Inovação & PI inovação

Publicado em 12 de março de 2014 | por Sandy Ikeda

Quem realmente é ameaçado pela inovação?

Inovar, pelo menos no sentido econômico, significa criar algo novo e valioso ou fazer com que algo velho se torne novo e valioso de novo.

Inovar significa produzir tênis mais fortes usando policloreto de vinila em vez de borracha natural, ou criar um celular que também é uma câmera, um MP3 player e um computador portátil. Inovar significa mudar o que existe, revolucionar.

No entanto, eu penso que a maioria das pessoas, no geral, temem a mudança, ao menos as grandes mudanças.

Para as pessoas que vivem em lugares pobres, uma melhora na alimentação, moradia e educação são, sem dúvida nenhuma, sempre bem recebidos.  Entretanto, se eles também tiverem fortes convicções sobre o que é certo e errado, mexer com essas crenças – e as relações sociais e familiares que se baseiam nelas – não vai ser tão bem visto assim. Melhorias no bem estar geral trazem consigo contestações sobre o casamento tradicional, às práticas religiosas e às atitudes conservadoras no que diz respeito à mulher, ao sexo e ao trabalho. Um progresso econômico significativo sempre implica em uma abertura em relação a ideias e pessoas que antes eram estranhas.

Tais mudanças são tanto causas como consequências da inovação: a inovação requer liberdade econômica, que produz grandes redes de comércio que, por sua vez, promovem a liberdade individual.

Inovacionismo

A historiadora econômica Dierdre McClosky pensa que a palavra “inovação” funciona melhor do que “capitalismo” para descrever o sistema de propriedade privada e livre troca que emergiu no Ocidente durante o século XVIII.

Certamente menos abundante do que atualmente, o capital durante a Idade Média na Europa estava disponível na forma de terra cultivada, igrejas, criação de animais, etc. Não trocava muito de mão. Por longos períodos de tempo não havia nenhum tipo de mudança. Então, por volta de 1500, algumas pessoas conseguiram liberdade o suficiente para começarem a perseguir os seus próprios planos e empreendimentos, e começaram a se tornar membros respeitáveis da sociedade por fazerem isso. O resultado disso foi a inovação que vem sendo acumulada ao longo dos séculos.

Em 1800 a inovação começou a  se acelerar de uma forma incrível, produzindo um desenvolvimento que fez com que os gráficos de renda per capita tivessem a forma de um taco de hóquei [N.R.: _/ Imaginem esse crescimento], o que revolucionou a sociedade e fez com que o status quo anterior fosse encerrado. A maioria das pessoas do mundo em 1800 ainda vivia com o equivalente à US$ 3 por dia, o que desde que temos registros escritos da história humana tinha sido a norma. (O livro de McCloskey é especialmente rico em fatos como esse). Hoje, a média subiu até, pelo menos, 10x aquela quantia em termos reais, e nos países mais desenvolvidos, ela chega a US$ 100 por dia. Lembre-se que, em 1800, ainda não existiam eletricidade, antibióticos, telecomunicações ou papel higiênico.

A inovação é imprevisível

Ser um defensor do capitalismo significa que você também deveria ser a favor da inovação. Também significa que você deve, ao menos tolerar as grandes mudanças culturais e a incerteza que são intrínsecas a esse processo. É um trade-off com o qual muitos de nós se sentem confortáveis. Mas nem todo mundo se sente assim. Por natureza, a inovação é imprevisível. Ninguém sabe quando ou onde ela surgirá e quem impactará e como. A inovação é uma ameaça a qualquer pessoa que se sente confortável com o atual status quo. E temos que encarar os fatos: isso inclui muitos de nós. É por isso que introduzir o poder político – violência organizada – ao processo é tão perigoso.

Quanto mais você pessoalmente se opõe às grandes mudanças que advém da inovação, mais você pode ser tentado a utilizar o poder político para mantê-la controlada. No entanto, alguns de nós estão particularmente ligados ao status quo e são particularmente ameaçados pela inovação. Eu estou pensando nas pessoas que detém as rédeas do poder político. Quem está em melhor posição para usar (ou abusar do) o poder político para proteger seus interesses?

Nós gostamos de enfatizar o impacto econômico das revoluções comercial e industrial. Isso se deve, talvez, porque essas são, na maioria dos casos, um ganho claro às pessoas no geral, mesmo àquelas cujos empregos e negócios foram extintos pelos processos de mercado. Aqueles que eram empregados tornaram-se empregadores, e proprietários de negócios falidos ou vão trabalhar para eles ou começam novos negócios próprios. Mas novamente, o impacto da inovação na cultura e na sociedade tem sido, se é que foi, ainda mais surpreendente do que o impacto econômico. Não existe forma de limitar o efeito da inovação nas normas e relações sociais – e nem todo mundo gosta disso.

Combatendo inovação com inovação

Daron Acemoglu, outro excelente historiador econômico, explica como, historicamente, as pessoas que exerceram poder político temeram a inovação e fizeram tudo o que podiam para impedi-la. Hoje em dia, o mesmo se aplica. A mudança imprevisível e radical que é consequência da inovação – o que Joseph Schumpeter chamou de “destruição criativa” – ameaça o rígido controle essencial para manutenção do poder político. O estado odeia o que não pode controlar, e ele não pode controlar a inovação. Quando os oficiais do governo falam de reimaginar a sociedade ou aproveitar as energias humanas ou regular o capitalismo desenfreado, o que eles querem é colocar inovadores incômodos e pensadores independentes sob o seu domínio. Isso não é “governança inovadora”. É a morte da inovação.

É claro, as pessoas que enriqueceram por meio do comércio em vez da pilhagem também temem a inovação, especialmente quando são os outros que estão inovando e não eles. A inovação ameaça a ordem e a estabilidade de suas vidas. Mas, a não ser que tenham acesso ao poder político – a autoridade de prender, espancar e matar – existe pouco além da persuasão pacífica a ser utilizada para fazê-la parar. Eles podem lutar contra a inovação utilizando-se da violência ou da morte, mas sim por meio de mais inovações. A inovação estimula o comércio e o comércio gera riquezas. O poder político reprime a inovação ou a redireciona de forma improdutiva. E aqueles que se apoiam firmemente a valores particulares podem também ser tentados a descartar a persuasão e, em vez disso, usar o poder político para forçar as pessoas com quem discordam a se tornar mais parecidas com eles ou se calar ou até mesmo ir embora.

Contudo, o livre mercado, ou “inovacionismo”, é um sistema que pode prosperar somente quando existe tolerância radical e crítica a visões contrárias. Então, se você não pode literalmente bater os inovadores – e, é claro, no livre mercado você não pode – você terá de se unir a eles!

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro | Artigo Original 


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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