F.A.Q. Anarquista

1. O que é anarquismo? Quais crenças os anarquistas compartilham?

Anarquismo é definido pelo “The American Heritage College Dictionary” como a “teoria ou doutrina de que todas as formas de governo são desnecessárias, opressivas e indesejáveis e devem ser abolidas”. Anarquismo é uma negativa; ele sustenta que uma coisa, chamada governo, é ruim e deve ser abolido. Além desse princípio definidor, pode ser difícil listar qualquer crença que todos os anarquistas defendem. Como os ateístas podem apoiar ou não apoiar qualquer ponto de vista consistente com a não existência de deus, anarquistas podem e de fato sustentam um gama de pontos de vistas consistentes com a não existência do estado.

Como pode ser esperado, diferentes grupos de anarquistas estão constantemente tentando definir o anarquismo com diferentes visões da existência, como muitos cristãos dizem que sua seita é o único cristianismo “verdadeiro” e muitos socialistas dizem que seu socialismo é o único socialismo “verdadeiro”. Esse FAQ assume o que parece ser para mim uma visão imparcial já que essas táticas são sem sentido  e meramente previnem o debate de questões mais substantivas.

2. Porque alguém deve considerar o anarquismo?

Ao contrário de muitos estudiosos da história, anarquistas veem uma linha comum por trás dos maiores problemas da humanidade: o estado. No século 20 sozinho, os estados mataram acima de 100 milhões de seres humanos, seja em guerras, campos de concentração, ou passando fome. E isso é meramente a continuação de um padrão histórico aparentemente interminável: quase desde o começo da história conhecida, governos existiram. Uma vez que eles surgiram, eles permitiram que uma classe dominante utilizasse seus ganhos ilegítimos para construir exércitos e sustentar guerras para estender sua esfera de influência. Ao mesmo tempo, governos tem sempre suprimido minorias impopulares, dissidentes, e os esforços de gênios e inovadores que levantariam a humanidade para novas alturas no campo intelectual, moral, cultural e econômico. Ao transferir a riqueza excedente dos produtores para a elite dominante estatal, o estado frequentemente estrangulou qualquer incentivo para crescimento econômico de longo prazo e portanto sufocou a humanidade na pobreza; e ao mesmo tempo o estado sempre utilizou essa riqueza excedente para consolidar seu poder.

Se o estado é a causa aproximada de toda essa miséria e crueldade sem necessidade, não seria desejável investigar as alternativas? Talvez o estado seja um mal necessário que nós não podemos eliminar. Mas talvez longe de um mal necessário, ele seja algo que aceitamos por inércia quando uma espécie totalmente diferente de sociedade seria uma grande melhoria.

3. Os anarquistas não defendem o caos?

Por definição, anarquistas se opõem meramente ao governo, não a ordem ou a sociedade. “Liberdade é mãe, não a filha da liberdade” escreveu Proudhon, e a maior parte dos anarquistas tendem a concordar. Normalmente, anarquistas demandam a abolição do estado porque eles pensam que eles tem algo melhor para oferecer, não um desejo para algo como uma rebelião. Ou como Kropotikin colocou:

“A não destruição da ordem existe é possível, se na hora da virada, ou da luta que levar a virada, a ideia do que tomara o lugar e do que será destruído não estiver presente. Mesmo a crítica teórica das condições existentes é impossível, ao menos a crítica que tem em mente mais ou menos a figura distinta do que colocar no lugar do estado existente. Conscientemente ou inconscientemente, o ideal, a concepção de algo melhor está formando na mente de cada um que critica as instituições sociais.”

Há uma tensão anti-intelectual no anarquismo que favorece o caos e a destruição como um fim em si mesmo. Enquanto possivelmente a maioria entre as pessoas que se chamam anarquistas, isso não é um ponto de pensamento entre aqueles que tem gasto atualmente seu tempo pensando e escrevendo sobre a teoria anarquista.

4. Os anarquistas não defendem a abolição da família, propriedade, religião e outras instituições sociais além do estado?

Alguns anarquistas tem favorecido a abolição de um ou mais dessas instituições acima, enquanto outros não.  Para alguns, todas essas instituições são meramente outras formas de opressão e dominação. Para outros, elas são instituições intermediadoras vitais nas quais nos protegem do estado. Para ainda outros, algumas dessas acima são boas e outras são ruins; ou talvez elas são ruins atualmente, mas merecem uma reforma.

5. Quais as maiores subdivisões que podem ser feitas entre os anarquistas?

Como deve se tornar claro para o leitor do Anarquismo A ou Anarquismo B, existe duas linhas divergentes de pensamento anarquista. A primeira é amplamente conhecida como “anarquismo de esquerda”, e engloba anarcosocialistas, anarcosindicalistas e anarcocomunistas. Esses anarquistas acreditam que em uma sociedade anarquista, as pessoas deveriam abandonar ou reduzir grandemente o papel dos direitos de propriedade privada. O sistema econômico seria organizado em torno de cooperativas, empresas controladas pelos trabalhadores, e ou comunas. Um valor chave dessa linha de pensamento anarquista é o igualitarismo, a visão que desigualdades, especialmente a de riqueza e poder, são indesejáveis, imorais e socialmente contingentes.

O segundo é amplamente conhecido como “anarcocapitalismo”. Esses anarquistas acreditam que em uma sociedade anarquista, as pessoas não iriam somente manter a propriedade privada, mas expandi-la para englobar toda a esfera social. Nenhum anarcocapitalista jamais negou o direito das pessoas de unirem suas propriedades e formarem uma cooperativa, empresa controlada pelos trabalhadores ou comunas; mas eles também acreditam que muitas propriedades, incluindo tais como organizações e corporações, não são somente perfeitamente legítimas mas provavelmente a forma predominante de organização econômica sob o anarquismo. Ao contrário dos anarquistas de esquerda, anarcocapitalista de forma geral colocam pouco ou nenhum valor na igualdade, acreditando que as desigualdades em todas as dimensões – incluindo a renda e riqueza – não são somente perfeitamente legítimas desde que surjam da forma correta, e são a consequência natural da liberdade humana.

Uma grande parte dos anarquistas de esquerda são extremamente céticos sobre as credenciais anarquistas dos anarcocapitalista, argumentando que o movimento anarquista tem sido na história claramente de esquerda. Em meu ponto de vista, é necessário reescrever a história para manter essa afirmação. Em “European Socialism: A history of Ideas e Movements” (publicado em 1959, antes de qualquer trabalho anarcocapitalista importante ter sido escrito) de Carl Landauer, esse grande historiador socialista nota que:

Para ser claro, há uma diferença entre anarquismo individualista e coletivista ou anarquismo comunista; Bakunin chamou a si próprio de anarquista comunista. Mas os anarquistas comunistas também não reconhecem nenhum direito da sociedade a forçar o indivíduo. Eles diferem dos anarquistas individualistas na crença que o homem, se livre da coerção, entrará em associação voluntária de um tipo comunista, enquanto o outro lado acredita que uma pessoa livre preferirá um algo grau de isolamento. Os anarquistas comunistas repudiam o direito a propriedade privada que é mantido através do poder do estado. Os anarquistas individualistas são inclinados a manter a propriedade privada como uma condição necessária para a independência individual, sem responder completamente a questão de como a propriedade privada pode ser mantida sem tribunais e polícia.

Na realidade, Tucker e Spooner escreveram sobre a habilidade do livre Mercado de prover serviços legais e de proteção, então a observação de Landauer não é precisa mesmo em 1959. Mas o ponto interessante é que antes da emergência do anarcocapitalismo moderno, Landauer achou necessário distinguir dois tipos de anarquismo, sendo que ele considerou que somente um fazia parte da ampla tradição socialista.

6. O anarquismo é a mesma coisa que libertarianismo?

Isso é atualmente uma questão complicada, porque o termo “libertarianismo” tem dois significados muito diferentes. Na Europa do século 19, libertarianismo era um eufemismo popular para anarquismo coletivista. Entretanto, o termo não tem o mesmo significado nos Estados Unidos.

Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos intelectuais a favor do livre mercado que se opunham ao conservadorismo tradicional estavam procurando por um rótulo para descrever sua posição, e eventualmente pegavam “libertarianismo” (“Liberalismo clássico” e “liberalismo de mercado” são rótulos alternativos para as mesmas posições essenciais). O resultado foi que em duas culturas políticas diferentes nas quais raramente se comunicavam, o termo “libertário” foi usado de duas formas muito diferentes. Na atualidade, o uso americano tomou completamente a teoria política acadêmica (provavelmente devido a influência de Nozick), mas o uso europeu é ainda popular entre os ativistas anarquistas coletivistas na Europa e nos Estados Unidos.

A confusão semântica foi complicada ainda mais quando alguns libertários americanos logo depois da guerra determinaram que a implicação lógica da sua visão era, de fato, uma variante do anarquismo. Eles adotaram o termo “anarcocapitalismo” para se diferenciar dos libertarianismo mais moderado, mas ainda estavam geralmente felizes em se identificarem com o amplo movimento libertário de livre mercado.

7. O anarquismo é a mesma coisa que socialismo?

Se nós aceitarmos a definição tradicional de socialismo – defesa da propriedade governamental dos meios de produção – parece que anarquistas não são socialistas por definição. Mas se por socialismo nós entendermos algo mais inclusivo, como “defesa de forte restrição ou abolição da propriedade privada”, então a questão se torna mais complexa.

Sob a segunda definição proferida, alguns anarquistas são socialistas, mas outros não são. Fora da cultura política anglo-saxônica, tem havido uma longa e próxima relação histórica entre os socialistas mais ortodoxos que defendem um governo socialistas, e os anarquistas socialistas que desejam alguma espécie de descentralização, como socialismo voluntário. Ambos os grupos querem limitar severamente ou abolir a propriedade privada e portanto ambos se encaixam na segunda definição de socialismo. Entretanto, os anarquistas certamente não querem que o governo seja proprietário dos meios de produção, porque eles não querem que o governo exista em primeiro lugar.

Os anarquistas disputam com os socialistas tradicionais – uma disputa melhor ilustrada pela luta implacável entre Karl Marx e Mikhail Bakunin pelo domínio no movimento proletariado do século 19 – que frequentemente é descrita como um desentendimento sobre os “meios”. Nessa interpretação, os anarquistas socialistas e os socialistas de estado concordam que uma sociedade comunal e igualitária é desejável, mas acusam uns aos outros de propor meios que não funcionam para alcança-los. Entretanto, isso provavelmente subestima o conflito, que também é sobre valores fundamentais: anarquistas socialistas enfatizam a necessidade por autonomia e os malefícios do autoritarismo, enquanto os socialistas tradicionais tem frequentemente desprezados essas preocupações como coisas “burguesas”.

Quando nos voltamos para a cultura política anglo-saxônica, a história é bastante diferente. O anarquismo que é virulentamente contra o socialismo é muito mais comum, e tem sido desde o começo do século 19. A Grã-Bretanha foi o lar de muitos pensadores extremamente anti-socialistas quase-anarquistas no século 19 como Auberon Herbert e Herbert Spencer. Os Estados Unidos teve um campo ainda mais fértil para o anarquismo individualista: durante o século 19, figuras como Josiah Warren, Lysander Spooner e Benjamin Tucker ganharam proeminência por sua visão de um anarquismo baseado na liberdade de contrato e propriedade privada. E no século 20, pensadores que residiam nos Estados Unidos foram os principais desenvolvedores e divulgadores da teoria anarcocapitalista.

Ainda, essa divisão geográfica não deve ser exagerada. O anarquista francês Proudhon e o alemão Max Stirner abraçaram ambos formas modificadas de individualismo; um número de anarquistas de esquerda (geralmente imigrantes europeus) conseguiram proeminência nos Estados Unidos; e Noam Chomsky e Murray Bookchin, dois dos teóricos mais influentes do anarquismo de esquerda moderno residem nos Estados Unidos.

8. Quais são os maiores pensadores anarquistas?

Os mais famosos anarquistas de esquerda foram provavelmente Mikhail Bakunin e Peter Kropotkin. Pierre Proudhon é também frequentemente incluindo apesar das suas ideias da desejabilidade de uma forma modificada de propriedade que poderia levar alguns a excluí-lo do campo esquerdista (alguns das outras heterodoxias de Proudhon incluía sua defesa do direito de herança e seu genuíno antagonismo entre poder estatal e direitos de propriedade). Anarquistas de esquerda mais recentes incluem Emma Goldman, Murray Bookchin e Noam Chomsky.

O anarcocapitalista tem uma origem muito mais recente na segunda metade do século 20. Os dois mais famosos defensores do anarcocapitalismo são provavelmente David Friedman e Murray Rothbard. Houveram alguns precursores interessantes, notavelmente o economista belga Gustave de Molinari. Dois outros anarquistas do século 19 tem sido adotados pelos anarcocapitalista modernos com algumas ressalvas, Benjamin Tucker e Lysander Spooner (alguns anarquistas de esquerda contestam essa adoção, mas em geral, Tucker e Spooner provavelmente tem muito mais em comum com os anarcocapitalista que com os anarquistas de esquerda).

9 Como a anarquia coletivista pode funcionar?

10. Como o anarcocapitalismo pode funcionar?

11. Quais críticas foram feitas sobre o anarquismo?

a. “Uma sociedade anarquista, na falta de alguma autoridade coercitiva central, iria rapidamente se degenerar em um caos violento.”

b. A crítica marxista do anarquismo coletivista

c. O ataque minarquista ao anarcocapitalismo

d. A crítica conservadora ao anarquismo

e. “Nós estamos atualmente em um estado de anarquia.”

12. Quais são os outros pontos de vista anarquistas?

13. Quais justificativas morais foram feitas sobre o anarquismo?

14. Quais são os maiores temas de debate entre os anarquistas? Quais são os argumentos mais comuns?

Sem dúvida, o debate mais repetido entre anarquistas modernos ocorre entre os anarquistas de esquerda em um lado e os anarcocapitalista do outro. É claro, há debates ocasionais entre diferentes facções anarquistas de esquerda, mas provavelmente a maior parte deles estaria contente com uma sociedade anarquistas povoada por algumas misturas de comunas, empresas controladas pelos trabalhadores e cooperativas. E similarmente há alguns debates entre anarcocapitalista, notavelmente a tensão entre o anarcocapitalismo baseado na lei natural de Rothbard e o anarcocapitalismo utilitarista de David Friedman. Mas é o debate entre os anarquistas de esquerda e os anarcocapitalista que é o mais fundamental e o mais problemático.

a. “X não é “anarquismo verdadeiro”.”

b. Anarquismo da variante X é instável e vai levar a re-emergência do estado

c. “Em uma sociedade anarquista nas quais os sistemas X e Y co-existam, X vai inevitavelmente sobrepujar Y.”

d. “Anarquismo do tipo X deve ser pior do que o estado.”

e. Etc.

15. Como os anarquistas lidam com o problema dos bens públicos?

Economistas neoclássicos modernos – especialmente aqueles associados com a teoria economia do bem estar – tem vários argumentos importantes para a necessidades ou desejabilidade do governo. Entre todos eles, o chamado problema dos “bens públicos” é certamente o mais citado. De fato, muitos acadêmicos consideram ele uma justificação rigorosa para a existência e limites do estado. Anarcocapitalistas são frequentemente muito familiares com essa linha de pensamento e gastam tempo considerável tentando refutá-los; anarquista de esquerda são em geral menos interessados, mas ainda é útil ver como os anarquistas de esquerda podem responder.

Nós vamos começar explicando o conceito de ótimo de Pareto, mostrando como o critério de Pareto é usado para justificar a ação estatal, e então examinar como anarquistas devem contestar as premissas subjacentes dessas justificativas econômicas para o estado. Depois de explorar a crítica geral, nós vamos nos virar para o problema dos bens públicos (e as questões de externalidades relacionadas). Depois de mostrar como muitos econômicas acreditam que esses problemas necessitam de ação governamental, nós consideraremos como os anarcocapitalista e anarquistas de esquerda devem responder.

O conceito e uso do ótimo de Pareto em economia

O problema dos bens públicos

O argumento dos “bens públicos” é certamente o argumento econômico mais popular para defender o estado. Ele alegadamente mostra que a existência do governo poder ser um “ótimo de Pareto”, e que a não existência do estado não poder ser um ótimo de Pareto; ou no mínimo, ele mostra que a existência do governo é justificada com base em custo-benefício. Supostamente, existem serviços importantes, como a defesa nacional, que beneficiam as pessoas caso elas paguem ou não. O resultado é que agentes egoístas se recusam a contribuir, levando a um desastre. A única forma de resolver esse problema é obrigar os beneficiários a levantar os fundos para suprir o bem necessário. E para essa coerção funcionar, ela necessita ser monopolizada por uma única agência, o estado.

Argumentos baseados em bens públicos tem sido feitos não somente para a defesa nacional, mas para a polícia, estradas, educação, pesquisa e desenvolvimento (R&D), pesquisa científica  e muitos outros bens e serviços. A característica definidora dos bens públicos é a “não-exclusibilidade”; porque os benefícios não podem ser limitados a seus contribuintes, não há incentivo para contribuir. Uma segunda característica definidora frequentemente atribuída aos bens públicos é sua “não-rivalidade”; minha opinião é que esse segundo atributo somente confunde a questão, já que sem o problema da não-exclusibilidade, a não-rivalidade seria meramente uma outra instância de uma prática ubíqua de precificação acima do custo do custo marginal.

O conceito de externalidades é conectado de forma bem próxima ao conceito de bens públicos; a principal diferença é que economistas normalmente pensam externalidades como sendo “positivas” e “negativas”, embora geralmente eles não discutem os casos negativos de bens públicos. De qualquer forma, nós temos novamente o problema de que agentes realizam ações que prejudicam ou beneficiam outras pessoas, e o prejuízo/benefício é “não-excluível”.  Vítimas de externalidades negativas não podem cobrar de poluidores uma taxa pelo dano, e os beneficiários de uma externalidade positiva não podem ser cobrados pelo seu uso. O governo é supostamente necessário para corrigir essa ineficiência (como normalmente, os economistas focam-se mais na ineficiência do que na injustiça).

Anarquistas de esquerda e anarcocapitalistas provavelmente têm respostas incrivelmente similares a esse argumento, embora, sem dúvida, o tom e a ênfase podem variar.

Objeção #1 As suposições comportamentais da teoria dos bens públicos são falsas.

Objeção #2 Governos não são a única forma possível de prover bens públicos.

Objeção #3 Bens públicos são mais raros do que você pode pensar.

Anarcocapitalistas enfatizam que um grande número de alegados bens públicos e externalidades podem ser facilmente lidados privadamente por empresas se o governo somente permitir a definição de direitos de propriedade. Se os pecuaristas usam um pasto público além da capacidade, porque não privatizar o pasto? Se os pescadores pescam mais que o nível de reposição, porque não privatizar os oceanos utilizando as longitudes e latitudes para a aquicultura? E porque a educação supostamente cria mais externalidades do que qualquer outro tipo de investimento? Similarmente, muitos tipos de externalidades são lidados atualmente com direitos de propriedade. A “responsabilidade civil extracontratual por danos causados a terceiros” (Tort Law), por exemplo, pode dar as pessoas um incentivo para levar em conta a vida e a propriedade de outros quando assumem riscos.

Objeção #4 Externalidades são o resultado de uma mentalidade orientada ao lucro nas quais devem ser domesticadas em uma sociedade anarquista.

Objeção #5 O problema dos bens públicos é inevitável.

16. Os anarquistas são pacíficos?

Novamente, essa é uma questão complicada porque “pacifismo” tem ao menos dois sentidos distintos. Ele pode significar “oposição a toda violência”, ou ele pode significar “oposição a todas as guerras” (conflitos violentos organizados entre governos). Alguns anarquistas são anarquistas no primeiro sentido; a maior parte dos anarquistas são pacifistas no segundo sentido.

a. O pacifismo absoluto de Tolstoy

b. Pacifismo como oposição a guerra

Quase todos os anarquistas, em contraste, concordam em condenar guerras, ou seja, conflitos violentos entre governos. Anarcocoletivistas e anarcocapitalistas olham para guerras como lutas grotescas entre elites dominantes que tratam as vidas de seu próprio povo como utilizáveis e as vidas do “outro lado” como sem valor. É aqui que a forte distinção anarquista entre sociedade e estado se torna clara: onde a maior parte das pessoas vê a guerra como uma luta entre sociedade, anarquistas pensam que a guerra é com toda certeza uma luta entre governos que causam dano mesmo a sociedade do governo vencedor. O que é mais pernicioso sobre a ideologia nacionalista é que ela faz com que membros da sociedade identifiquem seus interesses com os do governo, quando de fato, seus interesses não são meramente diferente, mas em conflito. Em resumo, anarquistas de todos os tipos aderem prontamente a observação de Randolph Bourne: a guerra é o alimento do estado.

A oposição anarcosocialistas a guerra é muito similar a condenação geral da guerra expressa para a corrente dominante dos socialistas internacionais. Em sua visão, a guerra é criada pelo capitalismo, em particular a luta para obter acesso aos mercado no terceiro mundo. “Trabalhadores não tem país” e devem se recusar a apoiar essas lutas entre os capitalistas; porque devemos pagar o terrível custo da guerra quando a vitoria será meramente ser mais oprimido e explorado do que antes? Além do mais, enquanto democracias ocidentais frequentemente defendem a guerra em nome da justiça e do humanismo, o objetivo ou o resultado é defender mais autoritarismo tradicional e a destruição das vidas de milhões de pessoas inocentes. No interior das democracias ocidentais, o ódio dos anarcosocialistas a guerra é frequentemente intensificado por algum senso de simpatia por movimentos revolucionários. Enquanto esses movimentos são geralmente socialistas de estado em intenção, os anarcosocialistas acreditam que esses movimentos são menos ruins do que o autoritarismo tradicional contra o qual eles lutam. Além do mais, a política ocidental de sustentar ditadores locais  levou a movimentos socialistas não-autoritários a aumentar os degraus do totalitarismo. Noam Chomsky é quase certamente o representante mais influente da abordagem anarcosocialista a política externa: ele vê uma tendência consistente dos Estados Unidos proclamando a devoção aos direitos humanos enquanto apoia ditaduras por quais meios necessários.

A crítica anarcocapitalista a guerra é similar em grande parte a análise de Chomsky, mas há uma linhagem e ênfase diferente. Como pode ser visto particularmente nos escritos de Murray Rothbard, a visão anarcocapitalista da guerra repousa fortemente nos liberais clássicos anti-guerra dos séculos 18 e 19, e da tradição isolacionista americana que vem de longa data. Os primeiros teóricos liberais clássicos como Adam Smith, Richard Cobden e John Bright (e depois Norman Angell) argumentaram que a guerra foi causada pelo mercantilismo, prevalecendo a aliança entre governos e suas empresas favoritas. A solução, na visão deles, era encerrar a conexão incestuosa entre empresas e governo. Os isolacionistas americanos foram provavelmente influenciados por essa ampla tradição liberal clássica, mas colocaram mais ênfase na ideia de que guerras estrangeiras eram na melhor das hipóteses uma distração tola, e na pior uma racionalização para a tirania. Ambas as visões argumentaram que políticas de “balanço de poder” levam inevitavelmente a guerras sem fins e gasto militar irrestrito.

Construído acima dessas duas tradições interrelacionadas, os anarcocapitalistas construíram um ataque em várias camada as guerras. Primeiramente, a guerra moderna particularmente merece a condenação moral (de acordo com a teoria de direitos libertária) pela matança generalizada de civis inocentes – seja por bombas ou por embargo a alimentos. Segundo, as guerras levadas a cabo pelas democracias ocidentais no século 20 foram desastrosas e tiveram consequencias inimagináveis: a primeira guerra mundial pavimentou  o caminho para o comunismo, facismo e o totalitarismo nazista; e a segunda guerra mundial ao criar um vácuo de poder na Europa e Ásia, levando mais de um bilhão de pessoas ao despotismo stalisnista. O anarcocapitalista vê esses resultados mais como algo previsível do que meramente acidental: assim como a arrogância dos governantes levam eles a tentar aprimorar a economia de livre mercado, somente para descobrir que em sua ignorância eles causaram um dano terrível, então eles também sofrem da “arrogância fatal” de levar as democracias ocidentais a gastar bilhões de dólares e milhões de vidas antes de descobrir que eles estavam inadvertidamente pavimentando a estrada para o totalitarismo. O terceiro ponto dos anarcocapitalistas contra a guerra é que o seu único resultado é ajudar a expansão doméstica do poder estatal, e previsivelmente, quando as guerras terminam, o poder estatal nunca se contrai aos seus limites originais.

17. Existem exemplos históricos de sociedades anarquistas?

18. O anarquismo é utópico?

Utopianismo é talvez a crítica mais popular feita ao anarquismo. Em uma passagem atípica de seu “Socialismo Europeu”, o historiador socialista Carl Landauer diz:

Há certamente uma verdade nas crenças anarquistas: cada grande organização contém um elemento de força, velado ou aberto, e cada tipo de força é um mal, considerando seus efeitos sobre o caráter humano. Mas ela não é uma mal menor? Nós podemos dispensar a força? Quando essa questão é claramente colocada, a defesa pelo anarquismo parece extremamente fraca. É verdade que o experimento de uma sociedade inteiramente sem o uso da força nunca existiu. Mas tal evidência como nós temos não indica que intenções doentias cessaram de existir se a força repressiva desaparecer, e é claro que uma pessoa mal intencioada pode pertubar uma grande parte da sociedade se não há força repressiva. O fato que alguns homens e mulheres inteligentes e altamente idealistas acreditavam e ainda acreditam no anarquismo mostram que há um tipo de sectarismo que aceita uma crença em despeito de, ou talvez porcausa de, sua aparente insensatez.

Como nós temos visto, entretanto, virtualmente todos os anarcocapitalistas e muitos anarquistas de esquerda aceitam o uso da força em algumas cirscunstâncias. A observação de Landauer seria melhor dirigida aos pacifistas absolutos do que aos anarquistas em geral.

A suposta relutância dos anarquistas em usar força em qualquer cirscunstância é a única razão do porque eles tem sido amplamente notados como utópicos. Algumas vezes a acusação utópica é trivial; por exemplo, qualquer mudança radical é rotulada como “utópica”. Se por outro lado, o “utópico” significa que o anarquismo só poderia funcionar se somente todas as pessoas fossem virtuosas, e portanto, na prática levaria para a imposição de novas formas de opressão, então a questão é mais interessante. Interessante, porque isso é mais ou menos a acusação que diferentes tipos de anarquistas frequentemente usam contra os outros tipos de anaquismo.

Para o anarquista de esquerda, por exemplo, o anarcocapitalismo é baseado em uma fotografia fantasiosa da economica, na qual a livre competição pode de alguma forma levar a prosperidade e liberdade para todos. Para eles, a visão dos anarcocapitalistas de “harmonia econômica” e o funcionamento da “mão invisível” são no melhor dos cenários indesejável, e provavelmente impossível. Por isso, de certa forma eles acusam os anarcocapitalistas de serem utópicos.

Os anarcocapitalistas acusam os anarcocoletivistas de forma similar. Os últimos pensam que alguém em uma socieadade coletivista existiriam sem repressão de individualistas contrários; pensam que os incentivos para a produção não seriam enfraquecidos pela igualdade forçada; e igualariam de forma confusa democracia local com liberdade. Além do mais, eles geralmente não tem explicações de como o crime seria prevenido ou quais salva-guardas preveniriam o surgimento de uma nova elite dominante. Para os anarcocapitalistas, os anarcocoletivistas são irremediavelmente utópicos.

Mas em qualquer caso, provavelmente a maior parte dos anarquistas oferecem uma respsota similar para a acusação de que são utópicos. Ou seja: o que é verdadeiramente utópico é imaginar que de alguma forma o governo pode manter um poder massivo sem levar a um fim monstruoso. Como Rothbard sucintamente colocou:

O homem que coloca todas as armas e todo o poder de decisão nas mãos de um governo central e então diz, “limite-se”; isso que é utopia. A história do século 20 não é uma interminável lista de exemplos dos governos facilmente quebrando as correntes colocadas na sua capacidade de oprimir e até mesmo matar quando ele achar adequado?

19. Os anarquistas não assumem que todos são inatamente virtuosos?

Essa é uma questão perfeitamente razoável, pelo fato do caso que alguns anarquistas esperam uma grande mudança na natureza humana a seguir (ou preceder) o estabelecimento de uma sociedade anarquista. A suposição parcial explica a frequente falta de explicação de como a sociedade anarquista lidaria com o crime, individualistas dissidentes, e outros.

A crença na virtude humana inata é normalmente encontrada entre os pensadores anarquistas de esquerda, mas é claro que disso não se segue que todos os anarquistas de esquerda acreditam na virtude humana inata.

Anarcocapitalistas tem uma visão muito diferente da natureza humana. Enquanto eles normalmente acreditam que as pessoas tem uma forte capacidade para a ação virtuosa (e é para o sendo moral das pessoas que eles frequentemente apelam quando defendem a abolição do estado), eles acreditam que é sábio e necessário consolidar a virtude moral com incentivos materiais. O sistema capitalista de salários, lucros, prejuízos, renda e juros desiguais, não é somente moralmente justificável, mas vitalmente necessários para a preservação e expansão da economia. Em resumo, anarcocapitalista acreditam e de fato dependem de algum nível razoável de moralidade humana, mas preferem se garantir sobre incentivos materiais quando factível (similarmente, eles condenam moralmente o crime e acreditam que a maior parte das pessoas não desejam cometer crimes, mas favorecem fortemente alguma espécie de sistema de justiça criminal para deter os verdadeiramente imorais).

20. Os anarquistas não são terroristas?

Os anarquistas não são terroristas? Bem, alguns deles são; na verdade, a grande maioria de grupos não governamentais que matam e destroem propriedades para atingir objetivos políticos acreditam que o governo deve existir (e que eles devem ser o governo). E dado que a existência de tais terroristas estatistas são um argumento pobre para o anarquismo, a existência de terroristas anarquistas é um argumento pobre contra o anarquismo. Para praticamente toda ideia, haverá sempre aqueles que defendem o avanço por meio da violência.

É verdadeiro, entretanto, que na virada do século, um certo segmentos de anarquistas defenderem o que eles chamaram de “propaganda pelo ato“. Muitos políticos foram assassinados por anarquistas, junto com empreendedores, industrialistas, financistas, entre outros. Um dos episódios mais famosos foi quando o jovem Aleander Berkman tentou matar o industrialista do aço Henry Frick. Durante esse tempo, os anarquistas de esquerda ficaram divididos sobre a permissibilidade do terrorismo; mas muitos se opuseram fortemente a isso. E os anarquistas individualistas como Benjamin Tucker quase sempre viam as atividades terroristas como contra-produtivas e imorais, quando inocentes eram envolvidos (como de costume).

O argumento básicos dos defensores da “propaganda pelo ato” foi que o terrorismo anarquista poderia provocar os governos – mesmo os governos liberais e democráticos – a usar de forma crescente meios mais brutais para a restaurar a ordem. Com a brutalidade governamental aumentando, a natureza do governo ficaria clara para todos verem, levando a resultados mais imediatos do que a mera educação e investigação. Como E. V. Zenker notou em seu “Anarquismo: uma crítica da história da teoria anarquista”, um número relevante de governos ocidentais foram levados a adotar legislações como resultado do terrorismo anarquista (Zenker foi além em notar que a Grã-Gretanha permaneceu firme em sua herana liberal ao recursar punir indivíduos meramente por defenderem ideias anarquistas). Mas como alguém poderia esperar, ao contrário do que esperavam os terroristas, foi a reputação do anarquismo que sofreu mais do que a reputação do estado.

Sem dúvida o terrorista moderno mais famoso da tradição da “propaganda pelo ato” é o autoproclamado Unabomber, que explicitamente se rotulou como um anarquista em seu agora famoso manifesto. Em seu manifesto, o Unabomber fez relativamente poucas tentativas de se identificar com qualquer figura particular na tradição anarquista, mas professou familiaridade e concordância generalizada com a corrente anarquista do movimento ambientalista radical. Uma grande parte do seu manifesto critica a cooperação dos ambientalistas com os socialistas, ativistas defensores das minorias, e outros grupos de esquerda; o ponto da sua crítica não é propor uma aliança com os conservadores, mas rejeitar alianças com pessoas que falham em rejeitar a tecnologia. A parte mais positiva do manifesto argumento que liberdade e tecnologia são inerentemente incompatíveis, e esboça um programa para a destruição da indústria moderna e do conhecimento científica necessário para sustentá-la.

A maior parte dos anarquistas – especialmente na atualidade – se opoem fervorosamente a matança de inocentes puramente em bases morais (como a maior parte dos não-anarquistas o fazem, e por meio do qual geralmente os anarquistas classificam os mortos nas guerras como vítimas do estado). Não-violência e pacifismo agora inspiram muito mais pensadores anarquistas do que as visões de terror descontrolado. Anarquistas de diferentes perspectivas tem sido inspirados pelos escritos do francês do século 16, Etienne de la Boetie, no qual o quase anarquista “Discurso sobre a Servidão Voluntária“ ensaia uma teoria detalhada de uma revolução não-violenta. La Boetie explicou que já que o governo depende da crença difundida da sua legitimidade para governar, o despotismo poderia ser pacificamente derrubado por meio da recusa de cooperar com o estado. Henry David Thoreau incluenciou muitos movimento de protesto não-violentos com uma temática similar em “A Desobediência Civil“. Como Thoreau colocou:

“Se as alternativas são manter todos os homens justos na prisão ou aceitar a guerra e a escravidão, o estado não hesitará em escolher.”

O sucesso das revolução anti-comunistas não-violentas conferiu novo apoio a tática recomendada por La Boetie  e Thoreau.

Mas os anarquistas tem uma razão mais instrumental para se opor ao uso da violência. Terrorismo tem sido muito efeitivo em estabelecer novos regimes, ainda mais opressivos; e é praticamente impossível encontrar qualquer caso onde o terrorismo levou a uma maior liberdade. Principalmente devido ao instinto natural da população de ampliar seu apoio ao governo quando o terrorismo está crescendo; então o terrorismo normalmente leva a mais brutalidade e regulações mais opressivas pelo estado existente. E quando o terrorismo obtem sucesso e destruir o governo existente, ele simplesmente cria um vácuo de poder sem mudar fundamentalmente a cabeça de ninguém sobre a natureza do poder. O resultado previsível é que um novo estado, pior que o seu predecessor, vai surgir para preencher o vazio. Portanto, a importância de usar táticas não-violentas para avançar as ideias anarquistas é difícil de ser superada.

21. Como uma sociedade anarquista pode ser alcançada?

Em algum nível, a maior parte dos anarquistas modernos concordam completamente que a educação e persuasão são os meios mais efeitos de levar a sociedade para seu destino final. Há a convicção de que “ideias importam”; que o estado existe porque a maior parte das pessoas honestamente acreditam que o estado é justo, necessário e benéfico, apesar de alguns inconvenientes. Winston Churchill disse que, “democracia é a pior forma de governo, forma todas as outras tentadas”. O objetivo dos anarquistas é refutar a afirmação de Churchill: mostrando que ao contrário da crença popular, a democracia ocidental não é somente ruim, mas inferior a uma alternativa muito diferente e realista.

Além disso, a similaridade entre as abordagens anarquistas entram em conflito. Em particular, como deve ser a fase de transição? Anarcocapitalistas geralmente veem cada redução no poder e atividade governamental como um passo na direção correta. Em consequência, eles usualmente apoiam qualquer medida para desregular, eliminar leis, e cortar impostos e gastos. Similarmente, eles podem somente saudar a propagação da economia do submundo ou o “mercado negro”, sonegação de impostos, e outros atos que desafiam as leis injustas.

A transição desejável para os anarquistas de esquerda é mais problemática. É difícil apoiar a expansão do estado quando é o estado que ele se opõem fervorosamente. E ainda, é difícil defender a abolição dos programas de bem estar social quando eles são um importante meio de subsistência da classe baixa da sociedade capitalista oprimida. Talvez o passo intermediário mais viável seja expandir as alternativas voluntárias a sociedade capitalistas: comunas voluntárias, cooperativas, empresas controladas pelos trabalhadores, ou qualquer coisa que liberte as pessoas e que possam fornecer as pessoas suas necessidades enquanto eles convencem os outros.

 

Esse FAQ é amplamente baseado no
FAQ Anarquista criado por Bryan Caplan
e conta com inúmeras partes dele traduzidas.