Filosofia sagrado

Publicado em 19 de junho de 2014 | por Matheus Pacini

Ordem Espontânea: despertando o sagrado.

Carl Sagan devotou sua carreira a construir conexões entre ciência e espiritualidade. Ele estava procurando um “Deus que seria merecedor das revelações da ciência”, de acordo com Ann Druyan. O economista F.A. Hayek passou sua vida inteira argumentando e relevando que vivemos em um mundo rico, com sua ordem criada pela ação humana, mas não de intenção humana deliberada. Hayek nos ensinou a reverenciar a ordem espontânea.

Ao mesmo tempo em que cientistas desvendam os princípios que ordenam sistemas complexos como ecossistemas e economias, estão revelando o poder da ordem espontânea. Mas podem, além disso, estar redescobrindo o sagrado?

Como a ciência sepultou o sagrado

O século XX não foi receptivo a uma visão sagrada do universo. Enquanto os grandes cientistas aprofundavam-se na física, eles não acharam Deus – apenas partículas. Alguns buscavam a origem de nossa vida na criação divina; em vez disso, a encontraram no processo de tentativa e erro da evolução. Procuramos sinais de uma alma imortal dentro de nossos cérebros, no entanto, encontramos um elaborado computador úmido.

Em um mundo onde tudo pode ser reduzido à física, explicam, não existe muito espaço para o sagrado. Partículas não possuem moral e muito menos algum propósito transcendental, e, como somos definitivamente apenas uma mistura elaborada de partículas, nós também não.

Essa visão, o reducionismo científico, remonta a um passado distante, aos antigos gregos. Contudo, com o avanço da ciência nos séculos XIX e XX, a efetividade prática extrema do reducionismo somente robusteceu uma visão de mundo sem a existência do sagrado. O matemático Pierre-Simon Laplace escreveu: “as questões mais importantes da vida são, em grande parte, nada mais do que problemas probabilísticos”. Os cientistas modernos lançam-se em busca de leis fundamentais que pudessem governar tudo.

Tudo, acreditam os reducionistas – de dinossauros à Guerra de 1812 – é redutível às suas partes constituintes. A Física cresceu enormemente devido a essa visão. Mesmo com o surgimento da física quântica de Niels Bohr, a qual argumentava que o universo operava por meio de probabilidades em vez de leis rígidas e determinísticas, o reducionismo persistiu praticamente incólume.

Quanto mais sabemos do Cosmos, mas sem sentido ele parece ser”, escreveu o físico ganhar do Nobel Steven Weinberg em seu livro de 1994, “Dreams of a Final Theory”.

Weinberg argumentou que, para entendermos os “grandes” fenômenos, precisamos perscrutar dos maiores grupos até os menores: nós viajamos através de grandes grupos, de sociedades a grupos, até indivíduos, órgãos, células, Química e Física. No final, chegaríamos a um conjunto de leis definitivas que explicariam tudo – o sonho de Weinberg de uma “teoria final”. A causalidade aponta para cima, das partes para o todo. Tudo, portanto, pode ser reduzido.

Emergência

O biólogo e teórico Stuart Kauffman, que está na vanguarda das ciências da complexidade, no Santa Fe Institute, discorda. No seu livro Reinventing the Sacred (Reinventando o Sagrado), Kauffman argumenta que podemos encontrar um novo sentido para o espiritual no comportamento de sistemas complexas, como a biosfera e a economia. Esses sistemas, Kauffman argumenta, não são redutíveis. Sua complexidade vai para além da “teoria final” de Weinberg.

Se isso for verdade, o mundo natural que descobrimos através da ciência moderna – talvez sem um Deus Criador, mas repleto de partículas “sem sentido” – não precisa nos deixar presos num mundo sem significado. A “criatividade incessante” dos sistemas complexos”, escreve Kauffman, “é tão impressionante, tão irresistível, tão digna de louvor, gratidão e respeito, que é divina o suficiente para muitos de nós. Deus, um Deus plenamente natural, é a própria criatividade no universo”.

A complexidade emergente do mundo, brotando a partir de forças semelhantes a leis, é sagrada para Kauffman. A economia não é diferente. É ordem sem projeto.

Mais é Diferente

Em um artigo de 1972 intitulado “Mais é Diferente”, o prêmio Nobel de Física Philip Anderson argumentou contra o reducionismo na Física. Se pensarmos na causalidade como uma seta, ela não aponta para cima das partículas, pensava Anderson. Na medida em que o tamanho e a complexidade de algo aumentam, “propriedades inteiramente novas aparecem”, às quais não podem “ser compreendidas em termos de uma simples extrapolação das propriedades de algumas poucas partículas”. Coisas não são apenas a soma de suas partes. Mais é diferente.

Roberto Laughlin, outro prêmio Nobel, concorda. Ele argumenta que não faz sentido falar da temperatura de uma única partícula de gás, por exemplo – somente de um conjunto delas. Da mesma forma, um simples átomo de ferro não é “rígido” – somente a barra de ferro completa que é. Sim, uma barra de ferro rígida é composta de partículas individuais, contudo, a rigidez pode somente emergir do todo. Embora essas propriedades coletivas sejam emergentes, poucos negariam sua realidade.

Leo Kadanoff mostrou que conceitos importantes na mecânica dos fluídos podem ser derivadas de curioso e matemático “mundo de brinquedo” seguindo leis simples (imagine os elos de uma corrente). Se esses conceitos tão fundamentais à nossa compreensão do universo podem “ser rodados” em múltiplas plataformas – uma sendo o mundo da mecânica quântica e outra o mundo de brinquedo – como podemos dizer que a Física logicamente apresenta “redução” em um deles e não no outro?

Ao invés disso, parecem existir leis organizativas que não são redutíveis, mas que governam o comportamento de sistemas por inteiro. Você pode encontra-las em muitos lugares onde reina a complexidade, incluindo dentro de nossos próprios corpos

Analise o seu coração

Considere o seu coração. Qual é a função dele? Bem, corações bombeiam sangue. Mas também aceleram quando você fica nervoso e produzem sons. Então, a função do coração é somente uma das muitas características do coração.

Darwin e a maioria dos outros cientistas concordaria que o coração evoluiu com o passar do tempo. Entretanto, Kauffman nos pede para imaginar que pudéssemos deduzir o coração humano da Física de Partículas. Poderíamos descobrir todas as suas propriedades: seu tom de vermelho, sua forma, sons que produzem e o bombeamento de sangue. Mas nossa compreensão do coração permaneceria incompleta. Não teríamos como saber qual dessas propriedades é a função do coração. Todas as características do coração são igualmente dedutíveis da física, mas as nuances evolucionárias do coração nos obriga a pensar em um nível mais elevado de descrição. O coração tornou-se o que é pela sua função em um processo superior – a evolução biológica, não somente a física.

Para entender a função do coração, nós devemos analisar o ciclo de vida e o ambiente desse organismo com o coração. Nos termos de Kauffman, nós devemos procurar leis que governam o sistema de ordem superior (biologia), mesmo que o sistema, em ultima instância, dependa da ordem inferior (física).

Mas não é somente nossa compreensão que opera nesse nível superior. A existência dos corações, como sistemas, mudou o curso da evolução e modificou a biosfera. O coração – o todo – causou uma corrente de mudanças ao seu redor, inclusive em suas partes constituintes, tais como as moléculas e as proteínas. Sim, o coração e “os todos emergentes” (como os órgãos em geral) são dependentes de seus componentes. Mas eles também geram novas restrições e feedbacks para suas partes constituintes, por causa de suas formas especiais (holísticas). Em outras palavras, a forma evoluída e a função do coração é que lhe concede força neste mundo. Tanto a forma como a função são emergentes.

Para Kauffman, essa é a uma grande deficiência na visão de mundo reducionista. Repentinamente, a seta de Weinberg, que parecia apontar para cima, das partículas em direção aos órgãos, agora aponta para baixo e para fora também. Se parece, na verdade, mais como um círculo: as partes constituintes geram e restringem o todo, e a forma do todo gera e restringe as partes constituintes. Não é mais somente evolução, mas sim co-evolução. Totalidades emergentes possuem poderes causais próprios: as partes dependem do todo assim como o todo depende de suas partes.

É claro”, escreve Kauffman, “que o coração é formado de partículas e não de algo místico… mas o coração funciona em virtude de sua estrutura evoluída e da organização de seu processo (ênfase no original). Ele é maior do que a soma de suas partes. E participa na criação de algo ainda maior (por exemplo, uma criatura com cérebro grande e complexo o bastante para refletir sobre sua missão no universo).

Para Kauffman, o todo do coração é uma expressão da criatividade biológica do universo. Níveis inferiores de complexidade dão origem a novas totalidades. Uma nova camada de complexidade tal como o coração humano permite que camadas superiores de complexidade possam emergir. Sem corações, não há animais. Sem animais, não há humanos. Sem humanos, não há economia, lei ou cultura. A criação gera ainda mais criação. Cada todo emergente gera novas oportunidades para emergência. E esses novos espaços criam ainda novos espaços para arranjos ainda mais complexos. Nesse princípio de complexidade, Kauffman detecta algo sagrado.

De corações para economias

Quão longe esse princípio vai? Para Kauffman, sistemas legais e mercados são como ecossistemas, e firmas e organizações são como organismos no seu interior. Como o coração ou a biosfera, eles se auto organizam com o passar do tempo e são formados de peças pequenas. As economias também emergem.

Para entender como os humanos criam novas formas de ordem utilizando-se de tecnologia e recursos, Kauffman pede-nos para imaginar um simples caixa de peças de Lego.  Podemos citar todas as funções e maneiras pelas quais podemos arranjar e combinar uma caixa de Legos? Não, pois novas combinações de Legos criam a possibilidade de novas combinações.

Nós poderíamos construir um guindaste Lego para transportar Legos para a área de construção de nossa casa Lego. Nós poderíamos, então, colocar rodas na casa e transformá-la em um trailer. Ou construir um guindaste Lego para transportar pequenos guindastes Lego para a oficina Lego de trailers.

Não existe uma maneira de definir as funções possíveis de uma caixa de Legos, dado que a função depende amplamente do contexto e do que já foi criado. Com cada mudança, novas combinações e possibilidades aparecem, podendo romper com funções anteriores. Novas formas tornam-se peças para mais novas combinações e formas.

A economia funciona da mesma forma. Pense em todos os usos possíveis de uma simples chave de fenda: abrir uma lata de tinta, defender-se de um assalto, usar como um peso de papel, abrir um coco em uma ilha deserta e assim por diante. O número de usos explode exponencialmente no momento que você inclui qualquer novo objeto que poderia ser combinado com uma chave de fenda (como um motor elétrico para perfurar). E, é claro, as propriedades da nova forma dependeriam, de alguma forma, do ambiente no qual é usada. Por exemplo, não seria uma furadeira em 1800, porque os motores elétricos co-evoluiram com o advento das redes elétricas. As redes elétricas criaram a possibilidade da furadeira elétrica.

Nos mercados, os humanos investigam essas redes infinitas de possibilidades, combinando e recombinando recursos e tecnologias de novas maneiras em contextos sempre mutáveis. (Isso é similar ao que o escritor de assuntos científicos Matt Ridley chama de “ideias fazendo sexo”).

Como podemos realisticamente prever todos os usos possíveis [para um objeto] em todos os ambientes possíveis”, pergunta Kauffman, quando “essas novas funcionalidades são inventadas pela mente humana” no processo da criação?

Mercados: uma força sagrada

A economia humana é infinitamente mais complexa do que uma caixa de Legos. A “econosfera”, como Kauffman a denomina, é repleta de novidade e criatividade, tal como a biosfera. Os mercados são expressões coletivas de nosso trabalho criativo, e são maiores do que a soma dos indivíduos que os compõem. Nós não os compreendemos, e não conseguimos prevê-las. Nunca os entenderemos por completo, pois as coisas aparecem repentinamente e mudam o curso de sua evolução. Mas, em sua criatividade, Kauffman acredita que podemos redescobrir o sagrado. Sacralizar, acima de tudo, é venerar as fontes de criatividade que estão além do poder de criação de um único ser humano. Para muitos no passado, essa fonte era um Deus todo poderoso. Para Kauffman, é a criatividade natural do universo.

Dizer que os mercados exibem algo sagrado não se constitui em “fundamentalismo de mercado”. Muitas vezes, os mercados são tão frágeis quanto os ecossistemas, e certamente podem ser tão bagunçados e ineficientes quanto eles. Mas isso que lhes concede sua beleza. Evolução, co-evolução, e emergência nos impulsionam ao novo.

Os mercados são meramente uma expressão da criatividade incessante do universo, com partículas se tornando átomos, átomos se tornando moléculas, moléculas se tornando organismo, organismos se tornando seres primitivos, seres primitivos se tornando humanos racionais, e humanos se tornando sociedades e economias.

Nem sempre é claro. Mas participar nos mercados – construir o novo em conjunto – expande ainda mais a criatividade do universo. Toda nova ideia, todo novo desafio empresarial, toda revolução, toda fusão entre empresas, todo novo filme ou poema, todo ataque com mísseis: cada ato de criação ou destruição molda as possibilidades de nosso futuro em um fluxo interminável. Cada nível de complexidade, da molécula à multinacional, fervilha com evolução criativa. Novas formas brotam e florescem, e irreparavelmente alteram o futuro do universo. Como o coração, cada nível é composto de suas partes inferiores, mas as transcende em restringir e co-criar a evolução futura.

Nós, também, nos tornamos recipientes da criatividade do universo pela participação na ordem social estendida da civilização humana.

Se reinventarmos a concepção de sagrado para significar as maravilhas da criatividade no universo, biosfera, história humana e cultura, não somos inevitavelmente convidados a honrar toda a forma de vida e o planeta que a sustenta?” pergunta Kauffman. Compelidos, certamente não, “é” ainda não implica “deve”. Mas estamos convidados.

A criatividade totalmente liberadora no universo que compartilhamos e parcialmente co-criamos pode ser convidativa”, ele escreve, “pois essa criatividade é uma ampla liberdade que não apreciamos, desde Newton, que compartilhamos com o cosmos, a biosfera e a vida humana”.

Sagrado o bastante

 Se reconhecermos a criatividade do universo, temos um sistema ético sólido? Não. Encontramos uma verdade moral absoluta e inviolável na ordem espontânea? Não. Contudo, podemos redescobrir um sentido de admiração no universo e uma conexão profunda com todas as coisas. Podemos encontrar nossa função como expressão da criatividade do universo e como co-criadores de nosso futuro compartilhado. Todos os humanos são igualmente recipientes, e então todos nós somos responsáveis pelo mundo que criamos.

Hayek mostrou como, juntos, criamos nosso mundo social. Todos os efeitos da combinação de nossas ações não podem ser compreendidos em sua totalidade. Mas nossa criação cresce a partir da criatividade fundamental na biosfera, e o universo como um todo. Somos então cercados por uma complexidade ordenada além da compreensão. Isso pode ser sagrado o bastante.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Valdenor Júnior. | Artigo Original


Sobre o autor



Voltar ao Topo ↑