Drogas liberar maconha

Publicado em 10 de janeiro de 2014 | por Rodrigo Viana

E aí, vai liberar?

Um dos assuntos mais comentados nos últimos meses vem sendo a liberação da maconha tanto nos EUA quanto no nosso vizinho Uruguai. E já é sabido que as autoridades mexicanas vem se dispondo a discutir sua legalização também. Visto como progresso social para uns, questão de respeito às liberdades civis para outros, fato é que o Brasil ainda caminha em passos de tartaruga pela liberação do consumo da canábis.

Se tratando do cenário americano, o que se vê é uma razoável comoção pública abraçando a ideia da legalização como um todo. A CNN publicou uma pesquisa feita no país sobre a aceitação da erva. O documento diz que 55% dos entrevistados aprovam a legalização. Se em 1972 no governo de Nixon, do qual inaugurou a repreensão às drogas, 65% dos entrevistados disseram que a maconha era um problema muito sério para o país, hoje esse número caiu para 19%. Sobre a moralidade do uso, em 1987 havia em torno de 70% o número de pessoas que via seu uso como algo pecaminoso. Hoje chega aos 35%. Os números do retrospecto refletem isso. Em 1987, a aprovação estava em 16%. Em 1996 era de 26%, em 2002 de 34% e em 2012 de 43%.

Vejamos o que o Estado de Minas relata:

Nos EUA, pesquisa recente mostrou que menos de 40% dos alunos que cursam o último ano do ensino médio consideram a maconha perigosa, contra 44% um ano antes. No total, 23% admitiram ter fumado maconha no mês anterior à pesquisa, número que sobe a 36% quando considerados os últimos 12 meses.

Não apenas isso, mas o mercado de maconha nos EUA vem agora tomando rumos que teóricos libertários já estavam cansados de falar. Sobre a questão do andamento econômico, a reportagem dá alguns dados:

O mercado é gigantesco: segundo a empresa ArcView Market Research, as vendas legais de maconha aumentarão 64% entre 2013 e 2014, passando de US$ 1,4 bilhão para US$ 2,34 bilhões. No Colorado, as autoridades concederam licenças a 348 lojas, enquanto o estado de Washington recebeu 3.746 pedidos de licença, sendo 867 para lojas, segundo o jornal Seattle Times.

Em outras palavras, a legalidade do comércio pode ser traduzida em algo como eliminação gradual do narcotráfico e da repressão contra usuários, por exemplo. E não são só libertários que enxergaram isso, mas, surpreendentemente, conservadores também.

No dia 6 de Janeiro, a revista ultra-conservadora National Review, conhecida por suas posições favoráveis ao imperialismo bélico americano em sua política externa, publicou um editorial elogiando, de forma enfática, a decisão do estado do Colorado. Elevando a autonomia individual, reconhecendo o bem estar social que isso geraria pela a minimização dos abusos policiais, do tráfico e da diminuição dos gastos públicos, o editorial mais parece um pedido de desculpas e reconhecimento. Frases como “escolha prudente” e “nós criamos muitos criminosos” é o sentimento que carrega esse editorial já histórico.

É verdade que nem todos os setores direitistas abraçaram com entusiamo essa ação. Pat Buchanan, ex-político conservador que já foi candidato à nomeação pela presidência junto ao Partido Republicano, disse em um programa de TV que “isto está chegando ao fim, o que haverá mais maconheiros, mais estudantes desistentes do ensino médio e mais acidentes de automóveis envolvendo maconha“.
Buchanan ainda diz que “não há dúvida de que exista uma tendência verdadeira neste país, uma tendência profundamente libertária“. E seu temor continua: “na esquerda, favorece o casamento do mesmo sexo, jogos de azar e até a legalização da prostituição – todas essas coisas que costumavam ser vícios e, por causa da receita pública envolvida e da crença de que indivíduos devem ter autonomia“. Realmente defender a liberdade de forma legítima não é para poucos.

Mesmo no Brasil os setores mais conservadores buscam desculpas para não legalizar. Uma delas é o suposto “monopólio de fabricação” da erva nas mãos do narcotráfico. Uma teoria sem fundamento. Como se existisse algum tipo de lei de propriedade intelectual ou reserva de mercado protegendo a produção, o cultivo e o “parque industrial” desses narcotraficantes.

O Brasil já deu um bom exemplo em reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não seria também um bom momento em favorecer a legalização do uso recreativo e medicinal da maconha? Afinal, vícios não podem ser considerados crime.


Sobre o autor

Rodrigo Viana

Rodrigo Viana é programador, tradutor e escreve para os blogs 'Mercado Popular', 'A Esquerda Libertária' e mantém o blog 'Libversiva!'. Siga seu twitter: @VDigo.



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