China China revolução industrial

Publicado em 27 de junho de 2014 | por Stephen Davies

A Revolução Industrial que a China não fez – Parte I

Vivemos em um mundo que foi moldado por um processo que começou cerca de 250 anos atrás no nordeste da Europa. Geralmente o chamamos de Revolução Industrial, porque uma de suas características mais dramáticas foi o surgimento da manufatura industrial com a ascensão do sistema fabril. Entretanto, esse foi apenas um elemento e nem o mais significativo. Além disso, a concentração na industrialização sugere que a mudança já está completa. Na verdade, o processo continua.

A Revolução tem vários aspectos importantes, que se consolidam mutualmente. O mais óbvio é o contínuo crescimento econômic. O crescimento intensivo é marcado pela inovação constante e pelo aumento de eficiência: fazendo coisas novas, e fazendo mais com menos. Crescimento extensivo, a norma histórica, significa fazer mais do mesmo e fazer mais com mais, isto é, sem aumento em eficiência ou produtividade. Outra parte importante do processo é a inovação e o melhoramento tecnológico contínuo. Ambos refletem e encorajam um crescimento do conhecimento teórico (veja o livro de Joel Mokyr, The Gifts of Athena: Historical Origins Of the Knowledge Economy). Outra parte é o desenvolvimento de instituições e instrumentos econômicos altamente complexos.

Todos os historiados reconhecem a existência e importância desse fenômeno. Porém, eles discordam sobre outras questões relacionadas. Em particular, não há acordo real sobre como esse processo começou e por que aconteceu na Europa, ao invés de outra parte do mundo. Por que não no mundo islâmico, ou na Índia? Ou melhor, por que não na China? A última questão é a verdadeiramente difícil. Como Kenneth Pomeranz salienta no livro The Great Divergence: China, Europe and the Making of the Modern World Economy, economicamente a China estava no mesmo nível da Europa até a metade ou fim do século dezoito. Na verdade, pela maior parte da história da humanidade a China era, de longe, a mais inovadora e tecnologicamente avançada de todas as civilizações. A lista de invenções importantes feitas primeiro na China é quase interminável. Então por que o processo revolucionário não começou lá?

Na verdade, começou na China antes que ocorresse na Europa. Como Eric Jones salientou no livro Growth Recurring: Economic Change in World History, a China teve uma “revolução industrial” comparável à da Europa do século dezoito – cerca de 800 a 900 anos antes. Aconteceu sob talvez a mais maligna e ainda assim fascinante dinastia imperial chinesa, a Song.

A Song reuniu a China depois da divisão e caos das Cinco Dinastias (907 – 960). A dinastia foi fundada por dois extraordinários irmãos, Song Taizu (960 – 976) e Song Taizong (976 – 997). Eles introduziram várias mudanças importantes na política econômica e organização do Império. Uma foi uma medida que dava aos camponeses direitos de propriedade reais a suas terras, sobre todos os direitos de vendê-las. O resultado foi o surgimento de um mercado de terra, que gerou a consolidação de pequenas fazendas e a aparição da agricultura comercial. Ainda mais importante foi sua política fiscal. Tradicionalmente, o estado chinês dependia de impostos incidentes sobre o campesinato, geralmente pagos em espécie. Song Taizu estabeleceu o princípio: “impostos agrários não devem ser aumentados”. Consequentemente, a dinastia Song começou a depender crescentemente dos impostos sobre o comércio, e então sistematicamente o encorajou.

Isso teve resultados incríveis. A China rapidamente tornou-se uma economia altamente monetizada. Em 750, apenas 4% de todos os impostos eram pagos em dinheiro, mas por volta de 1065, 50% eram pagos dessa forma. Em 1024, no reinado de Song Renzong, o uso difundido de dinheiro em papel começou. Inicialmente, as notas de papel tiveram um limite restrito de três anos e eram convertidas em dinheiro ou quantidades especificadas de commodities. Com o tempo, cheques, notas promissórias e letras de câmbio foram usadas. Ao final da dinastia, a quantidade de dinheiro em papel em circulação era equivalente a 70 milhões de cordões de cash [N. T.: cash foi uma moeda chinesa do século II AC até o século XX DC], ou 70 bilhões de moedas de cobre.

Crescimento Econômico Espetacular

Agricultura, comércio e manufatura cresceram espetacularmente. Fica claro, especialmente se analisarmos a área agrícola, que o crescimento era de natureza intensiva, e não extensiva. Portanto, enquanto a população dobrou entre 960 e 1020, a produção de arroz mais que dobrou. Em 1078, a China produziu 125.000 toneladas de ferro fundido, mais que o todo o resto do planeta junto. Isso não seria ultrapassado até os anos de 1790, na Grã-Bretanha. Um conjunto completo de descobertas tecnológicas e melhoramentos foram feitos. Isso incluía caracteres de impressão móveis (1000), alto forno (1050), relógios d’água mecânicos (1090), navios com rodas de pá (1130), compasso magnético (1150), maquinaria têxtil movida por água (1200), e mais espetacularmente, enormes barcos orientais transoceânicos com divisórias à prova d’água, com uma capacidade de carga de 200 a 600 toneladas, e tripulação de cerca de 1000 (1200).

O período também viu uma rápida urbanização, mais notavelmente em cidades como Kaifeng, Liaoyang e Hangzhou. Um aspecto disso era a desregulação de mercados como parte da política de encorajamento ao comércio. Anteriormente, o mercado apenas era permitido em locais específicos sob firme controle. Sob os Song, vilas e cidades tinham mercados de rua, lojas nas principais cidades e ruas, e áreas especializadas de compras com produtos de todo e além do império. Dois outros aspectos da política Song eram relacionados a esse fenômeno. Um era o encorajamento do comércio de importação e exportação. Em 964, receitas totais de exportações somaram cerca de 500.000 cordões de cash; em 1189 tornaram-se 65 milhões de cordões. O outro aspecto era o livre movimento ao longo do império, encorajado por outra invenção chinesa, o hotel.

Por volta de 1260, a China alcançou um nível de sofisticação tecnológica e desenvolvimento econômico que a Europa não alcançaria até o fim do século dezoito ou começo do século dezenove. Todas as características do processo que produziu modernidade mencionadas acima podem ser encontrados na China de Song, que foi claramente transformada na forma que nosso mundo foi e continua a ser. Entretanto, esse processo não continuou. Ao invés disso, a sociedade chinesa se estabilizou. Ela permaneceu superior ou igual à sociedade europeia até cerca de 1800, mas o processo dinâmico se estagnou. O fato do processo não ter continuado é verdadeiramente uma tragédia. Se tivesse, estaríamos vivendo em um mundo “chinês” ao invés de um “ocidental”. Também seríamos muito mais ricos e inteligentes.

Por que não continuou? Como Jones diz, isso é uma questão grande e importante para os historiadores econômicos. Como sempre, há várias respostas. Isto é, entretanto, não apenas de interesse dos historiadores, pois as respostas podem ter uma importância considerável para nós e para a nossa própria posição. Uma explicação em particular possui um aviso terrível para nós. É o que espero estabelecer no meu próximo texto [N. T.: Em breve, disponível no L+ :-) ].


Sobre o autor

Stephen Davies

Stephen Davies é diretor do setor educacional do Instute of Economic Affairs. Graduou-se na Universidade de St Andrews, na Escócia, em 1976, e ganhou seu doutorado pela mesma instituição em 1984. E autor de vários livros, incluindo Empiricism and History (Palgrave Macmillan, 2003) e foi co-editor com Nigel Ashford do Nigel Ashford of The Dictionary of Conservative and Libertarian Thought (Routledge, 1991).



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