Economia competição

Publicado em 5 de fevereiro de 2014 | por Sheldon Richman

As virtudes da concorrência

Quando eu discorri certa vez sobre as razões pelas quais devemos estimar o livre mercado, eu preferi deixar de fora qualquer referência à concorrência. Pode parecer estranho, mas assim o fiz, pois essa questão merece tratamento especial.

Atitudes distintas em relação à concorrência de mercado dividem as pessoas desnecessariamente. Uma apreciação do que a concorrência torna possível poderia preparar o terreno para uma convergência entre os libertários e aqueles que podemos chamar de libertários “dissimulados”, isto é, aqueles que valorizam a liberdade individual, no entanto ainda não veem o mercado como seu lar natural.

Eu não vou me deter aqui nas funções econômicas específicas da concorrência – seu papel, por exemplo, na redução de preços e na melhoria da qualidade de bens e serviços. A concorrência entre empregadores também é importante para a maximização do poder de barganha dos trabalhadores. É por isso que os primeiros libertários norte-americanos, como Benjamin R. Tucker e seus companheiros contestaram todas as restrições governamentais à concorrência, incluindo as restrições bancárias. O monopólio protegido pelo Estado é inimigo da liberdade e da prosperidade.

Além desses aspectos, F. A. Hayek contribuiu para nossa apreciação da concorrência quando elaborou sua função na expansão do conhecimento. Em “Competition as a Discovery Procedure” (tradução livre, “A Competição como um Processo de Descoberta”), Hayek escreveu:

 A concorrência é importante somente porque, e à medida que, seus resultados são imprevisíveis e, no conjunto, diferentes daqueles pelos quais um indivíduo seria capaz de conscientemente lutar. (PDF)

Quais bens são escassos, contudo, ou quais coisas são bens, ou quão escassos ou valiosos são, é precisamente uma das condições que a concorrência deveria descobrir: em cada caso, são os resultados preliminares do processo de mercado que informa aos indivíduos onde vale a pena procurar.

Dessa forma, o processo concorrencial – no qual qualquer pessoa é livre para oferecer bens e serviços a compradores potenciais, os quais são livres para recusar e buscar alhures – revela informações que, de outra forma, não iriamos obter. Esse processo é indispensável para o bem estar humano, pois o conhecimento crucial sobre as preferências, talentos e recursos das pessoas é amplamente disperso e, por isso, não é possível o acesso direto ao seu total. Além disso, informações importantes são forjadas somente por meio do encontro de alternativas de mercado não antecipadas. Hayek ficou compreensivelmente frustrado com teorias de concorrência “nas quais se assume que todas as condições essenciais são conhecidas – um estado que a teoria curiosamente designa como concorrência perfeita, mesmo que a oportunidade para a atividade que chamamos concorrência não exista mais”.

Enquanto que pessoas de diferentes linhas ideológicas possam prontamente conceder esses benefícios, mesmo assim permanece o que eu considero como uma objeção estética à rivalidade livre entre os vendedores no mercado. Devido ao fato que a concorrência acarrete em vencedores e perdedores, aos olhos de algumas pessoas parece menos humana do que sua suposta alternativa contrária: a cooperação. No entanto, a competição e a cooperação não são tão diferentes quanto parecem a primeira vista. Observe este exemplo: eu entro num bazar com uma variedade de vendedores. Eu foco em dois que estão vendendo sapatos. Eu gostaria de comprar um novo par de sapatos e só posso comprar de um dos vendedores. Os dois, portanto, estão concorrendo – mas concorrendo a que? Concorrendo para cooperar comigo, é claro.

A concorrência, então, é o resultado natural da cooperação e da liberdade. Separar a liberdade da cooperação significaria cooperação obrigatória. Eu não sei você, mas isso não me soa bem.

É também estranho que algumas pessoas que agem com cautela em relação a monopólios não aceitem a concorrência como a única alternativa. É ainda mais estranho que alguns que não gostam do monopólio privado estejam aceitando o monopólio governamental, como no seguro de saúde individual (Obamacare) ou, de modo geral, no socialismo de estado. Eu não vejo razão para se pensar que o monopólio governamental seria melhor do que a sua versão privada. A história certamente nos dá razão para pensar assim.

De qualquer forma, não precisamos escolher entre formas de monopólio, pois podemos ter concorrência se queremos. Tudo que precisamos fazer é manter o governo fora de toda a atividade econômica. O monopólio não é um fenômeno de mercado, mas sim o produto de privilégios governamentais, os quais, como toda a atividade governamental, é baseado na força. E todos nós sabemos quem possui a vantagem comparativa na obtenção de favores do governo. Dica: não é o trabalhador médio e comum.

Eu levantei essas questões esperando que os defensores dos mercados livres engajem-se numa troca de ideias produtivas com aqueles que anseiam por liberdade, mas que não tem nenhuma aversão aos mercados competitivos. Tal troca de ideias tem um precedente no passado dos Estados Unidos. Os libertários associados com a antiga revista Liberty (1881-1908) (com tendência ao anarquismo de mercado) ativamente debateram com oponentes estatistas nessas questões. Por exemplo, em 1888 certo W.T. Horn questionou nas páginas da revista “se a concorrência ou cooperação são as formas mais verdadeiras daquela confiança mútua e boa vontade fraternal as quais, sozinhas, podem tomar o lugar as presentes formas de autoridade, usos e costumes como um elo de ligação social? Ele prosseguiu,

A resposta parece óbvia. A concorrência, se significa algo em si, significa guerra, e, longe de tender a aumentar o crescimento da confiança mútua, deve gerar divisão e hostilidade entre os homens. Se a liberdade egoísta demanda a concorrência como seu corolário necessário, todo o homem torna-se um “Ismael social”. O estado de bem-estar velado então implicado onde a destreza oculta toma o lugar da força tem, sem dúvida, seus encantos a muitas mentes, mas propor a confiança mútua como seu principio regulatório tem todos os aspectos de uma declaração de guerra em termos de paz. Não, certamente o crédito e a confiança mútua, com tudo que a eles é implícito, certamente pertencem a uma ordem de coisas onde a unidade e o companheirismo caracterizam todas as relações humanas, e floresceria melhor onde a cooperação encontra sua expressão mais pura – a saber, o Comunismo.

A isso, o editor Benjamin R. Tucker respondeu,

A suposição de que a concorrência significa guerra reside em noções antigas e afirmações falsas que têm sido há tempos utilizadas, mas que estão passando para o limbo das falácias desacreditadas. A concorrência significa guerra somente quando é de alguma forma restringida, seja em escopo ou intensidade – isto é, quando não é perfeitamente uma livre concorrência; porque então seus benefícios são desfrutados por uma classe à custa de outra, em vez de por todos à custa das forças da natureza. Quando universal e irrestrita, a concorrência significa a paz mais perfeita e a cooperação mais verdadeira; porque, então se torna simplesmente um teste de forças resultando na sua utilização mais vantajosa [...] onde a liberdade prevalece, a concorrência e a cooperação são idênticas.

Dessa forma, alguém poderia seriamente pensar que dois vendedores em um bazar estão guerreando? Duas lojas na rua? Duas empresas? Pelo contrário, em um mercado livre isento de privilégios, sua rivalidade serve aos consumidores e afia suas próprias habilidades. No pior dos casos, um vendedor pode ver que não é apta para o negócio, levando-a a outra ocupação na qual ela possui vantagem comparativa. Assim, nós vemos as funções de eficiência e descoberta da cooperação via concorrência em ação.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana. | Artigo Original


Sobre o autor

Sheldon Richman

Sheldon Richman é um escritor político americano, acadêmico, ex-editor da revista The Freeman, atual vice presidente da Future of Freedom Foundation e editor da Future of Freedom, publicação mensal da FFF.



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