Segurança favela da rocinha

Publicado em 3 de abril de 2014 | por James Q. Wilson

A pobreza e o crime

Durante os anos 70 e 80, praticamente nenhuma manchete jornalística sobre o aumento da criminalidade deixou de mencionar que ele era fortemente ligado ao desemprego e à pobreza. O argumento era direto: com os empregos formais sumindo, trabalhos ilegais ocuparam o espaço. Alguns estudiosos concordaram. O prêmio Nobel de Economia, Gary Becker, da Universidade de Chicago, desenvolveu uma teoria poderosa de que o crime era racional – que uma pessoa cometeria um crime se a utilidade esperada excedesse aquela de usar seu tempo e recursos em outras atividades, tais como o lazer ou o trabalho legalizado. A observação parece sustentar tal teoria; acima de tudo, bairros com elevadas taxas de criminalidade tendem a ser aqueles onde a pobreza e o desemprego abundam.

Mas a noção de que o desemprego causa o crime possui alguns problemas óbvios. Primeiro, os anos 60, uma década com criminalidade crescente, havia essencialmente a mesma taxa de desemprego que a vista no final dos anos 90 e início dos anos 2000, um período onde a criminalidade diminuiu. Além disso, durante a Grande Depressão, quando o desempregou chegou a 25%, a taxa de criminalidade em muitas cidades caiu. (Sim, é verdade que estatísticas nacionais sobre a criminalidade não eram muito úteis nos anos 30, mas estudos baseados nos registros da polícia local e de pesquisadores como Glen Elder também tem encontrado uma queda na criminalidade). Entre as explicações oferecidas para esse “mistério” é que o desemprego e a pobreza eram tão comuns durante a Grande Depressão que as famílias aproximaram-se, devotando-se à ajuda mútua, mantendo os jovens, que poderiam estar mais inclinados ao comportamento criminoso, sob constante supervisão adulta. Nos dias de hoje, por causa das famílias serem mais fracas (desunidas) e as crianças mais independentes, nós não veríamos o mesmo efeito, por isso, certos criminologistas continuam a sugerir que um aumento de 1% na taxa de desemprego deveria produzir um aumento de, aproximadamente, 2% nas taxas de crimes contra propriedade.

Mesmo assim, quando a recente recessão começou, isso não aconteceu. Na medida que a taxa de desemprego nacional dobrou de 5% para 10%, a taxa de crimes contra a propriedade, longe de aumentar, caiu significativamente. Para o ano de 2009, o FBI comunicou uma queda de 8% na taxa nacional de roubos e uma redução de 17% na taxa de roubo de carros em relação ao ano anterior. Relatórios de grandes cidades mostram a mesma coisa. Entre 2008 e 2010, Nova Iorque experimentou uma declínio de 4% na taxa de roubos e uma queda de 10% na taxa de arrombamentos. Boston, Chicago e Los Angeles testemunharam quedas similares. Os últimos números do FBI, para 2010, mostram que a taxa nacional de crime caiu novamente.

Alguns estudiosos argumentam que a taxa de desemprego é uma medida muito crua de frustração econômica para provar a conexão entre o desemprego e o crime (criminalidade), dado que avalia somente uma percentagem da força de trabalho que está buscando trabalho e não encontrou. Mas outros indicadores econômicos contam a mesma história. A taxa de participação da força de trabalho nos permite determinar a porcentagem da força de trabalho que não está nem trabalhando, tampouco buscando trabalho – indivíduos que são, na verdade, separados da força de trabalho. Essas pessoas deveriam estar especialmente vulneráveis a inclinações criminosas, se a teoria de que uma economia em dificuldade leva ao crime é realmente verdade. Em 2008, contudo, mesmo com a queda do crime, aproximadamente metade dos homens na faixa etária de 16 à 24 anos (que seriam desproporcionalmente inclinados a cometer crimes) estavam no mercado de trabalho, uma queda de dois-terços em relação a 1988, e um declínio semelhante ao que ocorreu entre os homens afro-americanos (que são também seriam desproporcionalmente mais propícios a cometer crimes).

O Índice de Expectativa do Consumidor da Universidade de Michigan oferece outra forma de avaliar a ligação entre a economia e o crime. Essa medição apoia-se em milhares de entrevistas que perguntaram às pessoas como sua situação financeira mudou no decorrer do ultimo ano, como pensam que a economia se sairá durante o próximo ano, e sobre seus planos de compra de bens duráveis. O índice mede a forma pela qual as pessoas sentem, ao invés das condições objetivas que enfrentam. Ele provou ser um bom prognosticador do comportamento do mercado de ações e, por algum tempo, da taxa criminal, a qual tendia a subir quando as pessoas perdiam sua confiança. Quando o índice teve uma queda drástica em 2009 e 2010, o mercado de ações previsivelmente teve o mesmo comportamento – mas dessa vez, a taxa de crimes caiu, também.

Então, temos poucas razões para atribuir a queda recente na criminalidade a empregos, o mercado de trabalho, ou a expectativa dos consumidores. Mas a questão permanece: por que a criminalidade está caindo?

Uma resposta óbvia é que mais pessoas estão na prisão em relação ao passado. Os experts diferem no tamanho do efeito, mas eu acho que William Spelman e Steven Levitt acertam em acreditar que o maior encarceramento pode explicar um-quarto ou mais do declínio da criminalidade. Sim, muitos observadores atentos entendem que colocamos muitos transgressores na prisão por muito tempo. Para alguns criminosos, tais como pequenos traficantes de drogas e antigos presidiários que retornaram à prisão por crimes cometidos no período de liberdade condicional, isso até pode ser verdade. Mas também é verdade, contudo, que quando os prisioneiros são mantidos longe das ruas, eles podem atacar somente uns aos outros, não você ou a sua família.

O efeito das detenções na redução da criminalidade ajuda a explicar porque os arrombamentos, os roubos a carros e as taxas de assaltos são menores nos Estados Unidos do que na Inglaterra. A diferença surge não da vontade de enviar criminosos condenados para a prisão, a qual é a mesma em ambos os países, mas a quantidade que os Estados Unidos mantem atrás das grades. Pela mesmo crime, você ficará mais tempo na prisão aqui do que na Inglaterra. Ainda assim, a prisão não pode ser a única razão pela queda na criminalidade recente nesse país: o Canadá tem vivenciado taxas de declínio semelhantes, mas sua taxa de aprisionamento tem sido relativamente estável pelo menos nas ultimas duas décadas.

Outra razão possível para a redução da criminalidade é que as vitimas potenciais podem ter se tornado melhores em se defender por meio da instalação de alarmes em suas casas, bloqueios diversos em seus carros, mudando-se para casas mais seguras, até mesmo para vizinhanças mais seguras. Nós temos somente uma tênue ideia, contudo, sobre quão comum essas tendências são ou quais efeitos sobre o crime elas podem ter.

A ação policial, como os leitores do City Journal sabem, tornou-se mais disciplinada ao longo das ultimas duas décadas; hoje em dia, ela tende a ser movida pelo desejo de reduzir o crime, ao invés de simplesmente maximizar prisões, e essa mudança tem reduzido as taxas de criminalidade. Uma das mais importantes inovações é o que tem sido chamado “verificação policial de zona perigosa”. A grande maioria dos crimes tende a ocorrer nos mesmos lugares. Aloque recursos policiais ativos naquelas áreas ao invés de mandar os policiais darem voltas por aí esperando por ligações do 911 (telefone da polícia nos EUA), e você reduzirá a criminalidade. A ideia da verificação de zonas perigosas ajudou a tornar o programa Compstat, do Departamento de Policia de Nova Iorque – seus sistemas de planejamento e responsabilidades, os quais, usando mapas computadorizados, localizam com precisão onde a criminalidade está ocorrendo e permite aos comandantes de polícia manter os chefes de polícia distritais com a responsabilidade por vistoriar aquelas áreas – de forma efetiva.

Pesquisadores continuam a testar e refinar o policiamento focado. Por exemplo, os criminologistas Lawrence Sherman e David Weisburd, depois da analisar dados de mais do que 7000 registros policiais em vários locais de Mineapolis, mostraram que para cada minuto que um policial gastou em um local específico, o período de tempo sem um crime lá depois que o policial foi embora cresceu – até se passar 15 minutos. Depois desse intervalo, a criminalidade voltou a crescer. A polícia pode fazer melhor uso do seu tempo ficando em um local por um tempo, saindo dali, e retornando após 15 minutos.

Algumas cidades hoje usam um sistema computadorizado para mapear os acidentes de trânsito e as taxas de criminalidade. Elas perceberam que as duas medidas tendem a coincidir: onde ocorrem mais acidentes, existe maior criminalidade. Em Shawnee, Kansas, a polícia gastou muito mais tempo em cerca de 4% da área da cidade, onde um terço dos crimes ocorria: houve então uma queda de 60% na criminalidade daquela área (mesmo que na cidade como um todo, ela tenha caída somente 8%), e os acidentes de trânsito caíram 17%.

Pode existir também uma razão médica para o declínio da criminalidade. Por décadas, os doutores sabem que crianças com chumbo no seu sangue tem probabilidade muito maior de serem agressivas, violentas e delinquentes. Em 1974, a Agência de Proteção Ambiental requereu que as companhias petrolíferas parassem de adicionar chumbo à gasolina. Ao mesmo tempo, o chumbo nas tintas foi banido para a pintura de novas casas (embora construções antigas ainda possuam pintura com chumbo, as quais podem ser absorvidas pelas crianças). Testes mostraram que a quantidade de chumbo no sangue dos norte-americanos caiu 4/5 entre 1975 e 1991. Um estudo conduzido pelo economista Rick Nevin, no ano de 2000, sugeriu que a redução do chumbo na gasolina foi responsável por mais da metade do declínio de crimes violentos durante os anos 90. Um estudo posterior de Nevin afirma que isso também sucedeu em outras nações. A economista Jessica Wolpaw Reyes argumenta no mesmo sentido (uma das estranhezas sobre esse fascinante argumento ainda tem de ser explicada: porque a redução relacionada ao sangue não contaminado com chumbo incluía somente crimes violentos, e não crimes contra a propriedade).

Ainda outra mudança adicional que provavelmente ajudou a reduzir a criminalidade é a queda no número de viciados em cocaína em muitos estados. Medir o consumo de cocaína não é uma tarefa fácil; a pessoa tem de inferi-lo por meio de entrevistas ou taxas de hospitalização. Entre 1992 e 2009, o numero de internações relacionadas ao uso da cocaína e do crack caiu aproximadamente em 2/3. Em 1999, 9,8% dos estudantes da 12º série disseram que ele tinha provado cocaína; em 2010, essa porcentagem havia caído para 5.5%

O que nós realmente precisamos saber, não é quantas pessoas provaram maconha, mas quantos são viciadas. Usuários casuais que consideram a cocaína como uma droga de festa são menos prováveis a cometer crimes reais do que viciados que podem recorrer ao roubo e a violência para alimentar seu vício. Mas um estudo feito por Jonathan Caulkins da Carnegie Mellon University verificou que a demanda total por cocaína caiu de 1988 a 2010, com um declínio acentuado entre usuários leves e viciados. Essa queda na demanda pode ajudar a explicar porque a cocaína se tornou mais barata, apesar dos esforços intensivos da policia focados em interromper a distribuição. Os mercados ilegais, como os legais, cortam preços quando a demanda cai.

Os negros ainda constituem o núcleo do problema da criminalidade nos Estados Unidos (veja “O Sistema Judicial Criminal é Racista?” Primavera 2008). Mas a taxa de criminalidade entre os afro-americanos, também, tem caído, provavelmente porque os mesmos fatores não-econômicos por trás da queda na criminalidade em geral: prisão, policiamento, mudanças climáticas e menos abuso de cocaína.

Saber a taxa exata de criminalidade de qualquer grupo étnico ou racial não é fácil, dado que a maioria dos crimes não resulta em prisão ou condenação, e aqueles que sim podem ser uma fração inexpressiva de todos os crimes. Contudo, nós realmente sabemos as características raciais daqueles que foram presos por crimes, e elas mostram que o numero de negros presos tem caído. Barry Latzer do departamento de justiça criminal do John Jay College demonstrou que entre 1980 e 2005, as prisões de negros por homicídio e outros crimes violentos caíram pela metade a nível nacional.

Também é sugestivo que nos cinco distritos policiais de Nova Iorque onde a população é, pelo menos, 80% negra, a taxa de assassinatos caiu 78% entre 1990 e 2000. Nas vizinhanças negras de Chicago, a qual continua sendo uma cidade mais violenta do que Nova Iorque, os arrombamentos caíram em 52%, roubos, 62% e homicídios em 33% entre 1991 e 2003. Um cético pode contestar que todos esses ganhos aparentes foram meramente o resultado da desistência dos policiais de registrar crimes em vizinhanças negras. Mas o cético teria dificuldades para explicar porque as pesquisas de opinião em Chicago mostram que, entre os negros, o medo de crimes caiu pela metade durante o mesmo período.

Uma pessoa pode citar mais evidencias de uma mudança na criminalidade cometida por negros. Pesquisadores no Gabinete Federal de Justiça Juvenil e Prevenção à Delinquência encontraram que em 1980, as prisões de jovens negros excederam em numero a dos brancos por mais de 6 por 1. Em 2002, a diferença tinha sido próxima a 4 por 1.

O uso de drogas entre negros mudou ainda mais drasticamente do que entre a população como um todo. Como Latzer aponta – e seu argumento é corroborado por um estudo de Bruce D. Johnson, Andrew Golub e Elois Dunlap – entre 13.000 pessoas presas em Manhattan entre 1987 e 1997, um numero desproporcional daqueles que eram negros, aqueles nascidos entre 1948 e 1969 estavam muito envolvidos com cocaína e crack, mas aqueles nascidos depois de 1969 usavam pouco crack e, ao invés disso, fumavam maconha. A razão era simples: os jovens afro-americanos tinham conhecido muitas pessoas que usaram crack e outras drogas pesadas e acabaram na prisão, hospital e necrotérios. Os riscos de usar maconha eram muito menos graves. Essa mudança no consumo da droga, se a experiência de Nova Iorque é replicada em outras localidades, pode ajudar a explicar a queda nas taxas de criminalidade na periferia depois do inicio dos anos 1990.

John Donohue e Steven Levitt proporam uma explicação adicional (e polêmica) para a redução no crime dos negros: a legalização do aborto, o qual resultou em que as crianças negras nunca tivessem nascido em circunstancias que iriam torná-los mais predispostos a se tornar criminosos. Eu ignoro essa explicação porque ela já foi contestada por dois economistas do Federal Reserve de Boston e por vários acadêmicos.

Em nível mais profundo, muitas dessas mudanças, reunidas, sugerem que a criminalidade nos Estados Unidos está caindo – no mesmo nível que o maior declínio econômico desde a Grande Depressão – porque tivemos uma grande melhoria na cultura. O argumento cultural pode parecer para alguns vago, mas os escritores confiaram nele no passado para explicar tanto a queda na criminalidade durante a Grande Depressão e a explosão criminosa dos anos 60. No primeiro período, por essa perspectiva, as pessoas levaram a sério o autocontrole; na segunda, a auto-expressão custeada pela sociedade – tornou-se um fator prevalecente. É um argumento plausível.

A cultura cria um problema para cientistas sociais como eu, contudo. Nós não sabemos como estudá-la de uma forma que produz números sólidos e teorias comprovadas. A cultura é o domínio dos romancistas e biógrafos, não de cientistas sociais buscando informações. Mas nós podemos nos confortar, talvez, refletindo que identificar as causas prováveis da queda da criminalidade é ainda mais importante do que precisamente medi-la.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Adriel Santana | Artigo Original


Sobre o autor

James Q. Wilson

(1931-2012), Ex-professor na Universidade de Harvard e na UCLA, escreveu inúmeros livros, inclusive os best-sellers The Moral Sense e The Marriage Problem. Trabalhou como chairman da força tarefa de combate ao crime da Casa Branca em 1966 e da Comissão Nacional de Prevenção ao Abuso de Drogas entre 1972 e 1973. Membro da Academia Americana de Artes e Ciência, Wilson recebeu a comenda mais alta do seu país, a Medalha da Liberdade, em Julho de 2003.



Voltar ao Topo ↑