Economia Se você gosta da Wikipédia, você deveria amar o mercado

Publicado em 15 de abril de 2014 | por Gary M. Galles

Se você gosta da Wikipédia, você deveria amar o mercado

Recentemente eu li um artigo em comemoração aos doze anos da Wikipédia escrito por Sue Gardner, diretora executiva da Wikimedia Foundantion. É impressionante como a Wikipédia tornou-se útil e onipresente em um período tão curto de tempo, ao ponto que virtualmente todas as pessoas tomam por certa sua disponibilidade.

Membros de minha família, por exemplo, formaram-se em diversas áreas como matemática, economia, filosofia, letras, história da arte, teologia, advocacia, estudos sobre a mulher, educação e edição digital, e todos nós concordamos sobre a importância da Wikipédia.  Quando usada de forma prudente, é muito útil, particularmente como um local para iniciar o processo de aprendizagem.

Depois de ler o artigo de Gardner, como uma forma de teste, procurei pelo artigo sobre a Wikipédia dentro da própria Wikipédia. Encontrei um artigo extenso (que tinha sido atualizado alguns minutos atrás) no qual o(s) autor(es) claramente buscavam o equilíbrio. Naquele momento, já existiam 12 cabeçalhos (subdividindo os principais tópicos), 286 notas de rodapé, e muitas referências para aprofundamento dos estudos. Fiquei impressionado em descobrir que ela é o site mais popular de referências na Internet, com 365 milhões de leitores, 24 milhões de artigos (mais de 4.1 milhões em inglês) em 285 línguas, com uma média de crescimento diário de 800 artigos.

Enquanto quase todo mundo que conheço repete a visão positiva da Sra. Gardner sobre a Wikipédia, como economista, eu destaco algumas coisas que ela escreveu como particularmente importantes. Suas palavras me recordam que qualquer pessoa que gosta da Wikipédia deveria amar os mercados. Ela escreve:

Uma enciclopédia é uma das mais grandiosas exposições do esforço colaborativo, e a Wikipédia leva essa colaboração a novos patamares…

Eu não conheço um esforço comparável, um conjunto tão diverso de pessoas que se reúnem, pacificamente, buscando um objetivo comum.

A Wikipédia tornou-se uma parte indispensável da infraestrutura informacional do mundo.

Cada uma dessas citações expõe algo – o nível de colaboração, na medida em que incorpora a diversidade; o nível pelo qual alcança seus objetivos de forma pacífica; e que é uma fonte indispensável de informação – os quais revelam o porquê a troca voluntária dos mercados é a maior realização da humanidade

Vasta Colaboração

Mesmo a Wikipédia, com seus milhares de colaboradores, é somente uma demonstração da beleza da cooperação. As interações no mercado levam todos os seres humanos a cooperar, conscientemente ou não.

Nos mercados, as preferências e os valores dos participantes são incorporados nos resultados. Todas as pessoas que desejam comprar o fazem de forma voluntária, refletindo o fato de que valorizam mais o que vão receber do que o que vão abrir mão. Todas as pessoas que decidem vender o fazem de forma voluntária, refletindo o fato de que elas, também, valorizam mais o que vão receber do que o que vão abrir mão. E essas relações comerciais alocam bens e serviços a usos, locais e períodos de tempo mais valorizados, além de direciona-los aos proprietários que mais os valorizam. Tal processo é fruto de mudanças que as partes interessadas mutuamente concordam. É um campo muito mais vasto de cooperação social do que a Wikipédia. E todas as pessoas que usam os preços que resultam como informação das possíveis trocas que outras pessoas estão dispostas a fazer – isto é, a humanidade como um todo – beneficiam-se dela.

Como os mercados refletem as escolhas – e, portanto, as preferências, habilidades e circunstâncias – de seus participantes, eles também refletem as mudanças que as impactam, comunicando a informação por meio das mudanças nos preços relativos. Enquanto a Wikipédia é muito mais ágil do que outras fontes de referência na incorporação de nova informação, os mercados incorporam grandes quantidades de novas informações úteis muito mais rapidamente.

Na verdade, como Friedrich Hayek destacou na obra “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, os mercados podem incorporar informação conhecida somente pelo indivíduo, mesmo que ele não tenha intenção de beneficiar a outrem com aquele conhecimento, pois seu comportamento egoísta de mercado será refletido nas mudanças de preços que comunicam as consequências daquela informação, não importando sua intenção.

Além disso, Wikipédia foca em apresentar fatos que podem ser articulados e cujas fontes podem verificadas. Contudo, nos mercados, existe muito mais informação – incluindo todos os detalhes de tempo e espaço (lugar) que podem alterar as avaliações dos indivíduos sobre bens e serviços – superando nossa habilidade de compreensão e processamento. Grande parte da informação é transitória e frequentemente não articulável, de forma que os mercados passam adiante somente o principal que a maioria de nós deseja saber sobre como se conectam a nossas especializações ou escolhas de consumo. Quanto?

Quanto uma pessoa pagará, ou quanto ela cobrará por um bem ou serviço agora? Os mercados economizam nas informações, poupando-nos das infinitas e complexas combinações de quem, o que, quando, onde, e como por meio da comunicação por meio das mudanças de preços.

Quando você pensa cuidadosamente sobre a façanha incrível da coordenação social que os mercados tornam possível, não é difícil entender o porque Hayek concluiu,

Estou convencido de que se [se o sistema de mercado] fosse o resultado do desígnio humano, e se as pessoas guiadas pelas mudanças de preços compreendessem que suas decisões possuem importância muito além de seu objetivo imediato, esse mecanismo teria sido aclamado como um dos maiores triunfos da mente humana.

Adicione a essas façanhas o fato de que a proeza da cooperação no mercado também é alcançada de forma pacífica. Quando os direitos de propriedade são bem definidos e defendidos, somente arranjos voluntários são possíveis. Ou como Leonard Read escreveu no seu mais famoso livro, somente as relações pacíficas são permitidas. A força é imposta somente se necessária para impedir a violação dos direitos de um indivíduo por outro.

Realmente, os primeiros líderes do movimento do livre mercado, tais como Fréderic Bastiat, John Bright e Richard Cobden, enfatizaram não somente as vantagens do mercado para a sociedade e para os pobres em particular, mas também o progresso da paz. Nas palavras de Cobden:

[Nós], defensores do livre comércio, não somente pela riqueza material que geraria para a comunidade, mas pelo motivo muito mais elevado de assegurar a paz duradoura entre os povos (pessoas), dada a dependência mútua necessária para a satisfação dos seus desejos.

A natureza pacífica das interações do mercado é ainda mais surpreendente em vista do fato de que, ao contrário da Wikipédia, os mercados não se focam somente em um único objetivo. Eles realmente aumentam a cooperação social, mas essa cooperação está a serviço de objetivos individuais incompatíveis, quando não conflitantes entre si. Por exemplo, todos nós queremos alimento, roupas e abrigo , mas não queremos os mesmos tipos de alimento, roupas ou casas, tampouco queremos usá-los ao mesmo tempo, no mesmo lugar.

Os mercados não são somente mais importantes como “parte indispensável da infraestrutura informacional do mundo” do que a Wikipédia o é, eles funcionam sob uma desvantagem muito maior: nossos governos não atacam e interferem constantemente na informação que a Wikipédia oferece. Ao contrário, a infraestrutura informacional oferece pelos mercados é amplamente prejudicada pelo governo por meio de uma panóplia de intrusões, incluindo preços máximos e mínimos, tributos e subsídios, protecionismo (tarifas, cotas e barreiras não-tarifárias), além de regulações que impedem a entrada e suprimem a inovação.

A Wikipédia é certamente uma impressionante história de sucesso. É colaborativa, diversa e pacífica – e as pessoas cada dia mais confiam na Wikipédia como fonte de informação. Vale a pena celebrar. Mas ela não é o maior esforço colaborativo da humanidade, nem nossa maior fonte de informação útil. A maior fonte advém dos benefícios pacíficos diretos e indiretos, a saber, os arranjos voluntários aos quais nos referimos como “interações de mercado”. Contudo, enquanto louvamos a Wikipédia pelo que ela prove (oferece), também deveríamos lembrar que os benefícios da associação voluntária no mercado estão sofrendo ataques de muitos fronts. Respeitar o mercado da mesma forma que se respeita a Wikipédia atualmente seria uma grande evolução para a humanidade.

 // Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Gary M. Galles

É professor de economia na Pepperdine University. É autor do livro The Apostle of Peace: The Radical Mind of Leonard Read.



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