Trabalho pessoas usando computador

Publicado em 8 de abril de 2014 | por Jeffrey Tucker

Salários são como amar

Toda essa discussão sobre aumentar o salário mínimo tem muito pouco a ver com a realidade. Aumentá-lo não gerará um único emprego – se você não está empregado, tornar mais cara a sua contratação não ajudará em nada – e provavelmente não aumentará o salário de ninguém. É difícil encontrar alguém que esteja disposto a negar essas constatações, porque elas se originam da teoria básica de preços: quanto menor a quantidade de um bem no mercado, maior será o seu valor.

Além disso, resolveram aumentar o salário mínimo no pior momento possível. As empresas já estão tendo que lidar com grandes custos devido ao Obamacare. Muitas empresas já protestaram. Ademais, o mercado de trabalho é flexível.

O crescimento econômico em geral está em uma espiral decrescente, e até mesmo as taxas de crescimento passadas estão sendo revisadas para baixo. O crescimento econômico está tão patético agora que Janet Yellen, a nova presidente do FED, utilizou-se de uma desculpa dos tempos da ex-União Soviética, dizendo que o mau tempo seria o culpado pelos maus resultados – a saber, é a mesma desculpa usada pelo Zimbábue para explicar seu perpétuo estado de calamidade. É, sem dúvida, uma “ótima” hora para obrigar as empresas a pagarem salários mais altos.

Mas, esperem. O The New York Times tem outra opinião.

Os articulistas e editores do jornal estão defendendo o Presidente Obama na sua proposta de aumentar o salário mínimo de forma unilateral se embasando em uma pesquisa divulgada em 2013 do Institute for Research on Labor and Employment da Universidade Berkeley. A pesquisa sugere um efeito claro do aumento do salário mínimo. Eles afirmam que a população que permanece empregada após o aumento do salário permanece mais tempo no seu emprego porque as pessoas tendem a não ficarem pulando de trabalho em trabalho.

De certa forma, essa conclusão é intuitiva. Uma vez que uma empresa treinou um funcionário e passa a ser coagida a pagar mais que ela receberia de uma forma voluntária, a companhia vai ter incentivos para se dedicar a extrair cada suor do trabalho da pessoa.

As empresas estarão menos inclinadas a contratar novos profissionais bem remunerados, e mais inclinadas a pressionar a equipe existente para aumentarem sua produção. Os empregados estarão menos dispostos a pedir demissão de um emprego miserável pelo qual estão sendo mal pagos, porque diminuem as opções de emprego graças ao aumento dos salários.

Em outras palavras, salários mínimos maiores solidificam o que passou a ser chamado de “armadilha do emprego”[1]. Estejam empregador e empregado felizes ou não com o atual estado das coisas, os empregos tendem a se congelar como resultado de mercados menos flexíveis. As pessoas se apegam ao que conhecem e o que é real – o mal que você conhece. Isso faz sentido. Mercados são sinônimos de mudança. Quanto menos livres são os mercados, maior a estagnação que será registrada nas mais diversas áreas da vida.

Isso não parece ser algo tão bom, não é? Mas existe outra maneira de interpretar esse efeito, e o editorial do New York Times faz um trabalho magnífico nesse sentido. Na verdade, o editorial considera toda a pesquisa relacionada à “armadilha do emprego” como uma ótima notícia. Tal pesquisa mostra que “é menos provável que os trabalhadores peçam demissão e mais provável que os empregadores mantenham seus funcionários atuais de forma a evitar o custo do recrutamento e treinamento de novos funcionários”.

Extraordinário, não? Nessa versão, as empresas estão economizando dinheiro através do aumento salarial, então, isso não é bom? Obviamente, não há nada de errado com as empresas que tomam essa decisão por conta própria. Manter funcionários é às vezes bom e outras vezes ruim, dependendo das previsões do futuro. Tudo é incerto, e certamente é responsabilidade das empresas e seus funcionários tomarem as decisões pertinentes, sem a intervenção burocrática por meio de leis e decretos.

O que o editorial sugere é que salários maiores precisam ser forçados sobre as empresas porque, de outra forma, os administradores não entenderiam seus próprios interesses. As empresas tomam milhares de decisões toda a semana com respeito ao estoque, imóveis, websites, contabilidade, desenvolvimento de produto, marketing, pesquisa e desenvolvimento, e muito mais, todavia, de acordo com a teoria do salário mínimo, eles não fazem ideia de como administrar os salários e remunerações de sua própria força de trabalho focando na maximização do lucro. Para tal, as empresas precisam da ajuda do governo para saber como proceder.

Você consegue detectar o pedantismo aqui? O Departamento do Trabalho – uma empresa não focada no lucro, mas sim gerenciada por pessoas cujos salários e remunerações são ditados por leis em vez do mercado – sabe mais do que o mercado demanda do que o setor privado. Isso não faz sentido, a não ser que você acredite fundamentalmente que os mercados são ineficazes e que o sistema de preços não funciona.

A falta de conhecimento básico sobre a economia é somente a primeira das frustações com as quais os economistas se deparam quando analisam esses debates. O impulso de aumentar o salário mínimo não é motivado por considerações econômicas, mas sim políticas. É um favor prestado aos sindicatos e grandes corporações – instituições que já desfrutam ou pagam altos salários – à custa das pequenas empresas ou trabalhadores desempregados que passam muitas dificuldades para obter qualquer tipo de segurança financeira no mercado.

O salário mínimo também oferece benefícios de relações públicas aos políticos que são vistos como pessoas que ajudam outros indivíduos a viverem melhor.

A pesquisa e o editorial citados estão provavelmente certos quando afirmam que os aumentos salariais por decreto tendem a proteger empregos existentes. Mas a razão pela qual afirmam que é uma coisa boa, para mim, é um grande mistério.

No mundo real, as remunerações e os salários são como o amor; eles são questões pessoais e complexas determinadas por preocupações ligadas às peculiaridades de tempo e lugar. Assim, é impossível legisla-los sem causar problemas. Por exemplo, pode ser vantajoso para um jovem trabalhar por um salário baixo como uma forma de obter um emprego. Ou pode ser vantajoso trabalhar de graça como força de ganhar experiência.

No mundo real, existem ocasiões quando faz sentido aceitar um salário mais baixo do que você está recebendo no momento de forma a conseguir um lugar em uma empresa que está em processo de expansão.

Considere a cultura de um startup, por exemplo. Muitos dos trabalhadores estão trabalhando de graça ou até mesmo com salários negativos na esperança de criar algo maravilhoso para o futuro. Essa se tornou um estilo de vida para muitas pessoas que estão vivendo na era tecnológica. Eles estão apostando que podem aplicar seu “capital suado” para criar algo maravilhoso para o futuro. Isso não é pouca coisa, já que existem companhias criando o futuro para nós. Elas não se limitam ao modelo de empresa que o estado quer.

Um esforço consistente na imposição do salário mínimo prejudicaria as startups que estão criando novas tecnologias e serviços que tornarão o futuro possível. Essas startups ignoram a lei, já que é a única forma pela qual elas podem viver e prosperar.

Nossos planejadores centrais nos dizem o que deveríamos receber e o que deveríamos pagar. No final das contas, esses são detalhes íntimos da vida que são particulares ao individuo, ao tempo e ao espaço. Planos centrais sempre errarão o alvo e acabarão nos obrigando a aceitar modelos inaplicáveis que não estão em sintonia com as demandas de uma economia de livre mercado. Pensar que sabem é um sinal de arrogância, além de um sinal de uma crença subjacente que o uso da força é melhor do que a busca de acordo pacífico e voluntário.

 // Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

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Sobre o autor

Jeffrey Tucker

É o presidente da Laissez-Faire Books e consultor editorial do mises.org. É também autor dos livros It's a Jetsons World: Private Miracles and Public Crimes e Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo.



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