Cultura & Humor sedotta-e-abbandonata

Publicado em 19 de novembro de 2014 | por Kwame Anthony Appiah

Seduzida e Abandonada: A Honra como Opressão contra Mulheres

[Nota do Editor: Este texto corresponde aos tópicos "Seduzida e Abandonada" e "Famílias Assassinas" do capítulo 4 da obra "O Código de Honra: Como Ocorrem as Revoluções Morais", do filósofo Kwame Anthony Appiah. O autor explora como a noção de honra, no formato de um código social e moral, serviu e ainda serve em diversas comunidades como forma de manter em vigor um modelo social machista e injusto para com as mulheres.]

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Que espécie de honra é atirar numa mulher desarmada? (Asma Jahangir)

 

Na comédia Sedotta e abbandonata [Seduzida e abandonada], de 1964, filme de Pietro Germi ambientado num vilarejo da Sicília, a jovem Agnese Ascalone, de quinze anos de idade, é “seduzida e abandonada” por Peppino Califano, noivo de sua irmã. Quando o pai don Vincenzo descobre, corre até a casa dos Califano, esperando convencê-los de que a família precisa alterar levemente seus planos: em vez de se casar com a irmã mais velha, Peppino deve se casar com a mais nova. Por fim, o pai do rapaz, signor Califano, dá sua palavra. Ele entende que don Vincenzo precisa defender a honra da família. Mas Peppino não quer, e foge (com a bênção dos pais) para se esconder com um de seus primos.

Sedotta e abbandonata

No tumulto que se segue, o irmão de Agnese é enviado para atirar em Peppino, mas ele erra e é preso. O juiz o denuncia por tentativa de homicídio, enquanto Peppino é acusado por corrupção de menor. A única maneira de evitar a prisão dos dois rapazes é o casamento de Peppino e Agnese. O costume local oferece uma solução simples: ele e alguns amigos têm de encenar um rapto de Agnese que se torne de conhecimento geral. Assim, a sedução privada, que não pode ser publicamente reconhecida, é substituída pelo pretexto público para o matrimônio. Todos pressupõem que a comunidade, depois do rapto, concordará que os dois jovens têm de se casar para preservar a honra de Agnese e de sua família.

De vez em quando vemos no filme o chefe de polícia Polenza, da Itália continental, exasperado com as idas e vindas dos Ascalone e dos Califano e reclamando do mundo louco da honra siciliana. (Numa cena na delegacia, ele olha um mapa da Itália, cobre a ilha da Sicília com as mãos e murmura: “Melhor, muito melhor”, imaginando como a Itália ganharia com o sumiço daquela excrescência incômoda.) Quando o plano do rapto chega-lhe aos ouvidos, Polenza sabe o que fazer: ele escapa com o jovem policial com quem divide suas responsabilidades em manter a lei, saindo da vila para evitar toda aquela confusão.

Numa tarde encalorada, eles estão deitados à sombra de uma oliveira no tórrido sol siciliano e o delegado tenta explicar o que se passa a seu jovem assistente Bisigato (interpretado por um ator bem loiro, para ressaltar que não é siciliano):

Polenza: Hoje ele está raptando a garota. O que você faria?

Bisigato: Eu o prenderia na hora.

Polenza: Ótimo. Assim ele se casa com ela amanhã e sai totalmente livre, e você faz papel de tolo. Ponha isso na sua cabeça. O casamento apaga tudo: sequestro, estupro, corrupção de menores. Está no artigo 544. O casamento passa uma esponja na história. Melhor do que uma anistia. Não sabia? Aqui os meninos aprendem isso no catecismo.

Bisigato: E por que não se casar com ela, simplesmente?

Polenza: Ele não quer.

Bisigato: Então por que raptá-la?

Polenza: Assim, ele é obrigado a casar. Todos estão nisso.

Bisigato: Exceto ele?

Polenza: Não, ele também está nisso.

Bisigato: Com todo o respeito, senhor, não entendo.

Polenza: Nem pode entender, Bisigato. É uma questão de honra. É sempre uma questão de honra.

Sedotta e abbandonata é um filme cômico sobre um assunto muito sério. A obsessão de don Vincenzo com o bom nome dos Ascalone pressupõe um dos conceitos de honra mais comuns por todo o mundo: em inúmeras sociedades, se uma jovem faz sexo antes do casamento, não só sua honra, mas a honra de toda a família fica manchada.

Não é apenas uma questão de sentimentos, do orgulho e da vergonha, dos Ascalone. Se don Vincenzo não resolver o problema de uma forma que recupere a honra da família, as outras filhas e o filho não conseguirão casamentos respeitáveis; ele mesmo será objeto de zombaria e sua esposa será objeto de piedade. Ele não poderá andar de cabeça erguida em sua comunidade. Perderá o respeito de todos os seus pares. Em seu mundo, há apenas uma saída: o sedutor precisa desposar sua filha mais nova (e don Vincenzo precisa encontrar outro marido para a filha mais velha). Quando Peppino tenta escapar a esse destino, o mesmo código então exige que um dos homens da família Ascalone o mate.

O nível de violência paterna na família Ascalone pode surpreender alguns espectadores contemporâneos. Don Vincenzo bate nas filhas e no filho; grita com a esposa. E mais: ela não tenta impedir que ele bata nos filhos, e estes parecem tomar como natural que o pai mantenha a autoridade com a fúria das palavras e a brutalidade dos punhos. A masculinidade neste mundo é definida pela capacidade de violência. Mesmo o irmão levemente efeminado de Agnese, embora relutante, é obrigado a ir atrás de Peppino com uma espingarda.

Insistindo no óbvio: o código que rege a vida de don Vincenzo faz exigências muito diversas a homens e mulheres. O duplo padrão desse sistema é muito bem apresentado numa cena à mesa de jantar dos Califano, na qual Peppino suplica aos pais que não o obriguem a casar com a jovem que está grávida dele.

Peppino: Responda-me isso. Com toda honestidade, você teria se casado com mamãe se ela tivesse feito o que Agnese fez comigo?

Pai: O que isso tem a ver com o assunto?

Mãe: Você tentou me agarrar.

Pai: E daí? O homem tem o direito de pedir e a mulher tem a obrigação de recusar.

Peppino: Exatamente. Agnese não recusou, recusou? [...] Não vou me casar com aquela puta.

Pai: Dei minha palavra a don Vincenzo!

Mãe: Você não respondeu à pergunta dele. Se eu tivesse cedido, você teria se casado comigo?

Pai: Claro que não!

O código supõe que qualquer homem é sempre livre para procurar sexo com mulheres com as quais não está casado, e que a mulher tem “a obrigação de recusar”. É por isso que, se o homem consegue, a desonra cabe à mulher: apenas ela transgrediu as regras. Peppino deseja a bela Agnese. Ele quer desesperadamente ter relações sexuais com ela. Mas, se ela concorda em fazer sexo fora do casamento, é uma “puta”. Portanto, ele não pode desposá-la, mesmo que ela só tenha tido relações com ele e esteja grávida de um filho seu.

Naqueles tempos, o artigo 544 do código penal italiano, citado pelo delegado, reconhecia um tipo de casamento, o matrimonio riparatore, que “reparava” o mal resultante do estupro, mesmo de uma menor. É uma ideia antiga, que você pode encontrar no Deuteronômio (22, 28-9):

Se um homem encontra uma virgem solteira, toma-a e deita com ela, e são descobertos, então [...] ela será sua esposa; como ele a humilhou, não poderá abandoná-la nunca mais.

E o matrimonio riparatore não era apenas um expediente para ser usado no enredo dos filmes. No dia seguinte ao Natal de 1965 (um pouco mais de um ano após o lançamento de Sedotta e abbandonata), uma jovem chamada Franca Viola, que tinha apenas dezessete anos, foi raptada e violentada por um pequeno vigarista chamado Filippo Melodia, no vilarejo siciliano de Alcamo. O atacante contou com a ajuda de uma dúzia de amigos seus. Antes disso, ela já tinha repelido várias vezes seus avanços. Mas, como o signor Polenza disse, Melodia tinha aprendido “no catecismo” que, após terem relações, ela reconheceria que a única forma de salvar a honra da família seria casando-se com ele. Depois de casados, o artigo 544 o protegeria de qualquer consequência judicial do estupro.

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Filippo Melodia descobriu que tinha subestimado Franca Viola. Ela disse à família que não se casaria com ele e, com o apoio do pai, insistiu em prestar queixa por estupro. Sua família sofreu ostracismo e enfrentou exatamente o tipo de perda de respeito que é o preço de se afastar dos códigos de honra. Por ter contestado o código, o pai dela também sofreu ameaças de morte, e os vinhedos e celeiros da família foram incendiados. Mesmo assim, o processo teve andamento, e Filippo Melodia e sete de seus comparsas foram presos. Três anos depois, Franca Viola casou-se com Giuseppe Ruisi, seu namorado de infância, o homem com quem tinha se comprometido desde os catorze anos. Na cerimônia de casamento, ele teve de ir armado para proteger a ambos.

As repercussões do caso foram inequívocas: a imprensa nacional fez a cobertura da cerimônia; o presidente da Itália enviou-lhes um presente de casamento; o papa Paulo vi recebeu-os em audiência. O jovem casal viveu em outra cidade nos primeiros anos do casamento, mas no começo da década de 1970 voltou a Alcamo. Nos anos seguintes, ela se manteve afastada dos holofotes, levando uma vida normal; mas em 2006 declarou numa entrevista que, diante de uma decisão importante, seu conselho era: “Sempre siga seu coração”.

Franca Viola foi violentada aos dezessete anos. Tinha quase o dobro dessa idade quando finalmente o artigo 544 foi revogado, em 1981.

Em outras partes do mundo (bem como em outros tempos), a penalidade pela desonra que acompanha a perda da virgindade feminina antes do casamento é muito mais severa. No filme, Agnese aceita o destino a que Franca Viola escapou: é obrigada a se casar com um homem que a tratou com desprezo. Em muitas épocas e lugares, porém, para restaurar a honra da família seria preciso matar não só o sedutor, mas também a própria moça. Na verdade, na Sicília e em muitas outras sociedades mediterrâneas, cristãs e muçulmanas, era — e em alguns lugares ainda é — o que o código exige. Em certas comunidades, uma jovem perde a honra e recebe a pena de morte, mesmo que, como Franca Viola, tenha sido estuprada.

Ora, o código que rege esses crimes de honra guarda elementos certamente identificáveis pela maioria das pessoas no mundo. Mesmo no Ocidente industrializado, nos Estados Unidos e na Europa, há um enorme trabalho em persuadir homens e mulheres no sentido de que o estupro não deve ser tratado como fonte de vergonha para a vítima. Não é que as mulheres violentadas acreditem, lá no fundo, que estavam “pedindo aquilo”; pelo contrário, a vergonha tem a ver com a impotência de ser uma vítima. Não é a culpa — a ideia de ter feito algo errado — que as atormenta, mas a lembrança da humilhação. E essa humilhação — o fato de o estuprador ter humilhado sua vítima, como diz o Deuteronômio — permite que ela perca o respeito de todos aqueles que sabem que foi violentada, por mais irracional que isso seja. De fato, a humilhação pode corroer (repetindo, sem qualquer boa razão) seu respeito por si mesma.

Em sentido mais geral, a noção de que você demonstra sua inferioridade porque não conseguiu resistir à imposição física de outrem é muito difundida, e não apenas em relação ao ataque sexual. Dentro desse sistema de atitudes e sentimentos encontram-se os traços da ideia de que as mulheres que foram violentadas, bem como os homens que foram derrotados num ataque, perderam sua honra. A fraqueza — mesmo diante da iniquidade — é fonte de vergonha.

Nos Estados Unidos, também é verdade até hoje que muitos pais e parentes se preocupam mais com as aventuras sexuais das filhas solteiras do que com as dos filhos. Justifica-se dizendo que a moça tem mais coisas em jogo — a gravidez muda sua vida de uma maneira que não acontece com um rapaz. Mas desconfio que o que muita gente realmente pensa é o mesmo que pensavam Peppino e seu pai: “O homem tem o direito de pedir e a mulher tem a obrigação de recusar”. O autocontrole não é viril, e a resistência é apropriadamente feminina.

Entretanto, quaisquer que sejam nossos sentimentos e nossas ideias sobre o sexo fora do casamento, em geral não conseguimos conceber que alguém pense que a reação correta a uma filha solteira que quer ter relações sexuais ou a uma filha casada que cometa adultério seja matá-la; tampouco conseguimos entender que alguém mate uma filha ou irmã, solteira ou casada, que tenha sido estuprada.

No entanto, segundo uma estimativa num relatório das Nações Unidas em 2000, 5 mil mulheres são anualmente mortas por parentes exatamente por esses motivos. Essas execuções são chamadas de “mortes por honra”, pois seus perpetradores entendem-nas como formas de restabelecer a honra da família, a qual foi perdida devido à atividade sexual extraconjugal, voluntária ou involuntária, de uma das mulheres dessa família. Em 2003, no Paquistão, segundo um conselheiro do primeiro-ministro do país, 1261 mulheres foram mortas dessa maneira. (Existe um consenso geral de que os números oficiais ocultam a verdadeira extensão da devastação.)


Sobre o autor

Kwame Anthony Appiah

Kwame Anthony Appiah é um filósofo e escritor anglo-ganês, especializado em estudos culturais e literários. Atualmente é professor na Universidade de Princeton.



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