Economia Novos problemas precisam de novas soluções

Publicado em 15 de janeiro de 2014 | por Sandy Ikeda

Novos problemas precisam de novas soluções

Como libertário, eu sou frequentemente acusado de meramente substituir a fé no estado pela fé cega no “livre mercado”. Eu não posso falar por todos os libertários, mas a minha confiança no livre mercado não advém de nenhuma fé em uma caixa preta institucional, mas de um respeito profundo pela energia e recursos das pessoas normais.

Mas tudo depende, é claro, das “regras do jogo”.

As Regras

Aquelas regras nos dizem como deveríamos nos comportar na relação entre um ser humano e outro. Quando elas permitem ou encorajam uma pessoa a iniciar a força física contra outra, a energia e recursos (capacidade) daquela pessoa podem causar muito dano, não importando o quão bem intencionada ela possa ser. Os duros e selvagens tenderão a dominar os fracos e bondosos.

Quando as regras proíbem alguém de iniciar a violência física contra outra pessoa – mas o permite a liberdade de fazer qualquer outra coisa – essa mesma energia e capacidade conduz a um processo que tem gerado riqueza e criatividade nunca vistas antes, como esse gráfico do The Economist mostra.

(Nota: veja também Rosenberg & Birdzell e Deirdre McCloskey sobre as origens da riqueza baseada no mercado.)

Nós podemos não gostar de tudo que emerge daquele processo, e estamos livres para criticar; mas em uma sociedade livre, a crítica implica tolerância pelos resultados que não são resultado da agressão ou fralde. Que mundo vazio e chato seria se só as coisas que gostamos, atualmente, fossem permitidas! Poucas coisas iriam mudar ou crescer – inclusive, nós mesmos.

Uso excessivo de intervenção governamental – por exemplo, violência sancionada pelo estado contra ações ou acordos voluntários – podem atrapalhar o desenvolvimento humano.

Um Exemplo

Outro dia, um repórter me entrevistou para uma matéria sobre os desafios dos projetos governamentais para o transporte de massas. Eu enquadrei o problema em termos do fato que as pessoas no governo são cognitivamente e politicamente restringidas por soluções do passado. Quando os políticos e os interesses escusos falam sobre como permitir a um grande numero de pessoas mover-se em uma cidade a um custo razoável, parecem existir somente duas alternativas que eles levarão a sério: estradas ou rodovias subsidiadas.

A maioria dos recursos federais para o transporte vão para rodovias, e o transporte ferroviário – apesar de sua origem no século XVII – é considerada uma alternativa de última geração. O repórter e eu concordamos que esses grandes projetos financiados a nível federal parecem fracassar do ponto de vista financeiro onde quer que sejam tentados (no caso em questão falávamos do People Mover de Detroit, que na verdade transporta praticamente ninguém). Eu expus que existem soluções que não dependem de mandatos governamentais e generosidade estatal (solução de cima para baixo), mas de energia e recursos de pessoas comuns (solução de baixo para cima).

Ele então me perguntou como seria possível estimular pessoas comuns a resolver problemas de transporte de grandes cidades. Eu respondi que o governo não necessita estimular ninguém. O que é necessário é que se estipule as regras corretas do jogo. Alguns mercados são relativamente livres do estímulo governamental. Por exemplo, ninguém se preocupa muito como indivíduos (particulares) lidarão com a demanda volátil de tênis de basquete. A tecnologia e a performance do atual “Nike Lebron 10 Pressure” teria surpreendido Michael Jordan em 1992.

As pessoas que fazem parte de cada mercado possuem diferentes graus de competitividade e excelência. Esses não são adjetivos que descrevem planos governamentais em nível federal ou mesmo local. E embora o processo de mercado seja raramente preciso e limpo, é enormemente criativo. Tentativa e erro, lucro e prejuízo, podem ser processo bem desordenados, mas eles são a essência do desenvolvimento econômico.

Então se você quer encontrar uma forma de ter um trânsito de massas barato (tanto para os demandantes, como para os ofertantes), deixe as pessoas se mexerem! Isto é, permita a pessoas movidas pelo lucro, trabalhando dentro de regras que proíbem privilégios especiais (tais como permitir somente a um pequeno grupo de companhias de táxi lucrar pelo transporte de pessoas) exercitarem e competirem para encontrar novas soluções para novos problemas, seja no transporte público, nos tênis de basquete, na educação, na saúde ou em qualquer outro lugar.

Hoje na cidade de Nova York, as vans ilegais varrem a cidade atrás de passageiros, mas operam no limiar da lei. Seus clientes são, na sua maioria, pessoas com salários baixos que vivem distante das paradas dos trens e ônibus municipais e para quem o uso dos táxis monopolisticamente regulados está fora de questão. O economista Dan Klein tem escrito sobre como o uso generalizado desses táxis ilegais poderia resolver grande parte dos problemas de trânsito.

Radical e Construtivo

Para encontrar a solução para um problema, primeiramente, é necessário identificar corretamente o problema. Grandes rodovias e transporte ferroviário são na verdade antigas, padronizadas soluções em busca de problemas. A economia nos ensina que quanto mais complexa a ordem social é, é menos provável que soluções impostas politicamente funcionarão. Fazer políticos pensarem de maneira diferente enquanto lutamos contra interesses privados antigos e legalmente assegurados é difícil. Mas é necessário.

A realidade é que, para o transporte e outras tantas atividades, os governos locais irão provavelmente estar envolvidos de uma forma ou outra, quer queiramos ou não. Então, pequenas, menos destrutivas mudanças dentro do pensamento político dominante, tais como o modelo BRT em Chicago e Curitiba, podem ser uma leve melhoria – pequenos furos em uma antiga caixa mental.

Uma abordagem mais radical e construtiva seria para o governo ignorar interesses privilegiados completamente. Isso encorajaria os empreendedores – pessoas comuns com ideais extraordinárias – a encontrar formas lucrativas (de grande demanda e baixo custo) para transportar grandes números de pessoas para onde elas querem ir. Os governos locais necessitariam fazer mudanças nas regulações e legislação que daria a esses empreendedores uma chance de lutar. O desenvolvimento econômico tipicamente consiste de melhorias marginais que se acumulam no decorrer do tempo e preparam o crescimento explosivo. Quem sabe para que uma expansão dos serviços de táxis ilegais evoluirá logo ali à frente? Ninguém sabe – e essa é a questão.

Fortalecer a energia criativa e os recursos de pessoas comuns. Isso – e não uma fé cega – é a essência do mercado.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana. | Artigo Original


Sobre o autor

Sandy Ikeda

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de "The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).", é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).



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