Liberdade Cívil França protesto pela família

Publicado em 3 de maio de 2014 | por Shikha Dalmia

Quando os conservadores são contra a liberdade econômica

O estado de bem-estar social conservador

 

A excêntrica conservadora Ann Coulter fez sua carreira por meio de maus modos, então, não foi nenhuma surpresa quando ela ofendeu seus anfitriões libertários na conferência anual do Students for Liberty, em fevereiro, chamando-os de “maricas”. Isso foi quase um elogio, perto de “caipiras com tesão” e “bêbados”, dois outros termos que Coulter já usou para descrever seus adversários.

Um estudante despertou a ira de Coulter ao questionar sua postura quanto à guerra contra as drogas: “Por que é da sua conta o que eu escolho colocar no meu corpo?”.

“É da minha conta quando estamos vivendo em um estado de bem-estar social”, Coulter respondeu. “Agora, eu tenho que pagar… pelo seu plano de saúde. Eu tenho que pagar o seu seguro-desemprego… eu tenho que pagar por sua comida, por sua habitação… Livre-se do estado de bem-estar social, daí falaremos sobre a legalização das drogas”.

Não há que se escolher entre a guerra às drogas e o estado de bem-estar social. Mas se há que se escolher, a guerra contra às drogas é pior. O estado de bem-estar social confisca riqueza de um indivíduo para dar a outro. Isso é injusto. Mas colocar pessoas atrás das grades por fumar um baseado, que é menos prejudicial do que o álcool e o tabaco que Coulter injeta em seu corpo, é um absurdo.

Antes de Richard Nixon dar início à guerra contra as drogas em 1971, traficantes não violentos constituíam menos de 10 por cento dos norte-americanos em prisões estaduais e federais. Agora são mais de 25 por cento da – muito maior – população carcerária.

O que é realmente interessante sobre a queixa de Coulter é que, se não tivesse sido pelos libertários, seu sentimento anti-estado de bem-estar social poderia ter sido banido. Nas seis décadas entre o New Deal e a reforma da previdência de 1996, os republicanos estavam satisfeitos, na sua maioria, de agir como cobradores de impostos para o sistema de bem-estar social.

Como o articualista do Wall Street Journal Jason Riley notou, muitos dos esquemas redistribucionistas do New Deal, como a Previdência Social e a Ajuda às Famílias com Crianças Dependentes, tiveram suas raízes em iniciativas republicanas, incluindo as de seu antecessor, Herbert Hoover. Os presidentes republicanos Nixon e Gerald Ford expandiram os programas da Great Society de Lyndon Johnson. Mesmo Ronald Reagan, um herói conservador, recusou-se a mexer na Previdência Social ou no Medicare (Saúde Pública). E George W. Bush aumentou tudo, desde o vale-refeição à cobertura de medicamentos com receita médica.

Isso não aconteceu em um vazio intelectual. Intelectuais conservadores ao longo das décadas criticaram o estado de bem-estar social, mas principalmente por razões prudenciais. Irving Kristol, o pai fundador do neoconservadorismo, asseverou, em 1976, que o Partido Republicano tinha que “reconciliar-se totalmente” com o estado de bem-estar social se quisesse ter um futuro político. Mesmo o fundador da National Review, William F. Buckley, que chegou mais perto de ser um defensor da liberdade, recomendou principalmente reformas insignificantes como exigir dos beneficiários que fizessem “limpeza de ruas ou trabalho de embelezamento em geral”.

Em meio a tudo isso, os libertários estavam defendendo um argumento de forma solitária e fundada nos seus princípios contra o estado de bem-estar social, observando que um governo que habitualmente toma de um para dar ao outro fere ambos. Foi esta visão central que o libertário Charles Murray utilizou para demonstrar as consequências fatais aos beneficiários do estado de bem-estar social, abrindo o caminho para algo parecido com a sua recalibração genuína em 1996.

O estado de bem-estar social serve muito bem aos conservadores. A sua existência dá-lhes uma desculpa para regular as escolhas individuais. E é o seu trunfo para impedir as reformas orientadas para a liberdade que eles não apreciam.

Recusar-se a acabar com a guerra contra às drogas é um exemplo. Mas os conservadores também têm usado o estado de bem-estar social para reunir o sentimento público contra as reformas de imigração, retratando pobres trabalhadores latinos como os aproveitadores dentro do estado de bem-estar social. E, em nome do fim do abuso orçamentário, os republicanos têm apoiado entusiasticamente testes de drogas invasivos nos beneficiários do estado de bem-estar social e os proibiu de usar a ajuda em dinheiro para comprar bens moralmente duvidosos, tais como álcool e bilhetes de loteria.

O estado de bem-estar social esquerdista e o estado anti-pecado conservador são dois ramos da mesma pinça estatista, tolhendo a liberdade individual. Os libertários devem protestar ferozmente contra eles, porque Ann Coulter não tem a coragem para fazê-lo.

Tradução de Ronaldo Bassit. Revisão de Matheus Pacini || Artigo Original


Sobre o autor

Shikha Dalmia

Shikha Dalmia é analista política sênior na Reason Foundantion. Também é colunista no Bloomberg View e no Washington Examiner. Em 2009 foi co-vencedora do prêmio Bastiat de Jornalismo.



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