Anarquismo de Mercado bitcoin

Publicado em 21 de agosto de 2014 | por Matthew Sparkes

A vindoura anarquia digital

O Bitcoin está concorrendo pelo dinheiro dos bancos. Agora a mesma tecnologia por trás dele também ameaça erradicar as redes sociais, as bolsas de valores e até mesmo os governos nacionais. Estaríamos indo ao encontro de um futuro anárquico no qual toda sorte de centralização de poder se dissolveria?

A mesma tecnologia que dá poder ao Bitcoin pode ser cultivada para revolucionar uma série de outros sistemas.

As constantes subidas do Bitcoin chamaram a atenção do mundo, no entanto o seu potencial devastador ainda não é muito bem conhecido. Sim, todos nós sabemos que se trata de uma moeda digital. Mas os desenvolvedores que trabalharam no Bitcoin acreditam que ele representa um marco tecnológico que poderia varrer para a obsolescência tudo, desde as redes sociais às bolsas de valores … e até mesmo os governos.

Em suma, o Bitcoin poderia ser a porta de entrada para a vindoura anarquia digital – “um catalisador para a mudança que criará um mundo novo e diferente”, citando Jeff Garzi, um dos desenvolvedores mais prolíficos do Bitcoin.

Já está começando. Nós usávamos os bancos para manter um registro de quem era dono do quê. Não mais. O Bitcoin e seus rivais provaram que os bancos podem ser substituídos por software e pela elegância matemática.

E agora os programadores do eixo libertário estão começando a se perguntar do que mais nós não precisamos.

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Uma casa de câmbio eletrônica de Bitcoin em um shopping em Cingapura.

Imagine táxis sem motoristas perambulando de cidade em cidade em busca das tarifas mais lucrativas; o céu enegrecido, coberto por drones entregando suas compras ou mesmo suas drogas ilícitas. A anarquia digital poderia preencher as suas vidas e pesadelos com máquinas que obedecem a você, aos seus empregadores, a facções criminosas … ou a ninguém. Quase todos os aspectos das nossas vidas serão revistos.

Para entender como, precisamos vislumbrar o poder do blockchain – uma espécie de livro-razão peer-to-peer que cria e registra acordos sobre questões contenciosas com a ajuda da criptografia.

Um blockchain forma o coração pulsante do Bitcoin. Em tempo, os blockchains energizarão muitas tecnologias revolucionárias e radicais, nas quais algumas pessoas inteligentes estão trabalhando neste exato momento.

Até pouco tempo, precisávamos de instituições centralizadas – bancos, bolsas de valores, governos, forças policiais – para resolver questões vitais. Quem é dono desse dinheiro? Quem controla essa empresa? Quem tem direito a votar nessa eleição?

Agora nós temos um pedacinho de matemática, puro e incorruptível, consagrado num código computacional, que permitirá que as pessoas resolvam os problemas mais espinhosos sem ter que recorrer às “autoridades”.

Os benefícios de sistemas descentralizados serão enormes: corte de gastos, segurança melhorada e (em várias ocasiões) o afastamento do elo mais fraco de todos – seres humanos gananciosos, corruptos e falíveis.

Mas quão longe vão chegar os efeitos revolucionários? Estaríamos nos aproximando rapidamente de uma singularidade em que, graças a ferramentas inspiradas no Bitcoin, o poder centralizado de qualquer natureza parecerá tão arcaico quanto o sistema feudal?

Se a revolução da internet nos ensinou alguma coisa é que, quando a mudança vem, ela vem rápido.

Dinheiro Engraçado

Vamos começar pela moeda digital. Neste momento, no despertar de uma crise financeira sem precedentes, é fácil de entender o apelo de um novo dinheiro que está além do poder dos bancos e dos governos.

Nenhum tesouro nacional pode imprimir mais Bitcoins e inflacionar o valor das suas poupanças, ou emprestá-lo de forma inconsequente para pessoas que não têm condições de ressarcir os valores, o que eventualmente traz ao colapso todo o sistema. As regras do Bitcoin estão fundadas em rocha digital.

Tudo começou com um artigo escrito por alguém que se auto intitulava “Satoshi Nakamoto” e publicado sem muito alarde numa lista de e-mails sobre criptografia em 2008. Este artigo descrevia um plano para um tipo de dinheiro baseado em “prova criptográfica em substituição à confiança”.

Nakamoto descrevia uma maneira de manter um registro público de todas as transações – o blockchain – para provar quem era dono do quê. Foi uma ruptura que resolveu um problema de longa data da ciência da computação: como fazer um sistema complexo funcionar sem um controle central.

O Bitcoin não tem um banco para garantir a segurança, para registrar a propriedade ou para lidar com as transações. Ele não precisa de ninguém.

A verdadeira identidade de Satoshi nunca foi revelada, embora haja vários rumores: um estudante solitário, um grupo de programadores anarquistas descontentes trabalhando no setor financeiro, a CIA …

O que se sabe é que o número de moedas em circulação é finito, limitado a 21 milhões. O plano é imutável: por volta de 13 milhões já existem e as últimas devem ser disponibilizadas em mais ou menos 20 anos.

Os críticos que dizem que o Bitcoin não é nada senão zeros e uns num arquivo de computador e que, portanto não pode ter valor, esquecem-se de que suas contas bancárias, da mesma maneira, também não são nada mais do que números num computador.

A libra vale alguma coisa somente porque as pessoas escolhem depositar algum valor nela. Se este consenso quebrasse, então – como na Alemanha de Weimar – um carrinho de mão cheio de notas de 20 libras não daria nem pra comprar um copinho de café. A libra esterlina é famosa por ser uma moeda estável – mas só ocasionalmente ela sofre algum sobressalto. Por exemplo, em 2007, a Northern Rock foi obrigada a pedir dinheiro para o Bank of England. Alguns consumidores correram para retirar seu dinheiro, e daí mais alguns também compareceram… e logo o pânico estava instaurado. Perda de confiança. Sob as sombras de Weimar, ou mesmo do Zimbabwe.

Se as moedas nacionais podem ser vitimadas pela erosão da confiança como numa reação em cadeia, por que uma nova moeda não experimentaria o mesmo fenômeno ao contrário?

Ano passado o Chipre aterrorizou os seus cidadãos quando anunciou que iria confiscar até 60% de todas as poupanças acima de € 100.000,00 para salvar os bancos. Subitamente o Bitcoin parecia menos arriscado, e os volumes de transação se alargaram conforme as pessoas despejavam dinheiro na nova moeda digital, para mantê-lo fora dos cofres governamentais.

Protestos em Nicósia, Chipre, em 2013, contra um tributo sobre os depósitos bancários. (BLOOMEBERG)

Esse tipo de confisco seria impossível com o Bitcoin. Não há autoridade central capaz de tomar o seu dinheiro.

Também não há farras de crédito. O sistema bancário de criação mágica de dinheiro pela via do empréstimo é impossível no mundo do Bitcoin.

Isso tudo tem um apelo enorme. O colunista do Financial Times, Martin Wolf, afirmou recentemente que os bancos deveriam ser tolhidos desse estranho direito de criar dinheiro do nada, alegando que esta seria a causa das bolhas de crédito e das quebras, como o doloroso ciclo que nós acabamos de testemunhar. Em sua opinião, eles deveriam estar restritos a somente emprestar o tanto de dinheiro que eles recebem em depósitos dos poupadores. É difícil contrariar uma proposta tão óbvia como essa.

Talvez não seja coincidência que o Bitcoin tenha emergido das cinzas de uma recessão selvagem. Embora ele seja radical em vários sentidos, ele também é bastante conservador: não há dívida pública, nem derivativos complicados, nem intermediários desonestos. Ou você tem as moedas, ou não tem.

A sincronia foi impecável, o perfeito antídoto contra um sistema financeiro em que não podemos confiar que irá impedir mais uma rodada de boom and bust.

A Velha Ordem: Controlando a Internet

Os bancos não são as únicas instituições com o futuro ameaçado. O blockchain tem o poder de extirpar até mesmo as empresas pontocom mais destacadas.

A internet, recheada de vazamentos de dados acidentais, como o último do eBay, e de espionagem governamental, está implorando por uma ruptura anárquica. A falta de confiança nos bancos tornou-se a falta de confiança nos guardiões do ciberespaço. Há um senso cada vez maior de que não podemos confiar a ninguém os nossos dados e o nosso dinheiro.

Nós costumamos pensar a Internet como um vale-tudo libertário, um lugar onde tudo acontece e o onde o governo tem medo de se meter. No entanto, nada poderia estar mais longe da verdade. A Internet foi uma invenção dos EUA, nascida do Departamento de Defesa no final dos anos 60, e o governo americano ainda mantém firme as rédeas até hoje.

Nos anos 90, a manutenção da internet era supervisionada por um único homem: um cientista da computação, que constava na folha de pagamento do referido Departamento, chamado Jon Postel. Uma vez que o trabalho ficou grande demais para ele, o governo dos EUA criou uma organização sem fins lucrativos para assumir a tarefa, chamada Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN) – Corporação da Internet para Distribuição de Nomes e Números. Agora ele mantém o registro dos donos de cada domínio e mantém vários sistemas que sustentam a Internet e a World Wide Web.

O ICANN se apresenta como um zelador amigável e um guarda de segurança, com um lema altruísta: “Um só mundo. Uma só internet.” Ele opera sob mandato do governo americano para operar as coisas “de baixo para cima, consensualmente, de forma democrática”. O blog dele – sim, ele tem um blog – varia fluentemente desde as gírias do Vale do Silício (“this incredible journey”) até o jargão corporativo (“uma abordagem multipolar da administração do futuro da evolução da Internet”).

Desde 2010, o ICANN abriu quatro escritórios novos – em Los Angeles, em Washington DC, em Bruxelas e (é claro), no Vale do Silício. Como se ostenta no site dele: “A arquitetura contemporânea de todos os quatro escritórios expressa visualmente o mandato organizacional do ICANN em favor da transparência, com escritórios forjados em vidro e janelas que perpassam as salas de conferência e se estendem do chão ao teto, para permitir a luz natural.”

Mas será que a transparência operacional do ICANN se equipara àquela de suas janelas reluzentes?

Critica-se frequentemente a postura do seu comitê consultivo de governos nacionais, bem como o Banco Mundial, a Organização Mundial de Comércio e a Interpol, por tomarem decisões em questões importantes por detrás de portas fechadas. E as ações mais recentes em direção à “transparência” parecem mirar o exato oposto. O ICANN quer restringir o acesso ao Whois, um serviço que permite a qualquer um descobrir quem detém o registro de um determinado domínio na Internet. Ao invés disso, a informação estaria disponível para as partes “propriamente” interessadas na questão.

Para ser mais direto, as engrenagens globais da internet são operadas por um conglomerado dominado por governos – e especialmente pelo governo americano.

Ainda, os governos individuais pelo mundo dispõem de suas próprias ferramentas de censura. O ponto crucial é que a censura tem um espectro. Poucos de nós objetariam a atitude do Reino Unido de bloquear o acesso à pornografia infantil – mas e quanto ao banimento de sites de compartilhamento de arquivos? Ou o bloqueio desajeitado de qualquer informação crítica de uma regime autoritário?

Enquanto isso, em grande parte graças a Edward Snowden, nós estamos despertando para o fato de que os mesmos governos que restringem o que nós podemos ver são eles próprios capazes de se intrometer nas nossas vidas privadas.

A sede da GCHQ in Cheltenham

Os documentos vazados por Edward Snowden revelaram que a agência de espionagem hi-tech do governo inglês, a GCHQ, com sede em Cheltenham, capturou imagens de conversas privadas via webcam entre pessoas quaisquer durante uma investigação em atividade – “não selecionadas”, na sua terminologia um pouco assustadora.

Mais de um milhão de usuários de webcam caíram na rede dessa operação. Descobriu-se que muitas dessas imagens eram sexualmente explícitas. Elas continuam arquivadas em Cheltenham.

A Nova Ordem: O Desenlace da Internet

Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha têm os recursos para criar as ferramentas para fazer esse tipo de coisa. Países menores recorrem ao setor privado, que ainda está admirado com tudo isso para poder ajudar. E é aqui que o jogo começa a mudar: do controle da Internet para seu desenlace.

Andover é uma cidade comercial um pouco pitoresca em Hampshire. É um cenário incomum para os escritórios da Gamma, uma controversa empresa de segurança na internet que vende o chamado FinFisher, descrito pela Bloomberg como “uma das ciber-armas mais ardilosas do mundo, que pode tomar remotamente o controle de um computador de forma secreta, copiando seus arquivos, interceptando chamadas do Skype e registrando cada tecla pressionada”.

Depois da Primavera Árabe, a BBC relatou que vira documentos na sede do prédio do Ministério de Segurança do Egito que sugeriam que o software da Gamma foi utilizado num teste durante cinco meses tendo como alvo os ativistas pró-democracia. A empresa negou que tivesse fornecido o software. (Ela não atendeu às demandas de comentários feitas quando contatada pelo Telegraph).

O diretor administrativo da Gamma, Martin Muench, que tem seus 30 anos, veste preto e vem de uma pequena cidade no norte da Alemanha, que ele não vai dizer qual é porque teme pela segurança de sua família. Ele diz que o FinFisher ajuda a capturar pedófilos e terroristas, que consideram Martin a própria “personificação do mal”.

Ele também não é popular entre os ativistas de direitos humanos em Bahrein: como a Bloomberg relatou em detalhes, eles alegam que o FinFisher foi utilizado contra eles. Muench nega que o FinFisher seja uma ferramenta para tiranos. Martin é alguém que cuidadosamente resguarda sua reputação e sua privacidade. Se você olhar bem a fotografia que a Bloomberg tirou dele sentando próximo ao seu laptop da Apple, você verá que ele parece manter um pequeno adesivo cobrindo as lentes da webcam.

O diretor administrativo da Gamma, Martin Muench (BLOOMBERG)

Muench e a Gamma operam dentro da lei: o FinFisher não é uma ferramenta ilegal, embora possa ser usada ilegalmente.

Ajuste a tecnologia um pouquinho, entretanto, e você terá algo como o Blackshades Remote Access Tool (RAT) – Ferramenta de Acesso Remoto Sombras-Negras, que é tido como um “software comercial maligno”.

O Blackshades RAT foi utilizado ano passado para capturar fotos nuas da, então com 19 anos de idade, Miss Teen USA, Cassidy Wolf. Jared James Abrahams, de 20 anos, ameaçou publicar as fotos na internet a não ser que Wolf lhe enviasse um vídeo íntimo. Ele foi posteriormente condenado a 18 meses na cadeia.

Ao final de maio deste ano, quase 100 pessoas foram detidas numa investida global contra os criadores, vendedores e usuários do Blackshades RAT. É uma ferramenta de hackers e chantagistas. Siga o rastro dele e logo você vai se encontrar em meio a lugares estranhos. Como resultado das prisões do Blackshade, a Polícia apreendeu 1.100 dispositivos de armazenamento suspeitos de estarem sendo utilizados em atividades ilegais. Eles também encontraram dinheiro roubado, armas e drogas.

O crime organizado é obcecado pela tecnologia. Isso dificulta a ação da lei, mas isso também evidencia uma tendência mais ampla.

Os governos e suas agências que, até então, detinham o total controle sobre a internet, estão perdendo-o rapidamente. É como segurar um punhado de areia: quanto mais você aperta, mais ela se esvai.

Eis uma ilustração. A University of Abertay em Dundee agora oferece um bacharelado de quatro anos em “Hackaemento Ético”. A Abertay é uma universidade pequena, e alguns de seus cursos – ex.: um bacharelado em “Golf Artístico” – expõem-se ao ridículo. Então, face a isto é que está o “Hackeamento Ético”, que poderia significar qualquer coisa.

Investigando os detalhes do curso, entretanto, você descobre que ele é inteligentemente projetado para resolver as crescentes ansiedades de grandes organizações que vivem com medo da sabotagem digital.

De acordo com a ementa, “o mundo dos negócios está vendo um crescimento rápido na demanda por hackers éticos ou white hats, empregados pelas empresas com a finalidade de encontrar falhas de segurança antes que os hackers criminosos, black hats, o façam… Hackers são naturalmente curiosos e querem desmontar as coisas. Eles experimentam e pesquisam. Um hacker quer aprender e investigar. O objetivo é que você entre neste programa como um estudante e saia como um hacker ético.”

Os graduandos disporão de conhecimento de ponta para tentativas de invasão, criptografia e sistemas de identidade biométrica. Eles estarão intimamente familiarizados com os hábitos dos hackers “black hat”.

Como resultado disso, eles não terão dificuldades para encontrar empregos bem remunerados. Muitos destes empregos inclusive poderiam ser dentro da própria GCHQ.

A agência patrocina torneios anuais que atraem milhares de participantes do exato tipo que a Universidade de Abertay está procurando, que são exaustivamente testados durante numerosas rodadas online até que sejam reduzidos às poucas dezenas que participam da simulação final extremamente realista de um ciber-ataque. Este ano ela foi sediada na Sala de Gabinete de Guerra no subsolo do Whitehall.

Este ano eu falei com um homem de Cheltenham que se recusou a me dar o seu nome e disse que “algumas das habilidades que você vê aqui hoje são aquilo que a GCHQ estaria fazendo”. Ele era uma das muitas pessoas a ver os procedimentos usando uma braçadeira especial que eu estava proibido de fotografar.

Depois eu perguntei a Stephanie Daman, a chefe executiva do Cyber Security Challenge, quantas pessoas na sala seriam contratadas pelas agências de segurança, mas tive que ouvir a resposta, acompanhada de um sorriso, de que tais coisas não são reveladas.

Mas se alguém tivesse um bom desempenho e não reaparecesse no próximo ano? Você pode fazer suas próprias inferências a partir disso, disse ela: “Nós não somos uma agência de emprego. Nós fornecemos um lugar para que as pessoas se encontrem.

O Cyber Security Challenge, sedeado em Londres. (MATTHEW SPARKES)

Se estes hackers éticos permanecerão éticos é outra questão, entretanto.

Redes sociais, motores de busca e o varejo online ficaram ricos ao absorver a informação pessoal de seus usuários e destilá-la em valorosas bases de dado utilizadas numa forma de publicidade mais direcionada.

Conforme diz o adágio: “Se você não está pagando, então você é o produto”. Você não paga um centavo pelos produtos de mecanismo de busca, de email ou de calendário do Google. O que você paga, entretanto, é com seus dados sobre todo os aspectos da sua vida: quem você conhece; onde você vai; o que você gosta de comer, de vestir, de assistir.

Uma quantidade inimaginável de informações está sendo analisada e explorada pelas empresas para arrancar dinheiro de nós. Mas em vez de ter que coletar isso, nós mesmos estamos entregando isso a elas em troca de uma maneira simples e gratuita de papear com nossos amigos e de compartilhar fotos ou de mandar e-mails.

Por trás da fachada relaxada, do “vamos tirar um racha” das empresas do Vale do Silício, subjaz uma paranoia e furtividade tais que, dizem os críticos, beiram a sociopatia. Isto nem é muito surpreendente. As gigantes pontocom podem perder bilhões de dólares e até mesmo dar início a uma recessão americana se a internet se tornar instável demais para elas administrarem. Mas, adicionado a isso, elas precisam tirar vantagem da instabilidade digital para conseguir desequilibrar seus rivais.

“Estes caras são malucos por controle, que veem a si mesmos como ‘revolucionários’, para citar uma de suas palavras favoritas”, diz um analista alocado na Califórnia. “É uma mistura muito inflamável, particularmente quando você considera a infinita incerteza que eles têm de enfrentar todo dia.”

As maiores corporações fazem hora-extra para manter uma aparência de onipotência. Dave Eggers satiriza uma dessas empresas em seu romance The Circle (O Círculo), sobre uma pontocom sinistra da Costa Oeste, cujo slogan inclui “segredos são mentiras” e “privacidade é roubo”.

Numa entrevista com a McSweeneys, Eggers disse que frequentemente teve que deletar partes inteiras de seu manuscrito quando a realidade alcançou a ficção: “Muitas vezes eu pensava em alguma coisa que uma empresa como o Círculo poderia imaginar, alguma coisa esquisita, e então eu lia sobre exatamente a mesma invenção no dia seguinte, ou mesmo sobre algo ainda pior.”

Agora nós precisamos analisar um importante paradoxo que está no coração da vindoura anarquia digital.

 O poder oculto dos Facebooks, Twitters e dos Googles do mundo está inspirando anarquistas digitais a destruírem as gigantes presunçosas e cheias de palavreado do Vale do Silício. Mas quem são estes hackers? Eles provavelmente não são criminosos de carreira que identificam a si mesmos por seus títulos black hat. Pelo contrário, eles podem até mesmo terem aprendido seus truques enquanto trabalhavam em Palo Alto.

Em certos casos, as mesmíssimas pessoas que ajudaram a criar estas megacorporações estão agora trabalhando em “tecnologias revolucionárias” para substituí-las.

Nós pensamos no Vale do Silício como habitado por “esquerdistas”. Mas isso não é bem verdade. Pode até ser que eles sejam socialmente esquerdistas, mas seu “libertarianismo” é frequentemente predicado em impostos muito baixos capazes de financiar somente um governo muito pequeno. Eles têm uma quedinha pelo republicano anti-imposto Rand Paul e pela ética de matar-ou-morrer da capitalista libertária paranoica Ayn Rand (que não é a causa do nome do Sr. Paul, embora ele tenha tido que passar a vida toda negando isso).

As utopias digitais no fundo das mentes dessas pessoas são por vezes assustadoramente bizarras.

Considere, por exemplo, Peter Thiel, o fundador do PayPal – ironicamente, uma das companhias que o Bitcoin quer fisgar. Ele doou 1,25 milhão de dólares para o SeaSteading Institute, um grupo que quer criar uma nação autônoma no oceano, longe das leis de soberania existentes e livre de qualquer regulação.

Numa conferência em 2009 ele disse: “Tem muita gente que pensa que não é possível. E isso é uma coisa boa. Nós não precisamos nos preocupar muito com estas pessoas, porque, como elas pensam não ser possível, elas não vão nos levar muito a sério. E não vão tentar nos impedir até que já seja tarde demais.”

É difícil generalizar as motivações quando as membranas que separam o controle da anarquia, a criatividade da ruptura, e a ganância da filantropia tornaram-se tão alarmantemente finas. Lembre-se que os empreendedores do Vale do Silício e suas muitas franquias globais são geralmente jovens o suficiente para serem impressionáveis e fáceis de se animar. Sim, alguns deles podem ser categorizados como utopistas – mas, assim como outros utopistas ao longo da história, eles estão prontos para utilizar táticas destrutivas para atingir seus objetivos.

 E qual é este objetivo? Agora, de forma bem simples, é criar o que eles chamam de versões “incorruptíveis” de websites, redes e instituições financeiras das quais eles dependem diariamente – afastando o intermediário responsável por estes serviços e quaisquer motivações por trás dele.

Os novos anarquistas digitais – que provavelmente vestem um moletom da Gant, e não seriam encontrados mortos por aí usando uma máscara do Anonymous – estão na vibe de punir o Facebook, o Google, o Twitter, o PayPal, o eBay, ou qualquer um, por sua arrogância. De fato, eles podem ter tido que enfrentar essa arrogância de perto ao trabalhar para eles. Isso é razão suficiente para o grande desenlace digital.

Quanto aos meios e à oportunidade – bem, agora eles têm sua própria arma: o blockchain.

Nós precisamos entender mais sobre este conceito, então voltemos ao Bitcoin para dar uma espiada.

Porque o Blockhain Muda Tudo

Em nosso sistema bancário atual, todos temos contas nas quais mantemos uma certa quantidade de dinheiro. Para pagar um café no Starbucks, a gente diz pro banco, geralmente por meio da máquina de cartão e senha, que nós queremos transferir £3. O saldo da conta do Starbucks aumenta £3 e o nosso diminui £3, e o banco registra no livro-razão.

O Bitcoin remove o banqueiro do processo, o intermediário, aquele que pode escolher cobrar taxas, repassar seus dados para o Governo… ou fazer qualquer outra coisa que eles acharem conveniente, o que pode acabar irritando o anarquista libertário médio. (Alguns deles vivem em estado permanente de ressentimento, diga-se de passagem.)

Mas concretizar isso está longe de ser simples. Quem sabe quanto dinheiro cada um tem, senão o banco? Se fosse dado aos indivíduos este poder, todos nós adicionaríamos alguns zeros aos nossos saldos e a coisa toda descambaria para uma completa farsa.

A solução do Bitcoin é que todo mundo registra todos os dados. Todos nós seremos o banco. Como vimos nos parágrafos anteriores, o blockchain é um registro público de todas as transações, que mostra quanto cada pessoa tem, e ele é armazenado por usuários de Bitcoin por todo o mundo.

A parte engenhosa é a forma como a rede atinge um consenso sobre o que deve ser escrito no blockchain. Senão haveria milhares de blockchains diferentes, todos discordando de quem é dono do quê.

A ideia é que cada uma das transações seja difundida pela pessoa que a iniciou. No lugar de dizer ao banco que nós queremos gastar £3, nós dizemos isso ao mundo. Essa transação é agrupada junto a milhares de outras, que são unificadas criptograficamente por “mineradores” num “bloco”.

Tecnicamente, qualquer pessoa com um computador pode ser um minerador – só é preciso instalar um software bem pequeno. Mas não é fácil minerar: longe disso.

Os “mineradores” de Bitcoin são chamados assim porque os mineradores de ouro precisam trabalhar um bocado antes de conquistar alguma recompensa em forma de metal precioso. No mundo do Bitcoin, os mineradores precisam quebrar um problema criptográfico extremamente difícil antes de receber a recompensa de Bitcoins recém minerados. Aquele “bloco” é então adicionado ao final do blockchain e difundido por todo o mundo.

Citando o wiki-dicionário mantido pela “comunidade do Bitcoin” – o mais próximo talvez que você possa chegar de uma explicação oficial – “minerar é uma atividade projetada intencionalmente para consumir muito esforço e ser muito difícil, para que o número de blocos que os mineradores consigam encontrar diariamente permanece constante … O propósito primeiro da mineração é permitir que os nós da rede Bitcoin cheguem a um consenso seguro e inviolável.”

Em outras palavras, o blockchain permanece tanto público como infalível. É um registro perfeitamente confiável de quem tem a propriedade do quê, mas também de quem foi dono do quê ao longo do tempo, até o momento de criação do Bitcoin.

Qualquer um que tente alterar este livro-razão para roubar uma moeda, teria que refazer todos os difíceis cálculos que foram feitos para que ela fosse inserida ali quando passou de uma mão pra outra. Então essa pessoa teria que fazer esses cálculos para todos os blocos que viessem a ser colocados depois até a presente data, e então conseguir calcular tão rápido que viesse a ser a primeira pessoa a construir o último bloco em cima dessa fila, de modo que ele fosse aceito como a versão definitiva.

Resumindo: é impossível.

Ocorre que nosso primeiro gostinho desse poder decentralizado é uma moeda, o Bitcoin, mas poderia muito bem ser uma bolsa de valores, uma rede social, ou um sistema de voto eletrônico.

Jeff Garzik, desenvolvedor do Bitcoin, disse-me que a tecnologia por trás do blockchain é “a maior invenção desde a internet – um catalisador para mudar todas as áreas das nossas vidas”.

Atualmente ele trabalha numa campanha de financiamento para lançar satélites de Bitcoin em órbita. O propósito é retransmitir a última versão do blockchain pelo mundo para aqueles sem um serviço de internet muito confiável. Isso é o quanto ele acredita nessa ideia.

“Moeda é simplesmente a primeira aplicação da tecnologia decentralizada do Bitcoin” – ele me diz lá da sua casa em Atlanta. “O Bitcoin são muitas camadas de uma cebola. Descasque uma camada e outra camada incrível aguarda logo abaixo, pronta para ser explorada.”

Quando o poder está concentrado nas mãos de algumas poucas pessoas poderosas, há o risco de catástrofe, de destruição e de caos, ele avisa. Decentralizar um sistema transfere esse poder para as regras imutáveis da matemática.

E é aí que o jogo muda de verdade.

Desmoronamento

Lembra daqueles escritórios envidraçados que foram construídos pelo ICANN para enfatizar a própria “transparência”? Ultimamente, um bocadinho de nervosismo tem entrado junto com a luz do sol.

O controle do ICANN sobre os nomes dos domínios da internet agora parece mais tênue do que nunca. Atualmente o grupo decide quais domínios gerais podem existir (.co.uk por exemplo) e concede uma licença para vender endereços sob eles (como telegraph.co.uk) para os escrivães comerciais. Você paga uma taxa anual para “ter a propriedade” sobre aquele domínio.

O ICANN então opera um sistema chamado DNS, que pega estes domínios fáceis de lembrar e os mapeia segundo os endereços de IP onde os sites de fato residem. A não ser que seus usuários estejam dispostos a lembrar de uma longa sequência numérica, como 93.184.216.119, você tem que comprar uma vaga no Domain Name System (DNS).

Até que inventaram o Namecoin.

Esta criptomoeda é baseada no Bitcoin, mas em vez de funcionar como dinheiro, ela funciona como endereço de internet. Ela comprou o domínio .bit e qualquer um que use o Namecoin pode reservar um endereço neste domínio.

E uma vez que você tenha o endereço, ele não pode ser tirado de você: ninguém pode lhe cobrar uma taxa anual. De repente uma pequena parte do monopólio do ICANN poderia sumir. Pela primeira vez, há uma alternativa viável.

Agora vamos dar um salto na imaginação. Acontece que companhias inteiras também estão sob ameaça de serem substituídas por ramificações do Bitcoin.

Um projeto chamado Twister está tentando substituir o Twitter por uma ferramenta peer-to-peer baseada no blockchain, com mensagens em vez de moedas. Diferente do Twitter, não há companhia central para intimar ou para coagir a ceder os dados de seus usuários. Se você é um ativista no Oriente Médio publicando mensagens críticas do governo, você pode sentir-se mais seguro no Twister do que no Twitter.

O Bitmessage almeja fazer a mesma coisa com o email. É completamente seguro, protegido e anônimo. Não tem um ponto central de armazenamento para as agências bisbilhoteiras mirarem. Downloads desse programa aumentaram cinco vezes desde junho de 2013 depois surgirem as notícias de que a NSA fiscaliza e-mails. Companhias como Google, Yahoo! e Microsoft, que oferecem webmails, deveriam estar preocupadas de que há um sistema seguro e gratuito no horizonte. E elas estão.

Nem todos esses sistemas de substituição seriam grátis e open-source. Alguns poderiam até funcionar por cima do blockchain e mesmo assim deixar algumas pessoas ricas.

O investidor de risco Fred Wilson, que descobriu companhias como o Twitter, o Tumblr e o Foursquare bem cedo, recentemente escreveu em seu blog: “Nosso fundo de 2004 foi criado durante a mania do ‘social’. Nosso fundo de 2008 foi criado durante a mania do ‘social’ e o surgimento do ‘mobile’. Nosso fundo de 2012 foi criado durante a queda do ‘mobile’. E nosso fundo de 2014 será criado durante o ciclo do Blockchain. Eu aguardo ansiosamente por isso.”

Uma área lucrativa será a de armazenamento de arquivos. Nos últimos cincos anos nós ficamos acostumados a guardar nossos arquivos “na nuvem” em vez de em nossas próprias máquinas. Estes serviços parecem ser tão simples: nós fazemos o upload dos nossos arquivos e então podemos invocá-los a qualquer momento, de qualquer lugar do mundo.

Mas estes serviços dependem de enormes centros de dados, cheios de servidores potentes, e companhias multinacionais são as únicas com os recursos suficientes para construí-los. A Microsoft oferece o OneDrive, a Apple tem o iCloud e há outras alternativas como o Dropbox. Todos eles te dão uma amostra grátis, mas começam a cobrar quando você atinge certo limite. Agora o protocolo Bitcoin ameaça este monopólio.

Shaw Wilkinson, que mora em Atlanta, já é famoso nos círculos das criptomoedas por ter criado o Coingen, um serviço simples que cria clones do Bitcoin. Quer criar uma nova moeda com o seu nome? Por algumas libras, Shawn pode fazer isso por você.

Agora ele está lançando um serviço de armazenamento online de arquivos chamado Storj, que vai funcionar sobre a rede Bitcoin. Graças aos milhares de mineradores, a moeda é a maior rede de computação do mundo, diz Wilkinson. “Por que usar isso somente para dinheiro? Nós queremos pegar o modelo Bitcoin e aplicar a outros tipos de sistemas.”

A ideia é que os arquivos dos usuários ficariam escondidos dentro do blockchain (ou, pelo menos, os apontadores para estes arquivos, de outra forma o blockchain rapidamente inflaria a proporções absurdas). Um programa de incentivos recompensaria aqueles que oferecessem seus próprios computadores para o grosso do armazenamento. Se você tivesse alguns gigabytes sobrando na sua máquina, você poderia temporariamente doá-los ao Storj e ganhar algumas frações de Bitcoin todo mês.

Isso pode parecer horrivelmente complexo, mas o usuário não precisa entender, diz Wilkinson: “Você não se importa com a parte técnica. Você simplesmente armazena seus arquivos e funciona. Quando você usa o Dropbox, você não se importa com a parte técnica, pra você só importa que funciona.”

E as pessoas adotariam em massa, ele alega, dado que o preço seria várias ordens de grandeza mais baixo do que as atuais soluções.

“Nós estamos tentando um modelo de negócios completamente diferente aqui. Agora que temos estas tecnologias descentralizadas, agora que reduzimos o custo, o que podemos fazer com isso? O Bitcoin é a maior rede supercomputacional do mundo – ela supera os 500 supercomputadores mais potentes em várias ordens de grandeza e tem feito isso desde o ano passado.”

Então o que vai ser da Google, da Apple ou da Amazon no mundo pós-Storj? Em última análise, os computadores físicos e os discos rígidos ainda serão necessários. Os arquivos não podem ser armazenados somente nas boas ideias. Mas estas companhias gigantescas, que antes encurralavam o mercado, poderiam ser reduzidas a trabalharem para o Storj na esperança de conseguir umas recompensas no programa de incentivos. Não haveria mais vultuosos saques mensais diretamente das contas dos usuários.

As companhias mais espertas e corajosas poderiam, em vez disso, utilizar o blockchain para seu próprio benefício. Contratos muito caros e serviços financeiros poderiam ser dispensados, por exemplo.

Mas por que parar por aí?

O Bitcoin é uma rede descentralizada projetada para substituir o sistema financeiro. Ethereum é uma rede descentralizada projetada para substituir absolutamente qualquer coisa que pode ser descrita em código: contratos de negócio, o sistema jurídico ou, como alguns dos financiadores mais missionários do Ethereum acreditam, estados inteiros.

Primavera De Filippi, uma pesquisadora do pós-doutorado do CERSA/CNRS/Université Paris II, é uma das especialistas intelectualmente mais fascinantes da Europa no que diz respeito aos direitos civis e digitais no ciberespaço. Ela está atualmente em Harvard, explorando os desafios legais das arquiteturas descentralizadas.

Ela diz que o Ethereum é “realmente sofisticado e, se qualquer uma dessas plataformas vai alçar voo, eu acredito que vai ser esta.”

“Isso vira um sistema completamente autossuficiente, impossível de corromper. É uma tecnologia revolucionária, e a sociedade vai se adaptar a ela, mas vai ser um processo lento.”

O Outro Lado da Lei

Então, e se nós estivermos à beira de desenvolver métodos de manipulação de dados que são impossíveis de se corromperem? Por definição, eles serão impossíveis de fiscalizar.

E é este o ponto que faz os utopistas digitais começarem a se balançar desconfortavelmente em suas cadeiras.

Há uma exemplo óbvio onde estar protegido contra o governo importa mais do que qualquer coisa: tráfico de drogas.

O Silk Road fornecia para todos os gostos ilegais.

Este é um assunto melindroso para muita gente trabalhando em startups legítimas do Bitcoin, que sentem que o Silk Road e outros sites ilegais causaram danos irreparáveis à reputação da moeda, associando-a à cocaína, à heroína e a pedófilos, dificultando a adoção pelo mainstream.

Tem ocorrido um constante jogo de gato e rato entre a aplicação da lei e os fundadores destes sites. O Silk Road utilizava o Bitcoin para pagamentos enquanto se escondia por trás do anonimato da rede Tor. Mas ele foi desbaratado quando o FBI rastreou o suposto fundador e confiscou seus computadores. Como havia este ponto único de falha, tudo veio abaixo.

Mas agora os desenvolvedores pegaram a ideia do Bitcoin e estão desenvolvendo sites de compras que são eles mesmos peer-to-peer.

Amir Taaki integra um grupo que recentemente conquistou o prêmio de 20 mil dólares pelo primeiro lugar numa competição de hacking em Bitcoin em Toronto, por ter demonstrado uma prova de conceito chamada DarkMarket. A ideia deles era criar um serviço de compras totalmente descentralizado, com qualificação das transações, com um serviço seguro de garantia para evitar fraudes e com perfis de usuários. Tudo isso por cima do blockchain do Bitcoin. Não há um computador único para o FBI confiscar. Não há proprietário para ser interrogado e não há uma operadora da qual se possa exigir os registros; é a Hidra do varejo online de drogas.

Os desenvolvedores alegam que eles não vão terminar o código – eles estão trabalhando em outros projetos do Bitcoin. Em todo caso, seria sábio da parte deles não anunciar o próprio envolvimento no lançamento de um serviço dessa natureza. Contudo, se isso pode ser feito, e já está demonstrado que sim, então logo será finalizado.

Restaria ainda um elo fraco previsível. Você ainda teria que postar as drogas pelos correios. Isto pode não ser responsável por fazer todo o mercado da coisa vir abaixo, mas poderia ser responsável por capturar um vendedor isolado, se o FBI decidisse comprar uma amostra de heroína e usar sua técnica forense para rastrear a origem dela.

É aí que o blockchain oferece uma solução futurista – tanto para vendedores legítimos como para vendedores ilegítimos.

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A Amazon testou um serviço de entrega via drones (AFP)

Mike Hearn, um ex-funcionário da Google que deixou a empresa para trabalhar no Bitcoin, descreveu, em uma recente palestra, como o blockchain poderia ser utilizado para criar um novo e bizarro sistema autônomo que mudaria radicalmente nossas vidas diárias.

Ele imaginou enxames de drones que poderiam entregar pequenos pacotes de A para B de uma forma totalmente secreta e irrastreável. Isto representaria uma enorme oportunidade para criminosos empreendedores, mas também representaria uma enorme ameaça para o recentemente privatizado Royal Mail (Correios Reais) e para outras incontáveis empresas de fretamento.

Táxis nas Nuvens

Hearn descreveu outro cenário, que se passa daqui a 50 anos. Uma personagem fictícia chamada Jen quer pegar um táxi. Ela fala pro seu smartphone para onde vai e ele imediatamente começa a anotar as ofertas dos táxis mais próximos e a classificá-las por preço e pela qualificação dos usuários. Este sistema, em que a demanda e a oferta vão e vêm, chama-se TradeNet, e ele seria baseado na tecnologia blockchain.

O curioso não é que ninguém dirija esses veículos, porque os carros autônomos já se teriam popularizados décadas atrás, o curioso é que ninguém seria sequer dono deles. Eles são o que Hearn chama de “agentes autônomos”, máquinas independentes que ganham seu próprio dinheiro cobrando tarifas, pagam seu próprio combustível e seus próprios reparos, e operam sem qualquer controle externo.

Tudo isso é possível com o Bitcoin. O Bitcoin é realmente irrevogável: mesmo sendo só uma das aplicações do blockchain, ele provou seu poder maravilhosamente bem.

Hearn diz: “Se eu for num banco e tentar abrir uma conta bancária que seja propriedade de um sistema de computador, vão me mandar sumir dali, ou vão me achar um louco e me denunciar à polícia. Mas o Bitcoin não tem intermediários, então não há nada que possa impedir um computador de simplesmente conectar-se à internet e fazer parte disso por conta própria.

“Tudo que você precisa para criar uma carteira de Bitcoin é gerar um extenso número aleatório, e praticamente qualquer coisa consegue fazer isso. Então, esses dispositivos podem de fato ganhar dinheiro e pagar seus próprios custos. E isto faz deles a primeira forma de vida artificial que realmente mereça esse título.”

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O protótipo de carro autônomo do Google, revelado em Maio.

Estes agentes poderiam eles mesmos utilizarem a TradeNet para comprar a própria manutenção, as partes de substituição, ou mesmo um carro inteiro, fazendo o upload do próprio software para o carro e assim se replicando. Eles poderiam até mesmo contratar programadores humanos para reescreverem seus códigos e os atualizarem.

Certamente, o primeiro de todos os agentes precisaria ser criado por humanos. Contudo, que montadora de carros ou que cooperativa de táxis escolheria fazer algo assim, dado o risco de acabarem com seus próprios negócios? Isso precisaria ser feito pelo próprio povo para ter os benefícios de tarifas superbaratas, provavelmente seguindo um modelo de financiamento no estilo do Kickstarter. Esta funcionalidade já está embutida no Bitcoin, para a nossa comodidade

“Não há algo como a TradeNet hoje ainda, mas isso é possível em teoria,” diz Hearn. “Isso significa que um dia alguém, em algum lugar, provavelmente fará isso.”

Democracia Líquida

Se você está tentando destituir um poder centralizado, o alvo maior e mais tentador seria o próprio governo.

Há inúmeras pessoas tentando fazer incursões nas moedas dos sistemas democráticos – dólares, libras, euros, qualquer uma delas – com o blockchain. Outras pessoas querem substituir inteiramente as moedas estatais.

A Dinamarca se decidiu por uma política bem liberal para com as criptomoedas, declarando que suas operações serão isentas de impostos; não vão sequer tocar nos lucros, mas os prejuízos serão tributáveis. Não é nenhuma surpresa, então, que este seja um dos países dentre os quais se experimenta essas moedas como uma ferramenta eleitoral.

O Liberal Alliance Party (Partido da Aliança Liberal), que só tem sete anos de idade, foi fundado sobre o etos do liberalismo econômico – ele apoia um imposto de renda fixo de 40%, por exemplo – e começou a usar a tecnologia construída no Ethereum para os votos internos do partido.

O porta-voz do partido, Mikkel Freltoft Krogsholm, argumentou que isto seria uma opção óbvia para eleições eletrônicas, porque permitiria a transparência e a segurança, além de dar às pessoas a chance de “olhar debaixo do capô” durante o processo eleitoral. “De um ponto de vista ideológico liberal, era uma oportunidade que nós não podíamos deixar passar”, disse ele.

O blockchain é perfeito para esse tipo de aplicação, porque todas as transações (pode-se pensar nelas como votos neste cenário) são registradas perpetuamente, para posterior reexame. O blockchain também provê transparência, de modo que qualquer um pode checar se seu voto foi contabilizado de fato. De que outra forma você poderia ter a certeza de que sua cédula de papel foi para a contagem final?

Eduardo Robles Elvira está trabalhando num sistema similar, mas de larga escala, que ele chama de Agora Voting. Ele foi projetado como uma ferramenta para o Internet Party na Espanha, que tem um item de programa pelo qual todos os cidadãos devem estar aptos a votar em todas as questões, em frequentes plebiscitos. Em vez de guardar o código para si, Eduardo trabalha com qualquer partido que queira aplicá-lo a eleições virtuais.

O software já foi utilizado de forma bem sucedida em eleições primárias, com mais de 33 mil votos lançados.

O objetivo final é a “democracia líquida”: não só eleger os representantes e esquecer deles, nem necessariamente fazer plebiscitos para cada coisinha, mas sim oferecer um sistema tão flexível que um bom equilíbrio entre os dois cenários possa servir para cada cidadão.

Pode-se pensar nisso como uma rede social projetada não para ajudar você a compartilhar suas fotos, para jogar videogames ou para se comunicar com seus amigos, mas para governar e administrar o seu país.

Se você quiser dar o seu voto em cada questãozinha, muito bem, isso é possível. Ou você pode deixar o seu poder de voto nas mãos de um político de carreira, como no sistema atual, ou num colega ou amigo mais bem informado.

E o controle seria perfeito: digamos que você seja um ciclista, você poderia passar o seu poder de voto em todas as questões de proteção no trânsito para uma organização de ciclismo que pressione por uma melhor infraestrutura, ou você pode reter seus votos para si em todas as questões econômicas e deixar todo o resto nas mãos do escritório local liberal-democrata.

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“A ideia por trás da democracia líquida não é substituir a democracia representativa com a democracia direta, mas deixa-lo escolher a democracia que você quer. Você não usa um avião para chegar na esquina, e vocês não vai a pé de Londres para Tóquio: dependendo do que você queira fazer, você escolhe os meios de transporte”, disse Robles.

“Pode ser que no futuro vejamos uma transição do hábito de confiar numa única entidade para confiar num sistema democrático computadorizado que seja verificável, do mesmo modo que nós vimos uma transição do hábito de confiar em curandeiros e padres na Idade Média para confiar no método científico.

“Isso é só um vislumbre do futuro. É como o primeiro website: não tem animações, não responde direito, e hoje em dia ele parece extremamente simples, mas ainda assim é a base do que nós utilizamos hoje em dia, vinte anos depois. Talvez nós tenhamos um sistema mais parecido com a antiga Atenas, mas escalável, no qual os líderes eleitos não sejam tão importantes.”

Parece atraente. Mas como o blockchain registra os votos? Em termos bem simples, com o Agora, cada eleitor recebe um tanto de moedas (neste caso, as Zerocoins, um add-on do Bitcoin que protege as transações sob o véu do anonimato) e então enviam estas moedas para um endereço que representa uma determinada escolha. Imagine um referendo de sim ou não, em que a escolha vencedora é simplesmente a conta com o maior saldo de moedas.

Mais uma vez, como em todos estes sistemas, esta parte complexa, mecânica, não ficará visível, e o usuário irá interagir com uma interface fácil de usar, assim como nós não precisamos saber como realmente funcionam os nossos celulares, a internet ou o email.

Imagine um estado-nação com uma interface como o Facebook: você “curte” esta política?

O Blockhain Contra os Bancos

Andreas Antonopoulos é o chefe de segurança do Blockchain.info, sedeado no Reino Unido, que é o maior servidor de carteiras de Bitcoin do mundo, com mais de 1.1 milhão de usuários registrados. Diferentemente de muitas startups por aqui, a empresa já tem vários anos de idade e já é bastante respeitada na comunidade do Bitcoin por construir ferramentas úteis e confiáveis.

Antonopoulos pode ser um pouco tendencioso neste caso, mas acredita que o blockchain é uma das invenções mais importantes do século XXI. Ele o vê como a força para o bem, levando contas bancárias e acesso à economia global para mais de seis bilhões de pessoas atualmente presas numa economia de papel-moeda. Muitos africanos têm acesso a celulares com internet, mas não têm acesso ao serviço bancário.

O blockchain também vai limpar e simplificar o sistema bancário.

“A maior parte das instituições hierárquicas que nós criamos, em matéria de finanças, estão lá para regular o fato de que se você der muito dinheiro para uma só pessoa, a história nos diz que essa pessoa tende a roubar o seu dinheiro”, diz Antonopoulos.

“Isso acontece toda vez. Quase toda regulação é feita para impedir que uma única pessoa com controle sobre um monte de dinheiro possa roubar este dinheiro.

“Esta tecnologia [O Blockchain] torna isso tudo largamente desnecessário. O resultado final é que você vai ver umas mudanças bem grandes. Estas mudanças serão porque agora haverá maneiras muito melhores de se fazer essas coisas [serviços centralizados], e as pessoas escolherão esses métodos melhores. Não há nada particularmente libertário a respeito disso. É meramente o reconhecimento de que você pode alcançar com o software o que a regulamentação falhou em alcançar.”

Isto vai acontecer em parte sob a forma dos próprios bancos adotando a tecnologia do blockchain, replicando o serviços que eles oferecem hoje em dia, mas com mais transparência e com taxas menores. Isso também significa serviços completamente abertos, fora do controle de qualquer banco ou organização. Muitos serviços ficaram obsoletos – os bancos só não sabem disso ainda.

“É irônico como o que aterroriza os bancos hoje em dia é o verdadeiro capitalismo de livre mercado. Eles não gostam disso. Eles não gostam de competição. Ter que competir de verdade com competidores menores, que são mais ágeis e menos custosos, é algo que eles conseguiram prevenir durante anos utilizando a regulação como uma barreira de entrada.”

Este sucesso no setor financeiro vai ser um trampolim para as outras indústrias e aplicações. E Antonopoulos compartilha do crescente consenso de que o blockchain vai, em última análise, tecer suas mudanças também sobre a democracia.

“As pessoas pensam que o Blockchain é só uma forma melhorada do PayPal, mas ele não é isso. Assim como a Internet, ele é uma plataforma, e sobre esta plataforma você pode agora construir uma incrível variedade de coisas.

“Nós sequer podemos imaginar o que as pessoas vão construir. Mas foi só no ano passado, ao ver as startups da exploração espacial, que eu fiquei maravilhado com o alcance da inovação que ocorre quando você combina a internet, a economia compartilhada e as cripto-moedas.

“Isso permite uma forma de auto-organização que não depende de partidos ou de governos representativos para nada. A democracia representativa era uma solução para um problema de escala. Para o fato de que você não conseguiria passar uma mensagem pela Europa inteira em menos de duas semanas.

“Bem, esse problema da escala foi resolvido. Então a questão é, por que você precisa de representantes? Se você perguntar às pessoas que nasceram junto com o nascimento da Internet, elas não conseguem entender porque precisam deles. Para toda uma geração de pessoas isso [o desaparecimento da democracia representativa] já é uma evolução natural. E agora nós temos as ferramentas para fazer isso.

“Do meu ponto de vista, e é provavelmente por isso que eu me intitulo um ‘revolucionário’, os sistemas centralizados têm uma única trajetória inevitável, que já foi validada ao longo da história, que é: conforme as pessoas que estão no centro acumulam poder e controle, elas eventualmente corrompem o sistema inteiro para servirem às suas próprias necessidades, seja isso uma moeda, seja uma corporação, seja uma nação.

 “Instituições descentralizadas são muito mais resilientes a isso: não há centro, elas não lidam com as chances de corrupção. Eu acho que isso é uma evolução natural da humanidade.

“É uma ideia que existe há séculos e que está cada vez mais se tornando mais e mais prevalente. A base essencial de sair das monarquias para as democracias, de distribuir informação, conhecimento, educação e riqueza para a classe média, e poder para as pessoas simples, tem sido uma tendência que agora já dura milênios.

“Isso não é algum tipo de manifesto libertário, ou de manifesto anarquista. Dizer que nós não precisamos de mecanismos para alcançar coesão social é simplesmente reconhecer que nós podemos criar mecanismos melhores para tanto ao passo que resolvemos problemas de escala. É só isso. Não é um tipo doido de manifesto de ‘nós não precisamos de governos’. É simplesmente que nós podemos fazer governos melhores quando não concentramos o poder tanto nas mãos de poucas pessoas.

“Como descobriram os meus ancestrais na Grécia há mais de três mil anos: o poder corrompe. Você pode procurar saber disso nos escritos dos antigos filósofos gregos. E nada mudou muito – a não ser a escala de poder, e a escala de miséria que pode ser criada quando este poder é manejado para fazer coisas ruins.”

Por todo esse otimismo, Antonopoulos propõe uma mudança tão radical que é quase apocalíptica. Outros utopistas digitais vão ainda mais fundo.

Daniel Larimer, que está trabalhando numa ferramenta chamada Bitshares para aplicar a tecnologia do blockchain aos bancos, às seguradoras e às ações de empresas, acredita que esta nova leva de tecnologias vai, em última análise, tornar o governo completamente obsoleto.

“Eu prevejo uma situação em que os governos não são necessários. Em que o livre mercado vai poder fornecer todos os bens e serviços para assegurar sua vida, liberdade e propriedade sem que precisemos depender da coerção. É para este ponto que tudo está caminhando”, ele me disse.

“O resultado final é que os governos terão menos poder que os mercados livres. Essencialmente, o livre mercado vai conseguir fornecer a justiça de forma mais eficaz e mais eficiente do que os governos conseguem. Então, eu vejo os governos encolhendo.

“Se você pensar sobre isso, qual é a razão para termos um governo? É uma forma de alcançar um consenso global a respeito da teoria do que é certo e do que é errado, consenso global sobre quem é inocente e quem é culpado, ou sobre quem é dono do quê.

“Eles [os governos] vão perder legitimidade conforme sistemas mais abertos e mais transparentes conseguirão providenciar estas funções sem ter que apelar à força. Esta é a minha missão de vida.”

Em sua versão do futuro, a identidade e a reputação serão a nova moeda. Leis e contratos serão firmados em código digital e, se descumpridos, as devidas reparações serão aplicadas matematicamente, no lugar de agências de aplicação da lei, de tribunais e da prisão.

Aqueles que não fizerem o bem serão vitimados pelo “ostracismo coordenado” do resto da rede – toda a sociedade. Eles não vão conseguir interagir financeiramente ou de qualquer outra maneira nos sistemas que operam sobre o blockchain. Eles estarão numa “prisão econômica”. Isso vai se estender para além de ser impedido de fazer transações em dinheiro, porque o blockchain vai estar sob o controle do sistema eleitoral, comercial e comunicacional. Ser banido destes sistemas vai tornar a sua vida impossível.

“Há maneiras de estruturar a sociedade de forma a alcançar a justiça e a encorajar as pessoas a pagarem suas dívidas”, diz Larimer. “Há uma maneira de dar escala global à reputação de bairro. É o libertarianismo definitivo.”

Ou anarquia, dependendo do seu ponto de vista.

O Blockhain Chegou Para Ficar

O que está claro é que a imagem reacionária do Bitcoin como uma moeda frágil e volátil feita para pedófilos e traficantes de drogas está longe de ser verdade. Assim como a libra britânica, o dólar americano e o euro, o Bitcoin será utilizado em toda sorte de atividades nefastas, mas também vai abrir um mundo de oportunidades.

Sendo a primeira criptomoeda, pode ser que não dure para sempre. Mas a tecnologia blockchain que o sustenta não pode ser desinventada. Ela já começou a galgar seu próprio caminho em todas as áreas das nossas vidas, engolindo a autoridade e distribuindo-a para nós via programas de computador.

Os programadores já provaram que estes sistemas podem ser criados. E a lógica é a de que as sobrecargas e os custos serão muito menores do que as suas contrapartes comerciais – gigantes titubeantes como o Facebook, a Google a Amazon e por aí vai.

O grande problema – e isso já foi resolvido várias vezes no mundo dos computadores – é que os sistemas do blockchain são muito complicados para serem utilizados. Mas logo eles não serão. E aí as massas farão enxame em cima deles, criando um mundo que nós quase não vamos mais conseguir reconhecer.

//Tradução de Miguel Serra. Revisão de Fabricio Akio.


Sobre o autor

Matthew Sparkes

Matthew Sparkes é especialista em Tecnologia. É repórter no jornal Telegraph.



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