America Latina Venezuelan opposition leader Leopoldo Lopez gets into a National Guard armored vehicle in Caracas

Publicado em 21 de fevereiro de 2014 | por Carlos Sabino

Venezuela: a hora decisiva chegou

A Venezuela vive um momento de definições. Cansados de sofrer privações, a inflação, o desabastecimento e a ditadura, os venezuelanos tem saído finalmente as ruas para protestar contra um governo que – descaradamente – exerce o poder sem restrições. Eles começaram com os estudantes em várias cidades do interior, mas os cidadãos, sem distinção de nenhum tipo, tem saído a protestar contra um governo que é fantoche dos comunistas cubanos e que exerce a repressão com brutalidade e de forma desmedida.

Os males que sofrem os venezuelanos, graças a implantação de uma variante chavista do socialismo, são agora fatos bem conhecidos: uma inflação que supera amplamente o índice oficial de 56%; um desabastecimento da maioria dos produtos de consumo diário, peças e equipamentos; meios de comunicação censurados; poderes públicos que são apenas uma extensão do grupo governante e um sistema eleitoral viciado, que sempre da a vitória ao poder oficial, mesmo que seja por alguns décimos.

A forte reação do governo também é compreensível, pois que tipo de futuro espera quem tem roubado o país, imposto seu domínio de forma a acabar com o diálogo e tem quebrado as normas convivência civilizada? Menos compreensível é a lenta e cautelosa reação de grande parte da oposição que, a meu juízo, confunde três conceitos em um fundo diferente, o que nestas circunstâncias poderiam marcar a diferença entre o triunfo e a derrota: não violência, legalismo e via eleitoral.

Violência

Começar o caminho da violência seria equivocado, perigoso e quase suicida: o caminho da violência joga os povos num abismo do qual é sempre muito difícil sair, pois as feridas que deixam no tecido social cicatrizam muito lentamente. Mas é mais, nas condições atuais, deixaria uma trilha enorme de vítimas e quase seguramente levaria ao fracasso, pois o governo de Maduro é armado até os dentes e não tem nenhum princípio moral, que mente e assassina sem piedade alguma.

O legalista tampouco parece o caminho acertado: reclamar perante os poderes públicos dóceis aos governantes e pedir ajuda a um poder judicial totalmente parcial só dá legitimidade a um governo que não a tem, por suas manipulações eleitorais e sua vocação totalitária. O mesmo pode ser dito da via eleitoral, provada já dezenas de vezes, sempre infrutífera perante as variadas formas de fraude e de condicionamento que tem realizado os chavistas desde quase mais de uma década.

Não resta então nenhuma alternativa e está tudo perdido para os venezuelanos? Claro que não, que sempre se pode enfrentar um governo ditatorial com êxito, sem ter que chegar a ultrapassar a fronteira da violência. A presença pacífica e firme nas ruas, imaginativa e constante, pode derrotar os ditadores de todo tipo que já exerceram poder no nosso mundo. Assim mostraram os tchecos, húngaros e poloneses há quase mais de duas décadas, e assim ocorreu em várias nações árabes, como Tunísia e Egito na recente “Primavera Árabe”; agora mesmo está ocorrendo na Ucrânia.

8d4653ziiqmdj9jnzj2a9t372Não se trata recorrer as armas, mas entre a luta armada frontal e a submissão às eleições fraudulentas e à fachada formal da ditadura existente na Venezuela há uma ampla margem de manobra que é decisiva para ganhar esta batalha, no qual o destino do país é jogado. Porque não nos enganemos, se estes protestos fracassarem a Venezuela terá longos anos de uma ditadura cada vez mais opressiva, mais empobrecida, mais semelhante a sociedade cubana.

O problema é que, contudo, a maioria da oposição não compreendeu que não pode esperar paciente e subservientemente as próximas eleições – que também perderia, de qualquer jeito – e que de nada vale fazer anúncios vazios contra a violência. O que se necessita não é apagar as chamas dos protestos, mas exercer uma efetiva liderança, canalizar a luta, fazer valer os seus direitos sem pedir permissão nem aceitar o que o regime quer impor, denunciar o socialismo que tem levado os venezuelanos a miséria e propor o caminho para um retorno aos valores republicanos.

O que fará a oposição? Surgirão líderes que sacudiram a letargia e as condutas da velha política? É cedo para dizer, mas para nos dar novas esperanças, alguns líderes parecem já terem compreendido que neste dias está em jogo – sem a menor dúvida – o que será a Venezuela do futuro.

//Tradução e revisão por Adriel Santana | Artigo original: http://is.gd/XC9FZl


Sobre o autor

Carlos Sabino

Carlos Sabino é sociólogo e historiador, autor de várias obras. Atualmente é professor na Universidad Francisco Marroquín, na Guatemala, um dos maiores centros acadêmicos liberais da América Latina.



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