Filosofia Karl Popper

Publicado em 2 de setembro de 2014 | por Jeremy Shearmur

Popper, Hayek e o liberalismo clássico

[O artigo abaixo foi escrito em 1989]

O autor gostaria de agradecer Sheldon Richman e Pamela Shearmur por seus comentários em uma versão anterior desse artigo.

Karl Popper, que completou 86 anos em julho do ano passado, é reconhecidamente famoso pela sua colaboração na filosofia da ciência. Quando jovem, Popper se inspirou pela forma que Einstein utilizou para questionar as ideias de Isaac Newton. Einstein propôs uma teoria que, se verdadeira, explicava a razão do sucesso do trabalho de Newton.  Não obstante, da teoria de Einstein poder-se-ia também deduzir consequências que diferiam daquelas da teoria de Newton; previsões que poderiam ser testadas.

Naquele momento, o livro Principia de Newton continha possivelmente a teoria científica mais bem confirmada de todos os tempos. Alexander Pope compôs o seguinte epitáfio para Newton:

A natureza e suas leis estavam escondidas nas trevas
Deus disse: Faça-se Newton! E fez-se a luz.

Dificilmente seria um exagero dizer que, à medida confirmações do trabalho de de Newton ficavam mais e mais impressionantes, um grande problema para os filósofos se tornou: como podemos explicar que, com base na experiência, temos conhecimento de verdades como a teoria de Newton?

Popper refletiu sobre o caráter do feito de Einstein, e foi conduzido a uma nova abordagem do desenvolvimento do conhecimento científico. Para Popper, a ciência é um produto não da indução, mas de um processo de conjectura e de refutação. A ciência, a qual é, para Popper, provavelmente a maior conquista cultural da humanidade sempre permanecerá conjectural no seu caráter; e os seres humanos são vistos como inelutavelmente falíveis.

Tudo isso levou Popper a adotar uma perspectiva mais geral de nossa condição. Popper vê os seres humanos, assim como outros animais, envolvidos na resolução de problemas. Nós temos várias expectativas e mecanismos “embutidos” pelos quais interpretamos o mundo ao nosso redor. Mas nossas expectativas e nossos mecanismos interpretativos são falíveis. Precisamos aprender por tentativa e erro. No entanto, ao contrário dos animais, é possível ao homem, utilizando-se das funções descritivas e argumentativas de sua linguagem para a construção de um mundo de cultura, fora de si mesmo, no qual [ele] é capaz de externalizar e, deste modo, criticar seu conhecimento. Como Popper frequentemente dizia, é por isso que os homens se diferem dos animais: porque é possível ao homem deixar que suas teorias morram em seu lugar.

Popper é também conhecido por seus escritos sobre filosofia política, notavelmente no livro A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos. Na obra escrita durante a 2ª Guerra Mundial, Popper inspirou-se em temas de sua filosofia da ciência. Ele criticou aqueles que, como Platão, desejavam reivindicar o poder alegando que tinham acesso ao conhecimento absoluto. Além disso, criticou aqueles como Marx, que tinham permitido que o seu humanitarismo essencial fosse canalizado em direção oposta à sociedade aberta, porque defendiam teorias falsas sobre o conhecimento e a história. Essa obra contém uma discussão crítica detalhada sobre Platão e Marx, além da própria análise de Popper sobre o assunto.

Popper está preocupado com a liberdade e o bem-estar de todos os cidadãos. Ele afirma que o funcionamento da democracia se assemelha muito ao espírito da comunidade científica. Para Popper, a política é uma questão da identificação de problemas e da formulação de soluções potenciais para eles. Tal como na ciência, deveríamos expor nossas conjecturas a críticas – à opinião e às reações críticas de todos os cidadãos – de forma que possamos identificar, de forma mais eficiente, qual é a raiz dos problemas.

Aprender com nossos erros

Quando Popper estava escrevendo o “A Sociedade Aberta”, ele considerou que o maior problema do pós-guerra seria a defesa dos ideais de uma sociedade livre contra os que viriam a questioná-la, tanto da direita, quanto da esquerda. Hoje, no entanto, podemos avaliar o trabalho de Popper com uma questão diferente em mente: qual forma de organização social melhor nos permitiria aprender dos seus insights sobre a falibilidade humana, além dos nossos próprios erros?

Considerado sob essa perspectiva, a obra de Popper não se encaixa facilmente nas abordagens convencionais à política. Popper, no momento que escrevia sua obra, mostrou grande simpatia pelos trabalhadores. Ele não tinha tempo para os conservadores que acreditavam que os trabalhadores eram impróprios para a cidadania, e também era crítico da política do “laissez faire”. Ao mesmo tempo, Popper enfatizou fortemente a importância dos mercados e da ação governamental, somente, por meios legais.

Bryan Magee, ex-membro do Partido Trabalhista Britânico, argumentou que “o Popper [jovem] lançou as bases filosóficas do que seria o socialismo democrático”. [1] E Popper tem sido aclamado como um tipo de padroeiro (secular) da social democracia por um número de importantes figuras políticas, especialmente na Alemanha Ocidental. [2] A própria Magee nota que as próprias visões de Popper mudaram e que hoje seria descrito como um liberal, no sentido original da palavra. Popper, na sua autobiografia, disse que “se pudesse haver algo como um socialismo com liberdade individual, eu ainda seria um socialista”.  [3]

Popper e Hayek na Mont Pelerin Society

Popper e Hayek na Mont Pelerin Society

Mas é o caso de que a lógica do argumento de Popper aponta em direção a uma em vez de outra forma de organização social? Eu acredito que, apesar da opinião do Popper [jovem], a lógica da sua argumentação aponta em direção a uma forma de organização social na qual o mercado desempenha um papel fundamental, enquanto que a política, um papel marginal. Assim, sugiro que a melhor forma de fazer uso das ideias de Popper sobre a política seria por meio daquelas ideias que foram defendidas por seu velho amigo, Friedrich Hayek. Popper influenciou Hayek e vice versa. Hayek nos disse que suas opiniões sobre a ciência foram consideravelmente modificadas como resultado de seu contato com Popper. E os escritos políticos de Popper parecem ter sofrido influência do trabalho de Hayek (novamente na sua apreciação da importância dos mercados e de um marco legal para a ação governamental). [4] Existem certamente temas comuns nos seus escritos. Ambos veem a liberdade humana e o bem estar como de fundamental importância. Ambos veem todos os seres humanos como falíveis, e concedem grande relevância à ideia de que, na elaboração das instituições sociais, deveríamos colocar um prêmio sob nossa habilidade de aprendizado. Ambos acreditam que, em uma sociedade afluente, temos obrigação de ajudar as pessoas em necessidade. E também reconhecem a importância de sermos capazes de mudar governos por meio das eleições, em vez de recorrermos somente à força.

Contudo, existem diferenças entre eles. Hayek vê o mercado e uma ordem constitucional liberal como um mecanismo, pelo qual os indivíduos podem aprendem por tentativa e erro. Para Popper, o aprendizado por tentativa e erro nas questões sociais é de responsabilidade do governo. Os políticos e os servidores públicos diagnosticariam nossos problemas, oferecendo soluções. A política democrática é considerada como um mecanismo pelo qual eles [políticos e servidores públicos] poderiam verificar se fizeram ou não um bom trabalho.

Mas qual é a forma mais efetiva por meio da qual podemos aprender no campo das questões sociais? Vamos contrastar o comportamento do empreendedor e do político.

O empreendedor deseja descobrir se está errado, se investiu incorretamente, para abandonar o projeto rapidamente, já que uma má ideia gerará prejuízo. Ele não pode vender suas más ideias (produtos) para as pessoas, pois, se não as considerarem de valor, simplesmente nada comprarão. E embora ninguém goste de descobrir que cometeu um erro, o empreendedor tem todos os incentivos a buscar o lucro em novos projetos. Da mesma forma, ele tem todos os incentivos para se aventurar em projetos ousados. Não há nada de errado nisso, pois somente os indivíduos que escolherem adotar sua ideia compartilharão o risco. E existem mecanismos excelentes que informam ao empreendedor quando ele cometeu um erro.

Por outro lado, temos o político. Quando você ouviu algum político, em período de eleição, admitir que tivesse cometido um erro? E se admitisse, seria perdoado? A menos que tivesse muita sorte, tal confissão o acompanharia até o seu leito de morte. Realmente, os políticos normalmente morrem abraçados aos seus erros. E, portanto, raramente admitem que estão errados. Se estiverem errados, tentaram encobrir os fatos. Se estiverem no poder, usarão os mecanismos governamentais para repassar seus erros à população, vendendo-os como sucessos. Acima de tudo, os políticos estão interessados no poder: e isso se aplica aos países democráticos, a sua popularidade e ao uso de linguajar politicamente correto. Depois de um ano de trabalho como diretor de estudos de um Instituto de Políticas Públicas, eu ainda me surpreendia pela indisposição dos políticos em dizer o que realmente sentiam sobre qualquer coisa, mesmo em conversas privadas.

Em um país no qual os governos desempenham um papel fundamental, muito do poder está nas mãos dos servidores públicos. Esses, embora dedicados ao seu trabalho, são vítimas da rotina. Simplesmente, não existem mecanismos para avaliação da necessidade real da participação governamental na prestação desses serviços.

Acima de tudo, é difícil dizer aos nossos mestres – sejam políticos ou servidores públicos – no que estão errando, ou qual deveria ser o trade-off, por exemplo, entre gastos e tributação.

Parece-me que a lição em tudo isso é que: i) não deveríamos deixar nas mãos do governo o que podemos fazer por outros meios e ii) deveríamos relutar em retirar o poder de decisão dos indivíduos sobre o que e como querem fazer as coisas, concedendo-o ao coletivo. Uma vez que o poder é transferido, as decisões não são mais tomadas pela forma mais efetiva: através dos indivíduos no livre mercado.

Muitos anos atrás, Hayek chegou à conclusão de que não era o socialismo (no qual tinha acreditado na adolescência), mas sim as instituições da tradição liberal clássica que trariam o maior bem estar para os cidadãos, especialmente os pobres. Parece-me que é a tradição do liberalismo clássico, como exemplificado na obra de Hayek, que também nos oferece o melhor modelo institucional para colocar em prática os insights de Karl Popper sobre a necessidade do aprendizado por tentativa e erro nas questões político-sociais.


1. Bryan Magee, Popper (London: Fontana Books, 1973), p. 84.

2. Cf. G. Luehrs et al. (eds.) Kritischer Rationalismus und Sozialdemokratie, I and II (Berlin and Bonn-Bad Godesburg, 1975, 1976).

3. Karl Popper, Unended Quest (London: Fontana Books, 1976), p. 115.

4. Popper faz referência a Hayek nas notas de rodapé de A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Jeremy Shearmur

O Dr. Shearmur era professor de filosofia na Australian National University até sua aposentadoria no fim de 2013. Trabalhou oito anos como assistente de Karl Popper.



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