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Al Jazeera nos Estados Unidos

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Os levantes no norte da África e no Oriente Médio deram grande alento à al Jazeera, a rede de televisão sediada em Doha, Qatar. Até recentemente os estadunidenses não queriam nenhuma proximidade com a estação; ela simplesmente era demasiado facilmente associada a Oriente Médio e a muçulmanos, o que obviamente leva facilmente a pensar em terroristas e "terroristas"; e certamente qualquer estadunidense de boa família sabia que aquela estação não poderia ser tão imparcial quanto CBS, CNN, NPR ou Fox News. A estação tinha motivo para ser paranoica acerca de seu escritório nos Estados Unidos, terra de dez milhões de malucos (não poucos deles em cargos públicos). Ela ocupa seis andares num prédio de escritórios no centro de Washington, DC, mas o nome dela não aparece no painel de ocupantes do edifício.

Todavia, a mídia majoritária dos Estados Unidos agora cita a al Jazeera em Inglês e mostra sequências noticiosas dela. Muitos progressistas, inclusive eu, criaram o hábito de assistir à estação de preferência à mídia majoritária dos Estados Unidos. Em geral, as notícias têm mais substância, os entrevistados são em sua maioria mais ou menos progressistas, e não há comerciais. Entretanto, quanto mais assisto mais percebo que os apresentadores e correspondentes da estação não se mostram tão imbuídos da perspectiva progressista quanto deveriam.

Caso pertinente entre muitos que eu poderia citar: Em 12 de março o correspondente da al Jazeera Roger Wilkinson informava acerca do julgamento, em Cuba, de Alan Gross, o estadunidense preso depois de ter distribuído equipamento eletrônico a cidadãos cubanos. Gross entrou em Cuba como turista, mas estava lá, em realidade, a serviço da Alternativas de Desenvolvimento Incorporações (DAI), empreiteira privada a serviço da Agência para Desenvolvimento Internacional (AID), divisão do Departamento de Estado. Gross era, pois, agente secreto de governo estrangeiro não registrado como tal. Wilkinson relatou essa história altamente controvertida com toda a candura e distorção típicas da mídia majoritária dos Estados Unidos. Mencionou, de passagem, que o governo cubano tenta controlar a Internet. O que poderá alguém concluir, a partir daí, senão que as autoridades cubanas tentam ocultar certas informações de seus cidadãos? Exatamente como a mídia majoritária dos Estados Unidos, Wilkinson não deu exemplos de quaisquer sites da Internet bloqueados pelo governo cubano; pelo simples motivo, talvez, de não existirem. Qual é a terrível verdade de que os cubanos poderiam ficar cientes caso tivessem acesso pleno à Internet? Ironicamente, são o governo dos Estados Unidos e as multinacionais estadunidenses que coíbem esse acesso, por motivos políticos e mediante atribuir a seus serviços preços acima das possibilidades de Cuba. Eis porque Cuba e Venezuela estão construindo suas próprias conexões de cabos submarinos.

Wilkinson falou do programa da AID de "promoção da democracia", mas não deu nenhum indício de que, no mundo da AID e das organizações privadas que mantêm contratos com ela — inclusive a empregadora de Gross — essa expressão é código significando "mudança de regime". A AID há muito tempo vem desempenhando papel subversivo nos assuntos mundiais. Eis o que declara John Gilligan, Diretor da AID na administração Carter:

"Em certo momento, muitos escritórios regionais da AID estavam infiltrados de alto a baixo de pessoal da CIA. A ideia era plantar agentes secretos em todo tipo de atividade que tínhamos no exterior, de governo, voluntária, religiosa, de todo tipo."9

A AID tem sido apenas uma dentre muitas instituições empregadas pelos Estados Unidos durante mais de 50 anos para subverter a revolução cubana. Devido a isso é que podemos formular a seguinte equação: Os Estados Unidos estão para o governo cubano como a al Qaeda está para o governo estadunidense. As leis de Cuba referentes a atividades tipicamente desenvolvidas por entidades do tipo de AID e DAI refletem essa história. Não é paranoia. É autopreservação. Discutir um caso como o de Alan Gross sem considerar essa equação é falta séria em jornalismo e em análise política.

Esperemos que o caso de Gross sirva para abrandar a natureza dos esforços de "promoção da democracia" em Cuba.

A política de Washington — e portanto a política da Inglaterra — em relação a Cuba sempre derivou principalmente de desejo de impedir que a ilha se torne bom exemplo para o Terceiro Mundo de alternativa ao capitalismo. Os líderes ocidentais, todavia, em verdade não entendem, ou não se importam, com o que pode motivar pessoas como os líderes cubanos e seus seguidores. Eis aqui um dos telegramas do Wikileaks relativos a Embaixadas dos Estados Unidos de 25 de março de 2009 — William Hague, então Membro Conservador do Parlamento Britânico e Secretário do Exterior Paralelo, dando à embaixada dos Estados Unidos em Londres relato de sua então recente visita a Cuba: Hague "disse estar levemente surpreso de a liderança cubana não parecer rumar para modelo mais chinês de abertura econômica; ela ainda se mostrava formada de 'revolucionários românticos'." Em sua conversa com o Ministro cubano do Exterior Bruno Rodríguez "a discussão dirigiu-se para ideologia política, durante a qual Hague comentou que as pessoas na Inglaterra estavam mais interessadas em fazer compras do que em ideologia." [Minha nossa, que defesa magnífica do estilo ocidental de vida. Rule Britannia! God Bless America!] Hague em seguida informou que "Rodriguez pareceu desdenhoso a respeito e disse que as pessoas só precisam fazer compras para comprar comida e alguns bons livros."