Cultura & Humor The Yard

Publicado em 4 de maio de 2014 | por Adriel Santana

The Yard: O “Parquinho” como Metáfora do Mundo

A HBO Canada produziu e transmitiu em 2011, uma das minisséries mais instigantes e divertidas dos últimos anos. The Yard tem como proposta abordar temas dos mais variados, como economia, política, intervencionismo estatal, drogas, relacionamentos, feminismo, guerras por territórios etc. O diferencial da produção é que todo o elenco é formado por crianças (adultos são apenas citados, mas nunca aparecem em tela) e esses assuntos são totalmente adaptados à realidade delas. Com uma mescla eficiente de um elenco carismático, um roteiro consistente, tramas inteligentes e assuntos provocativos, The Yard foi um dos grandes e felizes destaques da TV canadense nos últimos anos.

Antes de entrarmos na análise dos episódios em si, afirmo que a utilização do universo infantil para tratar de temas bastante polêmicos se mostrou uma decisão acertada do roteiristas por várias razões. Ter a chance de expor questões pesadas sobre uma ótica mais leve facilita que os espectadores ousem refletir sobre elas de uma forma que, se estas fossem lançadas diretamente a eles “nuas e cruas”, tenderiam a ser rejeitas de imediato pela maioria. Nesse sentido, as analogias, que é a base de sustentação de todo os argumentos apresentados durante os episódios, precisam ser bem construídas. E assim o foram, graças tanto ao elenco, que mostrou bastante competência mesmo sendo composto por crianças tão jovens, como dos roteiristas, que criaram um show memorável.

A segunda característica que chama a atenção na minissérie é o seu país de origem. A abordagem que é conferida a grande maioria dos temas são completamente divergentes da atual realidade política e econômica do Canadá. Esse elemento crítico é, aliás, muito bem vindo, pois incentiva um debate saudável de ideias e opiniões sobre tópicos de interesse público, em especial num momento de tanta turbulência internacional.

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1×01: The Economy

No primeiro episódio somos apresentados a todo o elenco principal. Nick (Quintin Colantoni) é o “governante” do parquinho, responsável por determinar as regras de convivência e manter a ordem e a paz no local. Ele é auxiliado em seu “trabalho” pelos seus amigos: Johnny (Shemar Charles), que é metido a mágico e a conquistador; Suzi (Keana Bastidas), a única garota do grupo e a que lida com os “problemas de segurança”; J.J. (Alex Cardillo), o estrategista da equipe e auxiliar principal do seu irmão Nick; e Adam, o irmão mais novo de Nick e mascote da turma.

Do outro lado temos Frankie (Daniel Lupetina), que é o líder do grupo rival a Nick, sempre buscando formas que aumentar seu poder pessoal por meio de negócios e minar a influência do atual “governo” do parquinho. Sua gangue é composta pelos briguentos irmãos Costela e Mickey (Daryn Karp), que o ajudam na realização dos seus planos.

A trama principal desse episódio foi o sistema financeiro do pátio da escola. A analogia apresentada aqui mostra que as crianças se utilizam de cards chamados “Ju-Ji-Mon” como “moeda oficial” do lugar. Esse arranjo se mantém até o momento que cards mais populares são introduzidos pelo grupo de Frankie no parquinho, que assim pretende ganhar mais poder e dinheiro (o de verdade).

Demonstrando um conhecimento surpreendente de como a economia funciona, são abordados com elegância na trama, com maior e menor enfoque, questões como inflaçãomoedas concorrentes e controle governamental sobre o mercado financeiro.

1×02: Girls vs. Boys

Neste episódio, a análise se estende sobre as relações entre os sexos masculinos e femininos. Sem entrar necessariamente no âmbito sexual, a trama apresenta as diferenças existentes entre meninas e meninos e como regras sociais precisam ser respeitas por ambas as partes para o bem da sociedade. Quero dizer, do pátio.

A personagem Mary (Sarah Cranmer), irmã de Frankie e potencial interesse romântico de Nick, ganha visibilidade nessa trama por ser ela a líder das meninas. Após um incidente envolvendo Johnny e Patti (Olivia Scriven), melhor amiga de Mary, Nick se vê obrigado a mediar um conflito iminente entre garotos e garotas no parquinho.

Mesmo não sendo um episódio brilhante quanto à forma de abordagem do tema, ele foi sem dúvida bastante divertido. Mesmo assim, houve espaços consideráveis para piadas e críticas a “guerra entre os sexos” e também aos relacionamentos amorosos, que, como vimos aqui, se inicia desde cedo.

1×03: The Territories

Um dos meus episódios favoritos. Não me lembro de visto uma produção conseguir tratar de maneira tão fantástica o conflito por territórios entre povos como o foi aqui. Usando como analogia a briga entre o grupo de Frankie e o das crianças africanas pelo uso do campo de futebol da escola, a minissérie impetrou um diagnóstico contundente sobre os conflitos por terra no mundo.

Mesmo sendo uma análise geral sobre guerras por territórios, chama a atenção nos diálogos entre as crianças as referências que são feitas a aspectos religiosos, o que aproxima a briga do episódio ao famoso conflito judaico-palestino. Sem soar desrespeitosa em nenhum momento, é apresentada ao público a “lógica” desse tipo de guerra e porque ela tende a se perpetuar sem uma mediação eficaz e disposição para o diálogo entre as partes.

Com analogias ao terrorismo, mediações de conflito e “efeitos colaterais” (vítimas inocentes) dessas batalhas, The Territories só não é o melhor episódio de The Yard por causa do próximo.

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1×04: The Catcher

Drogas é um assunto, no mínimo, complicado de se debater. Ignorando esse “problema” inicial, os roteiristas abordaram o tema com uma analogia eficaz envolvendo a fixação e adoração das crianças (ao menos as canadenses) por sanduíches de amendoim, os quais na história são estritamente proibidos de serem consumidos dentro da escola, com a justificativa de proteger aqueles que são alérgicos.

Novamente se nota aqui o conhecimento dos roteiristas sobre princípios básicos da economia, os quais são apontados por meio dos diálogos entre os personagens, como, por exemplo, quando são expostos a questão da lei da oferta e da demanda e como a proibição de produtos gera um mercado negro disposto a suprir as demandas do público consumidor, independente da legalidade ou não destes.

Surpreendente mesmo é a forma direta e objetiva pela qual o problema envolvendo o tráfico de drogas é exposto. Como bem resume o personagem J.J. logo no começo do episódio ao tratar do tráfico de sanduíches de amendoim na escola:

[Os professores] nunca acabarão com o comércio do amendoim. Eles não podem! Sempre haverá demanda. As crianças sempre conseguirão os ‘sandubas”. E estão dispostos a pagar. Por isso há muita grana no contrabando do “sanduba”.

Não há como ser mais claro sobre este tema, mesmo se tratando de uma analogia, do que J.J. conseguiu ser no parágrafo acima. Parabéns a coragem e sensatez dos roteiristas por isso.

1×05: The Great Compromise

Esse foi, dentre todos os episódios, o que abordou mais diretamente uma questão intimamente ligada a atual situação político-econômica do Canadá. A análise, e subsequente crítica, se estende ao Estado de bem-estar social. Mostrando como esse sistema funciona e as supostas boas intenções existentes por trás dele vê-se como ele termina por gerar resultados opostos aos pretendidos por seus líderes.

A analogia nesse caso foca em como Nick tenta gerenciar o comércio de “sandubas” de amendoim após o ter monopolizado, mas que lhe termina produzindo um esgotamento físico e mental. Também é mostrada a ineficiência e corrupção dos seus colegas “burocratas” no trato de um serviço que era melhor gerido pela “iniciativa privada” (Frankie e seu grupo). Nessa abordagem, Nick seria assim o Estado que ao assumir tantas responsabilidades começa a ter problemas das mais variadas ordens.

Um problema colateral que também pega carona nessa análise é o da saúde pública. Na minissérie essa questão é mostrada de forma perfeitamente alinhada à realidade: os custos que o Estado (no caso Nick) tem para tratar aqueles que agem de maneira irresponsável, consumindo “sandubas” de amendoim mesmo sendo alérgicos, gerando punições indiretas aos demais, encarecendo o produto e dificultando o consumo deste bem tão precioso com a justificativa de financiar o tratamento daqueles.

A crítica aberta a intervenção governamental deixa evidente como esta cria efeitos nocivos e imprevistos à população, a qual acaba clamando por mais intervenções apenas para corrigir os problemas gerados pela primeira.

1x06: Big Business

Último episódio da minissérie e aquele que mais se falou abertamente sobre o tema em foco, minimizando a adaptação para o universo infantil presente nos anteriores.

O termo livre-mercado costuma produzir reações e opiniões das mais diversas no público, especialmente entre aqueles com uma mente mais estatal. A ojeriza e temor infundado a esse arranjo econômico levou governo a criar agências reguladoras, cujo objetivo é o de fiscalizar e regular os vários setores da economia, supostamente com o intuito de proteger os consumidores. E é partindo desse argumento que a história desse episódio transcorreu.

Quando o comércio de “bombas fedorentas” é criticado por Mary e as demais garotas do seu grupo, Nick resolve regular a venda desse negócio criando condições mínimas para que este seja operado no parquinho. Como Frankie é o único que apresenta um projeto “seguro” e menos problemático quanto aos seus efeitos nocivos, Nick lhe concede autorização para que seu negócio continue e proíbe os dos demais competidores. Claro que esta situação termina produzindo um problema maior do que o anterior.

Um adendo: quando o sistema operado por Frankie acaba gerando um sério problema, afetando várias pessoas é feito uma referência clara ao pior incidente ambiental da história envolvendo a companhia de óleo britânica que vazou petróleo no Golfo do México no ano passado. Nota-se que naquele caso, assim como na história do episódio, a companhia recebeu uma concessão pública dos EUA (leia-se: monopólio) para operar a extração de petróleo naquela região.

Conclusão

Sensação de satisfação. Como libertário essa foi a impressão que tive ao terminar de conferir os seis (curtos) episódios de The Yard. Por meio de atores mirins afiados e histórias bem conduzidas e desenvolvidas, a minissérie fez total jus ao selo de qualidade HBO, gerando um produto final digno de reconhecimento e admiração tanto do público como da crítica.


Sobre o autor

Adriel Santana

Formado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Articulista do Instituto Liberal e do site Liberzone. Colaborador, entre 2010 e 2012, do blog cultural Série Maníacos.



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