Cultura & Humor choque de gerações

Publicado em 17 de fevereiro de 2014 | por Rodrigo Viana

Quando gerações se colidem

Vez ou outra alguém fala sobre as mudanças comportamentais e de atitudes de gerações distintas na nossa sociedade. Sociólogos, psicólogos e especialistas em geral tentam explicar, cada um ao seu modo, os diferentes aspectos e grupos de várias épocas que compõem a vida na sociedade. Baby-boomer, Geração X ou Geração Y? Não importa o rótulo, cada geração constrói seu mundo de forma bem peculiar. Afinal, a mudança social é inevitável.

Dentro desse contexto de diferentes gerações o movimento libertário brasileiro se encontra num patamar único. Possui vocabulário e discurso próprio e responde a estímulos de maneira bem destoante na visão de muitos. Independente da posição política de cada pessoa.

Liberais de gerações passadas tentam explicar, de modo um tanto falho, aquilo do qual ainda não entenderam do movimento libertário. Tem dificuldades em definir esse desconhecido também por não estarem inseridos nesse contexto. Tente imaginar o seu avô explicando o que é internet. É mais ou menos isso que ocorre quando um antigo liberal tenta explicar o comportamentos e a tendência dos jovens que compõem o movimento libertário brasileiro. A resposta soa bem clara, há um choque de gerações.

O que o antigo liberal tende a não perceber é que o jovem do movimento libertário, majoritariamente na casa dos 20 ou 30 anos, possui uma postura e valores totalmente diferentes dos liberais brasileiros do passado. Não bastasse o fato desses jovens estarem numa condição social e cultural diferente dos antigos liberais, eles contam também com um ambiente político totalmente diferente. Como um exemplo, esses libertários não presenciaram a ditadura militar e nem a guerra fria.

Contudo, o fato mais importante a ser dito aqui é que o movimento libertário brasileiro não tem praticamente nenhuma ligação com o cenário liberal criado nas décadas de 80 e 90. Tudo isso que está sendo construído é inteiramente novo. Embora ainda exista antigos liberais ou grupos isolados que ajudaram na formação de opiniões para as novas cabeças, a cena liberal antiga se desfez nos anos 90, não dando contribuições ao movimento. É importante notar que certas contribuições dos antigos liberais vieram do aspecto individual, geralmente de forma independente e sem qualquer ligação com um instituto antigo, ou coletivo de alguns grupos isolados espalhados pelo país. E todos sem muito conhecimento da existência de outros. Quer dizer, não existia uma rede colaborando entre si, um movimento propriamente dito. Por isso a cena criada no passado, todo aquele organismo, não tem grande relevância pro movimento libertário. O que, de qualquer modo, podemos falar com toda certeza: o movimento libertário existiria com ou sem a presença da antiga cena liberal do Brasil.

Sabe por que existiria? Porque esse movimento libertário é influenciado DIRETAMENTE do movimento libertário existente nos Estados Unidos. Quando o movimento atual começou a ser esboçado, como o início da vanguarda e ativismo existente atualmente, ele surgiu através de alguns jovens que se dispuseram a criar um partido sob a influência do Partido Libertário americano. E de maneira semelhante surgiu a principal agremiação estudantil libertária brasileira, também espelhada na agremiação americana. Deste modo, é natural que a postura, o comportamento, as estratégias e os teóricos que inspiram o movimento remontam claramente ao movimento americano iniciado na década de 1960. Aliás, o próprio termo cunhando de “libertário” diz claramente de onde remonta essa turma, dos libertarians americanos que se viram prejudicados quando social-democratas tomaram-lhe o seu rótulo de liberal. Resumindo, os antigos liberais brasileiros “não passaram o bastão da liberdade” para essa nova geração. Sorry, mas a verdade é essa.

A busca pela inspiração estava e estão com os olhos sempre voltados para a cena libertária americana e não para o grupo X ou pessoa Y residente no Brasil. Isso não quer dizer que o movimento seja, necessariamente, melhor ou mais eficiente que a cena liberal antiga. Mas sim, que esse movimento adota atitudes que certamente causam estranheza para quem não o acompanhou (e não o acompanha) de perto. Não é coincidência que o movimento brasileiro seja de caráter radical.

Esse movimento, por estar em contextos diversos, possui termos, comportamentos e atitudes que só quem esteja realmente integrado tenha uma melhor compreensão do que essas pessoas vivenciam. Os grupos e tendências apoiados integrados no movimento passam longe daquele “liberal padrão” latino, de ideias moderadas e fusionistas defendidas pela maioria dos antigos liberais.

Aliás, se referir ao próprio movimento libertário como um “movimento liberal” (ou até mesmo anarco-capitalista) já denuncia o quão defasado e errôneo é essa alegação. Pois o próprio movimento (assim como sua “matriz” americana) também integra o grupo dos anarquistas individualistas e sua visão de sociedade descentralizada e de instituições solidárias. Em suma, o que caracteriza internamente este movimento extremamente plural e rico nem sequer é o liberalismo em si, mas a filosofia individualista partilhada entre os diversos grupos, correntes e tendências.

No entanto é necessário entender que o movimento libertário não possui líderes, guias ou gurus, mas tão somente ideias. Não age sob hierarquia, mas em redes descentralizadas e interligadas de forma orgânica. Ele tende a não falar para o cidadão médio de hoje, de família já constituída, acostumado a consumir política através de um jornal ou revista, do programa favorito da TV ou daqueles acostumados em ver política através de partidos ou quando eleições se aproximam. O público alvo não é esse, mas o futuro.

Se você, leitor, for um desses antigos liberais não espere que essa geração nova, ao amadurecer, desistirá de fato das posições que se apegam hoje. Muitos irão, claro, mas ainda haverá aqueles que se manterão fiéis nos princípios que acreditam e os motivam desde agora. E isso também faz parte do pluralismo desse movimento. É bom também não esperar posições mais comedidas de um movimento que se vê mais próximo de ações e discursos mais radicais do qual possuem uma percepção de mundo diferente, sob a vivência de outra época. E dado o tipo do discurso consumido por estes jovens, é compreensível a gana deles por mudanças com a típica atitude da juventude. Como eu disse, a compreensão é primordial.

Antigo liberal, tente ser mais cauteloso ao se dirigir às novas gerações pois eles são a vanguarda que já estão norteando as ideias da liberdade neste país. Quer goste ou não. Contudo, sinta-se convidado a tornar-se parte dessa aventura e contribuir para esse diamante bruto. Sabe, o tempo chega para todos e é preciso saber lidar com isso. Pois o ontem pode não ser visto como é hoje.


Sobre o autor

Rodrigo Viana

Rodrigo Viana é desenvolvedor de software, escreve para o blog 'Mercado Popular' e mantém os blogs 'A Esquerda Libertária' e 'Libversiva!'. Seu twitter é @VDigo.



Voltar ao Topo ↑