Mário Ferreira dos Santos

Publicado em 21 de janeiro de 2014 | por Adriel Santana

O alerta aos libertários dado por Mário Ferreira dos Santos, o filósofo “antipolítico”

Como sabemos, 2014 é ano de eleição. Assim como ocorre a cada dois anos no calendário eleitoral brasileiro, milhões de pessoas serão obrigadas por lei a participarem do processo de votação que elegerá aqueles que ocuparão determinados cargos no Estado. Esse ano, a eleição definirá o presidente da República, os governadores dos 26 estados e do Distrito Federal, além dos senadores e deputados, estes últimos os federais e estaduais.

Algumas perguntas são costumeiramente levantadas quanto a tudo isso: “Como um libertário deve se posicionar quanto ao processo eleitoral?”; “Devemos votar no candidato ‘menos pior’ na ausência de candidatos assumidamente libertários?”; “O libertário deve acreditar que mudanças reais poderão surgir pela via política?”. Sem dúvida são indagações pertinentes e que merecem serem debatidas constantemente, em especial quando pensamos no futuro do movimento libertário, em como não apenas propagaremos nossos ideias pela sociedade, mas sobre quais caminhos devemos seguir visando implementá-los.

Particularmente, não tenho nada contra aqueles libertários que se engajam na via política. Dado que o Estado existe e que, no Brasil especialmente, sua presença é onipresente em quase todos os setores da sociedade, seja direta ou indiretamente, é compreensível que alguns adotem a tática de lutar contra o inimigo por dentro da máquina. Enfim, apesar de pessoalmente discordar, compreendo esse posicionamento.

Contudo, acredito que libertários deveriam se afastar completamente da via política. E creio também que há vários motivos para defender este posicionamento. Não pretendo neste espaço elaborá-los. Chamo a atenção apenas para um deles, que foi dado pelo filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) em sua obra “O Problema Social” (1962). Segue o trecho em que ele alerta os libertários sobre o problema da adoção da via política tanto como estratégia de mudança social e econômica como de propagação dos nosso ideais:

Não é de hoje que a má política (isto é, a arte de conquistar o poder e de conservá-lo, com todo o seu cortejo de oportunismo, misérias, infâmias, indecências, processos escusos, etc), tem sido um dos maiores males na luta pela emancipação humana. [...] Todos os partidos políticos terminam fatalmente, mais dia menos dia, em se preocuparem mais com os meios do que com os fins. Esta a razão por que os libertários combatem a política, e julgam-na o processo mais falso de luta pela emancipação social. Nunca, pela política, se consegue atingir os fins desejados e, quando se consegue alguma coisa, é sempre apesar da política.

Dizem, hoje, os políticos, que combater a política é fazer obra fascista. Mas esquecem que quem desmoraliza a ação política não é a campanha anti-política, mas sim a ação dos políticos! O espetáculo dos parlamentos, a falta de dignidade dos chamados indevidamente “representantes do povo”, sua subserviência a interesses inconfessáveis, sua ação mentirosa, seu prometer desmedido, sua traição constante aos princípios, tudo isso, em suma, é que desmoraliza a política. São os políticos que fazem obra fascista, porque a política só serve para desmoralizar a si mesma, pela simples razão que leva dentro de si o próprio veneno que a mata, porque encerra em sua essência o vírus do domínio, da vitória fácil, da mentira, da intriga.

Numa sociedade capitalista [no sentido de corporativismo], a política só pode favorecer ao fascismo, ao cesarismo, porque não é o meio apropriado para as transformações de índole social, as quais devem ser feitas pela ação congregada das próprias organizações populares, por livre iniciativa.

Querer chamar de política essa ação, é falsear o seu sentido verdadeiro e prático. Política é uma arte intermediária, de métodos intermediários e indiretos, com a finalidade de obter o poder e de conservá-lo. Querer dar lhe um conceito puro e científico, é apenas separá-la da realidade prática, da praxis.

A luta contra a política é uma luta de moralização social. A transformação social é obra de todos, a todos compete, e todos precisam empregar os maiores esforços para conseguir realizá-la. A política tende para o menor número, para um grupo de privilegiados. E o mesmo fenômeno que se dá com a organização burocrática, em que o burocrata cada vez mais se burocratiza, o político cada vez mais se politiquiza.

Que este aviso dado aos libertários há cinco décadas não seja ignorado, nem nesse ano nem nos próximos. Nossa luta deve se concentrar sempre na sociedade não na política. É por meio da ação social, que engloba o empreendedorismo, o academicismo e as organizações não governamentais, buscando demonstrar na prática como o voluntarismo é superior, econômica e moralmente, que qualquer meio coercitivo, que poderemos vislumbrar uma real vitória a médio e longo prazo para o movimento libertário.


Sobre o autor

Adriel Santana

Formado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Articulista do Portal Libertarianismo.



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