Biografias THOMAS HODSKING

Publicado em 23 de maio de 2014 | por George H. Smith

Thomas Hodgskin, O libertário extraordinário

O inglês Thomas Hodgskin nasceu em 12 de Dezembro de 1787. Seu pai esbanjador, apesar de ganhar um bom dinheiro como negociante no armazém naval da cidade de Chatham, conseguiu manter sua família em dificuldades financeiras, o que o fez enviar Thomas (que mal tinha doze anos) para servir como cadete a bordo de um navio de guerra inglês.

Embora tenha servido com distinção durante a expedição de Copenhague e elevado-se ao posto de tenente, Hodgskin detestou seus doze anos como marinheiro. Em primeiro lugar, isso o privou de uma educação. Seu acesso a livros era limitado, então ele não podia fazer nada mais além de:

refletir na vigília noturna, no solitário convés, sobre o largo oceano, no meio das cenas mais selvagens ou mais pacíficas da natureza… antes que eu adquirisse uma quantidade suficiente de material.

O espírito independente de Hodgskin, sua intensa aversão a autoridade injusta, e sua determinação “por fazer uma resistência poderosa à opressão toda vez que eu fosse sua vítima” não eram bem adequados aos rigores e disciplinas severas da vida naval. Então, quando tornou-se claro que ele seria preterido para uma promoção, Hodgskin reclamou “ao comandante-supremo da injúria feita a mim por ele, em uma linguagem que eu pensava que ele merecia”. É claro, isso apenas tornou as coisas piores. Hodgskin, aos vinte e cinco anos, foi forçado a se aposentar com meio salário, depois que escreveu An Essay on Naval Discipline (1813) [Um Ensaio sobre a Disciplina Naval, tradução livre], uma acusação mordaz ao recrutamento e as condições brutais sofridas pelos marinheiros britânicos.

A experiência de Hodgskin com os castigos horríveis impostos aos marinheiros britânicos até por pequenas faltas o levou a questionar tanto a justiça como a utilidade do suposto “direito” à punição. Os marinheiros britânicos, que geralmente vinham da classe baixa, eram frequentemente postos em serviços contra a sua vontade, e seus oficiais tendiam a vê-los como brutos que apenas podiam ser controlados apenas pelo chicote.

Hodgskin, que nesse período tinha lido John Locke, William Paley e outros filósofos morais, tinha uma opinião diferente. Os humanos, criados por Deus com “sentimentos semelhantes”, são “todos feitos iguais”. Muitas diferenças individuais são causadas pelo meio político e social. Se os ingleses tendem a ser mais felizes e mais virtuosos que as pessoas de outras nações, muito disso era porque eles eram menos governados que em outras nações. E se os marinheiros ingleses pareciam mais brutais que outros ingleses, isso não era devido a nenhum defeito inerente à sua natureza, mas às condições bárbaras da vida naval.

Em resumo, se você tratar os homens como brutos, eles irão se comportar como brutos. Os recrutadores e o alistamento, de acordo com Hodgskin, deveriam ser abolidos e substituídos pelo alistamento voluntário e de curto prazo; o pagamento deveria ser aumentado para que os marinheiros pudessem dispor de um padrão de vida decente; e as leis penais draconianas da marinha – que eram aplicadas arbitrariamente, sem recurso ao devido processo – deveriam ser eliminadas. Se deve haver punição, então a marinha deve seguir o exemplo das cortes civis da Inglaterra, que “não punem o inocente” e que são administradas de acordo com leis imparciais, não pelos caprichos dos superiores.

Assim como Hodgskin (que foi notavelmente franco sobre suas motivações) iria depois observar, seu Essay on Naval Discipline era uma reação emocional ao seu tratamento injusto por oficiais superiores: “Eu estava com raiva de ser punido quando pensava que estava fazendo o meu dever de bom homem e bom cidadão”. Hodgskin usou sua raiva para estimular mais pesquisas sobre os direitos à punição:

Essa raiva me fez ler livros sobre o assunto, e busquei em vão. Eu busquei e ainda busco nas obras de autores notórios por qualquer justificativa do direito de punição, e o resultado da busca foi um sistema de opinião que, até onde eu li, pode ser considerado, como um todo, peculiar.

Hodgskin iria depois elaborar sobre essas opiniões “peculiares” nas páginas da revista The Economist, depois de se tornar editor sênior desse periódico (o mesmo publicado atualmente) em 1846 – uma posição que manteve por onze anos. Os muitos artigos de Hodgskin na The Economist tornaram a revista um dos periódicos libertários mais interessantes e provocantes de seu tempo. Além do apoio ao laissez-faire, à educação voluntária e a outras causas liberais (clássicas), Hodgskin também se opôs à pena de morte e questionou o conhecimento tradicional sobre a eficiência da punição como um impedimento ao crime.

De acordo com Hodgskin, a maioria dos crimes são motivados por um desejo de escapar da pobreza intolerável, e tal pobreza geralmente é consequência dos impostos, das regulações econômicas e outras restrições governamentais às atividades de livre mercado. Se fosse permitido que as pessoas perseguissem seus próprios interesses através da interação voluntária com outros, e se fosse permitido que elas mantivessem os frutos de seu próprio trabalho ao invés de tê-lo expropriado pelo governo, então uma boa parte da pobreza – juntamente com a maior motivação para os atos criminosos – seria eliminada.

Por volta de 1815, Thomas Hodgskin tornou-se amigo de Francis Place, o famoso alfaiate e radical da classe trabalhadora da Charing Cross Road. Essa amizade deu a Hodgskin acesso aos libertários britânicos – incluindo Jeremy Bentham, seu protegido escocês James Mill (o pai de John Stuart Mill), e um idoso William Godwin, que tinha ganho destaque com a primeira defesa sistemática do anarquismo filosófico em An Enquiry Concerning Political Justice (1793).

Hodgskin sentiu que sua idade e outros obstáculos iriam tornar difícil embarcar em uma nova carreira. A medicina exigiria que ele aprendesse latim, enquanto direito exigiria que ele suprimisse seu amor pela justiça – então, dado que a paz tinha retornado à Europa em 1815, Hodgskin decidiu embarcar em um grande tour e escreveu um livro baseado em suas experiências. O resultado foi seu primeiro grande trabalho, Travels in the North of Germany, publicado em dois volumes em 1820.

Esses volumes combinavam observações interessantes com comentários políticos sobre “os países muito governados da Alemanha”. Hodgskin enfatizou a ineficiência e o desperdício dos projetos governamentais. Por exemplo, ele comentou sobre a qualidade inferior das estradas financiadas pelo estado na Alemanha, contrastando-as com as financiadas privadamente na Inglaterra, e até sugeriu que as funções da polícia devessem ser substituídas por mãos privadas. Como Hodgskin colocou,

o verdadeiro negócio dos homens, o que promove sua prosperidade, sempre é melhor feito por eles mesmos que por quaisquer poucos indivíduos separados e distintos, agindo como governo em nome do todo.

Quando é observado que a prosperidade de toda nação está em uma proporção inversa ao poder e à interferência de seu governo, podemos quase ser tentados a acreditar que a opinião comum, que os governos são necessários e benéficos, é um daqueles preconceitos gerais de que os homens herdaram de uma era bárbara e ignorante, e que o conhecimento mais extenso e maior civilização demonstrará ser um erro cheio de mal.

As centenas de principados alemães eram a consequência de divisões políticas arbitrárias, mas a solução não era uni-los sob um mesmo conquistador único ou governo central. Hodgskin deplorava a “veneração estúpida” aos grandes homens, que mascaram suas ambições pessoais e auto-interesses na retórica do bem público. Ao invés disso, os alemães precisavam apenas “afugentar seus diferentes mestres para torná-los todos cientes que seu interesse é o mesmo em todo lugar”.

Então Hodgskin defendeu a ordem social espontânea que emerge da propriedade privada, da troca voluntária e a harmonia natural de interesses (como explicado por Adam Smith e outros economistas políticos), enquanto desprezou a unidade “quadrada, mecânica” do despotismo e das regulações econômicas que transferem riqueza da classe produtiva de trabalhadores para a classe improdutiva dos governantes.

Hodgskin não recomendou um sistema parlamentarista, tal como aquele encontrado na Inglaterra, como a cura para os problemas alemães. A base para a prosperidade inglesa não existia devido a seu parlamento, mas por um público vigilante e uma imprensa livre que agia como um exame contínuo sobre os abusos de poder. “Os males de uma sociedade não podem ser tratados por atos de parlamento”. Mesmo as leis e propostas de assistência pública para a reforma agrária, embora bem intencionadas, não irão cumprir seus propósitos pretendidos; tais medidas meramente criam a ilusão de reforma enquanto colocam mais poder nas mãos dos legisladores.

Os meios mais simples de fazer a luta pela sobrevivência frugal são suprir as necessidades de ninguém e deixar cada homem com o produto de seu trabalho.

Os alemães, como muitos europeus, tinham um concepção falsa de economia política, de acordo com a qual a prosperidade pode ser promovida por muitas formas de governo. Na verdade, a prosperidade pode vir apenas através do trabalho humano e da troca voluntária, e “essas regulações sociais devem ser expostas à censura, que nos infligiram tanta pobreza e angústia”.

Hodgskin estava vivendo em Edinburgo quando Travels foi publicado, e essa cidade foi por muito tempo um centro de agitação liberal. Enquanto sua esposa (que ele tinha conhecido em suas viagens) estava dando aulas de alemão para complementar a renda da família, Hodgskin estava fazendo sua parte escrevendo artigos para o Edinburgh Review e outros jornais liberais. Ele escreveu para Francis Place:

Indiscutivelmente, a abolição de todas as restrições de qualquer tipo é o grande ponto a ser alcançado. Queremos um legislativo destruidor, cujo maior objetivo seria retirar os decretos de seus predecessores.

Embora em seu tempo Hodgskin tivesse uma boa parte em comum com outros reformistas liberais, suas tendências anarquistas geralmente deram à sua opinião um viés radical que o alienou de outros liberais. Essa tensão tornou-se evidente em sua reação ao “Massacre de Peterloo” de 16 de Agosto de 1819.

Depois de uma coalizão de reformistas da classe média e trabalhadora organizar um encontro em massa no St. Peter´s Field em Manchester para pedir por reforma parlamentar, a multidão foi atacada por soldados montados que mataram 11 pessoas e feriram cerca de outras 400, incluindo 100 mulheres. Embora esse incidente fosse universalmente condenado pelos liberais, eles tipicamente focaram-se em sua suposta ilegalidade e o condenaram como uma violação da constituição britânica. Portanto, como Hodgskin via a questão, os liberais, embora explicitamente criticando o governo, estavam implicitamente apoiando o sistema de leis injustas em que o governo dependia a sua legitimidade. Como ele explicou para Place:

A horrível violação das leis em Manchester parece agora apenas ser um grito e uma palavra de ordem para apoiá-las. Produtiva de misérias como ela tem sido, é a nossa própria constituição miserável que agora nos dizem que devemos defender e apoiar. Eu estou farto de tal absurdo. Eu gostaria de saber de uma única lei que valha a batalha do homem honesto… Eu não conheço uma que por si só valha a pena apoiar, mas todos os homens parecem pensar que é melhor ser golpeados por hussardos ou calar-se nas Bastilhas de acordo com o governo do que confiar em seus companheiros. Eles parecem pensar que é melhor ser espoliador de acordo com o governo que correr a mais remota possibilidade de viver de acordo com a razão.

Em um artigo que submeteu para o Scotsman em Janeiro de 1820, Hodgskin elogiava Smith, Malthus, Bentham e outros economistas políticos que “tinham demonstrado o absurdo de quase toda regulação e, como uma consequência necessária, diminuíram o respeito de todos os homens pela autoridade de onde esses absurdos emanavam”. Mas o Scotsman se recusou a publicar esse artigo, provavelmente porque Hodgskin impulsionou sua crítica à lei em uma direção anarquista que poucos liberais podiam aceitar.

Enquanto Jeremy Bentham e seus seguidores tinham criticado as leis ruins como uma consequência de “interesses sinistros” (isto é, a aristocracia rural), Hodgskin estendeu essa perspectiva a todas as leis governamentais, enquanto as contrastava com as leis naturais da interação social. Todas as leis governamentais são designadas por oligarquias governantes para promover seu próprios interesses privados, e essas leis entram em conflito com aqueles direitos naturais da sociedade que servem os interesses gerais do povo. Esse tema recorrente depois iria receber um extensivo tratamento no livro mais importante de Hodgskin, The Natural and Artificial Right of Property Contrasted (1832).

As visões libertárias de Hodgskin eram tão extremas que ele frequente e compreensivelmente foi chamado de “anarquista”, apesar dele expressamente repudiar esse rótulo.

Se você consultar as histórias padrões sobre o pensamento econômico, você encontrará um rótulo ainda mais curioso ligado a Hodgskin, a saber, “socialista ricardiano”. Esse rótulo tem sido usado porque Hodgskin supostamente usou a teoria do valor-trabalho defendida pelo economista de livre mercado David Ricardo (1772 – 1823) e a desenvolveu em uma crítica de grande escala ao “capital” e aos “capitalistas” – mais notavelmente no Labour Defended Against the Claims of Capital (1825).

Esse tratado está longe de ser o melhor dos trabalhos de Hodgskin, mas é o mais famoso. Por quê? Principalmente porque ele foi repetidamente citado e aclamado por Karl Marx, que foi influenciado por alguns de seus argumentos-base. De fato, no primeiro volume do Capital, Marx elogiou Hodgskin como “um dos mais importantes economistas ingleses modernos”.

Portanto estamos expostos com a anomalia de um defensor radical da propriedade privada e do laissez-faire sendo chamado (por alguns historiadores) de um inglês precursor de Karl Marx. Mas não devemos ser enganados por como as ideias de um intelectual foram usadas por outros intelectuais. O fato que Marx escolheu a dedo uns poucos argumentos e conceitos de Hodgskin e os adaptou em sua própria agenda socialista não transforma Hodgskin em um socialista ou em um precursor de Marx.

Como Murray Rothbard salientou em Classical Economics: An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, página 401:

Não há dúvidas que o ultra trabalhismo de Hodgskin influenciou Karl Marx, mas essa teoria do valor-trabalho extrema não o torna um ricardiano, muito menos um socialista. Na verdade, Hodgskin era altamente crítico a Ricardo e ao sistema ricardiano, denunciando a metodologia abstrata de Ricardo, e sua teoria da renda, e se considerava um smithiano ao invés de um ricardiano. A lei natural de [Adam] Smith e sua doutrina de harmonia de interesses do livre mercado também era bem mais própria a Hodgskin.

Considere esses comentários que Hodgskin fez em uma carta a Francis Place em 1820, apenas três anos depois que Ricardo publicou o Principles of Political Economy e cinco anos antes de Hodgskin publicar Labour Defended Against the Claims of Capital:

Eu acho que eu nunca vi um livro mais destituído de fatos que o do sr. R. [Ricardo, Principles] que, ao mesmo tempo, tenha tido tanta influência. Para mim, parece se basear em definições arbitrárias e suposições estranhas. As duas primeiras sentenças do livro são radicalmente falsas… [Sua] definição de valor está errada… Sua explicação da forma em que o capital fixo tende a diminuir os preços de todas os bens em que entra, sustento que seja a melhor e única boa parte de seu livro… Parece para mim que [o livro] foi construído sem nenhum tipo de fatos, para contradizer muitos e para ter um pouco mais mérito que uma “sutileza desconcertante”.

No começo de 1823, Hodgskin mudou-se de Edimburgo para Londres, onde se tornou o jornalista cobrindo o parlamento para o Morning Chronicle (cujo editor era um amigo do benthamita James Mill). Depois de meses da chegada a Londres, Hodgskin começou o Mechanics’ Magazine, um jornal educacional direcionado aos trabalhadores das fábricas e outros trabalhadores. Em um tempo em que muitos trabalhadores estavam demandando leis de salário mínimo, Hodgskin argumentou que todas as regulações econômicas, incluindo as leis de salário mínimo, devem ser repudiadas em favor de um mercado livre e desregulado.

Os legisladores, Hodgskin alertou, não são amigos dos trabalhadores. Na verdade, “os legisladores sempre pertenceram às classes não-trabalhadoras da sociedade, e parece ruim, portanto, para o homem pobre ter qualquer lei desse tipo emanando deles”. Membros da classe dominante já tem muito poder, e garanti-los o poder de regular salários iria aumentar seus poderes ainda mais. Mesmo se tais regulações possam evitar a diminuição de salários no curto prazo, os trabalhadores estariam melhores servidos no longo prazo ao buscar seus próprios interesses em um livre mercado, ao invés de depender de legisladores, cuja principal preocupação é preservar seu próprio poder.

Em 1824, enquanto trabalhava como jornalista, Hodgskin observou os debates na Casa dos Comuns que levaram à revogação das Leis de Combinação [Combination Laws], que tinham proibido os sindicatos ao proibir combinações de trabalhadores que desejassem pressionar os empregadores por menores horas de trabalho ou melhores salários. Essas Combination Laws eram o alvo principal dos benthamitas e outros defensores do livre mercado, que argumentavam que deve-se permitir que os trabalhadores negociem livremente com seus empregadores, desde que a coerção não seja usada.

Embora alguns defensores do livre mercado, como Francis Place, tivessem previsto que a revogação indiscriminada das leis proibindo os sindicatos iria diminuir a frequência de greves, não foi isso o que aconteceu. A revogação foi imediatamente seguida de um surto de greves, em que algumas das quais foram violentas. Portanto, tão logo as antigas leis foram revogadas os legisladores assustados aprovaram a Combination Act de 1825. Essa nova legislação, embora permitisse a barganha coletiva em questões pertinentes a salários e condições de empregos, declarava que os membros dos sindicatos não podiam “molestar”, “obstruir” ou “intimidar”. Não era claro, entretanto, como os termos tipo “obstruir” seriam interpretados pelas cortes inglesas.

Esse background histórico é essencial para entender o propósito político de Hodgskin ao escrever Labour Defended Against the Claims of Capital [O Trabalho Defendido Contra as Reivindicações do Capital, tradução livre], que carrega o subtítulo: Or the Unproductiveness of Capital proved with Reference to the Present Combinations amongst Journeymen [Ou a Improdutividade do Capital Provada com Referência às Associações Presentes entre os Trabalhadores, tradução livre].

Thomas Hodgskin usou a nova lei contra os sindicatos como uma oportunidade de criticar a teoria do capital que tinha sido defendida por David Ricardo e seus seguidores. Os ricardianos, como o economista J. R. McCulloch (que Hodgskin mencionou especificamente), eram alvos particulares de certa forma, já que eles tinham liderado o movimento de revogação à proibição contra os sindicatos e a barganha coletiva. Entretanto, Hodgskin acreditava que esses economistas de livre mercado tinham promovido, mesmo involuntariamente, o preconceito generalizado contra os sindicatos ao investir o “capital” de poderes produtivos que ele na verdade não possui.

A crítica de Hodgskin aos “capitalistas” era severa e incessante. Ele negou “que o capital tenha qualquer reivindicação justa a grande parte da produção nacional que agora o confiaram”. “Quase se é tentado a acreditar que o capital é um tipo de palavra cabalística, como Igreja ou Estado, ou qualquer outro desses termos gerais que são inventados por aqueles que extorquem o resto da humanidade para esconder a mão que os extorque”. Os “efeitos malignos do capital” são vistos pelo fato de que o trabalhador deve dar uma “grande quantidade” do produto de seu trabalho ao capitalista, que mantém “o trabalhador na pobreza e na miséria”. Os capitalistas “só podem ficar ricos onde há um corpo oprimido de trabalhadores”, e eles “têm desde então reduzido o antigo tirano da terra à insignificância comparativa, enquanto herdaram seu poder sobre todas as classes trabalhadoras. É, portanto, tempo agora das afrontas que pairaram por tanto tempo sobre a aristocracia feudal serem empilhadas no capital e nos capitalistas”.

Leitores familiares com a teoria austríaca do capital podem facilmente identificar as sérias falhas no ataque teórico de Hodgskin sobre o capital e os capitalistas (veja a discussão de Rothbard, citada acima, para uma crítica breve porém incisiva). Mas fazendo justiça a Hodgskin, três pontos devem ser mantidos em mente.

1) O livro Labour Defended deve ser lido, em parte, como uma crítica ao “corporativismo”, para usar uma expressão moderna. Hodgskin acreditava que as leis contra os sindicatos e a barganha coletiva tinham criado uma vantagem injusta contra os trabalhadores em favorecimento aos capitalistas. Portanto, os grandes lucros colhidos pelos capitalistas não eram o resultado de forças econômicas naturais, mas foram gerados pelas leis coercivas do governo.

2) Hodgskin distinguiu entre as diferentes funções econômicas que às vezes são incluídas no rótulo “capitalista”. Embora ele salientasse que “tudo que o trabalho produz deve pertencê-lo”, ele também enfatizou que “trabalho” não se refere apenas ao esforço físico mas também às atividades e habilidades mentais. “Eu portanto alertaria, meus caros trabalhadores, para não limitarem o termo trabalho às operações manuais”.

A produção de um bem requer o trabalho conjunto e os esforços cooperativos de muitas pessoas diferentes com muitas habilidades diferentes, incluindo o “conhecimento e a habilidade do mestre manufatureiro, e do homem que planeja e arranja uma produção produtiva, que deve conhecer a situação dos mercados e as qualidades de diferentes materiais, e que tem algum tato sobre compra e venda…”. Esses “mestres”, “empregados” e “inventores e empreendedores de novos trabalhos” são autênticos trabalhadores, então eles tem uma reivindicação justa à sua porção dos lucros. “O trabalho e a habilidade do inventor, ou do homem que arranja e adapta-se como um todo, são tão necessários quanto o trabalho e as habilidades daquele que executa apenas uma parte, e eles devem ser pagos adequadamente”.

3) Outro ponto é ainda mais significativo, porque ele claramente separa a crítica de Hodgskin aos capitalistas das propostas socialistas. Se é verdade que o trabalhador deve receber o produto inteiro de seu trabalho, também é verdade que os bens em uma sociedade avançada são o produto de uma divisão complexa de trabalho em que muitas pessoas contribuem para a fabricação de um único bem econômico.

Então como pode um trabalhor específico receber uma compensação justa, quando é impossível separar sua contribuição daquelas de muitos outros? Há apenas uma forma, de acordo com Hodgskin, a saber, permitir que os trabalhadores (incluindo empregadores, fabricantes, empreendedores e outros)  se aperfeiçoem livremente em um mercado competitivo. Como Hodgskin coloca:

Não há princípio ou regra, até onde eu sei, para dividir o produto de um trabalho conjunto entre os diferentes indivíduos que contribuíram na produção, além do julgamento dos próprios indivíduos; esse julgamento, dependente do valor que os homens podem definir aos diferentes tipos de trabalho, nunca pode ser conhecido, nem qualquer regra pode ser dada para sua aplicação por qualquer pessoa. Assim como um homem não pode dizer aos outros o que eles devem odiar ou o que eles devem gostar.

Em cada estágio da produção, uma pessoa deve decidir quanto ela está disposta a pagar pelos materiais e serviços necessários para produzir sua porção, e várias dessas avaliações subjetivas são refletidas no valor do produto final. Então, quando algo é finalmente produzido sob uma divisão de trabalho avançada, “não há mais nada que podemos chamar de recompensa natural do trabalho individual”.

Cada trabalhador produz apenas uma parte do total, e cada parte tendo nenhum valor ou utilidade por si só, não há nada que o trabalhador possa se apoderar e dizer: “Esse é o meu produto e irei guardar para mim”.

Dadas as várias pessoas e habilidades diferentes que são exigidas para produzir mesmo um bem simples sob uma complexa divisão de trabalho, como devemos determinar a recompensa que deve ser feita a um trabalhador em particular? Hodgskin responde essa questão como segue:

Eu não conheço nenhuma forma de decidir isso a não ser deixar para ser decidido pelos julgamentos irrestritos dos próprios trabalhadores. Se todos os tipos de trabalho fossem perfeitamente livres, se não houvesse nenhum preconceito infundado envolvido algumas partes, e talvez as menos úteis, da tarefa social em grande honra, enquanto outras partes são impropriamente marcadas com vergonha, não haveria dificuldade nesse ponto, e os salários do trabalho individual seriam justamente estabelecidos pelo que dr. [Adam] Smith chamou de “a pechincha do mercado”.

Então vemos que Thomas Hodgskin não era um “socialista ricardiano”, ou um socialista de qualquer tipo. Pelo contrário. Ao invés de chegar a conclusões socialistas da teoria do valor-trabalho, Hodgskin a empregou como um alicerce para o laissez-faire. Apenas em um livre mercado, ele sustentou, os trabalhadores de todo tipo podem receber a recompensação justa por seu trabalho.

Seria impossível explorar os muitos problemas na crítica de Hodgskin ao capital e aos capitalistas sem simultaneamente discutir a teoria do valor-trabalho em que a crítica depende. Mas deve ser notado que os principais defensores da teoria do valor-trabalho, mais notavelmente Smith e Ricardo, eram incapazes de fornecer uma explicação completamente satisfatória do lucro gerado pelo capital.

Embora fosse geralmente entendido que o capitalista adianta os salários aos trabalhadores, e portanto renuncia o consumo presente pelo consumo futuro, a maioria dos economistas clássicos falhou em entender a relação crucial entre a preferência temporal e os juros que o capital acumula. Embora Hodgskin prezasse (e elogiasse) o papel da tomada de riscos do empreendedor, ele também separou esse papel daquele do capitalista puro de forma artificial. Todo o investimento de capital em um livre mercado é tomado com algum grau de risco gerador de lucro.

Mechanics’ Magazine

Em 1823, Thomas Hodgskin co-fundou, com seu amigo Joseph C. Robertson, a revista Mechanics’ Magazine. Naquele tempo, “mechanic” referia-se aos artesãos habilidosos de um comércio especializado, ao invés de trabalhadores manuais em geral, então a Mechanics’ Magazine destacava artigos sobre os últimos desenvolvimentos na ciência e tecnologia que poderia ser do interesse de trabalhadores instruídos.

Com a máxima baconiana “Conhecimento é poder” em seu cabeçalho, a Mechanics’ Magazine salientava o papel crucial do conhecimento e da inovação em melhorar as capacidades produtivas do trabalho. Os inventores e engenheiros criativos, tais como James Watt (inventor da máquina a vapor), eram elogiados como exemplos que todos os trabalhadores deveriam buscar imitar. A tese de que o progresso do conhecimento é essencial ao aperfeiçoamento da classe trabalhadora era um tema recorrente nas obras  de Thomas Hodgskin, tema que ele iria elaborar em detalhe considerável em seu livro sobre economia, Popular Political Economy (1827).

Em vários artigos publicados na Mechanics Magazine, Hodgskin argumentou que o governo não era amigo da classe trabalhadora e que a liberdade individual do laissez-faire era a melhor política. Um voluntarista ardente, Hodgskin se opôs a toda a interferência estatal na educação. Ele escreveu na Mechanics’ Magazine (11 de Outubro de 1823):

A educação de um povo livre, assim como sua propriedade, sempre irá ser direcionada mais beneficamente para ele quando for feita com suas próprias mãos. Quando o governo interfere, ele direciona seus esforços mais para tornar as pessoas obedientes e dóceis do que sábias e felizes. Ele planeja controlar os pensamentos, e molda até mesmo as mentes de seus cidadãos; e deixar em suas mãos o poder de educar o povo é a maior extensão possível daquela prática mais perniciosa que por tanto tempo assolou a sociedade, que é permitir um ou poucos homens de direcionar as ações e controlar a conduta de milhões. Os homens estariam melhores sem educação – propriamente dita, pois a própria natureza nos ensina várias verdades valiosas – do que serem educados por seus governantes; pois dessa forma a educação não é nada mais que a mera domação do novilho ao jugo; a mera disciplina de um cão caçador, que, por força da severidade, é obrigado a renunciar ao impulso mais forte da natureza e, ao invés de devorar sua presa, a leva aos pés de seu mestre.

Encorajado pelo sucesso da Mechanics’ Magazine, e inspirado pelas instituições educacionais de mercado em Edimburgo e em outros locais, Hodgskin e Robertson decidiram estabelecer o London Mechanics’ Institute. Como originalmente concebido, esse instituto de ensino era pra ser financiado completamente pelos próprios trabalhadores, sem contribuições privadas de patronos ricos – uma ressalva que foi alimentada pelo medo que quem controla o fio do dinheiro também controlaria a agenda.

As coisas não funcionaram como Hodgskin e Robertson imaginaram. Depois que Francis Plate, um organizador habilidoso com vários contatos para contribuidores em potencial (especialmente entre os benthamitas), foi trazido ao projeto, ele insistitu que o London Mechanics’ Institute não poderia sobreviver sem assistência financeira de fora. O financiamento, na forma de um empréstimo substancial, do Dr. George Birkbeck, ajudou a decidir a questão em favor de Francis Plate. Consequentemente, embora Hodgskin e Robertson desempenhassem papéis formais na fundação do London Mechanics’ Institute, nenhum deles nunca trabalhou no quadro administrativo (O London Mechanics’ Institute depois tornou-se o Birkbeck College, que agora é um ramo da Universidade de Londres).

Robertson ficou tão furioso pelo que ele considerou uma traição da visão original que atacou o Instituto nas páginas da Mechanics’ Magazine. Mas Hodgskin era mais conciliatório, defendendo que desacordos honestos às vezes surgirão entre pessoas bem-intencionadas. Embora a amizade de Hodgskin com Place tenha se tornado tensa, ele formou uma amizade com Birkbeck e dedicou o livro Popular Political Economy a ele.

Em 1826, Hodgskin proferiu quatro palestras sobre economia no London Mechanics’ Institute. Seu livro Popular Political Economy, publicado no ano seguinte, era uma expansão e reorganização do material contido nessas palestras.

Este livro altamente interesante merece mais antenção do que geralmente tem recebido. Mesmo alguns estudiosos libertários que elogiam Hodgskin por seu último livro, The Natural and Artificial Right of Property Contrasted (1832) – um verdadeiro clássico do pensamento libertário – não sabem bem o que extrair do Popular Political Economy. A teoria do valor de Hodgskin o torna suspeito aos economistras austríacos modernos, e a crítica ao capital e aos capitalistas no capítulo final parece ser nada mais que um resumo do material que Hodgskin apresentou em seu tratado de 1825, Labour Defended Against the Claims of Capital.

Embora admita que o material em Popular Political Economy seja de valor desigual – uma acusação que se aplicaria a todo livro de economia escrito durante o começo do século XIX – também afirmo que ele contém vários insights brilhantes e argumentos que anteciparam as ideias de F. A. Hayek e outros austríacos. Irei portanto dedicar o restante deste artigo e ao menos parte de meu próximo texto explorando algumas das teorias econômicas de Hodgskin.

Eu prossigo com essa discussão com um certo grau de medo e temor, porque até onde eu sei, de muitos anos de ensino, que nenhum assunto pode entediar tanto os leitores como a economia – especialmente as várias controvérsias técnicas na história do pensamento econômico. Mas eu também sei que os leitores libertários tendem a ser uma tribo inteligente, educada e inquisitiva, então estou disposto a arriscar perder uns poucos leitores para explicar alguns problemas na história do pensamento econômico que eram cruciais ao desenvolvimento da antiga teoria libertária.

Ao criticar os economistas britânicos mais influentes de seu tempo, mais notavelmente T. R. Malthus e David Ricardo, Hodgskin provou estar certo em quase todas as principais questões. A crítica de Hodgskin ao “princípio da população” de Malthus é sólida, assim como o é sua crítica da teoria da renda de Ricardo – dois pilares da doutrina, descartados muito tempo atrás por economistas, conhecida como a “Lei de Ferro dos Salários”. De acordo com essa doutrina, aqueles trabalhadores nos degraus mais baixos da escada econômica em um livre mercado estão condenados eternamente a um nível de subsistência de sobrevivência.

Essa doutrina pessimista – um contraste gritante comparado ao antigo otimismo econômico de Adam Smith, que Hodgskin buscava reabilitar – tornou-se parte e parcela da teoria da exploração de Marx, então o livro Popular Political Economy pode ser visto como uma refutação pré-marxiana de Marx.

Hodgskin não era um discípulo acrítico de Adam Smith, embora ele admirasse muito esse grande pioneiro. Pelo contrário, Hodgskin era um eclético que bebia de várias fontes, incluindo o brilhante economista francês J. B. Say.

Por exemplo, ao criticar a ênfase exagerada de Smith sobre a divisão de trabalho como o motivo principal do progresso econômico, Hodgskin baseava-se no insight de Say de que o progresso do conhecimento, que em muitos casos precede a divisão do trabalho, é a base última do progresso econômico, Esse foco no progresso do conhecimento – que era um regresso a Turgot, Condorcet e outros pensadores iluministas que defendiam a teoria do “progresso indefinido” – tornou-se a base a partir da qual Hodgskin lançou sua crítica à ortodoxia econômica de seu tempo, como defendida por malthusianos e ricardianos.

Devo explorar esse contexto histórico em mais detalhes no meu próximo artigo, Por ora, desejo fazer algumas poucas observações sobre o livro Popular Political Economy.

De acordo com Hodgskin, o progresso econômico depende da observação das leis da natureza, isto é, dos princípios gerais baseados na natureza dos seres humanos e na interação social. Toda a riqueza, tanto mental quanto material, é produzida pelo trabalho dos seres humanos, e tal riqueza tenderá a crescer conforme as pessoas perseguem seus próprios interesses dentro das fronteiras da justiça.

A intervenção econômica pelos governos não pode fazer nada para aumentar a riqueza ou acelerar seu progresso. Entretanto, os legisladores – que tipicamente são ignorantes da ciência econômica e que estão primariamente preocupados em preservar e aumentar seu próprio poder – “veem a sociedade humana como uma máquina de montar e regulada em todos os seus movimentos pelo político; e eles se esforçam para nos fazer acreditar que ela desmoronaria em pedaços se não fossse pelo poder protetor de sua maestria”.

A visão de Hodgskin é “totalmente diferente”. Proporcionar o bem-estar geral através da intervenção econômica está além do poder da mente humana. Nossos poderes, embora admiravelmente adaptados para fornecer nossas próprias necessidades, “são totalmente incapazes para captar, e muito menos para regular, as relações complexas da sociedade”. Tais esforços políticos tornaram-se “a cada dia, cada vez mais desprezíveis” à medida que as relações sociais tornam-se cada vez mais complicadas.

O que agora chamamos de “economia” era conhecido nos tempos de Hodgskin como “economia política”. Hodgskin contesta o último rótulo (ele estava entre os primeiros a fazê-lo) porque confunde as leis naturais da economia com as decretos artificiais (feitos pelo homem) da legislação. O livro de Hodgskin, que estabelece um “código de leis naturais” na esfera da economia, não oferece qualquer sugestão prática exceto de um tipo negativo. O maior lição ensinada pela ciência econômica é que os governos devem ficar fora dos assuntos econômicos.

De acordo com Hodgskin, uma ciência da intervenção econômica é impossível, dada as muitas variáveis envolvidas. Em outras palavras, não podemos especificar com precisão como uma regulação específica irá afetar a ordem econômica geral. É por isso que a ciência da economia é tão crucial. Ao nos dar conhecimento de como uma ordem econômica poderia funcionar em uma condição de liberdade perfeita, podemos entender, mesmo que apenas em termos gerais, os efeitos danosos da intervenção governamental.

Portanto é pelo entendimento das leis naturais da economia que também viemos a entender os efeitos danosos da interferência política, pois o conhecimento das leis econômicas nos permite rastrear as conexões complexas entre as causas e efeitos sociais.

A economia nos ensina, por exemplo, que “todas as medidas legislativas relacionadas à produção de riqueza” (tais como as Corn Laws e outras restrições ao comércio) não equivalem a nada mais do que beneficiar algumas pessoas às custas de outras. O legislador não pode aumentar a riqueza; o máximo que os “vãos e malformados esquemas dos legisladores humanos” podem fazer é alterar a distribuição de riqueza, isto é, “refrear ou tomar de uma classe e dar a alguma outra”.

Ao usar o termo “popular” como parte de seu título, Popular Political Economy, Hodgskin não quer dizer que reduziu um assunto difícil em uma leitura leve que pode ser entendida sem muito pensamento. Pelo contrário, por “popular” ele quis dizer a suspeita generalizada entre os leigos que deve ter algo terrivelmente errado com algumas das teorias defendidas pelos principais economistas, tais como T. R. Malthus em Essay on the Principle of Population.

Como Hodgskin via a questão, o notório homem comum, embora possa ser ignorante a respeito da economia técnica, frequentemente tem um melhor entendimento de como o mercado funciona de fato que os supostos experts em teoria econômica. Em um nível prático, o conhecimento econômico dos empreendedores, fabricantes, comerciantes e outros trabalhadores é muito superior ao conhecimento dos intelectuais – mas os trabalhadores, embora vários deles suspeitem que uma dada teoria econômica não seja nada além de junk science (para usar uma expressão moderna), são tipicamente incapazes de justificar suas suspeitas com raciocínio abstrato.

Por isso o título do livro de Hodgskin, Popular Political Economy. Sua apresentação é “popular” no sentido que busca justificar as dúvidas populares que várias pessoas cogitavam sobre o conhecimento econômico convencional.

Popular Political Economy

Apesar de algumas deficiências teóricas, Popular Political Economy contém várias discussões perspicazes, tais como a defesa de Hodgskin de uma moeda e de um sistema bancário de livre mercado. Talvez a discussão mais valiosa de Hodgskin (que antecipa os insights posteriores de F. A. Hayek e outros economistas austríacos) seja sobre o papel dos preços em transmitir informação vital em um livre mercado.

De acordo com Hodgskin, as variações e flutuações de preços são indicadores econômicos cruciais que “regulam o consumo”. Por exemplo, se o preço do pão não aumentasse quando os fazendeiros esperassem uma colheita ruim de trigo, “nenhuma pessoa seria advertida a tempo a diminuir o seu consumo, ou buscar por outro alimento que não seja pão de trigo; e antes da próxima colheita poderia haver fome generalizada”. Reciprocamente, se os preços não caíssem durante uma colheita abundante, uma boa parte de trigo seria desperdiçada.

Os preços são, portanto, “o índice das necessidades da sociedade”; eles indicam “a todos os homens como eles devem empregar seu tempo e seus talentos da maneira mais lucrativa para si, e da maneira mais benéfica para toda a sociedade”.

Ao caracterizar varejistas e atacadistas como “agentes indispensáveis, ao ajustarem a oferta dos bens à demanda e ao consumo”, Hodgskin nos deu um dos melhores tratamentos do mercado como um processo de coordenação encontrado na literatura de economia do século XIX.

Hodgskin construiu o problema da coordenação de mercado ao perceber duas coisas em relação aos produtos agrícolas. Primeiro, alguns bens levam mais tempo para serem produzidos que outros; segundo, alguns bens irão durar mais que outros, antes que estraguem e tornem-se inúteis como alimento. Porém, as pessoas precisam comer todos os dias.

Então, como é que um livre mercado pode fornecer uma oferta regular de alimentos, apesar dessas diferenças dramáticas em vários bens agrícolas? Hodgskin escreveu:

Mas embora os produtos de diferentes espécies de trabalho estejam disponíveis em tempos desiguais, e são de tamanha durabilidade desigual, de tal forma que alguns devem ser imediatamente vendidos e consumidos, enquanto outros podem ser mantidos fora do mercado por meses, o apetite de cada trabalhador é renovado diariamente, e deve ser satisfeito todos os dias. Se estivéssemos cientes dessas leis naturais, nos influenciando e também os materiais de nossa subsistência, e se ao mesmo tempo soubéssemos que a grande maioria das operações exercidas em sociedade são, no longo prazo, de mesma utilidade, cada uma sendo necessária para a realização das outras, e que a sociedade civilizada provavelmente não poderia existir, e certamente não poderia florescer, desejando nenhuma delas, não deveríamos pensar em nós mesmos como obrigados a tomar medidas, pelas quais aquele cuja útil tarefa não pôde ser concluída e seu produto trazido ao mercado por vários meses, para que possa ser capaz de obter seu pão diariamente?

Como se antecipando críticas posteriores ao planejamento econômico central, Hodgskin expressou uma debochante surpresa pelo fato de que “nossos homens do parlamento” ainda não tivessem reivindicado possuir a quase-onisciência que seria necessária para nos permitir “produzir cada bem na forma precisa, e no tempo preciso que fosse necessário; e não terem feito medidas para garantir a todas as classes de trabalhadores, independente do tempo que precisasse para seus produtos chegarem ao mercado, sua necessária subsistência diária”.

Tal conhecimento geral do mercado é impossível, nem é necessário. A capacidade do livre mercado de coordenar a oferta e demanda “cresce despercebida e não-influenciada” pelos legisladores. De fato, essa função crucial é realizada pelos comerciantes atacadistas e varejistas, que são motivados por nada mais que seus próprios interesses econômicos.

Os negociantes… conhecem muito bem a utilidade de bens diferentes, e eles supõem, com precisão tolerável, os diferentes períodos em que uma dada quantidade será consumida. Eles compram, portanto, das várias classes de trabalhadores ou fabricantes seus diferentes produtos, e os compartilham da forma mais adequada possível à necessidade de todos. Eles reconciliam a aparente incongruência da natureza e, ao passo trabalham para si mesmos, são úteis para os outros. O importante negócio de distribuir a riqueza da sociedade de maneira efetiva em tais proporções que indivíduos possam obtê-la, para que então as necessidades diárias de todas as classes, mesmo daquelas cujos produtos não estarão finalizados por meses ou anos, podem ser convenientemente abastecidas, é, na verdade, realizado pelo distribuidor. Eles dirigem seus negócios, estou ciente, sem tal objetivo em vista; eles são levados a isso por uma visão instintiva de seu próprio interesse; e eles estão tão distraídos dessas grandes circunstâncias naturais que dão origem a sua ocupação, e tão ignorantes da grande utilidade à sociedade como um todo da subdivisão de trabalho que eles colocam em prática, como aqueles indivíduos que fingem que a natureza não regula nada, e que, por sua sabedoria ordenada, a sociedade não poderia existir.

De acordo com Hodgskin, em todos os casos em que o comércio “é voluntariamente exercido, podemos… estar certos que é benéfico a todos”. As trocas voluntárias permitem que cada pessoa persiga seus próprios interesses de acordo com seus próprios julgamentos. Embora os distribuidores, em sua busca pelo lucro, “sejam às vezes descritos como sugando o tutano dos ossos dos pobres trabalhadores”, essa descrição é completamente incorreta.

O varejo é uma espécie de trabalho, e o varejista apenas pode lucrar se exercer “a maior economia ao distribuir bens” aos consumidores que os desejam. Os varejistas têm “um interesse direto em desempenhar bem seu papel, e fortes motivos para essa vigilância que é benéfica à toda a sociedade”. Hodgskin conclui:

Sob a influência do auto-interesse, comprando e vendendo apenas tendo em vista seu próprio lucro, distribuidores distribuem toda a riqueza da sociedade na maneira mais econômica possível. Eles encontram consumidores até mesmo para recusar…

Popular Political Economy continua com uma análise similar dos comerciantes atacadistas, que eram amplamente condenados pelo acúmulo de grãos e por então vendê-los por preços altos durante os tempos de fome. Embora a defesa de Hodgskin seja semelhante à encontrada no livro A Riqueza das Nações de Adam Smith, Hodgskin salientou mais do que Smith sobre o papel dos atacadistas em coordenar a atividade econômica. O espaço aqui não permite explorar esse aspecto do livro de Hodgskin, então eu deixo para os leitores descobrirem seu tratamento brilhante por si próprios.

Considerando geralmente, Popular Political Economy é uma crítica sustentada do “princípio da população” defendido pelo clérigo inglês Thomas R. Malthus (1766 – 1834). E isso nos traz alguns argumentos econômicos que, embora posssam fracassar em cativar leitores modernos, geraram uma quantidade enorme de interesse e controvérsia nos dias de Hodgskin.

Antes do que Hodgskin chamou de “fama infeliz” dos argumentos de Malthus, a economia geralmente era vista (especialmente por Adam Smith) como um empreendimento otimista, que explicava como nenhum limite definido pode ser atribuído ao progresso econômico. Depois que uma teoria de “progresso indefinido” tinha sido integrada por alguns filósofos iluministas (especialmente o anarquista William Godwin) em seus futurísticos esquemas utópicos, Malthus respondeu em 1798 com uma crítica concisa, An Essay on the Principle of Population (embora Malthus tenha modificado suas visões em edições posteriores desse livro, foi a primeira edição que gerou a maior parte da controvérsia).

Malthus era amplamente considerado como tendo fornecido o coup de grace às teorias econômicas do progresso. Sua refutação repousava sobre a alegação (que não era original a ele) de que a população, “quando descontrolada, aumenta em uma razão geométrica”, enquanto a oferta de comida “aumenta apenas em uma razão aritmética”.

A significância econômica desse princípio da população é que a tendência constante de uma população de aumentar “tende a sujeitar as classes mais baixas da sociedade à miséria e evitar qualquer grande melhoria permanente de suas condições”. A pressão do crescimento da população relativo à oferta de comida irá impor limitações severas sob o progresso econômico. Isso significa que sempre existirá um número significativo de trabalhadores que nunca será capaz de adquir mais que salários de subsistência.

Seria difícil superestimar a influência do malthusianismo no pensamento do século XIX, especialmente na Grã-Bretanha. Foi parcialmente devido a essa influência que Thomas Carlyle apelidou a economia como a “dismall science”. Quando David Ricardo incorporou o princípio da população em sua própria teoria econômica, tornou-se uma parte da ortodoxia benthamita.

De acordo com Ricardo, os salários, “como todos os outros contratos… devem ser deixados a justa e livre competição de mercado, e nunca devem ser controlados pela interferência do legislativo”. Isso também tinha sido a visão de Adam Smith, mas Ricardo injetou uma nota pessimista na expectativa de longo prazo para os salários reais que discordava da explicação de Smith, de acordo com que os salários reais do trabalho tenderão a aumentar em uma economia progressivamente em expansão, juntamente com o acúmulo de capital.

Em contraste, Ricardo manteve que o “preço natural do trabalho é aquele preço que é necessário para permitir aos trabalhadores, uns com os outros, de subsistir e perpetuar sua raça, sem aumentar ou diminuir”. Ricardo não negou que o preço de mercado do trabalho (“o preço que realmente se paga”) será determinado pelas forças de mercado da oferta e demanda, mas ele também manteve que “embora tanto o preço de mercado do trabalho possa desviar de seu preço natural, ele tem, como os bens, uma tendência a adaptar-se a ele” (quando antigos economistas falam de “preço natural”, eles grosseiramente querem dizer o que os economistas modernos chamam de “preço de equilíbrio”).

Uma coisa que diferencia a obra de Ricardo de Smith é o fato que o primeiro incorporou o princípio malthusiano da população, e era esse fator que embutia a teoria de Ricardo com um tom pessimista. A abordagem de Ricardo cai em algum lugar entre o pessimismo de Malthus e o otimismo de Smith. Quando, de acordo com Ricardo, o preço do trabalho de mercado excede seu preço natural, a condição do trabalhador é “próspera e feliz”. Mas a tendência de longo prazo é para o preço de mercado gravitar para o preço natural, porque salários maiores irão motivar os trabalhadores a ter maiores famílias, e isso, ao aumentar o número de trabalhadores, eventualmente irá trazer menores salários. Essa é apenas uma tendência, entretanto; na verdade, a taxa de salários de mercado “pode, em uma sociedade aprimorada, por um período indefinido, ficar constantemente acima” da taxa natural.

Muito do Popular Political Economy é uma crítica sustentada do malthusianismo e de seu uso por Ricardo, especialmente em conexão com sua teoria da renda.

A renda, Ricardo argumentou, surge das diferenças naturais de fertilidade entre as diferentes unidades de terra. À medida que mais terra é cultivada para encontrar uma demanda crescente por comida, menos terra produtiva é posta em cultivo. Consequentemente, cada unidade de trabalho agrícola irá tornar-se menos produtiva, devido a pior qualidade dessa terra (essa é essencialmente uma teoria da produtividade marginal aplicada à agricultura). Então, quanto mais trabalho for necessário para produzir a mesma quantidade de comida em menos terra fértil que poderia previamente ser produzida em mais terra fértil, o preço real dos produtos agrícolas irá aumentar relativo a outros bens. Essa, Ricardo concluiu, é a principal razão do por que a oferta de comida nunca irá manter o ritmo com o crescimento populacional e por que os salários irão tender a cair ao nível de subsistência.

Hodgskin, embora não negasse que devemos recorrer “a solos de fertilidade cada vez menores”, questionou as conclusões que Ricardo extraiu de sua teoria. Pois mesmo Ricardo tinha concebido que vários fatores, tais como avanços tecnológicos, irão tender a atenuar os preços mais altos dos alimentos gerados pela produtividade diminuída do solo menos fértil. Então, dado que “há várias circunstâncias que compensam a fertilidade decrescente”, Hodgskin não poderia entender como Ricardo pode dogmaticamente concluir que essas circunstâncias atenuantes não iriam neutralizar os efeitos da fertilidade decrescente no longo prazo.

Mais uma vez Hodgskin apelou ao otimismo de Adam Smith sobre o pessimismo (relativo) de Ricardo. Smith tinha argumentado que os preços de quase todos os bens irão diminuir com o progresso econômico, devido a uma maior divisão de trabalho e novas tecnologias. Hodgskin mantinha que não há nada único sobre os produtos agrícolas que devem isentá-los dessa tendência geral. Ele também chamou atenção para as várias inovações e máquinas que tinham aparecido desde o tempo de Smith, que “diminuíram a um grau quase inconcebível, o trabalho necessário para produzir carne ou fazer pão”. Então a “opinião que o preço natural dos alimentos, reduzem ao invés de aumentarem com o progresso da sociedade, me parece corroborada pelos fatos”, porque “no progresso da sociedade, os alimentos são obtidos por cada vez menos trabalho”.

Deixando os argumentos técnicos de lado, é importante entender a abordagem básica de Hodgskin. Ele acreditava que o progresso do conhecimento é a principal razão do progresso econômico. O avanço do conhecimento irá gerar invenções e tecnologias “poupadoras de trabalho” – inovações que não podemos possivelmente predizer ou prever. É portanto impermissível para os economistas estipularem limites necessários ao progresso econômico, como se a criatividade humana e a inovação nunca avançarão além de seu estado atual.

// Tradução de Robson Silva. Revisão Uriel Alexis | Publicações originais : IIIIIIIV


Sobre o autor

George H. Smith

George H. Smith é Senior Research Fellow do Institute for Humane Studies, também é professor de História Americana nos Seminários de Verão do CATO Institute. Recentemente, Smith teve seu quarto livro, The System of Liberty, publicado pela Cambridge University Press.



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