China China Imperial

Publicado em 30 de junho de 2014 | por Stephen Davies

A Revolução Industrial que a China não fez – Parte Final

Na última vez, eu escrevi sobre a economia dinâmica e inovadora da China sob a dinastia Song. Se a China tivesse continuado a se desenvolver como fez durante essa dinastia, sem dúvida estaríamos falando agora da “Revolução Industrial do século XIV”. Entretanto, isso não ocorreu. Ao invés disso, a China gradualmente perdeu o dinamismo e inovação que por muito tempo a tinham tornado a civilização mais avançada no planeta. Em 1800, foi ultrapassada pela Europa.

A verdadeira história pode ser dita diretamente. Apesar de suas forças, a China de Song nunca desenvolveu um sistema militar eficiente. Ao invés disso, o país dependia de mercenários, da diplomacia e de pagamentos a ameaças externas. Em 1126, um povo de além da Grande Muralha, o Jurchen, invadiu todo o norte da China e conquistou Kaifeng e Liaoyang. A dinastia foi salva por outro grande imperador, Song Gaozong, que moveu a capital para Hangzhou. A perda do norte da China não se mostrou fatal, mas foi a antecipação de algo muito pior.

Em 1162, um homem nasceu na Ásia Central. Seu nome era Temujin, mas ele é lembrado pelo título que ele recebeu em 1183 – Ghengis Khan. Ele uniu todas as tribos mongóis em 1204 e criou um sistema militar unicamente poderoso e eficiente. Em 1206, ele se declarou “Khan of Khans”, e por volta 1215 ele tinha conquistado o império Jin. Quando morreu em 1227,  Ghengis Khan tinha criado o maior império na história humana. A dinastia Song resistiu aos ataques mongóis por muitos anos, mas finalmente entre 1268 e 1279 os mongóis, liderados por Kuhblai Khan e seu grande general Bayan, conquistaram toda a China. Eles estabeleceram uma nova dinastia, a Yuan, que governou até 1368. Isso foi uma catástrofe para a China, que se agravou ainda mais com o impacto devastador da Peste Negra. Por volta de 1370, a população caiu para metade de seu nível sob os Songs.

Em 1368, o rebelde camponês Zhu Huanchang se autoproclamou Imperador, adotando o nome Ming Hongwu, então fundando uma nova dinastia, a Ming. Hongwu governou de 1368 a 1398, e a dinastia foi consolidada por seu filho Ming Yongle (1403 – 1424). Ela encarou dificuldades crescentes ao final do século XVI; em 1644, o último Imperador Ming se enforcou nos jardins do palácio imperial.

Então uma nova dinastia veio ao poder, a Qing. Era Manchu, e não chinesa, mas ela adotou os hábitos chineses. Inicialmente bem sucedida, os primeiros Imperadores Qing, tais como Kangxi (1661 – 1722) e Qianlong (1736 – 1795), estão entre aqueles que são considerados os maiores líderes da China. A dinastia governou a China, mas sob crescente pressão de revoltas internas e do imperialismo europeu, até que finalmente foi derrubada em 1911.

Então, apesar da recuperação e sucesso sob os Ming e Qing, a China nunca se recuperou o dinamismo que tinha vivido sob os Songs. Em ciência, tecnologia e produtividade econômica ela gradualmente perdeu sua posição de liderança.

Por que isso aconteceu? A explicação simples é a conquista Mongol. Entretanto, a China se recuperou desse desastre sob os Ming em vários graus, e as instituições criadas sob os Song ainda eram vigentes quando os mongóis foram expulsos em 1368.

Tem sido popular culpar fatores culturais, particularmente o impacto da filosofia (alegadamente) conservadora, retrógrada e anti-comércio do Confucionismo. Os autores que adotam essa visão, tais como David Landes, contrastam a forma que a cultura europeia encorajou a inovação com o conservadorismo e a resistência sistemática a mudanças que eles veem na cultura chinesa. Mais uma vez, porém, isso não cola. O Confucionismo tem sido uma parte importante da cultura chinesa desde a formação do estado chinês. Era a ideologia dominante e oficial sob os Song. Então por que se tornou um efeito retardante apenas depois dessa dinastia?

Razões Esquecidas?

Outra resposta, colocada por estudiosos tais como Kenneth Pomeranz, é que a China depois dos Song continuou a se desenvolver, mas falhou em manter sua liderança sob a Europa por razões puramente acidentais e esquecidas. Pomeranz coloca um grande peso no fato que as reservas de carvão da China eram geologicamente inacessíveis e geograficamente remotas, tornando uma revolução industrial movida a vapor como a da Europa impossível.

Esse argumento tem alguma força, mas novamente há problemas sérios. Enquanto a China de Ming e Qing viram desenvolvimento contínuo em várias áreas, houve muitas outras (tais como tecnologia marítima) onde a inovação não apenas cessou, mas tecnologias inteiras foram abandonadas. Mais importante, esse argumento compreende mal a história econômica europeia. O papel da energia a vapor na “Revolução Industrial” atualmente é dado como exagerado; não houve nenhum grande avanço tecnológico súbito.

Na verdade, os mongóis são culpados, mas indiretamente. A razão real para a perda de momentum da China foi a resposta da elite chinesa ao choque da conquista bárbara. Os Imperadores Ming acreditavam que a política Song tinha produzido uma política fraca e dividida, e tinha enfraquecido a estabilidade da sociedade tradicional chinesa.

Em resposta, eles introduziram uma série de políticas que deliberadamente reverteram muitas das características principais dos Song. Essas políticas foram continuadas e mesmo intensificadas sob os Qing. O governo consultivo e o império da lei encontrados sob os Song foram substituídos por um governo altamente centralizado e autocrático, totalmente dependente do Imperador.

O comércio de longa distância foi desencorajado, assim como o comércio no exterior, e depois de 1430 o comércio pelo mar foi interrompido. Em geral, a política Song de depender de impostos sobre o comércio e o encorajar (para trazer receita) foi revertida, e os tradicionais impostos agrários foram restituídos. Os Ming e Qing buscaram tornar os camponeses a unidade básica da sociedade; a livre circulação de pessoas foi interrompida. Várias tecnologias foram abandonadas ou deliberadamente abolidas. Os Ming encorajaram a formação de grandes cartéis regionais de comerciantes, que eram favorecidos pelo estado, monopólios sob commodities principais tais como chumbo, ferro e sal foram formados. Em geral, a política era para desencorajar e regular a inovação, e promover imobilidade social aos custos do crescimento.

No médio prazo, essa política foi um sucesso, parcialmente porque depois de 1600 a China não tinha competidores sérios na Ásia Oriental. No longo prazo, entretanto, gerou uma série de catástrofes que afligiram a China nos séculos XIX e XX.

Segundo, como Joel Mokyr salienta, isso não foi possível por uma razão. Ao contrário da Europa, a China não era politicamente dividida. Ao invés disso, havia um único estado, dirigido por um único governante. Isso tornou possível para o estado parar o progresso econômico de uma forma que não era possível em um sistema de soberanias concorrentes tais como na Europa. Isso tem implicações claras em nossos próprios tempos.

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Stephen Davies

Stephen Davies é diretor do setor educacional do Instute of Economic Affairs. Graduou-se na Universidade de St Andrews, na Escócia, em 1976, e ganhou seu doutorado pela mesma instituição em 1984. E autor de vários livros, incluindo Empiricism and History (Palgrave Macmillan, 2003) e foi co-editor com Nigel Ashford do Nigel Ashford of The Dictionary of Conservative and Libertarian Thought (Routledge, 1991).



Voltar ao Topo ↑