Cultura & Humor protesto libertario

Publicado em 1 de fevereiro de 2014 | por Rodrigo Viana

Perspectivas sobre o movimento libertário

Recentemente houve uma certa polêmica envolvendo a entidade Estudantes Pela Liberdade sobre uma questão que, bem, não deveria ser nada polêmica. O burburinho aconteceu por causa da criação de um grupo de estudo interno focado na sociedade LGBT. Batizado de EPLLGBT, o grupo aparentemente visa discutir questões sobre as liberdades civis dos homossexuais sob um ponto de vista individualista. Algo não muito comum na academia brasileira se levarmos em consideração o ponto de vista abordado.

Quando eu soube do projeto fiquei um tanto curioso em querer conhecer, já que particularmente vejo isso de forma uma bem favorável. Torço para o EPL nessa nova empreitada, para que consiga trazer alguma uma luz sobre essa questão tão enviesada.

Como era de se esperar, o simples anúncio desse projeto causou uma comoção generalizada, ao menos entre algumas pessoas que seguem a página no Facebook, cuja as posições são mais alinhadas ao pensamento conservador. O que sucedeu foram discussões contrárias infrutíferas e intermináveis, bate-bocas e o velho disse-me-disse. A famosa fofoca.

Eu não sei você, leitor, mas se eu fizesse parte de um grupo que possuísse uma base filosófica de ideias radicalmente destoantes (radical no sentido original da palavra, da raiz) das quais eu acredito, mesmo achando que pudesse haver uma ou outra coisa relativamente similar com as quais eu creio, o mínimo que eu faria numa situação dessas seria ficar quieto e seguir com a minha vida. Afinal, eu já estaria ciente das diferenças o dos resultados que pudessem vir com o tempo.

Na verdade, acredito que isso vá além de meras diferenças de pensamento. Vejo estes comportamentos como ações de pessoas sem educação, sem respeito pelo “território alheio”. Quem seria o estranho no ninho, eu, com ideias destoantes do grupo, ou o próprio grupo?

Tudo isso só faz voltar à tona aquela velha discussão, aliás muito saturada, das alianças entre grupos políticos distintos. Eu não pretendo aqui tecer passagens demonstrando o quão antagônico são as ideias libertárias em relação ao conservadorismo. Não é esse o foco do assunto.

No entanto, tudo isso me fez lembrar certas posições do qual eu tinha anos atrás. Como muitos, eu achava que um fusionismo político, a ideia de união entre libertários e conservadores, pudesse trazer benefícios razoáveis para ambos. Conforme fui pesquisando e compreendendo, tanto sobre suas diferenças quanto sobre suas histórias, percebi o quão equivocado eu estava.

Meses atrás eu li um artigo da libertária Andrea Faggion abordando esse mesmo tema, o tal fusionismo. E a conclusão dela não poderia estar mais certa, concordo com praticamente tudo. Mais anteriormente, eu tinha lido um texto do teórico libertário radical Samuel Konkin, o fundador da teoria agorista, dando seu testemunho do surgimento do movimento libertário. Movimento este do qual somos descendentes.

O porquê de eu ter mencionado seus nomes foi por causa deles sustentarem similaridades em seus discursos. Embora eu queira manter uma visão mais superficial dos dois textos, sem pretensão em entrar nas particularidades de cada um, vou destacar alguns pontos de ambos. A Andrea diz:

…vale mais a pena que libertários façam concessões e caminhem para o centro, visando a construção de uma candidatura política minimamente viável em eleições majoritárias, ou que continuem meramente aproveitando os holofotes do palanque para divulgarem a doutrina em sua pureza filosófica?

Eu sou pela última alternativa, porque a batalha política é, acima de uma batalha por cargos, uma batalha por corações e mentes que o libertarianismo já sai perdendo.[...] A batalha a ser ganha, insisto, é a batalha por corações e mentes dos mais jovens!

[...]o fato é que eu não vejo nenhum interesse para o movimento libertário, em fase de expansão, em fazer alianças com conservadores ou concessões centristas. Agora, é a hora de tornar nossos princípios mais conhecidos, e não de confundir o público misturando esses princípios a outros que não são apenas estranhos ao discurso libertário, mas até mesmo incompatíveis com ele.

E ela continua: “alianças podem e devem ser feitas quando se trata de votar em matérias pontuais, sobre as quais, acidentalmente, princípios diferentes podem muito bem convergir. No entanto, jamais deve haver alianças doutrinais” O texto é esclarecedor, sugiro que dê uma lida.

Indo agora de encontro ao texto de Konkin, ele nos dá uma uma visão panorâmica do que ocorria nas universidades americanas. Até porque ele foi um dos principais ativistas da época, atuando ao lado de nomes importantes como Robert LeFevre, Murray Rothbard, Leonard Read e Karl Hess. Mas antes de traçar um paralelo, vou comentar um pouco do surgimento da história do movimento. Vale lembrar que o surgimento do libertarianismo como ativismo político acadêmico surgiu na conturbada década de 1960.

O ativismo libertário se levantou não apenas como uma força contrária ao imperialismo bélico da direita, mas como um grupo que fazia coro ao lado de muitas reivindicações dos movimentos estudantis da época. O libertarianismo fez parte desse fenômeno cultural.

O movimento político americano conhecido como Nova Esquerda (New Left) foi amplamente abraçado pela massa de jovens libertários. A Nova Esquerda foi um movimento que reunia diversos grupos diferentes do qual compartilhava ideias semelhantes: a liberdade e o anti-autoritarismo. Era essa busca de ideias pontuais comuns (como os protestos contra a Guerra do Vietnã) que fazia os libertários andarem próximos de anarquistas, hippies, social-democratas descentralistas, pacifistas, ativistas (como os defensores das liberdades civis para mulheres e negros) e todo tipo de grupo pró-liberdade. Isso era bem visível nas diversas convenções estudantis, envolvendo a participação conjunta de libertários individualistas e socialistas. Nessa época a contracultura andava junta com o movimento libertário, uma vez que ele nasceu nesse ambiente cultural pluralista e tolerante, de muitas diferenças mas bastante acolhedor.

Mas como tudo que é bom dura pouco, o movimento foi perdendo suas forças. Sua personalidade marcante de outrora, sua postura radicalmente anti-política foi se perdendo e começando a abraçar um discurso mais moderado e palatável. Não é à toa que depois disso veio o nascimento de um partido político, institutos pró-fusionismo e até revistas auto-proclamadas libertária apoiando políticas belicistas pelo mundo.

Toda essa reviravolta ocorreu durante os anos 80, a década que sepultou o comunismo no mundo inteligente e que deixou muitos marxistas perdidos e descrentes com seu ideal.

Uma vez que o movimento libertário nascera como oposição contra a direita, muitas vezes sendo visto como de esquerda pela elite intelectual conservadora da época, seria natural que seu discurso se adequasse como fator de esperança para os socialistas do pós-Muro de Berlim. Socialistas estes descrentes e órfãos de uma ideologia. Aliás, foi exatamente esse raciocínio que Konkin teve.

Quer dizer, os socialistas falam de melhoria social? Aponte soluções libertárias. Fala de luta de classes? Apresente a teoria de classes libertária. Eles desejam liberdade civil? Os libertários podem lidar com isso. E assim por diante.

Um movimento que nasceu verdadeiramente como oposição foi, aos poucos, se tornando um aliado indireto do status quo. A direita, antes adversária política, se transformou, de uma hora pra outra, na sua melhor aliada. Mais uma vez o erro do fusionismo se repetindo.

Lá pelas tantas, quando o movimento já havia se concretizado, Konkin comenta as “desvirtuações” de estratégia e postura diferentes das adotadas no início do movimento. Veja bem, no momento mais propício do libertarianismo se mostrar como a nova oposição e ser abraçado pelos socialistas órfãos como a opção de esperança, ele fez o contrário. Na sua natureza mais íntima, o que os socialistas buscam é uma visão de esperança, mudança e melhoria. Uma utopia no melhor sentido da palavra. E o libertarianismo pode oferecer tudo isso.

Isso não seria fazer “fusionismo com a esquerda”, mas dialogar para apresentar algo novo, ideias diferentes e um novo caminho. Por isso que é importante que o libertário comum entenda que ele não deve ser anti-esquerda, mas pró-liberdade. Precisa antes ser empático com as causas progressistas e promovê-las com um viés tipicamente libertário.

O movimento como um todo necessita do diálogo com os progressistas, social-democratas, ambientalistas, socialistas, ativistas de liberdades civis e toda essa gente. São eles quem possuem o monopólio das virtudes e da esperança no país e do corpo intelectual. Nosso diálogo deve ser apresentado e debatido com eles pois quem, senão eles, que possuem um corpo plural e independente atuando no cenário político brasileiro?

Mas para isso o movimento precisa se manter firme em seu ideal. Sem fazer concessão idealística. Aliás, não foi o radicalismo que fez do comunismo ser a maior força politica do século passado?

Pegando carona no ponto de vista de Konkin, eu vejo algo parecido também no Brasil. A esquerda tradicional, socialista, mudou muito desde sua ascensão da era varguista. O comunismo foi derrotado, a social-democracia está em frangalhos no mundo e a geração dos anos 60 que foi contra a ditadura militar é está que esta no poder. É a geração dos mensaleiros e do PT desacreditado por muitos. Acredite, muitos jovens que se veem como “esquerdistas” estão desacreditados com seus representantes. Se agarram ao que existe porque não tem uma nova opção. Ou melhor, não tinha…

Nós, libertários, não estamos no tempo de nos preocupar com cargos públicos, abrandar discursos ou partidos políticos. Na realidade sequer precisamos de partido, seja ele novo ou da liberdade. Nosso tempo é o de levar a mensagem da liberdade a todo custo, caso os libertários realmente queiram ser vistos como a grande força política desse novo século.

Resumindo, se o movimento libertário fizer concessão às ideias conservadoras, perde. Se o movimento libertário adotar posturas e comportamentos conservadores, tanto socialmente quanto economicamente, perde.

Perde porque os socialistas já tem o monopólio da oposição e da esperança.

Se o movimento libertário atuar além, como uma espécie de força parapolítica, agregando novas cabeças e tomando parte do poderio dos socialistas, tem chances de adentrar no embate político e se mostrar como uma opção diferenciada. Por favor, não entenda isso como briga partidária porque não é sobre isso.

O conservadorismo no Brasil, como força política ativa, é algo morto, inerte e sem grandes perspectivas para o futuro. Não há necessidade alguma dos libertários, do qual já possuem uma pequena estrutura em início, fazer concessão de ideias para um grupo inexistente. O que eu quero dizer é que o movimento libertário hoje é um movimento de vanguarda, exatamente como fora os socialistas brasileiros na década de 60.

Esqueça os conservadores e o absurdo da tal dessa “Nova Direita”. Quando eu digo esquecer, falo de modo literal, para entender que eles não existem e não são ninguém até o presente momento. Seu ativismo presente em épocas antigas jaz desde o fim da UDN. Não vai acontecer uma “marcha da família” tão cedo. Isso pode parecer um tanto soberbo de minha parte, mas pense comigo. Por que os libertários necessitam de dialogar com um grupo do qual sequer existe? Aliás, conversar com quem? Com que pessoa ou grupo? Não faz sentido isso.

Sim, os conservadores tem seus porta-vozes na mídia, mas estão sem força representativa na academia e no ativismo. Não estamos nos EUA, onde existe um grande partido que os represente, do qual praticamente obriga os libertários a dialogar com diversas forças políticas. Nosso cenário é outro! E vendo por esse lado, parece até mais animador pois o nosso adversário é apenas um e não dois como lá. Por isso que o movimento libertário deve atuar para e somente consigo mesmo.

Quando você achar que as coisas não parecem não se caminhar bem, lembre-se: nós somos a nova e verdadeira vanguarda política deste país. Acredite.


Sobre o autor

Rodrigo Viana

Rodrigo Viana é desenvolvedor de software, escreve para o blog 'Mercado Popular' e mantém os blogs 'A Esquerda Libertária' e 'Libversiva!'. Seu twitter é @VDigo.



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