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Publicado em 18 de setembro de 2013 | por Tyler Watts

Terceirização é boa para economia?

A demagogia da campanha presidencial de 2012 chegou ao seu máximo quando o Presidente Obama lançou uma propaganda acusando Mitt Romney de “exportar empregos” como CEO da Bain Capital, uma empresa de private-equity. Romney respondeu não negando esse aspecto das operações da Bain, mas, ao invés disso, insistindo que ele não estava mais gerenciando a companhia no momento que a suposta terceirização (exportação de empregos) ocorreu.

Eu posso entender a razão pela qual um político iria minimizar essas acusações. Afinal, “a economia” é supostamente o principal assunto do ano, e muitos eleitores aceitam o argumento que as companhias envolvidas com terceirização são, de alguma forma, responsáveis por uma perda líquida de oportunidades de emprego nos Estados Unidos.

Contudo, a terceirização, longe de ser uma causa de problemas econômicos, é, na verdade, parte de uma altamente desenvolvida economia de mercado. A terceirização, de maneira essencial, é a fonte de toda a riqueza.

Para lidar com as concepções errôneas em torno dessa controvérsia, devemos começar com uma definição. No caso da Bain Capital, a terceirização significa “contratar trabalhadores estrangeiros para executar uma tarefa particular, ao invés de empregar mão-de-obra doméstica”. Agora, por que iria um empresário tomar tal atitude? Deveria ser óbvio que o trabalho estrangeiro custa menos. A terceirização, por essa razão, gera uma combinação de preços baixos para os produtos da companhia e altos lucros para os seus donos – indicando que a companhia está criando mais valor com os recursos que utilizou. Então, como um executivo de uma corporação poderia dizer em defesa de um anúncio de terceirização, “faz sentido do ponto de vista econômico tanto aos nossos consumidores, quanto aos nossos acionistas”.

Mas e os trabalhadores? A mídia foca no horrendo aspecto “da exportação de empregos norte-americanos” via terceirização. Mesmo reconhecendo os ganhos para os consumidores (menores preços) e acionistas (maiores lucros dos negócios), muitos comentaristas irão argumentar que eles serão neutralizados pela perda dos empregos de trabalhadores norte-americanos. Em primeiro lugar, vamos reconhecer que, em uma sociedade livre, os trabalhadores não têm “direito” aos seus respectivos empregos; a maioria dos contratos empregatícios é um acordo sujeito à rescisão por qualquer uma das partes, a qualquer hora, por qualquer razão.  Os trabalhadores, em geral, estão sempre perdendo empregos por várias razões e encontrando outros – mesmo em uma recessão. As grandes demissões em massa associadas à terceirização não são economicamente diferentes, somente mais noticiáveis, e por isso mais sujeitas à demagogia política – especialmente em uma recessão.

Nós não deveríamos ignorar esse tipo de convulsão laboral, qual seja a sua causa. Ocorrerá, obviamente, algum tipo de dor associada ao processo de adaptação. Nunca é fácil para as pessoas encontrar novas oportunidades de emprego, muito menos uma grande quantidade de trabalhadores liberados ao mercado ao mesmo tempo. Os custos de reajustamento são especialmente severos para pessoas que possuem fortes vínculos locais, tais como obrigações familiares. Hipotecas “submersas” tornam difícil a migração para algumas pessoas. A reciclagem para novas indústrias é particularmente complicada para pessoas mais velhas, e assim por diante. Histórias tristes existem, as quais os políticos engenhosamente manipulam de forma a decretar leis e programas focados em impedir o processo normal de mercado para “salvar os empregos dos norte-americanos”.

No entanto, a mudança econômica ocorre por uma razão. No livre-mercado, quando a terceirização torna-se viável, as forças de mercado estão informando aos empresários, trabalhadores eproprietários dos recursos, essencialmente, “as antigas formas de fazer coisas, os antigos locais, e os antigos padrões com os quais estávamos acostumados – eles não estão mais funcionando tão bem”. Existem formas mais adequadas, melhores locais e melhores padrões disponíveis. Pelo bem de toda a humanidade, para se tirar proveito das melhores oportunidades possíveis a nível global, é imperativa uma reorganização. Um grande grupo de pessoas no lugar Z agora será capaz de fazer o que as pessoas do lugar F costumavam, mas a custos menores. Isso significa que as pessoas em F precisam encontrar alguma outra coisa para fazer, se isso envolver mover-se para o lugar Q, entrar para a empresa Y, buscar treinamento em uma nova área ou qualquer outra coisa.

É claro que o Mercado não é uma pessoa e não tem uma razão. O que nós chamamos de mercados são somente padrões sistemáticos de trocas, produção e especialização que ocorre entre incontáveis indivíduos ao redor do mundo. Entretanto, o insight central da economia é que, enquanto as pessoas tendem a perseguir seus próprios interesses, as “forças do mercado” agem como se elas estivessem tentando maximizar o valor do que está sendo produzido dentro do conjunto de transações – no nosso caso, a nível mundial. As transações multinacionais são uma parte natural e importante do processo de mercado. Só é chamada de “terceirização” quando é feita por uma grande corporação e envolve uma visível transferência de um determinado processo produtivo para outro país. O termo invoca imagens de executivos à la Gordon Gekko em salas de reunião tomadas pela fumaça de cigarro, rindo à toa sobre os enormes lucros a serem auferidos pela transferência da produção de um produto de Chicago para Shanghai.

Na realidade, porém, todos os avanços econômicos envolvem uma ou outra forma de terceirização. Nós estamos fazendo isso a todo o momento. Quando um consumidor seleciona uma cerveja alemã ou um café colombiano, poucas pessoas o acusam de terceirização (com exceção dos ativistas nacionalistas em prol do “compre-local”). Mesmo assim, o consumidor está engajando-se em uma forma de comércio a qual tem parte da produção acontecendo em uma região distante. É de menor grau a terceirização se compro online um livro de Boston ou um terno de Seattle? A terceirização está em todo o lugar!

Considere como seria o mundo sem a terceirização. Tudo o que você usa – eu me refiro a tudo! – deve ser adquirido no limite de alguns quilômetros de onde você vive. Como o economista Russ Roberts disse, nós já tentamos isso. Tal período foi chamado de Idade Média, e a vida foi “suja, bruta e curta”. Realmente, o progresso econômico nos séculos recentes tem sido marcado por uma crescente terceirização – o que Adam Smith chamou de contínua “divisão do trabalho”. Nós terceirizamos a maior parte da produção de alimentos dos campos detrás de nossas cabanas para grandes fazendas do cinturão do trigo e do milho, com sua maquinaria de última geração, engenharia genética, e produtos químicos, tudo isso dependente de processos altamente especializados de produção que são terceirizados ao redor do mundo.

Nós terceirizamos todas as nossas necessidades de vestuário da tecelagem de quintal com o tear manual para a moderna indústria têxtil, a qual, por sua vez, foi progressivamente transferida do norte da Inglaterra em meados de 1700 para a Nova Inglaterra em 1800, e então para o sul dos Estados Unidos no início dos anos 1900 e atualmente para partes da Ásia. Nós terceirizamos o entretenimento dos eventos ocasionais de trovas nas pequenas vilas para grandes estúdios de gravação e agora, com a Internet, para especialistas de todas as partes do mundo.

Eu poderia continuar, mas vocês já entenderam o meu argumento: no decorrer da história, o crescimento da terceirização tem sido paralelo ao crescimento da produtividade, das oportunidades humanas e de suas realizações, além do aumento do padrão de vida global. Isso não é uma coincidência; a economia indica que a terceirização não é uma ameaça a nossa saúde econômica, mas um componente central para o progresso econômico.

Nada dito aqui, contudo, tem como objetivo justificar muitas intervenções governamentais, aqui e no exterior, que distorcem os padrões do comércio global, tornando-os diferentes daqueles que o livre mercado iria gerar. A economia deixa claro que a terceirização não é um problema; o problema é a escassez. A terceirização é (parte da) solução. Os candidatos à presidência ou qualquer um interessado em promover o progresso econômico deveriam pensar sobre políticas que permitissem aos empreendedores norte-americanos, os trabalhadores, e os proprietários dos recursos melhor se integrassem dentro de uma economia global cada dia mais interconectada.

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Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana.


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