Drogas Viciados como agentes racionais

Publicado em 9 de julho de 2014 | por Cathy Reisenwitz

Viciados como agentes racionais

Por muito tempo, tanto a grande mídia como meios de comunicação menores têm retratado viciados em drogas como zumbis incapazes de tomar decisões racionais. O site Helpguide.org descreve o vício como causador de “mudanças em seu cérebro”, as quais “interferem na sua habilidade de pensar claramente, exercer um bom julgamento, e controlar o seu comportamento”.

O vício e o uso de entorpecentes são um assunto bem mais mais complexo do que o que é geralmente discutido em debates políticos. Tais eventos normalmente são impulsionados por interesses políticos e preconceitos em vez de evidências reais. Nós vamos falar dessa evidência mais à frente. Por hora, vamos entender melhor essa “discussão nacional”.

De acordo com o National Institute on Drug Abuse (em tradução livre, Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas), “embora a decisão inicial de se drogar seja voluntária para a maioria das pessoas, as mudanças cerebrais que ocorrem no decorrer do tempo desafiam o autocontrole da pessoa viciada e bloqueiam sua habilidade de resistir aos impulsos para usar a droga novamente”.

Essa é uma citação bastante representativa. O foco dessa explicação é frequentemente sobre como o cérebro dos viciados é  diferente do das pessoas normais, o que sinaliza que se você alterar o cérebro do drogado com substâncias, consequentemente, você altera o seu comportamento.

  • National Institute on Drug Abuse afirma que “as drogas mudam o cérebro de forma que estimulam o abuso das mesmas.” Em seu website o vício é descrito como “uma doença cerebral crônica, frequentemente reincidente, que causa a procura e o uso compulsivo de drogas”.
  • Essa visão é compartilhada pelo Drug Enforcement Administration. De acordo com o seu guia Drugs of Abuse 2011, “o vício é definido como um comportamento compulsivo em busca de drogas onde adquirir e usar uma droga se torna a atividade mais importante na vida do usuário. Essa definição implica em uma perda de controle com relação ao consumo da droga, e o viciado continuará a usar a droga apesar de consequências médicas e/ou sociais sérias”.

E todas essas declarações parecem incontestáveis até que você faz a pergunta fundamental: os viciados perdem o seu poder de decisão – isto é, sua habilidade de tomar decisões racionais?

O mais comum é acharmos que viciados simplesmente não tem livre-arbítrio.

No entanto, por mais que essa visão possa parecer correta, é verdadeiramente um desenvolvimento muito recente nas discussões acerca de vícios. “Historicamente falando, a ideia do vício como uma doença mental é muito recente”, de acordo com o Departamento de Ciências Médicas da Universidade de Utah. “Antigamente as pessoas viam o vício como fruto de uma personalidade vazia e um sinal de fraqueza. Esse estigma persiste na sociedade atual e é um grande desafio aos viciados e às pessoas que os tratam”. É um desafio? Poderia haver alguma sabedoria na ideia de que uma pessoa é capaz de encontrar forças para tomar decisões melhores?

De muitas formas, ver os viciados como vítimas que precisam de ajuda levou a resultados e opções de tratamento melhores. Contudo, a visão de que os viciados não têm livre arbítrio sem dúvida contribui para ideias levianas em ambos os lados do espectro político. Para republicanos em geral, é moralmente permissível prender pessoas envolvidas com drogas; para os democratas, está na moda pensar no vício como um problema de saúde pública que demanda mais recursos estatais para mais clínicas e mais funcionários públicos.

Mas e se o vício não significar que os viciados não têm escolha? Talvez, signifique algo muito próximo a isso: que os viciados escolhem usar drogas quando outros não. Em outras palavras, esse processo decisório varia de usuário para usuário e de viciado para viciado de formas  bem sutis. Todavia, continua sendo um processo decisório.

Por anos, o Dr. Carl Hart tem trazido viciados ao seu laboratório e lhes dado escolhas. Você preferiria alguma quantidade de crack agora ou US$ 20 depois? É uma versão mais repugnante do teste do marshmallow para crianças. E ele tem se surpreendido sucessivamente sobre quão racionais aquelas escolhas são. Os viciados frequentemente desistem de doses de crack por U$ 5 em dinheiro ou em voucher. Todos os viciados em meth ou crack escolheram os US$ 20 quando a opção lhes foi oferecida. 

Além das implicações que essa descoberta terá para o tratamento do abuso de drogas, ela também levanta questões sobre as implicações éticas e os fundamentos para a prisão de viciados e de usuários casuais. Não há duvidas de que a visão do vício como redução de agentes racionais a autômatos sem livre arbítrio e dependentes de drogas abre diversos caminhos para nos desviar das questões relativas à existência ou não de ética na prisão de alguém por ter ingerido certa substância.  Colocando de outra forma, o subterfúgio surge precisamente em atrelar custos sociais como o crime àquela suposta falta de poder de decisão. Então, em alguns círculos, a análise racional é a seguinte: eles têm que ser presos porque farão qualquer coisa para conseguir drogas.

Por outro lado, uma premissa similar pode justificar o requerimento de orçamentos maiores para o financiamento de medidas públicas de saúde menos punitivas. E nenhuma dessas justificativas é sempre e em todos os casos incorreta. Certamente, alguns viciados escolhem mal na vida, praticam o crime, e impões custos sociais devido, em grande parte, ao seu vício. Mas o trabalho de Hart demonstra que o senso comum e a mídia interpretam a premissa do zumbi de forma incorreta: as pessoas continuam sendo agentes (responsáveis por suas ações).

Além disso, a visão de não-agente ajudou os políticos a fugirem das questões de como fatores genéticos, sociais e ambientais podem influenciar comportamentos viciantes e a busca pelas drogas. Relembre os estudos infames estudos mostrando ratos viciados apertando botões que liberavam drogas até eles literalmente morrerem de fome? A pesquisa de Dr. Hart está expondo aquele estudo nos seus mínimos detalhes, além de oferecer algumas implicações surpreendentes para os humanos (isso se ratos são análogos adequados).

Os ratos que continuam a pressionar a alavanca para obter cocaína são os únicos que são destacados por terem sido criados em condições solitárias, não tendo outras opções”, afirma o Dr. Hart. “Mas quando você melhora o ambiente, adicionando doces e outros ratos com os quais brincar, eles param de pressionar a alavanca”.

 “O fator principal é o ambiente, independente de qual seja o foco de nosso estudo: ratos ou humanos”, afirma.

Se humanos e ratos viciados possuem mais poder de decisão do que pensávamos, celas e clínicas de reabilitação são a resposta mais ética? Tratar as pessoas como agentes novamente pode mudar a forma como pensamos em controlar os custos sociais do vício.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Cathy Reisenwitz

Cathy Reisenwitz é uma escritora e comentarista política. Ela comanda o "Sex and the State" e escreve regularmente para a revista Doublethink bem como para o Thoughts on Liberty.



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