Ciência Política austeridade

Publicado em 22 de abril de 2014 | por Bryan Caplan

Austeridade por liberdade

Suponha que, em 2005, Bush tivesse “privatizado a Previdência Social” com uma adesão politicamente extraordinária, sob esta hipotética legislação:

  1. Os trabalhadores estão livres para direcionar 100% dos impostos incidentes sobre o seu salário a contas privadas.
  2. Os trabalhadores estão livres a solicitar imediatamente o valor presente de todos os futuros cheques da Previdência Social, contanto que coloquem o dinheiro em investimentos bem conceituados

Vamos supor que metade das pessoas no sistema de Previdência Social tiraram proveito das novas regras.

Pergunta: depois do crash de 2008 e suas desastrosas consequências, como o sistema politico teria respondido? Eu aposto que teria feito o TARP [n. do revisor: TARP - resgates às empresas endividadas, promovidos pelo governo americano] parecer insignificante. Dezenas de milhões de pessoas teriam perdido metade de seus ativos e metade de sua pensão de aposentadoria como um “resultado direto” da legislação de Bush. O governo não teria ficado de braços cruzados. Sob qualquer indício, teria decretado uma medida de socorro do tamanho de uma bíblia para dissimuladamente compensar (alguns dos) perdedores, aumentado a regulamentação sobre os mercados financeiros e subornado vários legisladores indecisos.

Esse cenário e outros parecidos fazem-me suspeitar que as reformas “construtivas” de livre mercado como a privatização da Previdência Social, vouchers escolares, os vouchers do Medicare e outros são em grande medida um desperdício de capital político libertário. Elas apresentam dois grandes riscos:

Primeiro, se qualquer coisa der errado, o mercado receberá a culpa. A revolta política poderia facilmente levar a políticas mais estatizantes do que nunca.

E em segundo lugar, na prática, o governo nunca irá implementar uma reforma de livre mercado transparente. Mesmo uma ideia tão simples quanto “dar às pessoas a liberdade para investir os impostos incidentes sobre o seu salário em uma aposentadoria privada” irá rapidamente transformar-se em um projeto legislativo inútil com milhares de folhas. Isso aumenta as chances de que algo irá dar errado. E quando der, o mercado será culpado.

Deprimente? Eu tenho uma opção melhor. Ao invés de se esforçar em prol de reformas “construtivas” de livre mercado, os libertários deveriam teimosamente focar na austeridade: opondo-se ao aumento de gastos e buscando corte de gastos. Ao invés de tentar “privatizar” a Previdência Social, por exemplo, os libertários deveriam buscar menores benefícios, uma maior idade de aposentadoria, e verificação de pagamentos. Ao invés de buscar vouchers em escolas, os libertários deveriam tentar restringir – diminuir os orçamentos educacionais e buscar criar mensalidades escolares. Se os libertários se tiverem exito político, isso irá automaticamente expandir o papel do mercado. Afinal de contas, quanto menos o governo fizer para as pessoas, mais elas farão por si próprias. Insatisfeitas com a provisão governamental, as pessoas irão poupar mais para a sua aposentadoria e gastar mais com educação privada. No limite, uma vez que o fluxo de fundos governamentais cessar, a troca voluntária é tudo que sobrará.

A austeridade possui duas grandes vantagens em relação às reformas “construtivas” de livre mercado:

  1. Se algo der errado, é menos provável que a opinião publica culpe o mercado. O governo decidiu gastar menos em X; como isso pode ser culpa do mercado? Logicamente, as pessoas poderiam simplesmente recompor suas críticas. Mas psicologicamente é mais fácil acusar os mercados diretamente sancionados por uma ação governamental do que os mercados indiretamente movidos pela ausência de ação governamental.
  2. É menos provável que o Congresso use austeridade como uma desculpa para uma nova legislação de milhares de folhas. Expandir oficialmente as opções de mercado é algo bom.  O simples corte orçamentário, nem tanto.

Sejamos justos: eu entendo a razão pela qual os libertários promovem reformas “construtivas” de livre mercado. Elas soam bem e satisfazem mais. Retoricamente falando, uma pessoa pode apoiar a privatização da Previdência Social e ainda ser “pró-aposentados”, ou promover vouchers e ainda ser “pró-educação”. A pessoa que luta por cortes nos orçamentos da previdência social e da educação efetivamente perde o direito a essas opções de retórica. Mas se você, na verdade, deseja promover a liberdade, a austeridade parece ser a opção mais interessante para a obtenção de tal objetivo.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ Silva. | Artigo Original


Sobre o autor

Bryan Caplan

Bryan Caplan é professor de economia na George Mason University e autor dos livros "The Myth of the Rational Voter: Why Democracies Choose Bad Policies " e "Selfish Reasons to Have More Kids". Atualmente está escrevendo o seu novo livro, "The Case Against Education" e para o blog EconLog.



Voltar ao Topo ↑