Educação escola militarizada

Publicado em 8 de abril de 2014 | por Adriel Santana

A militarização das escolas públicas: Uma consequência lógica do sistema

Todo ano quando é divulgado pelo MEC a lista das escolas públicas que obtiveram as melhores notas no ENEM, há sempre um elemento constante: a presença dos colégios militares nesse seleto grupo. O motivo para esse fenômeno não é certo, mas existem vários palpites: maior disciplina e organização na escola, sensação dos alunos de responsabilidade pelos deveres e punição aos “desvios”, calendário de aulas especial visando facilitar o aprendizado dos alunos etc.

Fato é que, independente dos reais motivos que tornem os colégios militares figuras carimbadas entre os principais “centros de excelência” do sistema público de ensino, uma escola militarizada consegue, de forma geral, se mostrar mais eficiente que os demais centros de ensino público em testes realizados pelo MEC e em números de aprovados em vestibulares.

Se por um lado colégios militares não é uma novidade, escolas militarizadas com certeza é. Justamente isso que ocorreu, conforme noticiado pelo O Globo, em dez colégios do Distrito Federal que desde janeiro são administrados pela Polícia Militar do estado. A medida, segundo as autoridades, é justificada como uma forma de conter a crescente violência e sensação de insegurança entre alunos, professores e demais profissionais das escolas.

Numa análise rápida, o leitor pode considerar essa medida, levando em conta inclusive as informações passada nos primeiros parágrafos desse texto, como boa e razoável. Até mesmo o blogueiro da Veja “favorito” dos libertários adorou a medida. Afinal, se tais colégios rendem bons resultados dentro do sistema público, qual seria o problema? Permitam-me ir além: por que não militarizamos logo todos os colégios públicos de uma vez (ignorem problemas fáticos para concretizar tal proposta)?

Eu estudei em um colégio militar. Completei todo o meu ensino médio em um. Fui inclusive um “aluno graduado” (nome dado a estudantes que atingem as maiores notas obtendo títulos militares a depender da sua série ou ano). Informo tudo isso para não soar suspeito ao leitor diante da crítica que segue nesse texto. E ela é bem simples, podendo ser resumida da seguinte maneira: o motivo dos colégios públicos funcionarem tão bem sobre o comando de militares, diz mais sobre a natureza do nosso sistema de ensino atual do que sobre as supostas qualidades dos colégios militares em comparação com as escolas públicas de forma geral.

Há muito tempo, especialistas veem tentando encontrar soluções para os graves problemas do ensino público nacional. As propostas são as mais diversas, algumas (na teoria) boas e outras nem tanto. Contudo, são poucos aqueles que se focam na simples questão da estrutura do colégio contemporâneo e sua função principal. Nós do Portal Libertarianismo já expomos em textos e vídeos nossas críticas ao modelo de atual das escolas (Veja aqui, aqui e aqui).

O ponto central da nossa crítica a militarização das escolas, ao contrário do que os especialistas entrevistados pelo jornal argumentam, está simplesmente em reconhecer que esse processo é mera decorrência lógica da própria estrutura educacional moderna. Colégios militares e congêneres são os melhores dentro do sistema de ensino atual porque estão mais de acordo com a estrutura do próprio sistema de educação.

Sim, os colégios militares obtêm melhores rendimentos dos seus alunos em testes que avaliam a qualidade do ensino. Contudo, ninguém parece se incomodar realmente com o que exatamente está sendo ensinado às crianças e jovens nas escolas. Mais ainda: se a estrutura de um colégio moderno (e isso vale para a maioria deles ao redor do mundo) já se assemelha bastante a de uma prisão, como bem assinala o professor de psicologia Peter Gray, é evidente que destruir logo essas aparências, deixando a vista de todos a real natureza do nosso ensino, fará com que o modelo em voga possa atingir seus objetivos de forma mais eficaz, sem meios termos ou desculpas.

Como libertário, posso afirmar que a “sorte” dos brasileiros, a qual impede que aquela proposta de militarização ampla e geral de todos os colégios seja levada a cabo, reside justamente em dois fatores: a ineficiência estatal, que o torna incapaz por vários motivos de levar um plano desses adiante, e (oh, ironia!) os seguidores do “educador” Paulo Freire, que se focam mais na ideologização dos estudantes do que em transmiti-los conhecimentos teóricos e práticos.

Portanto, o problema das nossas escolas não é se estas devem ser comandadas por militares, sendo moldadas sobre seu código de regras e conduta, ou por civis interessados mais em “formar cidadãos” (seja lá o que isso signifique) do que em ensinar conteúdo propriamente dito. Essa questão é, no fim, irrelevante para solucionar a causa do problema do sistema educacional. Se focar nisso consiste apenas em pôr um véu que esconde o real tema a ser discutido e colocado em xeque pela sociedade: a natureza do sistema de ensino atual.

Afinal, o que esperamos realmente do processo educacional? Queremos que as escolas formem protótipos mirins de militares, “cidadãos conscientes” ou simplesmente sejam locais que permitam aos estudantes obter o conhecimento que estes desejam adquirir, para construir assim a vida que pretendem ter? No fim, o real dilema que se coloca a nossa frente é se preferimos levar as últimas consequências nosso modelo de ensino atual ou vamos finalmente libertar a educação dos seus pretensos “salvadores”.

Talvez esteja mais do que na hora de experimentarmos um modelo educacional realmente livre; Talvez, a “solução” não tenha que se limitar entre optar por crianças militarizadas ou “cidadãos com consciência social”. Talvez, simplesmente, precisemos deixar nossas crianças em paz de uma vez por todas.


Sobre o autor

Adriel Santana

Formado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Articulista do Instituto Liberal e do site Liberzone. Colaborador, entre 2010 e 2012, do blog cultural Série Maníacos.



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