Urbanismo plano diretor

Publicado em 2 de julho de 2014 | por Daniel Coutinho

A arrogância fatal do plano diretor

A câmara de Vereadores de São Paulo aprovou, no dia 30 de junho, o Plano Diretor da cidade. O objetivo é, como sempre, regular o crescimento da cidade, para que no final, tudo fique a maravilha prometida pelos políticos. Infelizmente, a realidade é bem diferente do discurso político. E o fato de que os nossos políticos são incapazes de entenderem a dinâmica da ordem espontânea é a maior culpada das destruições dos sonhos políticos. É claro que se os políticos não fossem tão megalomaníacos… Mas sabemos que políticos comedidos são animais em extinção. Existem dois aspectos que são constantemente ressaltados por liberais, que foram (novamente ignorados). E eles explicam, em grande parte, porque as cidades brasileira são caóticas.

O plano, por exemplo, pretende regular a cidade por dezesseis anos. Por si só, isso já é um absurdo. Dezesseis anos podem parecer pouco tempo, mas como era o mundo em 1998? Quem sonharia em dizer que em 16 anos teríamos internet capaz de transmitir filmes inteiros em questões de horas? Ou que já estaríamos no segundo mandato de um presidente negro dos Estados Unidos? Ou que o Brasil ultrapassaria a economia do Reino Unido no tamanho do PIB? Etc. Supor que será possível regular uma cidade dinâmica como São Paulo – e qualquer agrupamento de humanos, de maneira geral – por 16 anos com um conjunto de regras extremamente específicos é absurda. As mudanças que ocorrem neste período são capazes de afundar qualquer sonho dos políticos. Em um exemplo relativamente prático, imagine a revolução que ocorrerá em transportes se tecnologias como carros elétricos e que dirigem sozinhos forem uma realidade? Imagine as mudanças em postos (que não serão mais de gasolina), por exemplo. Ou edifícios disputando para serem capazes de produzir energia para seus moradores recarregarem os caros. Ou ainda, a mudança em termos de mobilidade urbana que aplicativos de carona colaborativa podem trazer. Tudo isso está ao alcance da mão. O que ocorrerá daqui a 16 anos pode ser ainda mais mirabolante e inesperado.

Além de não levar em conta como será o futuro, o plano diretor não leva em conta os seres humanos. De fato, uma fração deles pode ter sido consultada em relação ao novo plano. Possivelmente, muitos daqueles que não foram consultados discordam do que o plano diz, ou podem vir a discordar das consequências não intencionais do plano. E mesmo se todos fossem consultados, quem garantiria que amanhã eles não mudariam de ideia?

Essa crítica não é nova: ela foi feita no século XX por Hayek e Mises, mas em relação a economia. Ambos sabiam que congelar a economia em um plano fechado, que não levava em conta o fator humano – com todas as suas mudanças e ideias – estava fadado ao fracasso. E foi o que aconteceu em vários países que adotaram modelos de economia planificada, sendo o exemplo mais claro a União Soviética: planos extremamente fechados que levaram ao caos na economia. Não seria essa, em grande parte, a explicação do caos que as cidades vivem? Regras tão fechadas que, incapazes de se adaptar a criatividade e volatilidade humana , acabam atrapalhando mais do que ajudando?

De forma alguma existe a pretensão, aqui, de uma análise urbanística ou técnica do plano. Pelo contrário. Trata-se de um mero economista realizando uma constatação: planejamentos centrais são ineficientes na economia. Por que não seriam também com relação as cidades?


Sobre o autor

Daniel Coutinho

Daniel Coutinho é apenas outro libertário nas horas vagas.



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