Esquerda Libertária left-lib2

Publicado em 30 de maio de 2014 | por Rodrigo Viana

Libertarianismo dissidente

Se você acha que libertarianismo de esquerda é uma filosofia ou teoria política própria, se enganou. É tão somente um movimento exclusivamente americano (ele sequer existe fora dos EUA) dissidente da corrente principal do libertarianismo, geralmente chamado de libertarianismo de direita ou somente libertarianismo. Não se vendo representado por esta corrente principal, o libertarianismo de esquerda é composto por alguns grupos internos bem distintos. Objetivistas, anarco-capitalistas, liberais clássicos[1]? Não, estes não fazem parte da ala esquerdista do movimento.

Este movimento, datado do início dos anos 70, foi criado por liberais radicais insatisfeitos com o curso que o movimento libertário estava tomando, pois se sentiam mais próximos das reivindicações da esquerda da época e do qual acabaram adotando uma postura de cruzamento com o anarquismo. Tanto na teoria quanto na prática. Uma vez que o anarquismo é uma corrente esquerdista (de uma linhagem libertária do socialismo) estes liberais “de esquerda”, do qual se viam como parte desse esquerdismo libertário, começaram a defender posições que não se via nem nos mais radicais anarco-capitalistas. Desse modo, eles abraçaram o discurso anarquista em favor de sociedades baseadas no solidarismo, na economia e política gerenciada em nível local e na oposição a qualquer tipo de instituição centralizada (hierarquia).

Basicamente o movimento libertarianismo de esquerda é composto por três grupos internos. A primeira geração deste movimento se iniciou com um grupo de seguidores de Murray Rothbard, da época em que ele se alinhava com movimentos esquerdistas americanos. Tais seguidores são conhecidos como rothbardianos de esquerda[2]. São pessoas que se apoiam na filosofia política de Rothbard, mas interpretada de um viés esquerdista/ anarquista. Por essa maneira eles tendem a recusar o rótulo de anarco-capitalista. Entre esses rothbardianos também existe a ala chamada agorismo, que é apoiada na teoria de Samuel Konkin. Como o agorismo possui certas diferenças teóricas com a teoria tradicional de Rothbard, seus seguidores costumam adotar posições incomuns ou até contrárias ao que um anarco-capitalista defenderia. É uma teoria bem interessante e vale a pena conhecer.

A segunda geração veio com uma outra linhagem de liberais radicais, mas enraizadas nas teorias do liberal Henry George. Assim como os rothbardianos, os seguidores radicais de George, chamados de georgistas libertários (ou geolibertários), também são liberais anti-estado que adaptaram as ideias de Henry George com as do anarquismo. E um dos grandes responsáveis por levar as teorias de George para um nível radical (assim como Rothbard em relação a Mises) foi o teórico Albert Jay Nock. A questão principal que faz os georgistas se diferenciarem de outros liberais está na interpretação da teoria econômica que eles dão à terra. Por contar com uma teoria diferenciada, eles às vezes se aproximam da visão que os mutualistas tem em relação a terra.

E a última geração, os mutualistas. Diferente dos dois primeiros que vem da tradição liberal, estes vem da tradição socialista libertária, por isso são anarquistas legítimos. Embora suas ideias se originaram das teorias de Proudhon, nos EUA os mutualistas são mais conhecidos por se apoiarem nos trabalhos de intelectuais do anarquismo individualista americano do século 19 como Lysander Spooner, Benjamin Tucker, William B. Greene e entre outros. O apoio a individualidade e a mercados livres fez com que os grupos acima se aproximassem dos mutualistas, muito embora mutualistas visam os mercados em uma forma diferenciada da visão liberal por contar com teorias distintas.

O que é interessante salientar é que estes grupos possuem particularidades bem distintas e por isso mesmo não podem ser vistos de forma única. Por exemplo, alguém poderia perguntar se este movimento é um “movimento liberal de esquerda”. A resposta na verdade seria não, uma vez que os mutualistas se consideram como parte do pensamento socialista, mesmo cooperando com os grupos de origem liberal num mesmo movimento. Então o que os unem? A busca por sociedades mais livres, horizontalizadas e solidárias, onde cada indivíduo e comunidade possa usufruir totalmente de seus benefícios colhidos.
Não existe (por enquanto) no Brasil um movimento que siga uma linha parecida com o americano, embora haja esforços em relação a construção de um movimento com linguagem, roupagem e funcionamento próprio, até mesmo para se distanciar do rótulo americano “libertarianismo de esquerda”. Um movimento com grupos e institutos voltados para a nossa realidade.  O futuro é promissor e a tendência é positiva, então vamos aguardar.

Notas:

[1] Dentre os liberais clássicos podemos destacar os liberais bleeding heart que, mesmo estes não sendo parte do grupo esquerdista do libertarianismo, vem cooperando com eles de forma substancial.
[2] Para uma melhor compreensão do que vem a ser os rothbardianos de esquerda, leia este e este texto.


Sobre o autor

Rodrigo Viana

Rodrigo Viana é programador, tradutor e escreve para os blogs 'Mercado Popular', 'A Esquerda Libertária' e mantém o blog 'Libversiva!'. Siga seu twitter: @VDigo.



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