Ciência Política house of cards

Publicado em 21 de maio de 2014 | por Sandy Ikeda

Você não pode amar o governo e odiar a política

A política é inseparável do governo.  Na verdade, ela é o governo.

Oliver Stone, cineasta iconoclasta e ativista político, discursou na Conferência Internacional do Estudantes pela Liberdade em fevereiro passado em Washington, D.C. O ponto comum entre Stone e a maioria dos libertários é sua conhecida crítica ao militarismo norte-americano no exterior, não somente da parte dos republicanos conservadores, como também da de democratas de esquerda como o Presidente Obama.

Entretanto, onde os libertários diferem de Stone, e diferem profundamente, é o que me parece mais interessante e instrutivo. Stone parece um homem desencantado com a política, todavia, ainda apaixonado pelo governo. Assim, ele condena o intervencionismo no exterior, mas aprova as intervenções violentas do regime de Chávez (agora, de Maduro) em seu próprio país. Ele parece acreditar que a política, particularmente a política suja, pode ser separada do governo.

Mas intervir é o que um estado forte faz, interna e externamente. 

Admiração, desencanto e traição

Stone era, como mencionei, duramente crítico ao presidente Obama. Stone disse que sentia que o presidente estava recuando nas suas promessas de campanha. Ao mesmo tempo, Stone expressou forte apoio ao atual regime na Venezuela e a violenta opressão governamental do Partido da União Socialista aos manifestantes da oposição, referindo-se a eles como “de má índole” por tentar derrubar o que ele considera um governo democraticamente eleito. (Contudo, veja essa carta aberta a Oliver Stone, entregue durante a conferência).

Condenar a intervenção violenta do governo dos Estados Unidos nas relações exteriores e, ao mesmo tempo, apoiar a intervenção violenta do governo da Venezuela em seus assuntos domésticos é uma inconsistência óbvia para muitos libertários. O tamanho relativo do governo dos Estados Unidos e sua autodenominada função como polícia do mundo comparado ao tamanho modesto da Venezuela e seu papel limitado na América Latina podem ser parte da razão pela qual Stone opõe-se a um enquanto aprova o outro.

No entanto, por trás do desgosto de Stone pelo presidente Obama, quem ele apoiou por duas eleições, estava um sentimento de traição oriunda do desejo de que Obama/presidente deveria viver em um mundo diferente do Obama/candidato. 

Iluda pelo bem da tarefa

Stone não está sozinho no seu desencanto pelo presidente Obama. O índice de aprovação do presidente alcançou o seu menor nível, e os Democratas estão preocupados com relação à influência desse fato nas eleições legislativas. O candidato iluminado e político valente perdeu seu brilho, especialmente para aqueles que acreditaram na sua retórica progressista – não somente na política externa, mas também na imigração, saúde e espionagem. Vamos ser justos: quase todo  presidente perde popularidade no seu segundo mandato. As pessoas eventualmente percebem que a realidade não combina com a retórica. Mas é exatamente essa a questão: é mera retórica. Ou, para ser mais preciso, retórica política.

O que é retórica política? É o discurso persuasivo que tem como foco a obtenção do controle do uso da força. Foi Carl von Clausewitz quem disse que “a guerra é uma continuação da política por outros meios”.  Portanto, a guerra e a política são somente formas distintas de se alcançar o controle físico. Enquanto a política normalmente não envolve violência aberta (pelo menos não nos países mais ricos nas últimas décadas), a retórica a serviço da política inclui o uso da mentira. Se a iniciação da força física é um meio aceitável – na verdade, o único meio – para que se possa declarar uma guerra, a mentira e a distorção dos fatos são seus parceiros relativamente pacíficos.

É por isso que o Estado é frequentemente definido como a agência que detém o monopólio legítimo da agressão e da fraude. Assim como a violência física, algumas pessoas argumentam que a mentira e a distorção dos fatos podem servir ao bem comum: por exemplo, dizendo às pessoas: “se você gosta do seu plano de saúde, pode mantê-lo” de forma a obter a aprovação do Obamacare. Platão afirmou que uma “nobre mentira” sobre as origens de uma nação, por exemplo, pode ser necessária para manter a harmonia social. No entanto, tais mentiras – diz ele – são mais eficazes junto às elites do que ao cidadão comum”.

Omitir a verdade de inimigos potenciais é tão importante quanto impedir seu acesso a armas. A política, de acordo com o dicionário online Merriam-Webster, envolve “atividades que visam influenciar as ações e políticas de um governo ou obter e manter o poder em um governo”. A mentira e a fraude são essenciais à política e a política é inseparável do governo. Ou, como Jane Jacobs escreveu em seu brilhante livro Systems of Survivaluma das regras básicas do governo é “iludir pelo bem da tarefa”.

House of Cards

Quando o governo é limitado a algumas tarefas, a necessidade e o escopo da fraude também são limitados. Por outro lado, quanto mais o governo faz, maior é o papel que a fraude tem nas atividades diárias. Como o escândalo da NSA ilustra, o governo espiona seus cidadãos e depois desmente. Embora o governo norte-americano ainda não tenha atingido o nível de planejamento central coletivista que F. A. Hayek expôs no Caminho da Servidão, muito do que escreveu se aplica a ele, mutatis mutandis.

Eu me recordo especialmente do seu famoso capítulo 10, “Por que os piores chegam ao poder”, do qual o argumento central é que quanto mais detalhado o plano que o Estado pretende impor aos seus cidadãos, mais desumanos e frios seus executores devem ser para que tenha sucesso. É por isso que os mais desumanos e sem princípios tem vantagem na luta pelo poder político. O que separa o presidente Obama, ou qualquer outro presidente recente dos Estados Unidos, de alguém como o presidente Vladimir Putin da Rússia é uma questão de grau, não de tipo. Parafraseando Lord Acton, não somente o poder tende a corromper, mas também o poder absoluto tende a atrair os totalmente corruptos. Frank Underwood, protagonista do drama televisivo House of Cards, é uma ilustração excelente, embora ficcional, de tal tendência.

A política é inseparável do governo, na verdade, ela é o governo. Quanto maior o governo, maior o papel da política. Como dizem, a política é uma característica, não um erro.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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