Moeda bitcoinmoon

Publicado em 19 de novembro de 2014 | por Marco Agner

Quebrando 3 mitos sobre o Bitcoin

Bitcoin é uma nova tecnologia e, como toda nova tecnologia, é natural que surjam dúvidas e desconfianças quanto ao seu funcionamento, possibilidades, segurança e diversos outros assuntos ao redor desta nova ferramenta ao nosso dispor. E, assim como as dúvidas são importantes para que não façamos uso cego de nenhuma ferramenta, a quebra de mitos também é. Então, escolhi falar sobre 3 dos mitos mais populares nas discussões sobre Bitcoin.

1 – “Bitcoin garante o anonimato do usuário”

Um dos mitos mais comuns ao se falar sobre a rede Bitcoin é afirmar que ela utiliza um protocolo que, por si só, garante o anonimato do usuário. Provavelmente, este é um dos equívocos mais comuns devido ao fato de que os usuários não precisam informar dados pessoais para se conectarem à rede, enviarem e receberem bitcoins. Porém, todas as transações e endereços envolvidos são públicos na rede como pode ser visto neste site que, além de mostrar todas as transações feitas, usa estas mesmas informações públicas para mostrar quantos bitcoins pertencem a cada endereço e listar todas as transações efetuadas por ele.

O máximo que o protocolo garante é um estado de pseudônimo – o endereço na rede – ao usuário que a qualquer momento que for ligado à identidade do mesmo estará “sujo” e fará com que qualquer tentativa de “limpeza” do endereço não seja trivial, visto que todas as transações poderão ser facilmente seguidas por programas – estes, triviais – e ligadas ao endereço “sujo”. Isto, sem contar outras possibilidades que podem ser exploradas por um atacante mais determinado. Logo, o anonimato é possível e cada vez mais soluções estão sendo desenvolvidas para tal fim, mas não é garantido pelo protocolo e nem é atingido sem que medidas específicas sejam tomadas para que um nível seguro de anonimato seja alcançado.

O Bitcoin oferece um grande nível de privacidade como várias outras formas de pagamento, mas não oferece o mesmo anonimato alcançado com o uso de papel-moeda e, diferente de outros meios de pagamentos, não requer a identificação coerciva ou permite o congelamento dos bens do usuário por parte de terceiros.

2 – “Bitcoin facilita (ou só serve para) atividades ilegais”

Bitcoin, como qualquer forma de dinheiro, é utilizado tanto para atividades legais quanto ilegais. É certo que, colocando as tecnologias de dinheiro e pagamento existentes ao lado da tecnologia em que se baseia o protocolo Bitcoin, outras tecnologias já existentes apresentam um número superior de vantagens em relação ao uso do Bitcoin; a começar pelo anonimato. Além disso, a segurança implementada pelo Bitcoin é um avanço gigantesco em comparação aos outros meios de pagamento e dinheiro, permitindo o desenvolvimento de soluções que protejam as pessoas de diversas formas de crimes financeiros que são muito comuns e triviais nas tecnologias mais utilizadas atualmente.

O próprio banco central americano – o FED (acrônimo para Federal Reserve System) – que discutiu Bitcoin de forma extensa em 9 de Maio de 2014, concluiu sobre o uso do Bitcoin para atividades ilícitas que “Aplicações ilícitas são ‘desenfreadas’ mas não endêmicas ao Bitcoin; moedas soberanamente emitidas e outros bens preciosos são usados similarmente”. Destaco, então, que uma das principais diferenças do Bitcoin em relação às outras formas de dinheiro e pagamento quando se trata de atividades ilícitas é a proteção dos usuários e seus saldos por meio de um protocolo pesadamente assegurado por criptografia; permitindo soluções de segurança para os usuários e outras inovações que em muito vencem os possíveis pontos negativos. Como alguns exemplos temos a impossibilidade de falsificação de bitcoins, possibilidade (e recomendação) de backups das carteiras em mais de um lugar e a eliminação da necessidade de um ponto único de falha como no caso de bancos por exemplo.

3 – “bitcoins não tem valor ou lastro”

Nenhuma forma de dinheiro que já existiu na história tinha ou tem algum valor especial fora o que as partes envolvidas concordaram em dar a ela. Sejam sementes, pedras, conchas, prata, ouro ou papel, entre outros. Dinheiro feito de metais preciosos não é mais “real” que dinheiro feito de papel ou bits de informação em computadores. Naturalmente que, com o tempo e experiência com uso do dinheiro, algumas características foram abstraídas a fim de definir o que o dinheiro precisa ser. Assim sendo, o que o dinheiro precisa ser e a sua relação com o Bitcoin segue, brevemente, abaixo:

Escasso – bitcoins tem a matemática do protocolo Bitcoin como lastro, são “minerados” (criados) em uma escala definida por seu código-fonte que, gradualmente, divide o número de bitcoins criados num mesmo período de tempo pela metade até que a rede chegue a cerca de 21.000.000 bitcoins no total, aproximadamente, no ano 2140. Bitcoins não podem ser “impressos” de acordo com decisões centrais como o papel-moeda.

Divisível – 1 bitcoin pode ser dividido em até 8 casas decimais (0,00000001) e, diferente de certas partes de seu protocolo, este número pode ser aumentado caso a rede venha a precisar de mais casas decimais. Algumas medidas comuns são mBTC, μBTC e BITS.

Armazenável - bitcoins, em si, não precisam ser armazenados. Tudo que você precisa é a sua chave privada para gastar e a chave pública para receber bitcoins; que podem ser armazenada em qualquer dispositivo eletrônico capaz de armazenar dados (ex.: “pendrive”, microSD, HD, etc), passada para um papel ou armazenada na cabeça; sendo, a última alternativa, altamente não recomendada e mencionada apenas para auxílio no entendimento do leitor.

Durável – bitcoins não deixam de existir na rede, mas podem ficar inacessíveis se a chave privada de um endereço da carteira for perdida. Logo, a durabilidade, neste caso, é muito maior que papel-moeda ou ouro e pode ser multiplicada por diversos dispositivos e lugares de forma criptograficamente segura. Uma unidade de papel-moeda só pode ser perdida uma vez;

Fungível – bitcoins não tem distinção de um bitcoin para outro bitcoin. Por exemplo, você pode emprestar 1 bitcoin e receber 1 bitcoin em troca sem problemas.

Verificável – Bitcoin tem um registro público que permite que todas as transações possam ser verificadas e confirmadas publicamente.

Portátil – Assim como a durabilidade, não existe uma definição exata para a portabilidade e grandes problemas de portabilidade como ouro ou grandes quantias de papel-moeda. Tudo que você precisa pode ser carregado em celulares, “pendrivers”, etc.

Difícil de falsificar – Este é um problema muito comum que acompanhou todas as formas de dinheiro na história. Bitcoin, porém, tem como garantia de não-falsificação de suas unidades o protocolo em que foi implementado que, por sua vez, faz-se valer de fortes algoritmos criptográficos impraticáveis de serem quebrados por humanos ou máquinas no tempo presente e sem cálculos de quando – e se – algum dia será possível tal feito. No caso de ser possível no futuro, este será um problema não só para o Bitcoin, mas para todos os sistemas do mundo que dependem de criptografia; desde a internet até sistemas de cartão de crédito e bancos. Apesar de um claro problema para os mais diversos tipos de sistema, o protocolo pode evoluir a sua criptografia de acordo que a ameaça aumentar no futuro.

Amplamente aceito – Este, mais do que um pré-requisito, é uma consequência de fatores como qualidade do meio de troca em relação às características esperadas do dinheiro, facilidade de adoção e implantação, regulações, etc. Bitcoin, como dinheiro, cumpre todas as características necessárias para ser definido como tal, excede as formas de dinheiro e pagamento tradicionais em mais de um quesito e é mais acessível do que o sistema financeiro atual, que não chega a cerca de 2.5 bilhões de pessoas no mundo. Realçando que grande parte dessas pessoas não tem acesso ao sistema bancário devido a políticas e altíssimos custos na implantação do sistema atual em certas áreas, não pela incapacidade dessas pessoas produzirem. Soluções com Bitcoin são muito mais baratas e indiscriminatórias, especialmente, devido à descentralização da rede. Entre as formas de implantação mais baratas já existentes, gosto de destacar soluções que possibilitam o acesso à rede apenas com mensagens SMS em aparelhos celulares de custo muito baixo. Além dessa importante e transformadora capacidade, o Bitcoin tem crescido exponencialmente em aceitação como meio de pagamento pelo mundo.

Por fim…

O Bitcoin está em evolução constante, seja pelas soluções criadas por empreendedores para o mercado ou pelo protocolo de código aberto que continua sendo melhorado. Um dos fatores mais importantes sobre Bitcoin é a tecnologia em que ele se baseia – é muito mais do que um meio de pagamento. A tecnologia da blockchain em cima da qual o Bitcoin foi implementado é um ponta pé incrível em direção à descentralização ao trazer uma solução prática e testada para um sistema distribuído em que ninguém precisa confiar em ninguém.

Nós apenas nos acostumamos a ter o modelo centralizado que tanto usamos no dia-a-dia como regra, pois não havia outra alternativa viável. Os únicos limites para as soluções descentralizadas que a tecnologia do Bitcoin permite que tenhamos são a demanda por tais serviços/produtos e a capacidade dos programadores. Para os que chegaram até aqui, obrigado pela leitura e espero que este texto tenha contribuído de forma positiva para todos.

Abaixo, deixo alguns links que podem ser interessantes ao contexto.

Bitcoin in Uganda – Empowering People (vídeo – 5:36m – em inglês)
How Bitcoin Works Under the Hood (vídeo – 22:24m- em inglês)
Bitcoin vs. Political Power: The Cryptocurrency Revolution – Stefan Molyneux at TNW Conference (vídeo – 29:19m- em inglês)
Money Is Broken; Its Future Is Not (slides- em inglês)
Bitcoin e o fim do controle do estado sobre a moeda (vídeo – 2:20m- legendado)

Notas do autor:

  • Bitcoin com B maiúsculo se refere à tecnologia, ou seja, ao protocolo da rede Bitcoin.
  • bitcoin com b minúsculo se refere à unidade de conta bitcoin – é o que se recebe ou se envia pela rede Bitcoin.

//Revisão do texto por Russ da Silva


Sobre o autor

Marco Agner

Desenvolvedor de Softwares motivado por tecnologias com capacidade de ajudar na luta em prol das liberdades individuais e de melhorar a realidade em que vivemos.



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