Saúde amputation

Publicado em 21 de outubro de 2014 | por Stephen Hicks

A saúde e o homem mais rico do mundo

Você pode não se considerar rico. Deixe-me provar que você é.

Em 1836, o homem mais rico do mundo era Nathan Rothschild. Ele tinha 58 anos de idade e, de acordo com um check-up médico no início daquele ano, com boa saúde para um homem na sua idade.

O pai de Nathan iniciou um banco na Alemanha e cada um dos seus cinco filhos foi para uma capital europeia diferente de forma a expandir os negócios da família. Em Londres, Nathan provou ser um gênio das finanças, tornando-se o homem mais rico do mundo.

Ele fazia parte de uma nova tendência na história humana. Na Europa, pela primeira vez na história, as pessoas mais ricas do mundo eram homens de negócios em vez de políticos e aristocratas. Isto é, eles se tornaram ricos pela produção de bens, comércio e investimentos – em vez de tributos, conquistas e destruição.

Na Europa, outra tendência era o aumento da expectativa de vida. Na jovem nação dos Estados Unidos, nos anos 1830, a expectativa de vida era de 35 anos para homens e 37 para mulheres. Na Europa, era um pouco maior.

Esses números eram ainda baixos, e tal fato era devido, em grande parte, a altas taxas de mortalidade infantil. Em Londres, antes da Revolução Industrial do final do século XVIII, 50% a 75% de todos os bebês morriam antes de completar 1 ano.

Então, aos 58 anos, Nathan Rothschild estava superando as expectativas e poderia dispor do melhor cuidado médico do mundo.

Chamou seus médicos novamente na Primavera. Ele estava preocupado por um furúnculo na parte inferior de suas costas. Seus médicos tentaram algumas coisas, porém a condição de Nathan piorou. Foram trazidos os melhores especialistas da Inglaterra. Nathan piorou. Foram trazidos especialistas da Alemanha, uma potência emergente na Medicina. Tudo em vão – Nathan Rothschild faleceu em 28 de julho.

A medicina forense do século XX revelou que Nathan morreu de envenenamento do sangue. Bactérias do pus do seu furúnculo entraram na corrente sanguínea, provavelmente porque seus doutores a tocaram, espalhando-se rapidamente, causando a sua morte.

A medicina do século XX também nos diz que se Nathan tivesse tomado antibióticos, ele teria sobrevivido.

Esse é um sinal do quão rico somos. Praticamente ninguém mais morre de envenenamento do sangue. Se contrairmos uma infecção, podemos dispor de antibióticos baratos para resolver o problema. O homem mais rico do mundo, 180 anos atrás, não poderia obter antibióticos para salvar sua vida.

É claro, isso se deve a um fato simples: os antibióticos não tinham sido descobertos; nem a teoria do germe da doença; tampouco os antissépticos. A aplicação da química moderna aos fármacos estava na sua infância.

Contudo, no início do século XX, a teoria dos germes e os antissépticos estavam estabelecidos, os fármacos tinham passado por uma revolução, e, em Londres, em 1928, Alexandre Fleming descobriu o primeiro antibiótico, a penicilina.

Para Rothschild, a solução tinha chegado com 90 anos de atraso. Por outro lado, considere os efeitos para as pessoas que nasceram depois de 1900.

Hoje em dia, nos Estados Unidos, a expectativa de vida dos homens é de 78 anos e continua a crescer. No que tange às mulheres, é superior a 80 anos. As taxas de mortalidade infantil no mundo desenvolvido caíram para 1 em 200. Então, quão rico você é? Uma medida de riqueza é quanto tempo de vida você tem. Como um norte-americano ou europeu médio, você tem o dobro do tempo de vida possível na época de Nathan. E seus filhos provavelmente não morrerão na infância.

Em grande parte, consideramos saúde melhor e vida mais longa como coisas normais, e isso é parte de uma vida boa – não ter que se preocupar com muitas coisas. No entanto, uma vida longa não acontece por um toque de mágica, então é importante saber o que a torna possível. Especialmente em uma república democrática livre e aberta que aspiramos ser, é fundamental que a maioria de nós tenha algum entendimento sobre o que torna nossa vida boa em sociedade.

A duplicação da expectativa de vida é um fenômeno único na historia humana. Por dezenas de milhares de anos, ao redor do mundo, a expectativa de vida não passava dos 40 anos. Desde os anos 1800, primeiro na Europa, depois nos Estados Unidos, e em algumas outras partes do mundo, começou a crescer drasticamente. Por quê?

A Ciência é uma parte importante da resposta. Há 600 anos, a Ciência praticamente não existia e era frequentemente ameaçada por formas dogmáticas de tradicionalismo, superstição e religiosidade. Em muitas culturas, a curiosidade intelectual continua a ser reprimida, especialmente entre os jovens. No entanto, em partes da Europa Ocidental, o livre-pensamento, a cultura da experimentação e o livre debate das ideias prevaleceram – e o surgimento da física, química e biologia são consequências de tal fato.

A Engenharia é outra parte da resposta. A experimentação e a invenção são, em minha opinião, incorporadas à natureza humana, mas poucas culturas colocam o desenvolvimento tecnológico no centro de seu jeito de ser. De forma mais espetacular, há cerca de 250 anos, houve a Revolução Industrial na Inglaterra, e muitos países seguiram o exemplo.

Cultura empresarial – todas essas descobertas científicas e inovações de engenharia necessitam ser traduzidas em bens de consumo. O desenvolvimento da fabricação em grande escala, das redes de logística e distribuição de produtos, da concorrência de preços, quantidade e qualidade, da mobilidade social e do aumento da competição global por talentos – tudo isso é muito novo na historia humana e, novamente, primeiro começou em algumas nações europeias, mais notavelmente, os Holandeses e os Ingleses.

Ampla informação sobre nutrição, exercícios e estilo de vida é também parte da explicação. Indivíduos educados fazem escolhas mais saudáveis. O compromisso com a alfabetização, a matemática e outros elementos de uma educação satisfatória – é algo bem recente.

E, é claro, tudo isso demanda muito dinheiro. A Ciência e a Engenharia são caras – todos aqueles pesquisadores com Ph.D. e seus laboratório bem equipados. As redes internacionais de logística são caras. Permitir que as crianças aprendam em escolas por muitos anos é um grande investimento. De onde vem todo esse dinheiro? Somente culturas ricas podem enriquecer.

Então, existe uma questão do passado que é interessante e, ao mesmo tempo, importante para todos nós: o que aconteceu algumas centenas de anos atrás que nos permitiu desenvolver uma cultura pró-ciência, pró-engenharia, pró-negócios, pró-educação, pró-riqueza?

Mas existe uma questão do futuro para todos nós – democratas, republicanos e libertários – quando debatemos as políticas que afetarão a expectativa de vida de nossos filhos e netos: a reforma proposta fortalece ou enfraquece a cultura que permitiu o grande progresso que alcançamos até agora?

//Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ da Silva. | Artigo Original.


Sobre o autor

Stephen Hicks

Stephen Hicks é professor de Filosofia na Rockford University em Illinois. Ele é o autor de "Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault (Scholargy Publishing, 2004). Ele pode ser contactado pelo seu website.



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