produtos químicos

Publicado em 2 de junho de 2014 | por Angela Logomasini

Como produtos químicos fazem sua vida melhor

Em 1651, Thomas Hobbes descreveu a vida no estado de natureza como “cruel, bruta e curta”. Mas mesmo na sociedade civilizada de seu tempo, a maioria das pessoas vivia sob o que consideraríamos condições miseráveis. Naquele tempo, você tinha sorte se vivesse mais de 30 anos; nossa noção de saneamento básico não existia; as pessoas usavam as ruas das cidades para descartar seu lixo; as pragas eram comuns; a oferta de comida geralmente era curta e bem básica; e sistemas de aquecimento rudimentares usando madeira ou carvão tornavam o ar dentro das casas um perigo sério à saúde. Embora muitos dos problemas fossem ambientais, poucas pessoas tinham tempo livre para se preocupar com o “meio ambiente” como uma questão pública. A maioria simplesmente preocupava-se em sobreviver ao dia seguinte.

Mas mudanças dramáticas na qualidade de vida ocorreram na história recente. A expectativa de vida global no último século subiu de 30 para 60 anos. Nos Estados Unidos, a expectativa de vida alcançou 76 anos. Várias das coisas que tomamos como certo – água corrente, assistência médica e uma oferta constante de comida – eram estranhas à humanidade ao longo da maior parte da história.

Por que é que nos últimos séculos as coisas começaram a mudar tão rapidamente, quando por milhares de anos a vida permaneceu como uma batalha pela sobrevivência? Por um lado, as economias de livre mercado emergiram, baseadas nos mesmos princípios em que os Estados Unidos foram fundados. John Locke falou desses princípios como direitos inalienáveis à “vida, liberdade e propriedade”. Mais tarde, Thomas Jefferson ecoou esses sentimentos e ajudou a torná-los centrais ao modo americano de vida. Tais liberdades básicas significam que nós, americanos, temos o direito de autodeterminação e o direito ao lucro por nossa própria engenhosidade. Desde o surgimento do governo baseado em direitos fundamentais, as economias de livre mercado emergiram, a riqueza aumentou profundamente, e nossa qualidade de vida aumentou aos trancos e barrancos.

Entre as várias conquistas estava o desenvolvimento de produtos químicos sintéticos, que têm revolucionado a maneira de que vivemos. Eles tornam possível várias coisas desde medicamentos, água potável e o controle de pestes. Ainda assim, a percepção popular é que os produtos sintéticos são a fonte de todas as doenças possíveis desde câncer à destruição da camada de ozônio, passando pela infertilidade e danos cerebrais. Ignorando que a natureza produz muito mais produtos químicos e em doses muito maiores, e que a maioria dos produtos químicos são inócuos em doses baixas, os ativistas tiram proveito espalhando o terror. Eles assustam o público ao exagerar os riscos para garantir que o governo aprove várias leis e regulações, todas focadas na eliminação de produtos químicos, portanto prejudicando nossa liberdade sem muita preocupação com os tradeoffs.

Os defensores de tais restrições dizem que precisamos ter certeza que todo produto químico é seguro antes de o expor ao público. Em seu livro recente, Pandora’s Poison, o ativista do Greenpeace Joe Thornton pede que a sociedade siga o “princípio da precaução”, que diz que devemos evitar práticas que tenham o potencial de causar danos severos, mesmo na ausência de provas científicas de dano. Thornton defende uma política de “descarte zero”, que exige a eliminação de todos os produtos químicos “bioacumuláveis”. Em particular, ele por muito tempo vem pedindo pela eliminação do cloro, sobre o qual ele observou na revista Science (9 de Julho de 1993): “Não existem usos conhecidos para o cloro que consideramos como seguros”. Mais recentemente, talvez em reconhecimento de que esse padrão é politicamente insustentável, ele sugeriu que continuemos usando cloro para “alguns medicamentos” e algumas “desinfecções sanitárias”, mas apenas até que outras opções tornem-se disponíveis.

Promover tais “políticas de precaução” poderia significar travar toda a atividade industrial, porque nada pode ser comprovado como 100% seguro. Portanto, tais políticas trazem tradeoffs perigosos. Embora produtos químicos possam criar novos riscos, tu tem sido usados para eliminar outros – muitos dos quais produziram estragos na civilização por séculos. Como Fred Smith, do Competitive Enterprise Institute observa: “A experiência demonstra que os riscos da inovação, embora reais, são vastamente inferiores aos riscos da estagnação”. De fato, ele pergunta, como o mundo seria se nunca tivéssemos introduzido a penicilina porque não podíamos provar que fosse 100% segura?

Produtos Químicos Essenciais

Embora não pensemos muito sobre isso, os produtos sintéticos são essenciais a quase tudo que fazemos. Eles fazem nossos carros andarem; limpam desde nossos dentes a nossas louças; reduzem doenças ao desinfetar quase tudo, de banheiros domésticos a salas de operação em hospitais; são usados em produtos alimentícios tais como em aviáceos para eliminar E. coli e outros patógenos fatais; e mantém nossos computadores, televisões e outros produtos eletrônicos funcionando. Considere apenas algumas das muitas funções cruciais que eles desempenham em tornar nossas vidas melhores:

  • A cloração do fornecimento de água salvou milhões de vidas. Por exemplo, desde que os engenheiros locais e indústrias introduziram a cloração em 1880, mortes relacionadas a doenças transmitidas pela água nos Estados Unidos caíram de 75-100 por 100.000 habitantes para menos de 0,1 morte por 100.000, anualmente em 1950. [1] Ao invés de reduzir o uso da cloração como Thornton sugere, devemos expandir o acesso. De acordo com a World Health Organization (WHO), no mundo em desenvolvimento as mortes por diarreia (tais como as causadas por cólera e disenteria) matam cerca de dois milhões de crianças abaixo de cinco anos todo ano, devido a coisas como saneamento ruim e água contaminada. Aproximadamente 85% dos medicamentos que usamos hoje requerem cloro em sua produção.
  • Graças aos produtos químicos usados em remédios, o uso de coquetéis de medicamentos reduziu as mortes por AIDS em mais de 70% de 1994 a 1997. [2]
  • Cinquenta porcento das reduções de morte relacionadas a doenças do coração entre 1980 e 1990 (uma queda total de 30% na taxa de mortes) são atribuídas a medicamentos e aos produtos químicos que os compõem. [3]
  • Os produtos químicos chamados ftalatos (existem vários tipos deles) são usados no PVC – vinil usado para tubagem médica, bolsas de sangue e vários outros produtos. Embora os ambientalistas tenham tentado banir os ftalatos,[4] os dispositivos médicos de vinil fornecem muitos benefícios que salvam vidas. O PVC é um produto seguro, durável e estéril que pode suportar calor e pressão, e produz tubagem que não formam nós. É particularmente benéfico para bolsas de sangue de vinil porque armazena sangue por duas vezes mais tempo que a melhor alternativa disponível e não quebra, como as alternativas de vidro. Em tempos de escassez de sangue, as bolsas de sangue de PVC são uma ferramenta essencial para manter e transportar o estoque.
  • Graças à agricultura moderna com produtos químicos, a produção de comida superou o crescimento populacional – fornecendo às pessoas tanto de países desenvolvidos e em desenvolvimento mais alimento por pessoa. O estoque de grão per capita cresceu 27% desde 1950, e os preços de alimentos diminuíram em termos reais em 57% desde 1980. O uso de herbicidas para controlar ervas daninhas diminui a necessidade do preparo do solo, que por sua vez reduz a erosão do solo em 50-98%. [5]

Desconsiderando tais benefícios, a maioria dos estatutos regulatórios ambientais dos EUA seguem o caminho de grupos como o Greenpeace, focando-se na eliminação dos produtos químicos sem muita preocupação com os perigos de não possuir essas tecnologias. O Clean Water Act (1972), por exemplo, assumiu esse compromisso inatingível: “é o objetivo nacional que o descarte de poluentes nas águas navegáveis seja eliminado até 1985”. Embora podermos cumprir metas de água limpa razoáveis, não podemos cumprir um descarte zero sem forçosamente travar processos industriais que nos trazem medicamentos que salvam vidas, um fornecimento de comida seguro que resiste à deterioração, e até mesmo nossas roupas.

Da mesma forma, regulações que a EPA [O Mito do Câncer Sintético

Publicando no Journal of Clinical Oncology de 2009, pesquisadores da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade do Alabama notaram que “tipicamente se culpa ‘as taxas de câncer crescentes’ pelas ‘exposição a produtos químicos industriais e tecnologias modernas cujo crescimento explosivo claramente ultrapassou a capacidade da sociedade de controlá-las‘”.[6] Mas sua pesquisa conclui: “Não há como negar a existência de problemas ambientais, mas os dados atuais mostram que eles não produziram nenhum aumento notável na mortalidade por câncer”. Eles concluem: “Quando a mortalidade de todos os cânceres relacionados ao fumo é excluída, o declínio em outros cânceres de 1950 a 1998 foi de 31% (de 109 a 75 mortes por 100.000 pessoas/ano)”. Portanto, o aumento no câncer naquele tempo não estava relacionado ao uso de produtos sintéticos ou à poluição, mas a escolhas pessoais de estilos de vida.

O relatório mais recente do Instituto Nacional do Câncer [National Cancer Institute] confirma que: “A incidência de câncer em todos os locais combinados diminuíram de 1992 a 1998 entre todas as pessoas nos Estados Unidos, principalmente devido a um declínio de 2,9% ao ano em homens brancos e 3,1% por ano em homens negros. Entre mulheres, as taxas de incidência de câncer aumentaram 0,3% ao ano. No geral, as taxas de morte por câncer diminuíram 1,1% ao ano”.[7] O câncer entre as mulheres aumentou levemente apenas por causa da melhor detecção, o que é uma notícia boa porque significa que os médicos estão encontrando e curando mais cânceres entre as mulheres.

Em seu estudo de referência de 1981 sobre a questão, sir Richard Doll e Richard Peto se reuniram para determinar as causas de câncer preveníveis nos Estados Unidos.[8] De acordo com Doll e Peto, a poluição conta apenas por 2% de todos os casos de câncer. Eles de fato observam que 80 a 90% dos cânceres são causados por “fatores ambientais”. Mas enquanto ambientalistas geralmente esbravejam esse dado como evidência que a sociedade industrial está causando câncer, Doll e Peto explicam que “fatores ambientais” simplesmente significa fatores além dos genéticos. Não significa apenas a poluição. Fatores ambientais incluem fumo, dieta, exposição ocupacional a produtos químicos, “fatores geofísicos” tais como radiação de ocorrência natural, radiação produzida pelo homem, medicamentos e poluição. O tabaco também é relacionado a cerca de 20% de todas as mortes anuais por câncer, e escolhas dietéticas estão relacionadas a 35% das mortes anuais por câncer.

Com tão poucos cânceres causados pela poluição, quantos a regulação ambiental poderia eliminar? Com cada regulação, a EPA alega salvar milhares da morte por câncer. Juntos, essas provavelmente somariam aos milhões. Mas o cientista Michael Gough demonstra por que devemos considerar tais alegações da EPA suspeitas.

Gough analisa os resultados do estudo de Doll-Peto junto com as estimativas dos riscos de câncer do relatório da EPA chamado Unfinished Business. Ele chega a conclusão semelhante a de Doll e Peto. Gough percebeu que entre 2 e 3% de todos os cânceres poderiam ser associados com a poluição ambiental. Determinar tais números nos ajuda a entender o que exatamente pode-se esperar que a EPA cumpra quando regula poluentes. Gough diz que a ação da EPA poderia apenas visar uma pequena porcentagem dos cânceres:

Se as técnicas de avaliações de risco da EPA forem precisas, e todos os carcinógenos identificados passíveis às regulações da EPA forem completamente destruídos, cerca de 6.400 mortes por câncer anualmente (cerca de 1,3% do total anual atual de 435.000 mortes por câncer) seriam evitadas. Quando os riscos de câncer são estimados usando métodos mais realísticos empregados pela Food and Drug Administration (FDA), o número de cânceres reguláveis é menor, de cerca de 1.400 (cerca de 0,25%). [9]

Testes Defeituosos em Roedores

Dadas essas realidades, como a EPA justifica suas reivindicações? Muitas das descobertas sobre produtos químicos e câncer estão relacionadas a resultados de testes mal feitos advindos da administração de quantidades enormes de produtos químicos a roedores criados para serem altamente suscetíveis ao câncer. Então os pesquisadores extrapolam os possíveis efeitos de tais produtos químicos nos humanos, que podem estar expostos a pequenas quantidades do mesmo produto químico durante suas vidas.

Devemos nos perguntar: por que os impactos nos roedores são relevantes aos humanos? Doll e Peto percebem que alguns produtos químicos considerados carcinogênicos em humanos não produziram tumores cancerígenos em roedores. Na verdade, por muitos anos, o fumo do cigarro falhou em produzir tumores malignos em animais em laboratórios, embora o tabaco seja a causa principal de câncer nos Estados Unidos. Esses efeitos contraditórios de produtos químicos nos animais e humanos salientam a dificuldade de confiar em resultados animais para estimar riscos em humanos.

Além disso, Bruce Almes e Lois Swirsky Gold demonstram por que não precisamos nos preocupar sobre a exposição de baixo nível a “carcinógenos de roedores”. [10] Eles encontraram que tais produtos químicos não representam um risco maior do que o representado por muitas substâncias naturais e desreguladas que são partes comuns e aceitas de uma dieta saudável. Enquanto 212 de 350 dos produtos químicos sintéticos examinados por várias agências foram considerados carcinogênicos em doses massivas em roedores, 37 de 77 das substâncias naturais testadas também foram consideradas carcinogênicas em estudos com roedores empregando a mesma metodologia. A ingestão média dos carcinógenos naturais em roedores em comidas vegetais é cerca de 1.500 mg por pessoa por dia, enquanto a ingestão média de pesticidas sintéticos é de 0.09 mg por dia. [11] Carcinógenos naturais em roedores existem em maçãs, bananas, cenouras, aipo, café, alface, suco de laranja, ervilhas, batatas e tomates em níveis milhares de vezes maiores que os encontrados na água potável. [12]

O uso livre e o desenvolvimento de produtos químicos provou ser uma chave para o progresso humano, e efeitos danosos sobre a saúde por exposições em pequenas doses são pequenos, se é que são detectáveis. O progresso continuado demanda a continuação de um mercado irrestrito em que as empresas possam desenvolver novos produtos sem ter que cumprir um padrão impossível ou quase impossível de risco zero. Tal abordagem alegadamente mais “precaucionária” dos ativistas ambientais na verdade arriscam um retorno ao mundo de Thomas Hobbes.


 Notas

[1] Michael J. LaNier, “Historical Development of Municipal Water Systems in the United States, 1776 to 1976,” Journal of the American Water Works Association, April 1976, p. 177.
[2] Frank J. Palella et al., “Declining Morbidity and Mortality among Patients with Advanced HIV Infection,” The New England Journal of Medicine, March 26, 1998.
[3] M.G. Hunink et al., “The Recent Decline in Mortality From Coronary Heart Disease, 1980–1990,” Journal of the American Medical Association, February 19, 1997, pp. 535–42.
[4] Bill Durodie, “Poisonous Propaganda: Global Echoes of an Anti-Vinyl Agenda” (Washington, D.C.: Competitive Enterprise Institute, July 2000).
[5] Dennis Avery, “Saving the Planet with Pesticides,” in Ronald Bailey, ed., The True State of the Planet (New York: Free Press, 1995), pp. 52–54.
[6] Brad Rodu and Philip Cole, “The Fifty-Year Decline of Cancer in America,” Journal of Clinical Oncology, January 1, 2001, pp. 239–41.
[7] Holly L. Howe et al., “Annual Report to the Nation on the Status of Cancer (1973 até 1998), Featuring Cancers with Recent Increasing Trends,” Journal of the National Cancer Institute, June 6, 2001, pp. 824–42.
[8] Richard Doll and Richard Peto, “The Causes of Cancer: Quantitative Estimates of Avoidable Risks of Cancer in the United States Today,” Journal of the National Cancer Institute, June 1981.
[9] Michael Gough, “How Much Cancer Can EPA Regulate Away?” Risk Analysis 10, no. 1 (1990), pp. 1–6; and Michael Gough, “Estimating Cancer Mortality,” Environmental Science and Technology 23, no. 8 (1989), pp. 925–30.
[10] Bruce Ames and Lois Swirsky Gold, “Too Many Rodent Carcinogens: Mitogenesis Increases Mutagenesis,” Science, August 31, 1990, p. 970.
[11] Ibid.
[12] National Research Council, Committee on Comparative Toxicology of Naturally Occurring Carcinogens, Carcinogens and Anticarcinogens in the Human Diet: A Comparison of Naturally Occurring and Synthetic Substances (Washington, D.C.: National Academy Press, 1996), Appendix A.


Sobre o autor

Angela Logomasini

Angela Logomasini é PhD pela Catholic University of America, também é associada sênior do CEI (Competetive Enterprise Institute) atuando na área de regulamentação ambiental. Ela escreveu o livro The Environmental Source e teve seus artigos publicados em lugares como Forbes, Huffington Post, New York Post e o Wall Street Journal.



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