Objetivismo 347e0xl

Publicado em 2 de novembro de 2013 | por Nathaniel Branden

A psicologia do Prazer

Prazer, para, o homem, não é um luxo, mas uma necessidade psicológica profunda.

Prazer (no sentido mais amplo do termo) é uma concomitan­te metafísica da vida, a recompensa e a conseqüência da ação bem-sucedida – assim como a dor é a insígnia do fracasso, destruição e morte.

Através do estado de alegria, o homem experiência o valor da vida, o sentido de que a vida vale a pena ser vivida, de que va­le a pena lutar para mantê-la. Para que viva, o homem deve agir a fim de conquistar valores. Prazer ou alegria é, ao mesmo tem­po, uma recompensa emocional por um ato bem-sucedido e um incentivo para continuar agindo.

Além disso, devido ao significado metafísico do prazer para o homem, o estado de alegria lhe dá uma experiência direta de sua própria eficácia, de sua competência em lidar com os fatos da realidade, de alcançar seus valores, de viver. Implicitamente conti­do na experiência do prazer está o sentimento: “Estou no contro­le de minha existência” – assim como implicitamente contido na experiência/da dor está o sentimento: “Estou indefeso.” Como o prazer emocionalmente’ acarreta um sentido de eficácia, então a dor emocional acarreta um sentimento de impotência.

Deste modo, ao permitir que o homem experimente, em sua própria pessoa, o sentido de que a vida é um valor, e que ele é um valor, o prazer serve como combustível emocional da existên­cia do homem.

Assim como o mecanismo prazer-dor do corpo do homem funciona como um barômetro de saúde ou doença, o mecanismo prazer-dor de sua consciência funciona pelo mesmo princípio, agin­do como barômetro do que é a favor ou contra si, do que é bené­fico ou prejudicial a sua vida. Mas o homem é um ser de consciên­cia volitiva, não possui idéias inatas nem conhecimento infalível ou automático a respeito do que depende sua sobrevivência. Ele tem de escolher os valores que devem guiar os seus atos e determi­nar suas diretrizes. Seu mecanismo emocional trabalha de acordo com o tipo de valores que escolhe, São os seus, valores que deter­minam o que o homem sente ser a seu favor ou contra si; são os seus valores que determinam o que procura por prazer.

Se um homem cometer um erro em sua escolha de valores, seu mecanismo emocional não o corrigirá: este não possui vonta­de própria. Se os valores de um homem forem tais que deseje coi­sas que, de fato e na realidade, o levem à destruição, seu mecanis­mo emocional não o salvará, mas, ao invés disso, o incitará em direção à destruição: ele terá de o colocar ao contrário, contra si mesmo e contra os fatos da realidade, contra sua própria vida. O mecanismo emocional é como um computador eletrônico: o ho­mem tem o poder de programá-lo, mas não, absolutamente, de mudar sua natureza – de modo que, se fizer a programação erra­da, não será capaz de escapar do fato da maioria dos desejos des­trutivos terem, para ele, a intensidade emocional e a urgência de atos que salvam a vida. Ele possui, é claro, o poder de mudar a programação – mas apenas pela mudança de seus valores.

Os valores básicos de um homem refletem sua visão conscien­te e subconsciente de si mesmo e da existência, Eles são a expres­são da (a) natureza e grau de sua auto-estima ou falta dela, e (b) extensão do que considera o universo aberto ou fechado à sua com­preensão e ação – isto é, a extensão até onde sustenta uma visão benevolente ou maléfica da existência. Deste modo, as coisas que um homem procura por prazer ou alegria são profundamente reve­ladoras do ponto de vista psicológico; são o índice de seu caráter e alma. (Por “alma” quero dizer: a consciência de um homem e seus valores motivadores básicos.)

Há, claramente, cinco áreas (interconectadas) que permitem ao homem experienciar a alegria da vida: trabalho produtivo, relacionamento humano, recreação, arte e sexo.

Trabalho produtivo é a mais fundamental delas: através do trabalho, o homem ganha o seu sentido básico de controle sobre a existência – seu sentido de eficácia -, que é a fundação neces­sária da habilidade de aproveitar qualquer outro valor. O homem em cuja vida falta direção ou propósito, o homem que não possui um objetivo criativo, necessariamente sente-se abandonado e fora de controle; o homem que se sente abandonado e fora de contro­le, sente-se inadequado e impróprio para a existência; e o homem que se sente impróprio para a existência, é incapaz de aproveitá-la.

Uma das marcas distintivas de um homem que sente auto-esti­ma, que considera o universo aberto ao seu esforço, é o profun­do prazer que experimenta no trabalho produtivo de sua mente; sua alegria de vida é alimentada por seu interesse constante em cres­cer em conhecimento e habilidade – pensar, alcançar, mover-se para frente, encontrar novos desafios e ultrapassá-los – de ficar orgulhoso de uma eficácia em constante expansão.

Um tipo diferente de alma é revelada pelo homem que, predo­minantemente, tira prazer em trabalhar somente na rotina e naqui­lo que lhe é familiar, que está inclinado a aproveitar o trabalho em um estado de semi-atordoamento, que vê felicidade na ausên­cia de desafios ou de lutas ou esforços: a alma de um homem pro­fundamente deficiente em auto-estima, para quem o universo sur­ge como desconhecido e vagamente ameaçador; o homem cujo im­pulso motivador central é a ambição por segurança, não a seguran­ça obtida pela eficiência, mas a de um mundo no qual a eficiência não é exigida.

Ainda um tipo diferente de alma é revelado pelo homem que acha inconcebível que o trabalho – qualquer forma de trabalho – possa ser agradável, que considera o esforço de ganhar a subsis­tência como um mal necessário, que sonha somente com os praze­res que começam quando o dia de trabalho termina, o prazer de afogar sua mente em álcool ou televisão ou bilhar ou mulheres, o prazer de não ser consciente: a alma de um homem sem um fia­po de auto-estima, que nunca esperou que o universo fosse com­preensível e toma seu pavor letárgico por ele como algo certo, e cuja única forma de alivio e única noção de alegria são breves faís­cas de prazer produzidas por sensações que não demandam esforço algum.

Ainda um outro tipo de alma é revelado pelo homem que tem prazer, não em realizações, mas em destruição, cuja ação é dirigi­da, não a atingir a eficiência, mas a dominar aqueles que a atingi­ram: a alma de um homem tão miseravelmente desprovido de auto­valor e tão dominado pelo terror da existência, que sua forma úni­ca de auto realização é desencadear seu ressentimento e ódio con­tra aqueles que não partilham seu estado, aqueles que estão aptos para viver – como se, pela destruição do confiante, do forte e do saudável, pudesse converter impotência em eficiência.

Um homem racional e autoconfiante é motivado por um amor por valores e por um desejo de alcançá-los. Um neurótico é motivado pelo medo e pelo desejo de escapar dele. Esta diferença em motivação é refletida, não apenas lias coisas que cada tipo de homem procura por prazer, mas na natureza do prazer que experi­menta.

A qualidade emocional do prazer experimentado pelos quatro homens descritos acima, por exemplo, não é a mesma. A qualida­de de qualquer prazer depende de processos mentais que lhe dão origem e acompanham, e da natureza dos valores envolvidos. O prazer de utilizar a consciência do indivíduo adequadamente e o “prazer” de ser inconsciente não são os mesmos – assim como o prazer de alcançar valores reais, de ganhar um sentimento autên­tico de eficiência, e o “prazer” de diminuição temporária do senti­do do indivíduo de medo e abandono, não são os mesmos. O ho­mem que sente auto-estima experimenta a alegria pura e não-adul­terada de utilizar suas faculdades adequadamente e de alcançar, na realidade, valores verdadeiros – um prazer do qual os outros três homens podem não ter noção, bem como ele não tem noção do estado confuso e sombrio que eles chamam de “prazer”.

Este mesmo principio aplica-se a todas as formas de alegria. Deste modo, no domínio das relações humanas, uma forma dife­rente de prazer é experimentada, um tipo diferente de motivação é envolvido e um tipo diferente de caráter é revelado pelo homem que procura por alegria a companhia de seres humanos com inteli­gência, integridade e auto-estima, que divide seus critérios rigoro­sos 2– e pelo homem que está apto a divertir-se apenas com seres humanos que não possuem critérios, quaisquer que sejam, e com quem, e por conseguinte sente-se livre para ser ele mesmo – ou pelo homem que encontra prazer somente na companhia de pesso­as que despreza, que pode comparar consigo mesmo favoravelmen­te – ou pelo homem que encontra prazer apenas entre pessoas que pode enganar e manipular, de quem ele tira o mais baixo subs­tituto neurótico para um sentido de genuína eficiência: um senti­do de poder.

Para um homem racional, psicologicamente saudável, o desejo pelo prazer é o desejo de comemorar seu controle sobre a realidade. Para o neurótico, o desejo por prazer é o desejo de escapar da realidade.

Agora considere a esfera da recreação, Por exemplo, uma fes­ta. Um homem racional desfruta uma festa como uma recompen­sa emocional de uma realização, e pode tirar prazer dela apenas se, de fato, envolve atividades agradáveis, COMO ver pessoas de que gosta, encontrar pessoas novas que acha interessantes, partici­par de conversas nas quais algo que valha a pena dizer e ouvir es­teja sendo dito e ouvido. Mas um neurótico pode “desfrutar” uma festa por razões não relacionadas a atividades reais, que estão acontecendo: pode odiar ou desprezar ou temer todas as pessoas presentes, pode agir como um bobo espalhafatoso e sentir-se secre­tamente envergonhado disto – mas sentirá que está aproveitando tudo porque as pessoas estão emitindo as vibrações de aprovação, ou porque é uma distinção social ter sido convidado para essa fes­ta, ou porque outras pessoas manifestam estar alegres, ou porque a festa já o dispensou, pela duração de uma noite, do terror de estar sozinho.

O “prazer” de estar bêbado é obviamente o prazer de esca­par da responsabilidade da consciência. E assim o são reuniões so­ciais realizadas com nenhum outro propósito senão a expressão do caos histérico, onde os convidados vagueiam num torpor alcoó­lico, tagarelado ruidosa e insensatamente e desfrutando a ilusão de um universo onde não se é sobrecarregado com propósito, lógi­ca, realidade ou consciência.

Observe, nesta sequência lógica, os beatnicks modernos – por exemplo, sua maneira de dançar. O que se vê não são sorrisos de alegria autêntica, mas de olhos fixos, vagos, movimentos desor­ganizados, convulsivos, corpos que parecem corpos descentralizados, todos trabalhando muito – com um tipo de histeria determi­nada – para projetar um ar de despropósito, sem sentido, sem memória, Este é o “prazer” da inconsciência.

Ou considere o tipo mais calmo dos “prazeres” que preenche a vida de muitas pessoas: piqueniques familiares, chás de damas ou happy hours, bazares de caridade, férias vegetativas – todas ocasiões de tédio sossegado que a todos interessam, nas quais o tédio é o valor. Tédio, para tais pessoas, significa segurança, o co­nhecido, o habitual, a rotina – a ausência do novo, do excitante, do não-familiar, do exigente.

O que é um prazer exigente? Um prazer que exige a utilização da mente do indivíduo; não no sentido de resolver problemas, mas de exercitar o discernimento, o julgamento, a consciência.

Um dos principais prazeres da vida é oferecido ao homem pe­las obras de arte. A arte, em seu mais alto potencial, como a pro­jeção das coisas “como elas podem” e “devem ser”, pode prover o homem de um combustível emocional inestimável, Mas, de novo, o tipo de obra de arte a que o indivíduo responde, depende de seus valores e premissas mais profundas.

Um homem pode procurar a projeção de heroico, inteligente, eficiente, dramático, resoluto, com estilo, engenhoso, desafiante; ele pode procurar o prazer da admiração, de estar em busca de grandes valores. Ou pode procurar a satisfação de contemplar as variantes da coluna-de-fofocas dos colegas vizinhos, com nada a exigir de si, nem em pensamento, nem em critérios de valor; po­de sentir-se prazerosamente aquecido pelas projeções do conheci­do e familiar, procurando sentir-se um pouco menos “estranho e amedrontado num mundo de que nunca participou”. Ou sua al­ma pode vibrar afirmativamente a projeções de horror e degrada­ção humana, pode sentir-se gratificado pelo pensamento de que não é tão ruim quanto o anão viciado em drogas ou a lésbica alei­jada de que leu a respeito; ele pode saborear uma arte que lhe diz que o homem é mau, que a realidade é incognoscível, que a exis­tência é intolerável, que ninguém pode ajudar em nada, que seu terror secreto é normal.

A arte projeta uma visão implícita da existência – e é a pró­pria visão do indivíduo da existência que determina a arte à qual responder A alma do homem cuja peça favorita é Cyrano de Bergerac é radicalmente diferente da alma daquele que prefere Es­perando Godot.

Dos vários prazeres que o homem pode oferecer a si mesmo, o maior é o orgulho – o prazer que consegue em suas próprias realizações e na criação de seu próprio caráter. O prazer que con­segue no caráter e realizações de outro ser humano é a admiração. A expressão maior da união mais intensa destas duas respostas – orgulho e admiração – é o amor romântico. Sua celebração é o sexo.

É nesta esfera, acima de tudo – em respostas romântico-se­xuais de um homem -, que sua visão de si mesmo e da existência permanece eloquentemente revelada. Um homem se apaixona e sexualmente deseja a pessoa que reflete seus próprios valores mais profundos.

As respostas romântico-sexuais de um homem são psicologica­mente reveladoras em dois aspectos cruciais na sua escolha da parceira, e no significado, para ele, do ato sexual.

Um homem de auto-estima, um homem apaixonado por si  mesmo e pela vida, sente uma necessidade intensa de encontrar se­res humanos a quem possa admirar – encontrar um igual espiritual a quem possa amar. A qualidade que mais o atrai é a auto-estima – auto-estima e um sentido não-nebuloso do valor da exis­tência. Para este homem, o sexo é um ato de celebração, seu signi­ficado é um tributo a si mesmo e à mulher que escolheu, a forma última de experimentar concretamente e em sua própria pessoa o valor e a alegria de estar vivo.

A necessidade de tal experiência é inerente à natureza do ho­mem. Mas se um homem carece de auto-estima para obtê-la, ten­ta falsificá-la – e escolhe sua parceira (subconscientemente) pelo padrão de sua habilidade em ajudá-lo a disfarçar esta necessidade, dando-lhe a ilusão de autovalor que não possui e de uma felicida­de que não sente.

Assim, se um homem sentir-se atraído por uma mulher de in­teligência, confiança e força, se sentir-se atraído por uma heroína, revelará um tipo de alma; se, ao invés, sentir-se atraído por uma irresponsável, indefesa e distraída, cuja fraqueza o permita sentir-se masculino, revelará outro tipo de alma; se sentir-se atraído por uma desmazelada assustada cuja falta de julgamento e critérios permitam-lhe sentir-se livre de reprovação, revelará outro tipo de alma, ainda.

O mesmo princípio, é claro, aplica-se às escolhas romântico­-sexuais da mulher.

O ato sexual tem um significado diferente para a pessoa cu­jo desejo é alimentado pelo orgulho e admiração, a quem a auto experiência prazerosa que proporciona é um fim em si mesma – e para a pessoa que procura no sexo a prova de masculinidade (ou feminilidade), ou o alívio do desespero, ou a defesa contra a ansiedade, ou uma fuga do tédio.

Paradoxalmente, estão os assim chamados caçadores-de-pra­zer – os homens que aparentemente vivem apenas pela sensação do momento, que estão apenas preocupados em “divertir-se” – que são psicologicamente incapazes de aproveitar o prazer como um fim em si mesmo. O neurótico caçador-de-prazer imagina que, ao passar pelos movimentos de uma celebração, está apto a fazer a si mesmo sentir que possui algo para celebrar.

Uma das marcas de autenticidade do homem que carece de auto-estima – e a punição real de sua omissão moral e psicológi­ca – é o fato de que todos os seus prazeres são prazeres de fuga dos dois perseguidores a quem ele traiu e de que não há escapató­ria: a realidade e sua própria mente.

Já que a função do prazer é proporcionar ao homem um sen­tido de sua própria eficiência, o neurótico é apanhado num confli­to mortal: é compelido, por sua natureza de homem, a sentir uma necessidade desesperada por prazer, enquanto uma confirmação e expressão de seu controle sobre a realidade – mas pode encontrar prazer apenas numa fuga da realidade. Esta é a razão por que seus prazeres não funcionam, por que lhe trazem, não uma sensa­ção de orgulho, realização, inspiração, mas de culpa, frustração, desesperança e vergonha. O efeito, do prazer num homem que sente auto-estima é o de uma recompensa ou confirmação. O efeito do prazer num homem que carece de auto-estima é o de uma ame­aça – uma ameaça de ansiedade, o tremor de uma fundação pre­cária de seu pseudo-autovalor, o aguçamento de um medo sempre-presente de que a estrutura entre em colapso, e ele encontre-se fren­te a uma realidade imperdoável, desconhecida, absoluta e austera.

Uma das reclamações mais comuns dos pacientes que procuram a psicoterapia é que nada possui o poder de dar-lhes prazer, a alegria autêntica lhes parece impossível. Este é o beco sem saí­da da política do prazer-como-escape.

Preservar uma clara capacidade para desfrutar a vida é uma realização moral e psicológica incomum. Ao contrário da crença popular, esta capacidade é a prerrogativa, não a irresponsabilida­de ou a inflexão, consistente numa devoção irrenunciável ao ato de perceber a realidade, e de uma integridade intelectual escrupulo­sa. E a recompensa da auto-estima.


Sobre o autor

Nathaniel Branden

Nathaniel Branden é um psicoterapeuta e escritor conhecido por seu trabalho na psicologia da auto-estima. por ex-parceiro romântico de Ayn Rand e por desempenhar um papel de destaque na década de 1960 na promoção do filosofia de Rand, conhecida como Objetivismo.



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