia, para garantir que tal lei é uma regra social, e não palavras vazias.

Nenhum país hoje respeita escrupulosamente os direitos, e de fato muitas pessoas não entendem o que realmente são direitos. Um governo limitado, respeitador dos direitos não teria nenhum sistema de bem-estar social e muito menos um sistema obrigatório de pensões como a Previdência Social nos EUA. Não teria agências com poderes ilimitados e definidos vagamente de regulamentação. Não haveria nenhuma lei antitruste, nem lei de zoneamento nem ao menos leis antidrogas. Isso não significa que uma sociedade livre não possuiria seguro desemprego ou pensões, ou que não teria bairros distintos ou campanhas públicas para reduzir o uso de narcóticos perigosos. Mas se as pessoas queriam qualquer uma dessas coisas, elas teriam de se organizar e realizar isso voluntariamente, através de contratos individuais e associações livres. E ninguém tem o direito de impor suas preferências sobre alguém através da violência. Debate livre e persuasão racional teriam de ser os meios que um organizador social usaria, e o resultado seria um sistema de liberdade, em que cada pessoa escolheria por si mesma o melhor curso de vida e sofreria ou aproveitaria as consequências de suas escolhas.

Lei Objetiva

Direito civil (principalmente contratos, propriedade, e delitos) é o principal serviço positivo do governo. Direito civil fornece objetivos, meios justos e pacíficos de resolução de disputas entre produtores e comerciantes. Ao fazê-lo, ele fornece o contexto necessário e confiável para o planejamento e estabelecimento de contratos de longo prazo, que por sua vez são condições necessárias para o progresso da produção capitalista global e as maravilhas e conveniências da vida moderna. A polícia e as forças armadas, por outro lado, servem em uma função negativa: Elas protegem os cidadãos de ameaças de criminosos e agressores estrangeiros. Em ambos os âmbitos, civil e criminal, a lei funciona fornecendo padrões claros para determinar quais ações e interações entre as pessoas são consistentes com os direitos individuais. Sem essas instituições jurídicas, a sociedade colapsa em campos opostos; cada interação convida a uma violenta disputa, e a vida torna-se inconveniente, menos produtiva e mais brutal?na melhor das hipóteses.

Objetivismo na lei é crucial para a sua funcionalidade. As leis devem ser claramente expressas em termos dos princípios essenciais. As altamente detalhadas, programáticas leis tão comuns atualmente violam este principio, assim como os padrões vagos sob os quais muitas regulamentações são decretadas. A lei imposta deve ser inteligível às pessoas. Os tribunais devem ser estruturados de forma que a imparcialidade e a objetividade sejam a marca de qualquer decisão jurídica. E a lei deve ser sempre fundamentada em princípios de direitos.

Capitalismo

Assim o capitalismo não é meramente um sistema de liberdade econômica, muito menos um sistema econômico favorecendo grandes negócios. Em sua forma pura, o capitalismo é um sistema social caracterizado pela liberdade individual, diversidade e dinamismo. É um sistema que trata as pessoas como indivíduos, sem nenhum principio ético, religioso ou coletivo consignado na lei. É o sistema em que cada um de nós deve fazer suas próprias escolhas e deve assumir responsabilidade pela sua própria vida e felicidade. É o sistema em que a paz duradoura e prosperidade ilimitada são possíveis, se as pessoas trabalharem para isso. Como Ayn Rand disse, é o sistema de separação da economia e do Estado, assim como não há separação entre igreja e estado, e pela mesma razão essencial: porque cada pessoa tem o direto de pensar e viver de acordo com os ditames de sua própria consciência, e todos são beneficiados pela liberdade geral.  

O que o objetivismo considera ser arte (estética)?

Arte é uma seletiva recriação da realidade de acordo com o julgamento de valores metafísicos do artista. A necessidade profunda do humana por arte reside no fato de a sua faculdade cognitiva ser conceitual, ou seja, que ele adquire conhecimento por meio de abstrações, e precisa do poder de trazer, de modo mais amplo, suas abstrações metafísicas em sua imediata e perceptiva consciência. A arte atende a essa necessidade: por meio de uma seletiva recriação, ela concretiza a visão fundamental do homem sobre si mesmo e da existência. Ela informa ao homem, com efeito, que aspectos de sua experiência devem ser considerada como essenciais, significantes e importantes

(Ayn Rand, “Art and Cognition,” The Romantic Manifesto, p. 45)

Assim como a linguagem é especificamente humana, da mesma forma é a arte. Toda sociedade humana tem imaginado e recriado o seu mundo em histórias e músicas, em pinturas e esculturas, e em formas derivadas de arte como teatro e dança.

Muitas pessoas pensam que a arte é um aspecto indescritível, quase místico da existência humana, que é um domínio independente, indefinível exceto em termos de si própria. Isso tem dado permissão àqueles que querem transformar fazer arte em um jogo, que dizem que arte é qualquer coisa que um indivíduo deseja que ela seja e que rejeitam padrões objetivos para as artes. Este ponto de vista é padrão entre promotores de arte, filósofos da arte, e muitos autoproclamados artistas. O resultado é que hoje uma pessoa comum não sabe o que é arte e o que não é, e acredita que a única base para preferências estéticas é a opinião subjetiva e o gosto pessoal.

A função do artista é interpretar o mundo e apresentá-lo como ele ou ela o imagina.

Na verdade, a arte é uma instituição distintamente humana porque preenche uma necessidade vital da consciência humana. E questões estéticas podem ser analisadas objetivamente, como qualquer aspecto da realidade.

A epistemologia objetivista ensina que humanos são seres conceituais. Somos conscientes do mundo direta e imediatamente através da percepção dos sensos, mas grande parte do nosso pensamento é feito em um nível conceitual, usando abstrações, linguagem e lógica. Nossos conceitos e teorias só tem sentido na medida em que se baseiam na realidade, contudo, um indivíduo não pode ver uma teoria ou sentir uma ideia, nem pode perceber, em um único olhar, todos os fatos da realidade que validam uma teoria ou ideia. Quanto maior e mais fundamental a abstração, mais difícil é para vivenciá-la como tendo a realidade das coisas concretas que podemos ver e sentir por meio da percepção.

A única e vital função da arte é apresentar, de forma concreta, o que é essencialmente uma abstração. Podemos usar técnicas artísticas como representação pictórica ou metafórica para mostrar como uma ideia se parece; isto é o que um gráfico de crescimento econômico faz, por exemplo. Arte como tal executa essa função para abstrações mais fundamentais: os elementos de uma visão de mundo. E porque a visão de mundo de uma pessoa, seus valores mais profundos, são experimentados com mais clareza na forma emocional de um sentido de vida. (veja o FAQ “O que é filosofia”), uma obra de arte pode tocar os lugares mais profundos em nós, sentimentos que muitas vezes temos dificuldade de definir e explicitar.

As diferentes formas de arte fazem isso recriando a realidade, seletivamente representando coisas, sons, ou eventos, diretamente aos sentidos (como fazem as pinturas, esculturas, teatro e cinema, música e dança) ou através da vivacidade da imaginação dirigida (como a literatura). O artista faz a seleção, estilizando a cena ou o mundo e apresentando-o por um certo prisma, com algumas coisas enfatizadas e outras retiradas. Narrativas jornalísticas e históricas, gravações audiovisuais de um evento, e exposições de museus são, como obras de arte, representações, mas elas são representações que tentam, na medida do possível, transmitir os aspectos reais de uma questão. A função do artista, por outro lado, é especificamente interpretar o mundo e apresenta-lo como ele o imagina, usando elementos concretos particulares para capturar uma verdade mais profunda e universal.

Um trabalho de arte deve, portanto, ser acessível a compreensão em um nível de percepção. Deve ser reconhecidamente representativo de algo. Uma pintura que apresenta uma figura ou cena é arte. Manchas de tinta não são. Uma composição de tons reconhecíveis é a musica. Ruído aleatório não é. Uma narrativa ficcional de comprimento suficiente é um romance. Um conjunto de frases sem nenhuma estrutura narrativa não é. Então isso é aplicado para todas as formas de arte: ela deve apresentar alguma acessível aos sentidos, nas formas adequadas para se conectar aos sentidos na forma de consciência.

Dizer que algo não é arte não quer dizer que não é uma decoração agradável, nem significa que é inútil. Significa simplesmente que ele não pode ser usado para a função de concretizar nossos valores mais profundos e vivenciar diretamente o equivalente ao sentido de vida. Por exemplo, pela arquitetura ter importantes obrigações estruturais e funcionais (uma casa deve ter telhado, banheiro, cozinha e assim por diante), Ayn Rand concluiu que não era uma forma pura de arte. No entanto qualquer um que tenha lido The Fountainhead sabia como ela apaixonadamente se preocupava com a dimensão artística da arquitetura e que valor ela anexou a isto.

Parte do que faz a arte “boa” é a habilidade que o artista tem em captar sua visão de mundo e as preocupações essenciais em sua arte. Isso possui muitos aspectos. Inclui fazer uma apresentação clara e envolvente, que requer habilidade de desenho nas artes visuais, por exemplo, e talento com o enredo, personagens e diálogos no drama e no romance. Ele também exige habilidade na organização e integração de ideias. Isso é vital para a escolha de elementos temáticos de um trabalho para torná-lo rico em simbolismos e estrutura intrínseca.

Algumas delas são habilidades compensam uma boa decoração e design. Neste sentido, trabalhos de design, como um fino tapete persa, pode ser amável e bem feito, mesmo embora não seja considerado arte. Muitas explicações convencionais de estética confundem decoração com arte porque eles centram a estética na questão de ?O que é beleza?? O Objetivismo considera essa como uma questão secundária, porque nossa ideia de beleza é inevitavelmente informada e afetada por um senso de valores, isto é, uma questão que, como a arte em geral, depende, para sua explicação, do fato que o homem necessita de princípios filosóficos.

Além da habilidade do artista, a arte pode ser julgada em termos de seu significado. Pode-se encontrar uma peça de trabalho profissionalmente realizada, mas ser repelida pelo que diz em nível de valores e sentido de vida. Esta foi a reação de Ayn Rand aos romances de Tolstói. Similarmente, pode-se estar bastante satisfeito com o sentido da vida de um artista enquanto não sendo totalmente apaixonado pela sua maneira de transmiti-lo. Esta parece ter sido a reação de Rand ao detetive romancista Mickey Spillane, por exemplo.

Ayn Rand projetou uma escola de arte chamada “Realismo Romântico”. Artistas românticos realistas iriam, como Ayn Rand, combinar um compromisso com a apresentação de cenas verossímeis estabelecidos em algo como o mundo real com os ideais de um novo romantismo, que desse forma às cenas, melodias e histórias para apresentar o caráter essencialmente o heroico do homem. Em seus próprios romances, Rand desenvolveu um estilo de “realismo tendencioso” que envolveu ricos personagens em torno de tramas centradas em princípios-chaves e ideias. Assim, o mundo de seus romances não é apenas o relatório do mundo como ele é, mas como ele “poderia e pode ser”.

 

Tradução e revisão de Juliano Torres, Josiberto Benigno e Matheus Pacini.

Texto de autoria de William R. Thomas.