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Publicado em 29 de abril de 2012 | por Juliano Torres

Publicidade para Crianças, 10 motivos

Volta e meia aparece alguém buscando motivos para atacar a publicidade, e com certa frequência é utilizada a publicidade infantil para iniciar o ataque ao que é visto por muitos como uma técnica para manipular as pessoas e fazê-las consumirem o que não precisam e não querem.

Como disse em um artigo em 2009:

A propaganda não é um mostro que baba, a ponto de devorar o consumidor indefeso, tirando-lhe até as cuecas, para empurrar-lhe goela abaixo produtos que não desejam.  A propaganda não é um show, como inclusive alguns publicitários parecem querer que ela seja.  A propaganda é, sim, um meio honesto, respeitável e lícito de vender alguma coisa, produto ou serviço.  É uma instituição racional, ética e produtiva.  O sinal mais evidente de que a sociedade é livre, assim como são livres os homens que fazem parte dela.

Para deixar isso mais claro, vou comentar os 10 motivos de um texto recente defendendo a proibição da publicidade infantil.

 

1. É ILEGAL

O Código de Defesa do Consumidor já define que a publicidade que se aproveita da ingenuidade infantil é considerada abusiva, proibindo essa prática.

O código de defesa do consumidor é baseado na ideia de que as pessoas não são capazes de decidir por elas mesmas quais regras devem constar em um contrato assinado voluntariamente por ambas as partes. Mas de uma forma mágica, quando essas mesmas pessoas são eleitas elas passam a ser capazes de não apenas decidir por elas mesmas, mas tornam-se capazes de decidir por todas as outras pessoas. A ideia do código de defesa do consumidor nos moldes atuais é um instrumento completamente aristocrático, baseado na ideia de que uma elite sabe o que é melhor para toda a população. Se deve existir algum padrão de contratos de bens de consumo, esse padrão deve ser criado através de regulação privada.

Quanto à questão de “aproveitar da ingenuidade infantil”, isso é altamente questionável. Pior ainda, aceitando a tese de que a publicidade está manipulando as crianças de alguma forma, se você deixar elas sem contato algum com publicidade elas vão crescer achando que tudo é verdade e vão passar a acreditar em qualquer notícia de jornal, anúncio governamental e também a publicidade voltada a adultos. Ou seja, se elas não praticarem ao longo do tempo o senso crítico, vão repetir casos como o das pessoas que devido a uma brincadeira no jornal acharam que estavam sendo vítimas de uma invasão alienígena.

 

2. É IMORAL

Crianças são utilizadas como promotoras de produtos para elas e seus pais. Personagens e ídolos infantis são associados a marcas para atrair atenção desse público.

O que estão propondo aqui é uma proibição total a publicidade, que vai além da publicidade infantil, porque o que está sendo questionado aqui não é somente o uso de crianças em vídeos e fotos publicitárias, mas o uso de celebridades para melhorar a imagem de determinada marca perante o seu público.

Não tem nada de imoral em usar a linguagem que algum público vai entender melhor. Se crianças vão prestar mais atenção em outra criança e em um personagem de desenho, é porque isso tem a ver com o seu contexto, e não há nada de errado em melhorar a reputação da sua marca no meio desse processo, já que o máximo que pode ocorrer é um processo de influencia, não de manipulação.

Vale lembrar aqui que a publicidade não faz com que as pessoas comprem continuamente um produto. O que publicidade faz é mostrar as pessoas que existe um produto que talvez atenda a uma demanda que já existe. E se o produto for ruim, as pessoas não vão voltar a consumi-lo, e o único efeito da publicidade nesse caso será de acelerar a derrocada do produto; mas se o produto for bom, ela vai garantir que as pessoas que tem interesse nele, fiquem sabendo e passem a utilizá-lo regularmente.

Acredito que existe ainda nesse trecho uma crítica ao trabalho infantil, que é infinitamente diferente de trabalhar em uma carvoaria, já que as crianças em geral se divertem fazendo os comerciais e tem um tratamento de estrela de maior categoria.

E para terminar esse ponto, quem geralmente usa crianças em publicidade é o próprio governo, já que praticamente toda campanha publicitária de governos tem um tom infantilizado, talvez porque eles considerem que a população se comporta como crianças que precisam ser tuteladas e que tem dificuldade de entender mensagens mais complexas, que é um outro sinal de mentalidade aristocrática e elitista.

 

3. ENGORDA

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os governos têm a responsabilidade de desenvolver políticas públicas para reduzir o impacto do marketing de alimentos e bebidas com baixo teor nutricional sobre as crianças. Pesquisa realizada pela Universidade de Oxford revelou que uma em cada sete crianças norte-americanas obesas não teria problemas de sobrepeso se não tivesse sido exposta a publicidade de alimentos não saudáveis na tevê. Mais de 15% das crianças brasileiras estão obesas.

Aqui já aparece a ideia de que o governo tem o direito e o dever de definir o que as crianças vão comer; isso para eles não é mais dever dos pais, já que eles são incapazes de cuidar dos seus filhos. Quem é capaz de decidir isso são apenas os pais que foram eleitos, pois ele sim tem capacidade de escolher o que as crianças devem comer baseados em “estudos técnicos de especialistas em nutrição”. Não me espanta que esses mesmos argumentos são utilizados ao redor do mundo para restringir o uso de óleo, quantidade de gordura em carne, proibição de venda de salgados fritos, etc.

Além disso, utilizam a Universidade de Oxford citando uma pesquisa no mínimo duvidosa que cria uma situação de causa e efeito entre um comercial na televisão e o consumo de determinado alimento. Isso não faz qualquer sentido porque publicidade não é manipulação. Provavelmente essas crianças ficariam sabendo desses alimentos de outra forma e estariam obesas da mesma forma; se os alimentos fossem ruins, elas não iriam consumir mais de uma vez. Espero ao menos que não resolvem proibir agora que as coisas sejam gostosas.

 

4. NÃO É SUSTENTÁVEL

Estudos mostram que nós já consumimos quase um terço a mais do que a capacidade da Terra nos disponibiliza. Estimular o consumo sem reflexão vai na contramão da formação que estamos tentando dar a nossas crianças.

Talvez a maior mentira já criada pelos ambientalistas seja essa de que estamos consumindo X% da capacidade da terra. Não existe esse negócio de capacidade da terra. A terra não se regenera (seja lá o que isso queira dizer) nesse curto espaço de tempo; essas transformações ocorrem em milhares de anos. Sendo assim, não faz o menor sentido falar que estamos consumindo determinada capacidade de renovação da terra, porque sempre estamos consumindo muito, mas muito mais que essa capacidade, desde o início da civilização humana.

Pra piorar, deixam claro que estão educando (na verdade doutrinando) as crianças para consumir menos, ou seja, estão dizendo que a miséria é melhor que a abundância, algo que Frederic Bastiat já nos alertava há mais de 2 séculos.

 

5. EROTIZA

Sutiã com enchimento para meninas de 6 anos, cremes antienvelhecimento para crianças de 8, bonecas com maquiagem, crianças vestidas como miniadultas, festas de aniversário em salões de beleza. Tudo isso está ligado a ações de marketing.

Aqui o moralismo aparece de forma claríssima! Quem deve decidir sobre o que as crianças usam: os especialistas iluminados que fazem parte do governo ou os pais? Se alguém discorda das crianças nessa idade usarem esses produtos (e há diversos motivos para isso), que monte um instituto e passe a tentar persuadir os pais ou as próprias crianças a não utilizarem isso. Aprovar uma lei restringindo isso não é apenas imoral, também não funciona.

A culpa não é do marketing. O marketing não cria necessidade em ninguém, ele apenas trabalha com a demanda dos consumidores.

 

6. DISTORCE VALORES

A publicidade diz a crianças e adolescentes que eles só serão felizes se possuírem ou usarem determinado produto, perpetuando a cultura de que é preciso ter para ser. Boa parte das publicidades estimula a competição, o individualismo, o preconceito e a adulação como forma de conseguir o produto anunciado, além de contribuir para o consumo precoce de álcool e tabaco e para a diminuição das brincadeiras criativas.

A publicidade não diz de forma alguma que as crianças (ou os adultos) só serão felizes se tiverem aquilo. Na verdade a publicidade vende a ideia de que determinado produto pode ajuda-lo a realizar os seus sonhos, seja um pacote de viagens para a Índia, um carro feito para trilhas ou um boneco que pode levar uma crianças a se imaginar em um outro mundo. Proibir isso seria a mesma coisa que proibir filmes feitos exclusivamente para crianças, como a série Harry Potter ou um filme que os comandos em ação ganham vida e passam a combater invasores.

Quanto a publicidade estimular a competição e o individualismo, seria ótimo se isso acontecesse, mas infelizmente não é verdade. Essa crítica é basicamente o que os relativistas de hoje falam sobre a “pós-modernidade”, dizendo que as pessoas são mais individualistas. Alguém poderia me explicar então porque se as pessoas estão mais individualistas, como o estado não para de crescer; e tudo que é dito hoje em dia é contra a ideia de competição, então como pode isso ser o pensamento central da sociedade e da publicidade?

Em relação ao ponto do preconceito, eles podem ter alguma razão na crítica, mas depende muito do conceito que eles têm da palavra. Não, a publicidade não é contra os negros, os amarelos, os brancos, os azuis, os vermelhos ou os cor de rosa. Nenhuma empresa em são consciência vai alienar um possível público para seu produto, então esqueça a ideia desse tipo de preconceito. Nesse ponto, enquanto o governo separa a população em grupos (inclusive em cores, como no caso de cotas raciais), o mercado é altamente inclusivo, como fica bem evidente na publicidade para o “mercado negro” nos Estados Unidos durante as leis discriminatórias (o governo novamente fazendo o que acusam o mercado de fazer). O ponto possível de falar em preconceito é que a publicidade de massa trabalha com estereótipos. As campanhas são direcionadas para um público idealizado porque através de pesquisas de marketing é descoberto que os consumidores de determinado produto compartilham um conjunto de comportamentos, crenças e valores. Mas isso nem é errado, e nem é a realidade da “nova publicidade” que é altamente segmentada e personalizada aos gostos de cada receptor.

 

7. ESTRESSA A FAMÍLIA

A publicidade infantil é pensada minunciosamente, de forma que as crianças sejam estimuladas a pedir o produto repetidamente para vencer os pais pelo cansaço – esse é o chamado “fator amolação”, amplamente estudado e usado pela indústria do marketing.

Novamente a ideia de que os pais não sabem cuidar dos filhos. Nem tem muito o que comentar, mas sugiro a todos a leitura de algum livro muito antigo (antes do surgimento da publicidade de massa) que tenha crianças participando ativamente para conferirem se isso não é um comportamento natural de crianças desde que o mundo é mundo. Perguntar para os seus avós também pode ser um bom caminho, já que a publicidade na época deles era muito incipiente, mas mesmo assim esse comportamento por parte das crianças era muito comum.

 

8. ESTIMULA A VIOLÊNCIA

Pesquisa mostra que o acesso rápido ao consumo, a independência e o prestígio são os principais motivadores de delitos entre os internos da Fundação Casa (SP). Como a publicidade passa a ideia de que só quem tem está inserido na sociedade, crianças e adolescentes acabam usando da violência para conseguir aquilo que acreditam ser necessário para serem aceitos.

Você não entendeu errado, estão dizendo que a maioria dos pobres são potenciais criminosos. Mas como pobreza é uma questão relativa, Eu devo também ser um criminoso porque quero uma ilha, um A380, uns 27 carros e mais algumas coisas. Acho que vou começar a cometer crimes violentos para conseguir isso.

Publicidade torna as crianças violentas da mesma forma que um jogador de GTA sai atropelando e atirando em todas as pessoas na rua.

 

9. SE APROVEITA DA AUSÊNCIA DOS ADULTOS

Mais de 85% das crianças brasileiras assistem a tevê diariamente em um tempo médio de mais de 5 horas. A mãe e o pai trabalham fora o dia todo para sustentar a casa e seus filhos. Cenário ideal para a publicidade infantil invadir sua casa e ocupar seu espaço.

Lembra da citação logo no começo do texto? Não? Então suba lá e leia atentamente porque ela já refuta prontamente essa alegação.

Agora que você já leu, deve saber que a publicidade é um monstro que baba e que fica esperando os pais saírem de casa para atacar as crianças. Talvez o monstro não esteja mais no armário ou embaixo da cama, mas dentro da televisão.

 

10. NÃO SE SUBMETE A NINGUÉM

No Brasil, não há um órgão que fiscalize os abusos cometidos pelo mercado publicitário. As agências e os anunciantes atuam apenas com base em um acordo de autorregulamentação, que não prioriza os interesses do cidadão e não protege a infância.

Para terminar, o texto combate a ideia de autorregulamentação. Para eles o que resolve mesmo é minar a liberdade de expressão e passar o controle do que é divulgado ou não para os políticos, pois eles sabem melhor que os profissionais da área o que deve ser veiculado e o que não deve. Acordos voluntários? De forma alguma! Precisamos mesmo são de LEIS ESPECÍFICAS para resolver os problemas, mas lembre-se bem, elas precisam ser ESPECÍFICAS!


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