Cultura & Humor Pecados

Publicado em 26 de setembro de 2014 | por Albert Esplugas Boter

Os Sete Pecados Liberais

Nós liberais também possuímos nossos próprios vícios. A maioria são extensíveis aos demais movimentos ideológicos, mas adquirem no caso do liberalismo uma forma bem específica. São vícios dos quais sofri (ao menos quando não tinha consciência deles) e que, ainda hoje, se mostram esporadicamente tentadores. São vícios de condição distinta, que prejudicam a causa do liberalismo em várias frente e que estão tão vigente como arraigados na natureza humana, o que sugere que não é fácil erradicá-los. O primeiro passo, de qualquer forma, é identificá-los.

1. Ódio

ódio

Tratamos os socialistas, sobre tudo os que defendem suas ideias com a mesma paixão que nós, como se fossem inimigos no campo de batalha. Atribuímos-lhes sentimentos más e despejamos sobre eles insultos e desprezo. Esta atitude de “hooligan” não contribui para difundir as ideias liberais. Se os tratamos como inimigos se comportarão como tais, e o liberalismo não se materializará quando a metade do país se imponha sobre a outra, mas sim quando a sociedade em geral torne seus estes princípios. Se esta atitude de “hooligan” atrai a tantos como afasta, o resultado é um clima ideológico mais radicalizado, não mais liberal.

2. Guerra Civil

guerra civil

Nós liberais não somente cabemos num ônibus, como ainda tentamos tirar nossos companheiros pelas janelas. Parece que nos interessa mais etiquetar as pessoas que debater suas ideias. O anonimato da internet converte em uma briga agressiva uma discussão que se resolveria amigavelmente em um café. A falta de compreensão e o “hooliganismo” (ódio) tampouco ajudam. Como afirma Roderick Long em referência as tensões entre o Mises Institute e o Cato Institute, “cada bando tende a exagerar os defeitos da outra parte e a minimizar seus próprios defeitos“. Da na mesma que cada um acredite que seu bando é a vítima e é o outro que exagera, a moral da história é que devemos fazer um esforço de empatia e evitar cair na desqualificação gratuita. A Red Liberal é a prova de que a coexistência é possível entre liberais de distintas pelagens, e de que suas divergências pode ser fonte de maravilhosos debates. Este instituto tem uma composição mais radical, mas abriga também várias tendências e opiniões diversas, sem que o sangue corra. Que se espalhem estes exemplos.

3. Dramatismo

Dramático

Gostamos de exagerar. Lendo alguns comentários quaisquer diria que estamos a dois passos da Gulag ou que o mundo se acabará amanhã. É bom se distanciar de vez em quando, sair para o “exterior” deste mundo liberal no qual nos isolamos e observar a realidade com mais perspectiva. Nos daremos conta de que as coisas vão mudando, e em muitos casos estão melhor que antes. Não é questão de se conformar, mas tampouco há que dramatizar além da conta. Gente que vem “de fora”, com a mente aberta, e lê nossas exaltadas e catastróficas opiniões pode pensar que vivemos em um mundo distinto do seu.

4. Impaciência

impaciência

O triunfo da liberdade é um projeto a longo prazo e a impaciência pode nos levar a perseguir estratégias improdutivas de curto prazo. Se esperamos mudanças imediatas, a única coisa que conseguiremos é nos frustar. É preciso aprender a conviver com aquilo que estamos combatendo. Um otimismo a longo prazo e nossa pequena contribuição a uma estratégia igualmente pro futuro é o mais produtivo, tanto do ponto de vista de nossa tranquilidade pessoal como do ponto de vista do que é necessário para que uma sociedade livre surja algum dia.

5. Fé

Fé

Ou esperança, na política e nos políticos.  Vemos políticos liberais em cada esquina. Merkel era liberal, Sarkozy era liberal. Parece que há uma revolução reaganiana que nos cerca, mas que nunca chega (uma revolução que tampouco foi, certamente). A necessidade gera ilusões. É a outra face da moeda do dramatismo e é em boa medida um produto da impaciência. Esta fé ou esperança não é inócua: depositamos confiança em um sistema e em alguns políticos que ganham legitimidade a expensa de nossas ilusões.

6. Anti-esquerdismo

anti-esquerdismo

As vezes é instintivo. Com frequência rechaçamos de forma mecânica certas posições por estarem associadas a esquerda (o ódio confunde nossa razão). Basta que a esquerda a condene para que as vejamos com bons olhos (Bush, a guerra, PP [Partido Popular conservador na Espanha], as multinacionais), e basta que a esquerda as apoie para que as condenemos (separatismo, aquecimento global, imigração, multiculturalismo). Devemos definir nossas posições autonomamente, atendendo aos nossos princípios, e não como reação à esquerda. Este vício é similar a outro que destacava Donald Boudreaux: o contrarianismo. Até certo ponto é uma virtude, porque nos faz receptivos a novas ideias, mas às vezes queremos ser tão politicamente incorretos que passamos do ponto.

7. Dogmatismo

Dogmatismo

Nem tudo começa e acaba com A Ética da Liberdade. Rothbard está mais para um ponto de partida do que para um ponto de chegada. No outro extremo, alguns querem continuamente reinventar a roda no lugar de fazer o seu dever examinando o que escreveram outros autores sobre um determinado tema. Também há vida muito além da Escola Austríaca, nem toda a escola neoclássica cai no simplismo que as vezes lhe atribuímos (embora as más línguas dirão isso se deve as influências austríacas…). O radicalismo, pelo contrário, não é necessariamente uma prova do dogmatismo, pode ser o resultado de uma empreitada racional e informada. Também se pode ser dogmaticamente anti-radical. Em qualquer caso, o dogmatismo é um obstáculo na busca da verdade e põe em dúvida nossa honestidade intelectual.

Aquele que está livre de culpa que atire a primeira pedra. Lembram de mais alguns vícios liberais?

 

// Traduzido por Adriel Santana. | Artigo original.


Sobre o autor

Albert Esplugas Boter

Albert Esplugas Boter é membro do Instituto Juan de Mariana, autor do livro "La comunicación en una sociedad libre" e escreve regularmente em seu blog.



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