Urbanismo complexidade

Publicado em 3 de setembro de 2014 | por Sandy Ikeda

Urbanismo e complexidade social

O planejamento urbano sempre corre o risco de tirar a vida do que pretende controlar.

Uma das minhas heroínas é a urbanista Jane Jacobs, que me ensinou a apreciar a importância do empreendedorismo em como os espaços públicos – espaços onde você espera encontrar desconhecidos – são planejados. E por ela aprendi que quanto mais precisa e compreensível é a sua imagem de uma cidade, menos provável que o lugar que você está imaginando é realmente uma cidade.

Jacobs compreendeu, como os economistas austríacos, que ordens sociais complexas tais como as cidades não são criadas deliberadamente – e nem poderiam ser. Essas ordens, em grande medida, não são planejadas, surgindo da interação entre muitas pessoas e muitas mentes. Da mesma maneira que Ludwig von Mises e F. A. Hayek compreenderam os limites do planejamento governamental na macroeconomia, Jacobs compreendeu os limites do planejamento governamental e o design de espaços públicos para uma cidade convencional, e que se os governos ignorarem aqueles limites surgirão consequências negativas.

Planejamento como taxidermia

Os economistas austríacos usam o termo “ordem espontânea” para descrever os padrões complexos de interação social que emergem quando muitas mentes interagem. Exemplos de ordem espontânea incluem mercados, moeda, língua, cultura e cidades vivas, grandes e pequenas. No seu livro A Economia das Cidades, Jacobs define uma cidade viva como “um assentamento que gera seu crescimento econômico por meio da sua economia local”.  Cidades vivas são celeiros de criatividade e impulsionam o desenvolvimento econômico.

Há uma frase que ela usa no seu grande trabalho, Morte e Vida das Grandes Cidades que expressa bem sua opinião: “uma cidade não pode ser uma obra de arte”. E ela prossegue, explicando:

Artistas, seja qual for seu meio de expressão, selecionam da grande abundância de materiais disponíveis na natureza e os organizam em obras que estão sob o controle do artista… a essência do processo é disciplinada, altamente selecionada e discriminatória da vida. Com respeito à abrangência e a literalmente infinita complexidade da vida, a arte é arbitrária, simbólica e abstrata… Tratar de uma cidade, ou mesmo de um bairro, como se fosse um grande problema arquitetônico, capaz de ser resolvido através de um trabalho disciplinado de arte, é cometer o erro de tentar substituir a vida pela arte. Os resultados de tão profunda confusão entre arte e vida não são nem arte, nem vida. Eles são taxidermia.

Então, o problema com o qual se defronta um planejador urbano, e, realmente, qualquer tipo de planejamento central, é como evitar sugar a vida das coisas que você está tentando controlar.

O trade-off entre o planejamento e a complexidade

Ver cidades como ordens espontâneas e não como obras de arte ajuda a explicar o trade-off entre escala e ordem. No geral, eu acredito que, quanto maior a escala de um projeto, menor serão as descobertas e as conexões sutis que as pessoas que usam aquele espaço serão capazes de fazer.

Construir um prédio residencial em uma quadra comercial mudará a característica daquela quadra de formas imprevisíveis. No entanto, o ambiente urbano adjacente normalmente pode absorver a repercussão de forma a minimizar os problemas. Por outro lado, um centro comercial do tamanho da quadra restringe muito mais a possibilidade de uso do espaço por parte dos habitantes e tem um impacto desproporcionalmente maior na vizinhança.

E um megaprojeto que ocupa muitas quadras limita gravemente a diversidade e a extensão das conexões sociais, dado que desafia o planejador a substituir o seu talento pelo talento de muitas pessoas comuns que utilizam seu conhecimento local para resolver problemas que só elas podem estar cientes. Tornar algo maior limita crescentemente o que as pessoas podem fazer e com quem podem se encontrar no espaço ocupado. O aumento de escala reduz a extensão dos contatos informais que alimentam a criatividade e a descoberta.

E para um dado tamanho ou escala de um projeto, quanto mais o planejador tentar predeterminar o tipo de atividades que os usuários podem fazer nele, menos provável que seu design complementará o contato espontâneo que gera e difunde novas ideias. Isso é o que tornou as regiões centrais tradicionais tão importantes. Com o passar do tempo, a combinação de usos diversos de espaços públicos (no sentido que me refiro aqui) aproximou um grande número de pessoas com gostos e habilidades distintas em um mesmo local. O design pode, obviamente, complementar aquele contato informal até certo nível, mas passando de um nível muito baixo o design humano começa a substitui-lo.

É claro, o pequeno não é sempre lindo, e o grande é, às vezes, inevitável. Mas isso só reforça a importância que planejadores devem dar sobre a influência que o aumento da escala e a intensificação do design tem sobre uma ordem social complexa.

O planejamento privado é muito mais limitado em escala

E não estou falando somente de projetos governamentais. Projetos privados poderiam, em princípio, gerar o mesmo impacto “taxidérmico” sobre a vitalidade urbana.  Mas, contanto que o design do planejador seja pequeno comparado ao espaço que o rodeia, a perda de complexidade não é tão grande. Sempre quando o governo de alguma forma subsidia projetos privados, mitigando as restrições do orçamento, a escala se torna massiva e suas consequências negativas mais radicais.

Um exemplo disso pode ser encontrado cerca de 600 metros de onde moro em Nova Iorque. O Barclays Center, a nova casa do time de basquete Brooklyn Nets, alcançou um tamanho enorme logo que os governos estadual e municipal ofereceram desapropriação por utilidade pública entre outros subsídios. Construir em uma escala massiva em um ambiente urbano que já é denso é normalmente caro demais sem estes privilégios legais, mesmo para um rico incorporador.

Um planejador não pode construir uma cidade inteira (ou mesmo um bairro) porque ele não pode começar a projetar e a construir a diversidade e a complexidade social que acontece espontaneamente em uma cidade viva. E acho que não deveria nem mesmo tentar, já que pode prejudicar irreparavelmente (ou até mesmo matar) o tecido vivo de uma cidade. O que o governo pode fazer? No curso normal de suas atividades, um governo pode, talvez, na melhor das hipóteses, evitar fazer as coisas que impediriam a emergência da infraestrutura social invisível que dá origem à diversidade, ao desenvolvimento e a genuína vivacidade.

O resto é basicamente taxidermia.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original 


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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