Ciclos Econômicos Semáforo verde

Publicado em 22 de abril de 2014 | por Steven Horwitz

A parábola dos sinais de trânsito

Suponha que em um domingo ensolarado numa grande cidade em algum lugar do mundo ocidental, um homem descobre depois de uma soneca que milhares de acidentes de carro tinham ocorrido na cidade enquanto ele dormia. Primeiro, ele considera a possibilidade de que o clima foi a causa, mas aquela tarde totalmente ensolarada o faz descartar tal opção. A chance de que milhares de carros tenham tido problemas mecânicos simultaneamente parece infinitamente pequena, então a descarta também. Ele se aprofunda na questão e eventualmente se pergunta se os motoristas naquela cidade tiveram algum tipo de psicose grupal ou esquizofrenia em massa. As chances disso ter ocorrido também são baixas.

Com o despertar de sua consciência, ele se depara com um provável culpado: deve haver algo de errado com semáforo. Ele conclui que os sinais não estão funcionando, deixando para os motoristas negociarem quem passaria quando por sua própria conta. Isso não causaria muitos acidentes? Ele olha para a sua esposa e sugere tal explicação. Ela responde: “se você chegasse num semáforo e visse que não estava funcionando, você não reduziria a velocidade e procederia com maior cuidado? Na verdade, depois do Furacão Katrina, os cidadãos de New Orleans não trataram somente o semáforo como um alerta que deviam ir mais devagar e prestar atenção, sem nenhuma ordem para fazê-lo?”. Nosso companheiro admite a importância da colocação de sua esposa e continua a refletir.

Então ele percebe: não é que o semáforo não estava funcionando, mas sim que estavam todas verdes. Se todos os sinais estivessem verdes, os motoristas não teriam razão para pensar que os sinais não estavam funcionando e passariam tranquilamente por todos os cruzamentos – resultando em centenas de acidentes. Surpreende nosso cidadão que não somente os sinais verdes significam prossiga, eles também significam que o tráfego dos outros cruzamentos está parado. É assim que os semáforos executam seu trabalho de coordenar os planos dos motoristas em ambas as vias.

Motoristas descuidados são os culpados

Nosso amigo começa a assistir a cobertura de acidentes na TV, onde comentaristas esbaforidos estão culpando as batidas no comportamento irracional e imprudente dos motoristas. Ele pensa: “isso não é justo. Eles não agiram irracionalmente; eles simplesmente responderam racionalmente a um sinal cujo significado eles entendem há tempos”. Enquanto fica mais indignado pela culpa ser colocada nas costas dos motoristas, ele percebe que a irracionalidade que causou as batidas não estava nos agentes, mas sim no semáforo. Quando os sinais de tráfego não dizem a verdade, nesse caso que o semáforo tinha parado de funcionar, mesmo o motorista mais racional e cuidadoso sofrerá acidentes no cruzamento. Ele está atordoado pelo fato de que os comentaristas não conseguem ver isso. Desesperado, ele volta a dormir, esperando que tudo tenha sido um pesadelo.

Não era somente um pesadelo, era a realidade depois do boom de 2001 que gerou a crise financeira e a grande recessão. O economista austríaco Israel Kirzner há muito utiliza a metáfora do semáforo como uma analogia para os preços. No caso das expansões e depressões, o preço chave foi a taxa de juros. Em um livre mercado, as taxas de juros e o sistema bancário coordenam o cruzamento entre poupadores e tomadores de empréstimo. Se a poupança aumenta, significa que os consumidores estão mais dispostos a esperar para consumir. Suas poupanças levam os bancos a oferecer menores taxas de juros, dando sinal verde (e um incentivo) para indivíduos tomarem empréstimos para projetos de longo prazo que se igualam a maior paciência dos consumidores. Se os consumidores são mais impacientes e poupam menos, bancos aumentam taxas, levando tomadores de empréstimos a focar mais no curto prazo se adequar as suas preferências. O comportamento de cada lado é consistente com o do outro, graças à função ‘sinalizadora’ da taxa de juros.

A manipulação por parte do Banco Central

Quando o banco central intervém, no entanto, todos os sinais ficam verdes. A política monetária expansionista oferece fundos emprestáveis aos bancos, o que lhes permite emprestar dinheiro como se tivesse poupança. Contudo, aquela poupança é uma ilusão; os consumidores não se tornaram mais pacientes. Com taxas menores, os tomadores consideram projetos de mais longo prazo mais lucrativos, direcionando recursos para eles e longe de outros. O problema,é claro, é que os consumidores não desejam, na verdade, esperar mais do que estavam esperando antes. Então o produtor/tomador de empréstimo investem em projetos de prazo mais longo prazo enquanto os consumidores /poupadores continuam a querem projetos relativamente de mais curto prazo. Isso, como os padrões de semáforos quebrados, não é algo sustentável e levará eventualmente ao equivalente econômicos dos acidentes: o começo de uma recessão logo que a descoordenação é revelada.

Obviamente, economias robustas podem mascarar a descoordenação por um período considerável de tempo antes que seja revelada. Uma cidade sofrendo devido a calamidade de sinais verdes tem resultados mais imediatos e visíveis.

Como nossos motoristas, os tomadores de empréstimos não foram irracionais durante a expansão. Eles simplesmente respondem racionalmente a um sinal irracional. A fonte daquele sinal irracional era o Sistema da Reserva Federal. Da próxima vez que um amigo culpar investidores irracionais pelos ciclos econômicos, você pode se recordar da cidade do protagonista dessa história e dizer: “a irracionalidade, meu amigo, não está nos nossos mercados, mas no governo, isto é, no banco central”.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original


Sobre o autor

Steven Horwitz

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor do livro Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.



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