Anarquismo de Mercado O Anarcocapitalismo livro

Publicado em 5 de julho de 2014 | por Pierre Lemieux

O Anarcocapitalismo

Quase vinte anos passaram-se depois que eu escrevi este livro. Eu o rescreverei hoje de maneira diferente. O Anarcocapitalismo e as teorias subjacentes fizeram objeto de numerosas pesquisas, e de uma importante literatura tanto filosófica quanto econômica. No que diz respeito à economia, eu não havia mensurado a importância das idéias de Anthony de Jasay, autor cujos escritos sobre o Anarcocapitalismo são contemporâneos aos meus próprios escritos. Os trabalhos de Robert Axelrod e Robert Sugden, cujos quais eu pude apresentar a um dado número de leitores franceses, foram seguidos de uma abundante literatura utilizando a teoria dos jogos para explicar a cooperação espontânea entre atores egoístas.

Sob a influência de Anthony de Jasay, mas igualmente de economistas neoclássicos e da escola do Public Choice , eu me tornei mais agnóstico quanto a construção teórica, à la Rothbard, de uma sociedade futura ideal. Mesmo se eu continuo acreditando que os fundamentos filosóficos do Anarcocapitalismo são sólidos, eu insistirei mais neste momento em sua dimensão econômica. Enquanto economista, eu utilizarei o tempo presente ou o tempo futuro ao invés do condicional. Ao invés de me deixar seduzir por uma ética globalizante como esta de Rothbard ou Rand, eu tentarei fazer intervir uma ética mínima, eu economizarei nas questões éticas.

Embora meu “Que sais-je?”procure evidentemente ser uma exposição universitária antes de ser um panfleto político, nós poderíamos nos perguntar se o Anarcocapitalismo é um ideal que deva ser perseguido. Como eu expliquei em um artigo recente, nós não saberíamos em que medida, nem dentro de quais condições, a anarquia seria possível dentro de uma sociedade moderna, pois os Estados, que infestam o planeta inteiro, tornam a experimentação extremamente custosa. De um ponto de vista teórico, Holcombe defendeu bem a tese de que o Estado é inevitável e, que isto não desagrade Rothbard, não seria impensável que a anarquia leve a um Estado ainda pior do que estes sob os quais nós vivemos atualmente no Ocidente9. Indo de encontro à estas dúvidas, notemos que os Estados já estão entre eles, na cena internacional, como em estado natural10. Mas que conclusões poderíamos tirar quanto a possibilidade de anarquia entre os próprios indivíduos? Além disso, acontece frequentemente que um Estado governe ou tente governar uma comunidade de Estados: o Estado britânico no século 19, o Estado americano nos dias de hoje. Me parece que o Anarcocapitalismo é mais um ideal a seguir e uma idéia a experimentar que um programa (político) a ser realizado hic et nunc.

No curto lapso de tempo que separa a edição impressa desta edição digital de O Anarcocapitalismo, a progressão da tirania foi fulminante. O desmoronamento do bloco soviético se fez acompanhar de uma doce sovietização dos Estados que o haviam combatido, e que inventaram uma tirania tendo aparência mais humana. Melhoramento, certamente, para os antigos escravos do comunismo, mas deterioração para nós. Mesmo na América as pessoas habituaram-se a ser fichadas e carregar com elas o “passaporte interior” que constitui os papéis oficiais de identidade. As técnicas de identificação biométrica e as pulseiras de monitoramento (como no caso emblemático de Martha Stewart, após sua saída da prisão) fizeram aparição. Por todo o mundo, e talvez ainda mais na América, as pessoas se acostumaram a ser revistadas. As prisões estão repletas de pessoas que cometeram crimes que se chamavam liberdades há algumas décadas, ou mesmo, há alguns anos atrás.

O Estado monstruoso ao qual somos submissos agora não é um produto do 11 de Setembro de 2001: é devido ao fato de que eles já dispunham anteriormente de poderes ultrajantes que “nossos” Estados puderam servir-se da “guerra contra o terror” para esmagar ainda mais nossas liberdades: controle dos mercados financeiros em nome da repressão às transações de inside trading, controle das empresas por motivos de “ética” ou “governança”, guerra contra as drogas e contra o tabaco, controle das transações monetárias para impedir a “lavagem de dinheiro”, gerada em boa parte por crimes pré-fabricados pelo próprio Estado; reforço do controle estatal sobre as armas de fogo das pessoas que não são agentes das autoridades públicas, limitação da liberdade de expressão em nome de algum “pretexto do dia” e aumento dos poderes da polícia. Todas estas medidas haviam começado bem antes do 11 de Setembro, o Estado não fez mais do que acrescentar a palavra “terrorismo” às razões anteriores para melhor controlar seus sujeitos.

Os grandes padres da religião ambiental continuam improvisando o papel de porta-vozes das gerações futuras, as quais eles presumem que estarão satisfeitas de um mundo verde de escravos felizes. Cada vez mais abertamente, o Estado favorece uma clientela maior de fiéis, e declara guerra aos estilos de vida e grupos que o ameaçam, sejam os fumantes, os caçadores, os proprietários de armas, os empreendedores ou os profissionais mais inovadores do mundo da finança – enfim, destes que não gostam de submeter-se.

Sem dúvida o totalitarismo islamista é ameaçador pois ele nos faz passar de Charybde à Scylla, de uma tirania doce a uma tirania dura. O Estado, “nosso” Estado, responde à ameaça totalitária tornando-se ele mesmo mais totalitário. Parafraseando Auberon Herbert, em seu artigo “The Ethics of Dynamite” , os tiranos islamistas não são mais do que o nec plus ultra do Estado.

Na aurora do século 21, o importante não seria compreender como o Leviatã avança e como acorrentá-lo, antes de teorizar sobre um ideal de liberdade total?

É difícil, portanto, imaginar o futuro da humanidade sob o jugo desta instituição desgastada e perigosa que é o Estado. Tropas de homens são forçadas, oficialmente, para seu próprio bem, a pagar impostos que servem essencialmente para favorecer alguns dentre eles e regimentar e controlar todo mundo. Da maneira que as coisas progridem, o argumento de Rothbard segundo o qual nós não temos nada a perder em tentar a anarquia, corre forte risco de advir incontornável.

E portanto, se nós ignorarmos as idéias filosóficas e econômicas que apoiam o Anarcocapitalismo, nós seremos incapazes de transmitir às novas gerações as idéias necessárias para criticar e combater o Estado. Eu espero que este pequeno livro, escrito na grande escuridão do século 20, sirva de testemunho e, para alguns, de ponto de partida na direção de uma perigosa mas fascinante reflexão.

Pierre Lemieux

Professor Associado

Universidade do Quebec em Outaouais

18 de Novembro de 2005


Tradução de Mateus Bernadino.

Edições em ePub e .Mobi feitas por Ivanildo Terceiro.



Sobre o autor

Pierre Lemieux

Economista, autor, professor, e consultor. Teve seus livros publicados em Paris e Montreal, e traduzido em inúmeras línguas. Colaborador frequente do National Post e de vários outros jornais ao redor do mundo. Professor associado do Department of Management Sciences da Université du Québec en Outaouais (Canada), co-diretor do GREL (Groupe de Recherche Économie et Liberté), pesquisador associado do Independent Institute, e membro do conselho do Turgot Insitute (Paris).



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