Ciência Política A política nos torna piores

Publicado em 13 de maio de 2014 | por Aaron Ross Powell and Trevor Burrus

A política nos torna piores

Mesmo se tentarmos ignorar, a política influencia grande parte de nosso mundo. Para aqueles que prestam atenção, a política invariavelmente é abordada em jornais e TV e é discutida, muitas vezes exageradamente, em todo lugar que as pessoas se reúnem. A política pode pesar fortemente ao se formar amizades, na escolha de inimigos e na escolha de quem nós respeitamos.

Não é difícil entender por que a política desempenha um papel tão central em nossas vidas: a tomada de decisão política cada vez mais determina muito do que fazemos e como estamos autorizados a fazê-lo. Nós votamos no que nossos filhos aprenderão na escola e como será ensinado a eles. Votamos no que as pessoas estão autorizadas a beber, fumar e comer. Votamos em quais pessoas têm permissão para se casar com aqueles que amam. Em tais decisões cruciais da vida, assim como várias outras, temos dado à política um impacto substancial na direção de nossas vidas. Não me surpreendo que ela seja tão importante para tantas pessoas.

Mas realmente queremos viver em um mundo em que a política é tão importante em nossas vidas de tal forma que não podemos ajudar a sociedade exceto sendo politicamente ativos? Muitos, tanto da esquerda como da direita, respondem que sim. Um cidadão politicamente engajado não apenas irá tomar mais decisões democraticamente, mas também será uma pessoa melhor por isso. Da extrema-esquerda a neoconservadores, há uma percepção de que a virtude cívica é virtude – ou ao menos que individualmente não podemos ser completamente virtuosos sem exercer uma participação política forte. A política, quando suficientemente desvencilhada do cru individualismo e suficientemente apoiada por um regime ativamente democrático, nos torna pessoas melhores.

Ainda assim, o escopo crescente da política e da tomada de decisão política nos EUA e em outras nações ocidentais tem precisamente o efeito oposto. É algo ruim para as nossas políticas e, tão importante quanto, é ruim para as nossas mentes. A solução é simples: quando questões surgem sobre se o escopo da política deve ser ampliado, devemos olhar realisticamente aos efeitos que a própria política tem na qualidade dessas decisões e em nossa própria virtude.

A política pega um contínuo de possibilidades e o transforma em um pequeno conjunto de resultados discretos, geralmente apenas dois. Ou esse cara é eleito, ou o outro cara é. Ou uma dada política torna-se lei ou não. Como resultado, as escolhas políticas importam muito para aqueles que são mais afetados. Uma perda eleitoral é a perda de uma possibilidade. Essas escolhas preto-e-branco significam que a política geralmente irá produzir problemas que previamente não existiam, tais como o “problema” de se devemos ou não – como uma comunidade, como uma nação – ensinar às crianças sobre criacionismo ou evolução.

Estranhamente, muitos acreditam que a tomada de decisão política é uma forma igualitária de permitir que todas as vozes sejam ouvidas. Quase todo mundo pode votar, afinal de contas, e porque ninguém tem mais de um voto, o resultado parece justo.

Mas os resultados na política quase nunca são justos. Uma vez que as decisões são tomadas pelo processo político, os únicos cidadãos que podem afetar o resultado são aqueles com suficiente poder político. As minorias mais marginalizadas tornam-se aquelas cujas opiniões são muito raras para serem registradas no radar político. Em uma eleição com milhares de eleitores, um político é esperto em ignorar as queixas de 100 pessoas cujos direitos são esmagados dado o quão pouco provável esses 100 são para determinar o resultado.

O aspecto preto-e-branco da política também encoraja as pessoas a pensar em termos preto-e-branco. Não apenas partidos políticos surgem, mas seus apoiadores tornam-se parecidos com torcedores, com pessoas de famílias rivais ou com estudantes de escolas rivais. Nuances de diferenças em opiniões são trocadas por  dicotomias rígidas que são, em grande parte, pura invenção. Portanto, de um lado geramos o partido “sem regulação, que odeia o meio ambiente e as pessoas pobres” e o partido “socialista, do estado-babá, que odeia os ricos” – e as discussões raramente vão além disso.

Política como essa não é melhor que os argumentos entre torcedores de times rivais, e geralmente são piores porque a política é mais moralmente carregada. A maioria dos americanos se encontra comprometida ou com o time vermelho (Republicanos) ou com o time azul (Democratas) e aqueles do outro time não são meramente rivais, mas representam tudo o que há de mal no mundo. A política geralmente coloca seus participantes em mortíferos conflitos sem sentido, já que eles lutam com o  rival não sobre diferenças legítimas de opinião política mas em uma batalha apocalíptica entre virtude e vício.

Como chegamos a isso? Republicanos e Democratas possuem opiniões completamente dentro da esfera do discurso político aceitável, com a posição de cada lado possuindo o apoio de aproximadamente metade de seus concidadãos. Se pudermos ver além dos cegos maniqueístas do partidarismo, ambos lados tem visões sobre o governo e a natureza humana que são ao menos compreensíveis para as pessoas normais de disposições normais – compreensíveis, isto é, no sentido de “eu posso entender como alguém pode pensar assim”. Mas, quando você adiciona a política à mistura, diferenças simples e modestas de opinião tornam-se a diferença entre aqueles que querem salvar os EUA e aqueles que desejam destruir o país.

Esse comportamento, embora espantoso, não deveria nos surpreender. Psicólogos tem mostrado há décadas como as pessoas tendem a mentalidades de grupo que podem torná-las completamente hostis. Eles tem demonstrado como a forte identificação de grupo cria erros sistemáticos de raciocínio. Seus “colegas de time” são estimados com padrões menos exigentes de competência, enquanto os do outro time são considerados muitas vezes presumidamente mentirosos e agindo por motivos desprezíveis. Essa é outra forma em que a política nos torna piores: enfraquece nosso pensamento crítico sobre as escolhas à nossa frente.

O que é preocupante sobre a política de uma perspectiva moral não é que ela encoraja mentalidades de grupo, já que várias outras atividades encorajam pensamento de grupo similares sem levantar preocupações morais significativas. Mas é a forma que a política interage com a mentalidade de grupo, criando um feedback negativo levando diretamente ao vício. A política, quase sempre, nos faz odiar uns aos outros. A política nos encoraja a comportar-se em relação a outros de forma que, se ocorresse em outro contexto, nos sentiríamos mal. Nenhuma pessoa verdadeiramente virtuosa deve se comportar como a política frequentemente nos leva a nos comportar.

Enquanto podemos ser capazes de alterar levemente como as decisões políticas são feitas, não podemos mudar a natureza essencial da política. Não podemos adaptá-la à visão utópica de boas políticas e cidadãos virtuosos. O problema não são os insetos no sistema, mas a própria natureza da tomada de decisão política. A única forma de melhorar tanto o nosso mundo como nós mesmos – promover boas políticas e a virtude – é abandonar, ao maior grau possível, a própria política.

// Tradução de Robson Silva. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

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Sobre o autor

Aaron Ross Powell

Aaron Ross Powell é pesquisador e editor do Libertarianism.org, um projeto do CATO Institute

Trevor Burrus

Trevor Burrus é um membro pesquisador no Centro de Estudos Constitucionais do Cato Institute. Ele tem graduação em Filosofia pela University of Colorado em Boulder e Doutor em Direito pela University of Denver Sturm College of Law. Sua áreas de pesquisa incluem direito constitucional, civil e criminal, filosofia política e filosofia do direito, e história do direito.



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