Esquerda Libertária sindicato

Publicado em 11 de dezembro de 2010 | por Thomas L. Knapp

Sindicatos: Parte do Mercado

Eu li o artigo mais recente de Pacificus (“Not So Nice ‘Sno-in-U‘”) com algum interesse. Eu normalmente considero suas opiniões iluminadoras e sempre divertidas.

Esse artigo é uma exceção perdoável quando se trata de fatos. Embora eu possa entender o desgosto reflexivo por sindicatos como tais, eu me sinto compelido a corrigir alguns mal entendidos que vitimam Pacificus e outros quando eu os vejo já impressos.

Por onde começar? Suponho que poderíamos começar com o próprio desgosto reflexivo. “Como um velho defensor do capitalismo laissez-faire“, diz Pacificus, “a idéia de sindicatos é especialmente repugnante para mim”.

Laissez-faire é a filosofia que diz que o governo não deveria interferir em assuntos econômicos. Ela não oferece nenhuma base para desgosto de sindicatos como tais, porque sindicatos, formados corretamente e empossados, são entidades privadas, e não governamentais. Considerar sindicatos “repugnantes” sob a base de uma forte crença laissez-faire é tão ilógico quanto considerar corporações “repugnantes” sob a mesma crença. Não é algo nos conceitos em si que conflita com idéias ligadas ao laissez-faire, mas o fato de que o governo interferiu, redefiniu as relações entre esses conceitos, e em geral as distorceu que torna suas encarnações atuais ofensivas.

Vamos então para o conteúdo real do artigo e ver se conseguimos rastrear as origens do desconforto de Pacificus. Podemos começar com a seguinte afirmação: “Com sindicatos temos uma situação absurda, quase de ponta-cabeça e retrógrada na qual os empregados são incentivados a estarem sempre discordando de seus empregadores”.

Sindicatos são um instrumento através do qual empregados podem negociar com empregadores na base de linguagem expressa, detalhada, mutuamente contratual. O contrato é a base do livre mercado; ainda que “contratos” de trabalho não sindicalizados sejam acordos verbais não aplicáveis, maleáveis, que podem ser rescindidos ou modificados a qualquer momento, chamados de “emprego de acordo com sua vontade”. Não há nada filosoficamente repugnante com o “emprego de acordo com sua vontade”, mas eu acho estranho que Pacificus não condene da mesma forma contratos escritos, aplicáveis, unificadores entre outras entidades – fornecedores e compradores, por exemplo.

Longe de colocar empregados e empregadores em discordância, lidar com base em contratos explícitos minimiza os desentendimentos. Cada parte sabe quais são seus deveres no contrato, e casa parte sabe o que pode esperar como um benefício através dele.

“O Estado diz que se você é um membro de sindicato você pode entrar em greve, potencialmente paralisar a companhia para qual você trabalha, para não mencionar as demais companhias, qualquer ramificação, com as quais você negocia”, continua Pacificus, demonstrando novamente que não examinou minuciosamente o paradigma do ambiente de trabalho sindicalizado.

Ninguém precisa que o Estado decrete que se é livre para sair do emprego. Na verdade, o que a lei federal [N. T.: Lei federal dos EUA no caso.] faz é prevenir os trabalhadores de sair dos seus empregos em massa (por exemplo, greve) durante a performance de um contrato. Quando o contrato vence, se um novo não puder ser negociado, então os trabalhadores são livres (da mesma forma que sempre foram como indivíduos) para sair do emprego… e o empregador é livre para contratar pessoas para substituí-los.

É aqui que eu acho o argumento de Pacificus confuso. Vamos fazer uma analogia. Suponha que eu possuísse uma empresa de cortar grama, e que em um verão eu firmasse um contrato com Pacificus para cortar sua grama do jardim uma vez por semana, pelo pagamento de $10, por todo o verão. Vamos ainda supor que eu chegasse à porta da sua casa no começo do próximo verão, com um novo contrato em mãos, me oferecendo para cortar sua grama uma vez por semana, durante o verão inteiro – mas pelo pagamento de $12.

Se Pacificus não deseja aceitar o novo contrato ao preço reajustado, eu não posso obrigá-lo a fazê-lo. Eu posso ir embora. Eu posso ainda andar pra lá e pra cá com uma placa escrito “Pacificus injusto”, e ele pode contratar qualquer outra pessoa para cortar sua grama. E, mais cedo ou mais tarde, uma dessas três coisas acontecerá:

  1. Pacificus decidirá que o novo garoto não está indo bem e que vale $11 me ter de volta como cortador de grama.
  2. Eu decidirei ganhar $10 ao invés de andar pra lá e pra cá com minha plaqueta de “Pacificus injusto”; ou:
  3. Ele irá gostar do serviço do novo garoto e eu eventualmente mudarei para outra ocupação.

O que eu acabei de descrever é um microcosmo da greve de um “sindicato”. Qualquer outra coisa exceto o que foi descrito acima recai ou sob a rubrica crime (eu quebro a janela de Pacificus e bato no fura-greves para intimidá-lo) ou interferência governamental (o Instituto Nacional de Relações Trabalhistas interfere e nos força a uma arbitragem e a “fechar um novo acordo”).

Mas o conceito da greve em si, espero que concorde, não é de forma alguma repugnante ao laissez-faire. É o mercado em ação.

A próxima reclamação de Pacificus é que os termos do contrato são “extraídos do empregador de uma maneira coercitiva”. Novamente, na ausência de crime ou interferência governamental, nada poderia estar além da verdade. Não é coerção dizer que “Se pudermos chegar num acordo eu desejo, irei trabalhar para você. Se não pudermos, não o farei.”.

No início do movimento sindical, o governo tomava o lado das companhias, frequentemente trazendo a polícia ou milícias para intimidar e – às vezes machucar ou matar – grevistas. Atualmente, o governo é mais imparcial, mas tão intrusivo quanto antes, obrigando ambas as partes a “negociarem de boa fé”, queiram ou não queiram, e com um burocrata definindo “boa fé”.

As leis que tornam o sindicalismo “automático” baseado em “eleições” apoiadas pelo governo são outro caso de interferência governamental advinda do New Deal de FDR… o qual era contrário, naquela época, aos sindicatos. E eu não estou ciente das leis as quais Pacificus menciona, que requerem que as companhias permitam organizadores sindicais em sua propriedade (eu sempre fui abordado por sindicatos fora do portão) ou as previnem de dizer “má idéia” (as companhias nas quais eu trabalhei faziam exatamente isso, emitindo mensagens de aviso sempre que uma ação sindical estava acontecendo).

Finalmente, por experiência própria, o que Pacificus diz a seguir é falso: “Em qualquer ocasião, e a partir do que eu sei sindicatos sempre resultam em menos, e não em mais. Menos para o empregado: graças a gastos associados com taxas de sindicato e posições de voto perdidas.”.

Eu trabalhei por vários anos em fábricas não sindicalizadas, eventualmente ganhando no máximo um salário de $7,75 por hora. Quando eu fui trabalhar numa fábrica sindicalizada, eu pagava taxas de sindicato de $25 por mês, que eventualmente subiam para $30… e meus salários subiam para $16,42 por hora. Faça a conta você mesmo (para uma jornada de quarenta horas semanais em 4,3 semanas mensais médias) e me diga quanto menos eu estava ganhando graças aos sindicatos.

Pacificus continua: “Menos para o empregador: graças ao crescimento estagnante e visão encoberta graças à interferência de terceiros.” Isso também varia como posso dizer por experiência própria. Enquanto firmas não sindicalizadas nas quais eu trabalhei enfrentavam giro de trabalhadores numa taxa de 20 a 30% ao ano, a taxa de rotação de firmas sindicalizadas era de cerca de 5% – a maioria devida a aposentadorias. Uma força de trabalho qualificada continuava onde já estava, poupando a companhia de uma grande quantidade de salários, horas de supervisor e produtividade perdida ao treinar substitutos para trabalhadores que iam embora sempre que a grama parecia mais verde no vizinho.

Eu não vou implorar a ninguém para procurar empregos sindicalizados. É uma decisão pessoal. O que eu quero dizer é que sindicatos não estão em conflito com o livre mercado. Corretamente organizadas e sem ajuda ou impedimento do Estado, elas fazem parte do livre mercado.

// Traduzido por Rafael Hotz.


Sobre o autor

Thomas L. Knapp

Thomas L. Knapp é analista de notícia e coordenador de mídia do instituto "Center for a Stateless Society" (C4SS).



Voltar ao Topo ↑