O pensamento laissez-faire nunca foi tão dominante quanto era entre os economistas franceses, à começar por J. B. Say no começo do século XIX, passando pelos seguidores mais modernos de Say, Charles Comte e Charles Dunoyer, até os primeiros anos do século XX.  Durante praticamente um século, os economistaslaissez-faire controlaram a sociedade econômica profissional, a Societe d'Economie Politique e suas revistas acadêmicas, o Journal des Economistes, bem como muitas outras revistas e postos universitários.  Ainda assim, poucos destes economistas tiveram suas obras traduzidas para o inglês, e quase nenhum é conhecido entre os professores americanos e ingleses — a única exceção é Fredric Bastiat, que não é o mais intenso do grupo.  Todo o ilustre grupo permanece desconhecido e não estudado.

O mais "extremista" e consistente, bem como o mais vivido e prolífico dentre os economistas laissez-fairefranceses foi Gustave de Molinari (que nasceu na Bélgica, 1819-1912), editor do Journal des Economistesdurante muitas décadas.  O primeiro artigo do jovem Molinari, traduzido aqui pela primeira vez como "Da Produção de Segurança", foi a primeira representação de toda a história da humanidade do que hoje é chamado "anarcocapitalismo" ou "anarquismo de livre mercado".  Molinari não usou esta terminologia e, provavelmente, teria recusado tal nome.  Ao contrário dos pensadores individualistas e quasi-anarquistas anteriores, como La Boetie, Hodgskin ou o jovem Fichte, Molinari não baseou o cerne de seu argumento em uma oposição moral ao estado.  Mesmo sendo um individualista fervoroso, Molinari baseou seu argumento com a ciência econômica de livre mercado laissez-faire, e procedeu logicamente formulando a questão: Se o livre mercado deve ofertar todos os outros bens e serviços, por que não também os serviços de segurança?

No mesmo ano, 1849, Molinari expandiu sua teoria radicalmente nova em um livro, Les Soirées de la Rue Saint-Lazare,uma série de diálogos fictícios entre três pessoas: o conservador (defensor de altos impostos e de privilégios monopolísticos estatais), o socialista e o economista (ele mesmo).  O dialogo final elabora mais profundamente sua teoria de serviços de defesa de livre mercado.  Quatro décadas depois, em seu Les Lois Naturelles de l'Economie Politique (1887), Molinari continua acreditando firmemente em companhias de polícia, companhias de serviços públicos e companhias de defesa privadamente competitivas.  Infelizmente, em sua única obra traduzida para o inglês, La Societé Future (The Society of Tomorrow, New York: G. P. Putnam's Sons, 1904), Molinari recuou parcialmente ao defender uma única agência privada monopolista de defesa e proteção, ao invés de permitir a competição livre.

É instrutivo observar a enorme controvérsia que o artigo de Molinari e seu Soirées provocaram nos economistas franceses partidários do laissez-farie.  Uma reunião da Societe d'Economie Politique em 1849 foi realizada em função do ousado novo livro de Molinari, o Soirées.  Charles Coquelin opinou que a justiça necessita uma "autoridade suprema", e que nenhuma competição em área alguma pode existir sem a autoridade suprema do estado.  Em um ataque a priori sem fundamentação similar, Frederic Bastiat declarou que a justiça e a segurança só podem ser garantidas através da força, e que a força só pode ser o atributo de um "poder supremo", o estado.  Nenhum dos debatedores se incomodou em criticar os argumentos de Molinari.  Somente Charles Dunoyer fez isso, alegando que Molinari havia deixado se levar pelas "ilusões da lógica", e sustentando que "competição entre agências governamentais é quimérico, pois leva a batalhas violentas".  Ao invés disso, Dunoyer preferiu confiar na "competição" entre partidos políticos inseridos no contexto de um governo representativo — longe de ser uma solução libertária satisfatória para o problema do conflito social!  Ele também opinou que era mais prudente deixar a força nas mãos do estado, "onde a civilização a colocou" — isto veio de um dos maiores fundadores da teoria da conquista do estado!

Lamentavelmente, este tema crucial foi deixado de lado na reunião, já que a discussão se concentrou em Dunoyer e os outros economistas criticando Molinari por ter ido longe demais ao atacar todo tipo de domínio eminente que o estado faz uso.  (Veja Journal des Economistes, XXIV (15 de outubro 1849), pp. 315-16.)

Com esta publicação da tradução do artigo original de Molinari, esperamos que o legado de Molinari agora ganhe a atenção de professores e tradutores.

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