Ciência Política despair

Publicado em 9 de dezembro de 2014 | por Stephen Hicks

A política esquizofrênica – sexo, saúde, religião, dinheiro e outras coisas importantes

Esquizofrênico, adjetivo: de, relacionado a, ou caracterizado pela coexistência de elementos incompatíveis ou antagônicos.

Vamos falar sobre uma razão pela qual a política nos torna um pouco loucos – sua mistura incoerente de leis e regulamentações. (Aviso: metáfora exagerada à frente) Não somente a mão esquerda com frequência não sabe o que a direita está fazendo: as duas frequentemente apontam em direções opostas. Punem e afagam ao mesmo tempo.

O que os governos deveriam fazer?

Uma resposta baseada em princípios: “O propósito do governo é administrar a saúde da nação”. Podemos tomar esse princípio e refletir sobre o fato que existem muitas pessoas obesas nos Estados Unidos. E poderíamos então propor um conjunto de políticas para resolver o problema. Abaixo estão três soluções possíveis:

  • O governo deveria tornar obrigatório o exercício em grupo, todos os dias.
  • Nós podemos oferecer subsídios às academias de forma a encorajar as pessoas a se exercitarem mais, ou obrigar que as pessoas se cadastrem em academias, cobrando um imposto caso se neguem a fazê-lo.
  • O governo deveria banir alimentos e bebidas que engordam.

Dissidentes serão contra essas medidas. Argumentarão que a saúde é uma questão de responsabilidade pessoal e que deveríamos deixar as pessoas livres para fazer suas próprias escolhas.

Contudo, a política publica atual está se afastando da postura da “não interferência”. Nosso governo há muito implantou controles sobre o álcool, tabaco e outros estimulantes; há muito estabeleceu padrões nutricionais para alimentos e bebidas; está pagando cada vez mais por serviços médicos e farmacêuticos a uma parcela maior da população; e agora está obrigando a cobertura de seguro. A saúde administrada pelo Estado está em alta na agenda de políticas públicas.

Agora suponha que modifiquemos o assunto de saúde para religião. Dizemos, em vez disso: “O propósito do governo é administrar a vida religiosa da nação”. Podemos tomar esse princípio e refletir sobre o fato que existem muitas pessoas religiosas – ou muitas pessoas descrentes. Então, novamente, propomos políticas específicas para resolver a saúde espiritual da nação:

  • O governo deveria obrigar a participação religiosa.
  • O governo poderia cobrar uma taxa daqueles que não fossem à igreja, sinagoga, mesquita, templo ou santuário.
  • O governo deveria oferecer subsídios às construtoras que se especializam na construção de templos religiosos.

Ou, do outro lado do debate:

  • O governo deveria tributar as instituições religiosas para desalentar os religiosos.
  • O governo deveria reduzir as cotas de imigração de nações conhecidas pela religiosidade.
  • O Departamento da Educação deveria aumentar o número de barreiras que as instituições de educação religiosa devem superar de maneira a obter licença para operar.

É claro, nenhuma dessas propostas estão na agenda política, já que toca no assunto religião, no qual não se deve interferir. Na maioria dos casos, concordamos que a religião é uma questão de responsabilidade pessoas e que deveríamos deixar as pessoas livres para fazerem suas próprias escolhas. Então, controlar a religião não é prioridade na agenda política.

Mas suponha, novamente, que modifiquemos o assunto – de religião para sexo – e digamos como questão de princípio: “O objetivo do governo é administrar a vida sexual da nação”. Refletimos sobre os fatos de que (1) o sexo leva à gravidez e que (2) as taxas de natalidade afetam a taxa de crescimento da população. E talvez queiramos encorajar o crescimento da população, então argumentamos:

  • O governo deveria obrigar que todas as pessoas estejam casadas até os 25 anos.
  • Deveria ser permitido a bares e boates ficarem abertos até mais tarde, de forma que mais pessoas ficassem embriagadas, facilitando a pegação.

Ou talvez pensamos que a superpopulação é um problema, então propomos:

  • O governo deveria subsidiar os fabricantes de preservativos.
  • Bares e boates, aqueles antros de pecado e luxúria, deveriam ser fechadas às 9 da noite.

Ou talvez estejamos ultrajados pela distribuição desigual de favores sexuais – 1% recebe muito e 99%, não. Então, demandamos novas regulamentações:

  • A relação sexual será organizada de uma forma mais igualitária.

Todas as propostas supracitadas soam estranhas aos ouvidos dos americanos contemporâneos (para a maioria deles, em todo caso) e, consequentemente, nenhuma das leis propostas estão na agenda ou tem alguma possibilidade de estar no curto prazo.

Mas suponha que modifiquemos o assunto novamente – de sexo para economia. Nós dizemos, como uma questão de princípio: “O propósito do governo é administrar a economia da nação”.

Portanto:

  • Empresas importantes deveriam receber subsídios.
  • A Comissão Federal de Comércio deveria monitorar o conteúdo da publicidade comercial.
  • A política de imigração do governo deveria determinar quais estrangeiros as empresas podem contratar.
  • As políticas fiscais da Receita Federal deveriam ser usadas para desencorajar ou encorajar as empresas nacionais.
  • A Comissão para a Não-Discriminação do Trabalho pode regular os termos dos contratos trabalhistas.
  • E assim por diante.

De uma hora para outra, toda e qualquer ferramenta disponível ao governo será utilizada no controle ativo da economia.

A questão é que temos uma política esquizofrênica. Se o assunto é religião ou sexo, nossa política é majoritariamente liberal, laissez-faire. Contudo, se o assunto é saúde ou dinheiro, nossa política é paternalista e autoritária. Alguns de nós dizemos: sim, administrem o dinheiro das pessoas – mas não se metam na minha vida sexual. Outros dizem: sim, administrem a saúde física das pessoas, mas me deixem livre para buscar minha espiritualidade. Portanto, em linhas gerais, há uma incoerência entre o discurso político e a prática.

A incoerência é impulsionada por duas forças: uma ideológica estrutural e outra democrática do dia-a-dia.

O debate ideológico é entre duas filosofias políticas antagônicas: uma delas concorda que o sexo, a saúde, a religião e o dinheiro são, primariamente, responsabilidades individuais e o proposito do governo é estabelecer as condições de liberdade dentro das quais nós, como indivíduos, podemos fazer nossas próprias escolhas. Não é mais o trabalho próprio do governo administrar nossa vida econômica que administrar nossa vida amorosa, nossas crenças religiosas ou nossa saúde. Todas são questões importantes, interligadas, que os indivíduos devem administrar por conta própria.

A outra argumenta o oposto: tudo é primariamente uma questão de responsabilidade social ou coletiva, o propósito do governo é administrar as funções importantes da sociedade. Não existe uma distinção de princípios entre sexo, saúde, dinheiro e religião. Todas estão interligadas, e todas são importantes, portanto todas estão propriamente sujeitas ao controle governamental.

Na política democrática diária, a maioria dos eleitores e políticos está em uma posição intermediária – mesclando posições de forma semi-consistente – e o dar e receber do lobismo e da troca de favores leva à mistura de políticas reais. Um partido político chega ao poder e aprova uma lei de compromisso, a qual é parcialmente refeita e parcialmente redirecionada depois da próxima eleição quando outro partido chega ao poder.

Para chegarmos a uma solução, o primeiro passo é reconhecer o problema.

A saúde psicológica de cada indivíduo requer que tenhamos uma perspectiva coerente da vida e que ajamos de forma consistente com as nossas crenças. Os indivíduos que não sabem o que defendem, ou que possuem um conjunto de objetivos conflitantes, ou que agem de forma randômica – não podem alcançar sucesso na vida. A vida requer uma ação baseada em princípios, de longo prazo.

O mesmo se aplica à saúde política. A política é uma das condições que permitem que os indivíduos vivam bem, diminuindo a loucura com a qual nos deparamos no processo de identificação de princípios e na sua aplicação consistente.

Então, uma tarefa de casa para todos nós que se preocupam com política (e um assunto para outra coluna): qual é o primeiro passo, o mais importante, para se alcançar consistência na política? Deveríamos focar na educação – nossa e de todos a como pensar sobre os princípios políticos? Deveríamos focar no ativismo – agindo diretamente na mudança das piores leis inconsistentes? Ou na confusão de interesses conflitantes que é a política democrática, é possível maior consistência?

// Traduzido por Matheus Pacini. Revisado por Russ da Silva | Artigo original.


Sobre o autor

Stephen Hicks

Stephen Hicks é professor de Filosofia na Rockford University em Illinois. Ele é o autor de "Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault" (Scholargy Publishing, 2004). Ele pode ser contactado pelo seu website.



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