Economia EEPM_cap1

Publicado em 13 de março de 2014 | por Rodrigo Viana

O ataque marginalista à economia clássica

Com o estudo da economia como ciência e o abandono da escola clássica como força principal dos meios de influência, muitas outras escolas econômicas surgiram e outras caíram num profundo esquecimento. Muitas nasceram após esse tempo, que se mantiveram como forças ativas no século 20, sequer estão presentes nos grandes debates atuais. Esse é o caso da escola econômica marxista que, por sinal, vive sua decadência. Tendendo ao isolamento, sobrevive apenas em pequenos círculos. Por outro lado, escolas outrora esquecidas vem retornando ao debate econômico com força total. Um exemplo disso é escola austríaca.
Durante um longo tempo, anarquistas de todas as correntes  foram deixados de lado nos grandes debates sobre economia. Apoiando-se em teorias antigas, anarquistas ficaram só e sem uma base sólida e moderna para suas reivindicações. Mas isso está para ser mudado.

Pegando gancho nesse revival eis que a escola econômica original do anarquismo, o mutualismo, ressurge imponente. Lembrada pelos nomes de Pierre-Joseph Proudhon na Europa e Josiah Warren nos Estados Unidos, o mutualismo reaparece como uma alternativa verdadeira para os anarquistas, independente das correntes, se adentrarem nos debates econômicos no século 21.
Totalmente reformulada, esse “novo” mutualismo se apresenta resgatando a vilipendiada teoria do valor trabalho clássico, incorporando nela novos atributos dos quais variadas escolas econômicas modernas apresentaram durante o tempo. Bem como agregando novas perspectivas para libertários em geral. É nesse espírito que é concebido o Estudos na Economia Política Mutualista, escrito pelo anarquista americano Kevin Carson.

Carson é um economista mutualista contemporâneo, influenciado principalmente pelos antigos anarquistas individualistas americanos do século 19 como Josiah Warren, Benjamin Tucker e Lysander Spooner. Esse grupo de libertários foi, durante muito tempo, a maior força intelectual radical em defesa da economia laissez faire no mundo. Seus escritos, baseados na tradição mutualista, foram também fontes importantes para uma nova tradição política radical que estava para ser erguida no século seguinte. Uma corrente apoiada também no laissez faire radical mas sob outra perspectiva, não mutualista. Uma corrente fundada pelo então jovem estudante da escola austríaca, Murray Rothbard, denominada de anarco-”capitalismo”.

Em seu livro, Carson inicia fazendo críticas profundas sobre a visão “inocente” que os economistas marginalistas tinham dos clássicos. Critica também a teoria do valor-trabalho de caráter normativo defendida por Marx, a visão absoluta da teoria da utilidade marginal defendida pelos marginalistas (incluindo os austríacos) e muito mais.
Através de pesquisas contundentes, Carson argumenta que o subjetivismo sempre esteve presente nos escritos de Adam Smith e David Ricardo, embora não explícito. Deste modo, é absorvido as contribuições teóricas positivas que surgiram com o tempo, de modo que elas são incorporadas em sua teoria. Como a teoria da utilidade marginal e a teoria da preferência temporal austríaca que são inseridas na teoria do valor-trabalho. Tudo seguindo uma construção teórica a priori como estabelecida pela praxeologia de Ludwig von Mises. Para quem achava que o debate sobre o valor estava dado como encerrado, se precipitou. Ele volta agora de uma maneira onde coloca os marginalistas, sobretudo os austríacos, contra a parede.

Estudos…, que está sendo traduzido para o português, possui 3 partes. Na primeira é fundamentado a reformulação da teoria do valor-trabalho. Onde é estabelecido toda a base teórica do qual o livro se sustenta. Na segunda parte é analisado o capitalismo como um todo. O surgimento do capitalismo histórico com a queda do feudalismo, a consolidação do capitalismo corporativo no mundo atual e as tendências deste sistema econômico no mundo globalizado. No terceiro capítulo é discutido alternativas que fogem desse laço vicioso. Propõe novos paradigmas pelo qual ajudaria e eliminar os laços exploratórios que o mundo se encontra.
Estudos na Economia Política Mutualista é uma defesa radical do livre mercado sob um outro ponto de vista. Para quem acha que mercados e capitalismo são sinônimos, Carson diz que isso nunca passou nem perto da verdade. E é neste ponto que o livro se sobressai pois ele é muito mais do que o retorno do debate sobre o valor. Ele é um estudo denso, revisionista na questão histórica do sistema econômico que nos acompanha desde a sua formação na era da Revolução Industrial. Leitura obrigatória não só para quem se interessa por economia mas por outras áreas das ciências humanas e sociais.

Enfim, o que segue abaixo é a tradução do primeiro capítulo em português, “O ataque marginalista à economia política clássica: uma avaliação e contra-ataque”. Aqui Carson alega os espantalhos criados pelos marginalistas, sobretudo por Eugen von Böhm-Bawerk, a respeito dos economistas clássicos. A parte um, onde se fundamenta a teoria do valor-trabalho na perspectiva clássica (e não marxista), se completa com mais dois capítulos que estão em fase de tradução. A tradução está em ótimo nível e conforme o trabalho de tradução for finalizando cada capítulo do livro (num total de nove), será postado um a um neste site. No final, os capítulos serão reunidos em um livro único. Bons estudos!

 

Estudos na Economia Política Mutualista – Capítulo 1


Sobre o autor

Rodrigo Viana

Rodrigo Viana é desenvolvedor de software, escreve para o blog 'Mercado Popular' e mantém os blogs 'A Esquerda Libertária' e 'Libversiva!'. Seu twitter é @VDigo.



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