Filosofia Conexão

Publicado em 22 de janeiro de 2014 | por Alberto Benegas Lynch

O libertarianismo como anti-ideologia

Basicamente existem três acepções para a expressão ideologia. A interpretação marxista do termo consiste em afirmar que é uma falsa teoria que origina-se de uma “falsa consciência” que, por sua vez, é consequência da lógica burguesa, a qual oculta a realidade social.

Embora exista nuances que advém de raízes hegelianas, o polilogismo marxista leva a essa concepção da ideologia. Bem há se observado em diversas oportunidades que Marx nunca explicou em que consistia as diferenças entre a lógica burguesa e a lógica proletária. Além disso, nunca explicou como funciona e em que consiste a mudança da lógica de quem passa da condição de proletário a de burguês ou vice-versa, nem em que consiste a lógica do filho de um proletário com um burguês. Este modelo sem fundamento também foi usado pelos nazistas numa espécie de polilogismo racista. É por isso que Hitler em meio a confusão entre raça e religião pode afirmar que “a raça judia é antes de tudo uma raça mental”.

A segunda acepção a qual quero me referir nesse texto é a que define a ideologia como um conjunto de ideias, como o estudo sobre a origem e a classificação das ideias.

Neste caso, todas as concepções são ideologias; inclusive aquelas que falam da morte das ideologias estão, de fato, delineado uma ideologia. O homem age por meio de ideias. O ser humano recorre a conceitos que são integrações mentais, são ideias que concebem a compreensão, as quais se expõe por meio da linguagem como forma de comunicação com outros seres humanos. Neste contexto, dizer que as ideias ou um conjunto de ideias (ideologia neste acepção) morreram é completamente sem sentido. Normalmente, estas declarações vem daqueles que já perceberam a inconveniência das velhas ideias e não tem a coragem de declará-la.

Quando está decepção com as ideias apoiadas no passado não é substituída por outras concepções filosóficas se opta por declarar a morte de todas as ideias e se adere ao pragmatismo, sem perceber que esta também é uma ideia  (ou uma ideologia no conceito antes apontado). Uma ideia que dá as costas a princípios éticos que se traduzem em respeito ao próximo, mas uma ideia afinal. Diferente é a posição dos chamados convertidos, que não apenas percebem os erros das ideias as quais previamente aderiram, mas que as substituíram por um conjunto de ideias que consideram explicar de melhor modo a realidade. Estas pessoas declaram abertamente seu erro e inclusive, em alguns casos, escrevem sobre as características do processo de transição de uma posição a outra.

Por último, a terceira acepção do termo, expressa um conjunto de argumentos, teorias e objetivos que se constituem em um programa socioeconômico. A interpretação contemporânea deste acepção foi ampliada para assimilar a noção de um esquema político fechado, que pretende estabelecer por meio do poder o conjunto de fins e metas que deve ser perseguido pelo ser humano.

Neste sentido, a ideologia constitui-se num perigo real. É um perigo maior que a concepção marxista, que por ser incompreensível e inexplicável, termina sendo utilizada como ferramenta de choque por parte de ativistas. Contudo, esta terceira acepção não é incompreensível nem inexplicável. Se traduz na expressão cabal do racionalismo construtivista e na engenharia social. Estabelece um sistema padrão elaborado pela mente de certos indivíduos encarregados de aplicá-lo. Consiste na imposição de valores específicos e detalhados para os governados. É um sistema necessariamente autoritário.

Aqui se revela nitidamente a arrogância do intelecto que pretende conhecer o que na realidade convêm aos demais e o impõe pela força. Esta abordagem ideológica objetiva manipular o ser humano como se este fosse um objeto de argila que deve ser refeito a imagem e semelhança das noções caprichosas do seu designer.

É neste sentido que o libertarianismo é uma anti-ideologia por excelência. Sua coluna vertebral está baseada no respeito ao próximo. O libertarianismo como libertarianismo não se pronuncia sobre os fins que cada um almeja perseguir. Cada um responderá somente a sua consciência e a Deus por seus atos e também os governantes por aquelas ações que lesam direitos de terceiros. Esta postura só permite o uso da força estatal no sentido defensivo.

O libertarianismo abre as portas para um processo de constante descobrimento que facilita a evolução cultural, ao mesmo tempo que revela que não há fronteiras para o conhecimento e o autoaperfeiçoamento. A suposta onisciência e onipotência do espírito autoritário contrasta com a rejeição do libertário em controlar a vida e o fruto do trabalho alheio.

Para o libertarianismo não há temas fechados que assegurem o respeito ao próximo. Debates sobre privacidade, monóxido de carbono na atmosfera, emissões sonoras, privatização de ondas aéreas de rádio e televisão constituem só alguns exemplos do deslocamento das fronteiras sempre móveis, a partir da perspectiva libertária, sobre os efeitos de permitir a cada um seguir seus valores pessoais em consistência com seus projetos de vida, sem agredir projetos de vida de terceiros. Este processo de mudança de fronteiras e refutação de teorias anteriores requer abertura mental, também em nítido contraste com o relativismo epistemológico.

Sem dúvida que este processo precisa ser alimentado constantemente. Afirmar que atualmente o mundo se move inexoravelmente para uma sociedade aberta é, no melhor dos casos, um erro. Não devemos cometar o erro do historicismo marxista que supõe existir “ciclos inexoráveis da história”. Nada há de inexorável nesta área. Os resultados nunca são definitivos. Todas as posições são temporárias. O êxito ou fracasso depende da fertilidade dos respectivos argumentos e, nessas discussões, o valor das palavras tem suma importância. Está aí, entre outras coisas, o cuidado que se deve ter com a expressão de múltiplos significados chamada “ideologia”.


Sobre o autor

Alberto Benegas Lynch

Alberto Benegas Lynch tem pós-doutorado em economia e leciona em universidades da Argentina desde 1968. É professor emérito Escola de Pós-graduação em Economia e Administração de Empresas (Eseade) e ministra aulas no mestrado em Direito e Economia da Universidade de Buenos Aires (UBA). Lynch foi reitor da Faculdade de Economia da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, por 23 anos. Além de economia, o professor também é especialista em Administração de Empresas e Análises Econômicas do Direito.



Voltar ao Topo ↑