Economia verdun

Publicado em 24 de dezembro de 2014 | por Stephen Davies

De Pensilvânia a Verdun: Friedrich List e as origens da Primeira Guerra Mundial

Ideias Econômicas Ruins Podem Causar Destruição em Massa

A Primeira Guerra Mundial, ou a “Grande Guerra” (como a maioria dos europeus a chamam), foi um dos maiores desastres da história humana. Não somente matou e mutilou milhões, a nata de uma geração, também destruiu o sistema liberal e cosmopolita que tinha sido criado no século dezenove. Além disso, também foi a causa direta da Revolução Bolchevique de 1917 e a ascensão ao poder de Hitler em 1933, e todas as consequências terríveis que se seguiram desses eventos, e não menos importante, outra guerra ainda mais terrível. Em muitas formas, nós apenas começamos a nos recuperar de seus efeitos.

Tudo isso torna as origens da guerra um motivo de preocupação para todos nós. Uma parte central da explicação vale a pena repetir: o papel desempenhado por ideias econômicas ruins, e em especial as ideias de um homem. Esse homem, um professor alemão calmo e de óculos, verdadeiramente pode ser visto como o progenitor da grande catástrofe de 1914-1918. Seu nome era Friedrich List.

List (1789-1846) era um professor de economia política em Tubingen. Um liberal em política, ele foi forçado a deixar Wurtemburg em 1825 e emigrou, como vários de seus concidadãos, para a Pensilvânia. Lá tornou-se jornalista. Ele também tornou-se familiarizado com a distinta tradição americana do nacionalismo econômico e seu principal defensor, Henry Charles Carey. Em 1827, List publicou o livro Outlines of American Political Economy. Depois de seu retorno à Alemanha em 1832, ele desenvolveu melhor suas ideias em seu principal trabalho, The National System of Political Economy (1841). List se matou em 1846 quando era doente terminal, mas suas ideias viveram e tiveram enorme influência.

Por volta de 1850, a questão crucial para todos os estadistas era qual seria a melhor rota para a modernidade econômica. O principal modelo era o que foi apresentado por economistas clássicos como Smith, Ricardo e Say, baseado na experiência histórica da Grã-Bretanha. As prescrições principais eram por um governo honesto e eficiente porém limitado, e fundamentado por decisões de investimento privado e o livre comércio. Essa era a política seguida por economias de sucesso, tais como a Grã-Bretanha, Bélgica, França (depois de 1830) e boa parte da Alemanha. Os maiores contraexemplos foram os Estados Unidos (em política de comércio) e o despótico Paraguai. Foram esses que atraíram List.

List argumentou que a política de livre comércio e governo limitado de Adam Smith era impraticável, utópica e perigosa. Sua ideia central era que as nações, que ficam entre a espécie humana e o indivíduo, eram os atores reais na história e na economia. Assim, os seus interesses são fundamentais. Em um mundo de nações competidoras, o propósito primário do comércio e produção é o poder máximo e prosperidade para os cidadãos de cada nação.

List argumentou que era melhor para uma nação ter um setor industrial e de bens de capital forte ao invés de se basear em agricultura, serviços ou matéria-prima, mesmo se o retorno for menor no médio ou curto prazo. Isso significa que a indústria tinha que ser protegida da competição estrangeira e que o capital tinha que ser forçado politicamente ou induzido em direção ao setor industrial. Ele não era contra comércio como tal, mas argumentava que ele apenas podia existir entre nações iguais em desenvolvimento econômico. De outra maneira, nações devem buscar importar matéria-prima e exportar bens industrializados.

Essas ideias tornaram-se cada vez mais influentes, particularmente em sua terra natal, Alemanha, depois da ascensão de Bismarck. Por volta de 1878, quando o livre comércio foi finalmente abandonado, todo o programa Listiano tinha sido adotado. Os elementos essenciais eram a proteção para a indústria e a agricultura; o fornecimento estatal da infraestrutura; e a direção estatal e encorajamento de investimento através de empréstimos “leves”, garantias e até investimento direto. A indústria pesada era particularmente encorajada. Também importante foi um sistema de assistência social e educação estatal, ambos pretendidos a promover a consciência nacional e lealdade. Um grande establishment militar também foi importante.

À primeira vista, essa política aparentemente era um sucesso. A Alemanha cresceu rapidamente e por volta de 1900 era a segunda maior produtora de ferro e a maior produtora de produtos químicos.

Entretanto, vários problemas sérios apareceram. Uma parte central da política era o investimento direto ao reduzir artificialmente o custo e inflacionando os retornos de certos tipos de investimento. Isso gerou malinvestiments substanciais e várias atividades econômicas fundamentalmente não rentáveis; isto é, a produção não podia ser vendida a um preço que geraria retorno. Isso se tornou pior porque a demanda doméstica foi reprimida por taxas, tarifas e preços altos, para que o processo dependesse crescentemente da exportação (particularmente à Grã-Bretanha, que se manteve leal ao livre comércio). Mas isso tornou-se difícil à medida que o protecionismo tornou difícil que outros países dessem bens em troca de produtos.

Além disso, o “sucesso” da Alemanha levou a muitas outras nações a seguirem seu caminho, notavelmente a Itália e, acima de tudo, a Rússia. O fechamento desses mercados a bens alemães levou a um conflito crescente. O efeito de tudo isso foi que os empréstimos que o estado tinha garantido tornaram-se menos sólidos e a posição fiscal do governo alemão deteriorou-se bruscamente, ao ponto de que na primavera de 1914 o governo estar encarando a possibilidade de cortes maiores, especialmente na marinha.

Mudança de Percepção

O resultado mais sério das ideias de List, entretanto, foi uma mudança na percepção e na opinião das pessoas. Ao invés de ver o comércio como um processo cooperativo de benefício mútuo, políticos e empresários vieram a considerá-lo como uma batalha entre vencedores e perdedores. Os líderes alemães, ao invés de ver o rápido crescimento russo depois de 1890 como uma oportunidade e benção, agonizaram sobre ele como uma terrível ameaça. Sua resposta era a ideia de “MittelEuropa”, uma união alfandegária incluindo a Alemanha, Áustria-Hungria e os Bálcãs, que abasteceriam a Alemanha com matéria-prima enquanto forneciam um mercado cativo. Os líderes também defenderam colônias fora da Europa e uma marinha de “mar aberto”. Isso provocou uma resposta semelhante e hostil de outras potências, especialmente da Rússia. O resultado foi uma batalha de imperialismos nos Bálcãs, e em Julho de 1918 a elite alemã tomou a (insanamente tola) decisão de lutar uma guerra contra a Rússia e a França. Se eles vissem o mundo de forma diferente isso não teria acontecido.

As ideias de Friedrich List têm sido amplamente seguidas atualmente, no Japão e no Extremo-Oriente por exemplo. Os resultados tem sido os mesmos: crescimento rápido, seguido por excesso de investimento, retornos decrescentes e crises fiscais e/ou monetárias. A visão geral do que essas ideias geram ainda é comum no Estados Unidos, como indicam os comentários sobre o rápido crescimento da China. Devemos devotamente esperar que os líderes atuais não façam os mesmos tipos de erros que os discípulos alemães e russos de List fizeram nos anos antes de 1914.

// Traduzido por Robson da Silva. Revisado por Russ da Silva | Artigo original.


Sobre o autor

Stephen Davies

Stephen Davies é diretor do setor educacional do Instute of Economic Affairs. Graduou-se na Universidade de St Andrews, na Escócia, em 1976, e ganhou seu doutorado pela mesma instituição em 1984. E autor de vários livros, incluindo Empiricism and History (Palgrave Macmillan, 2003) e foi co-editor com Nigel Ashford do Nigel Ashford of The Dictionary of Conservative and Libertarian Thought (Routledge, 1991).



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